Monday, May 4, 2015

Um lugar chamado Perus


Um lugar chamado Perus

As lembranças voltam, às vezes, aos borbotões. Outras, vêm de uma em uma, lentamente.
Lembro-me de olhar para os dois lados, com muito cuidado, antes de atravessar a linha do trem. Estava voltando do Suzana de Campos. A porteira estava fechada, podia ser um risco. Quantas histórias de gente que perdeu um pé ou um braço. Antes de chegar ali, tinha sentido o cheiro gostoso que vinha da padaria perto da estação, na Avenida Sílvio de Campos. Do outro lado, bem perto da porteira, o bar do Jânio, onde eu comprava doces quando podia. Vejo-me  de repente, transportado ao Morro do Cartório, com um saco de compras. Eram da Dona Amélia. Ela me pagava para ir duas vezes por dia lá embaixo até a venda ou a quitanda. Meu primeiro emprego fixo, sem registro, é claro. Tinha apenas 8 anos. Noutro momento, estou lá em cima do abacateiro, colhendo alguns com uma vara, para depois vendê-los na quitanda da Mieko, lá na praça. Dali a pouco estou passando bem em frente à loja do “seu” Elias, com todos aqueles vidros e espelhos. Depois paro em frente ao cinema - meu ponto favorito - para, logo a seguir, beber água na bica. Pensando, ainda, nos cartazes dos filmes do póximo final de semana. Havia depois, na mesma rua, o velho Grupo Escolar e, no final, virando à direita, a venda do “seu”Machado, onde meu irmão Bonifácio trabalhou por muito tempo. Mas agora, estou misturando épocas. E o que importa? Está tudo lá, num grande redemoinho de memórias. E a estrada da Ponte Seca, onde bem mais tarde iria com meu fusquinha azul namorar em Caieiras? Como posso esquecer? E, em outra época, bem antes, eu estava a andar, de madrugada, pelos trilhos da Santos a Jundiaí, voltando dos bailinhos da Melhoramentos.

E as imagens se atropelam, vivas ou esvaídas, na minha cabeça. Umas se vão para sempre, outras voltam fesquinhas. Sei, no entanto, que um dia, todas vão partir. Talvez se transformem em poesia. Poesia pura, pairando no ar. No ar de um lugar chamado Perus.

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

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