Friday, March 18, 2016

Como começou toda a confusão




Como começou toda a confusão


Nos últimos tempos estava ocorrendo uma confusão enorme na ilha. Não que antes não houvesse, mas nunca as pessoas estiveram tão preocupadas. De certa forma, era algo que se podia esperar nesses tempos modernos em que todos conversam com todos e todos têm opiniões.
As pessoas mais conscientes, cientes de que ali nada se resolveria, convocaram um grupo de sábios do exterior. E eles vieram. Estavam agora todos reunidos numa enorme sala oval, tentando descobrir as causas de tudo. A primeira coisa que eles notaram era que o que as pessoas estavam discutindo eram os sintomas e não o verdadeiro problema. Esse era algo mais profundo, mais complexo, mais uterino.
E os estudos continuaram. Foram retrocedendo de governo em governo e já estavam agora na época da Ditadura. Cada época teve suas adversidades e, cada vez, a explicação estava no governo anterior. Verdade era que alguns tinham mais culpa que outros, mas sempre havia uma razão prévia. E assim foram indo cada vez mais para trás: república, reinado, época colonial. Sempre as pessoas de uma época eram responsáveis diretas pelas barbaridades da época seguinte. Deve-se dizer que o período da escravidão – para descobrir suas causas – essa foi difícil. Separaram uma comissão só para tentar entender como uma sociedade podia ter feito uma coisa tão horrível. Os outros sábios restantes continuaram em sua marcha a ré na história. Não deu outra, chegaram até um fulano chamado Petrolius Cabralius. Foi ele que trouxe os primeiros habitantes para a ilha. Depois de examinar a lista dos primeiros passageiros desembarcados na maravilhosa praia, ficou tudo claro. Era um bando de aventureiros, muitos deles com ficha na polícia e tudo mais. Claro, a ficha deveria ser um pergaminho e a polícia, os funcionários do rei. Como um grupo daquele poderia formar uma ilha decente? Gente sozinha, sem família, sem responsabilidade. Gente mais selvagem do que os selvagens que havia na ilha.
Os sábios chamaram os responsáveis pelo pedido de estudo e explicaram tudo, tim-tim por tim-tim. E perguntaram: “Vocês querem que continuemos e vejamos as origens das origens? Por que trouxeram esse tipo de colonizadores para cá? Ir de volta, na história e ver por que a Portugália era assim também? Mas advertiram, isso pode ir longe, muito longe.
O líder do grupo de boa-fé, que estava tentando entender tudo aquilo, imediatamente percebeu o que aconteceria. Iriam voltar, voltar e chegariam até Adams e Évora, os primeiros habitantes do mundo. E daí não daria para retroceder mais: iriam dar direto no Criador.

E esse tinha uma desculpa insuperável. Ele tinha dado o livre arbítrio para aqueles dois: O Adams e a Évora. Que fazer?


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Estranhas Histórias
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