Monday, September 14, 2015

Aperto, o do trem, e outros mais

Aperto, o do trem, e outros mais



Um braço cruzado segurando o fichário e um livro sobre o peito, para o curso noturno. Apertado como nunca. Nem os dedos dava para mexer. O outro braço, o esquerdo, abaixado, segurando uma sacola com o lanche para o almoço. Também não podia se mexer. Os pés igualmente, tinham de ficar quietinhos, movimento nenhum. A cabeça sim, essa podia virar um pouco, mas não muito.
Todo mundo empacotado, petrificado, paralisado, era o trem das seis e cinco, da manhã, é claro, saindo de Perus. Em Jaraguá piorou mais um pouquinho e em Pirituba mais um pouco ainda. O zíper do fichário quase machucava minha pele. A Lapa estava chegando, graças a Deus, muita gente ia sair lá. Ainda ia continuar  uma sardinha em lata, mas pelo menos os dedos eu iria poder movimentar. O subúrbio da Santos a Jundiaí foi diminuindo de velocidade, já dava para ver o nome da estação. Nem precisava me preocupar em dar passagem para quem ia sair. Levavam a gente para fora e depois a turma de fora levava a gente de volta para dentro. Se quisesse trocar a posição dos braços, essa era a hora.
Aquele dia porém, algo tinha acontecido. Havia muita gente naquela estação da Lapa também. Trem quebrado? Não sei, mas mal tinha conseguido ser empurrado para fora, já estava vindo de volta. O impossível aconteceu. Ficou mais apertado do que antes. Os dois braços estavam na mesma posição em que haviam entrado em Perus.
Quando chegou a Água Branca, finalmente  meu corpo e minhas coisas foram empurradas para fora. Respirei fundo, aquela sensação gostosa de ar, apesar da mistura de cheiro de freio do trem e de poluição das fábricas próximas. Podia, finalmente, esticar os membros inferiores e os superiores.
Agora era só correr até a Francisco Matarazzo e finalmente pegar o ônibus. Não conseguiria me sentar, mas pelo menos, poderia me estirar.
Era uma segunda-feira qualquer de agosto de 1966, faltavam 34 anos para o novo milênio, mas ninguém pensava nisso, tanta coisa havia para se fazer. Havia a ditadura e seus porões. Ela partiria mais tarde, mas muitos porões ficariam e outros se criariam. E o milênio chegou e mais 13 anos se passaram. O que mudou? Muito e nada. A condução, pelo menos, deve ter mudado, assim espero.

O aperto, entretanto,  pelo menos aquele dentro do peito, acho que continua forte e persistente na nossa querida pátria: a nossa pátria, amada, idolatrada, cheia de encantos mil, meu adorado Brasil.


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Essa vida da gente

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