Wednesday, June 10, 2020

Ana Lúcia, a menina que conversava com as nuvens


Ana Lúcia, a menina que conversava com as nuvens

Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda,
os filhos de Israel partiam; e no lugar em que a nuvem parava,
ali os filhos de Israel se acampavam.
(Números 9: 17)

Ana Lúcia acordou um pouco mais tarde. Estava de férias na escolinha e não precisava pular da cama tão cedo. Sentou-se na beirada da cama e com os pezinhos procurou os chinelos com caras de cachorrinho. Esfregou os olhos e abriu a porta do quarto. Foi andando lentamente pelo corredor quando ouviu vozes. Eram quase gritos. Nervosos, raivosos. Meu Deus, será que havia intrusos na casa? Foi então que Ana percebeu que as vozes eram conhecidas. Eram seus pais brigando. Já acontecera antes, mas nunca tão forte assim. Com os dedinhos indicadores tapou os ouvidos, voltou para o quarto e fechou a porta. Pôs um banquinho na janela, subiu com dificudade e pulou para fora. Andou, abriu o portão do quintal e continuou por entre as árvores. Depois havia um descampado. Deitou-se  e olhou para cima. Começou a brincar na mente com as nuvens brancas do céu. Cachorrinhos, um maior, outro menor. Ah, do lado esquerdo havia uma bola. Um menino acabara de aparecer. Veio vindo, veio vindo, queria chutar a bola... Esta, no entanto, se desfez antes de ele chegar. Dali a pouco, o próprio menino virou um balão e começou a subir. Onde estavam os cachorrinhos? Ah, haviam se transformado em aviõezinhos e voavam, voavam...
Precisava voltar para casa, a briga deveria ter terminado. Foi pela frente. Quando chegou mais perto, que tristeza, os gritos estavam piores ainda. Mal podia reconhecer as vozes dos pais. Havia outros ruidos também, coisas quebradas. Virou-se rapidamente, tapou os ouvidos e voltou para a relva. Deitou-se. Agora havia só duas nuvens, disformes, uma longe da outra, em dois cantos do céu. Fechou os olhinhos, fez uma força enorme com sua cabecinha até que, devagarinho, muito devagarinho, elas começaram a andar. Enquanto andavam, iam tomando a forma de duas cabeças: uma de homem, outra de uma mulher. Faltava um pouco para elas se tocarem, quando subitamente pararam. Ana Lúcia, então, fechou as mãozinhas, apertou os bracinhos contra seu corpo e fez uma uma força enorme com sua cabecinha. Após alguns segundos, os rostos - as nuvens - se tocaram como num beijo. Ana Lúcia então, abriu as mãozinhas, relaxou e suspirou:
-Pronto!
Levantou-se e foi para casa. Agora já não havia mais gritos ou choros. Só suspiros e soluços. Bateu na porta.  A mãe abriu e assustou-se:
-Filhinha, o que você está fazendo aqui fora? O que aconteceu?
Ergueu-a, abraçou-a, beijou-a. O pai também se aproximou e  de repente todos estavam comovidos se abraçando e se beijando. A mãe não conseguia entender o que a filhinha estava fazendo lá fora, mas estava feliz agora porque a briga com o marido havia terminado. Haviam se entendido, tudo estava em paz.
Ana Lúcia pensou em contar tudo para eles. Depois desistiu.
Afinal, eles não entenderiam. Eles não sabiam como conversar com as nuvens.

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Sunday, June 7, 2020

Mãe, mulher





Mãe, mulher

A mãe estendia a toalha
A mãe botava os pratos na mesa
A mãe distribuía os talheres
A mãe olhava a gente comer
A mãe perguntava se estava bom
A mãe via a gente sair
A mãe mandava tomar cuidado
A mãe via a gente voltar
A mãe perguntava da gente
A mãe cismava com nosso cismar
A mãe não queria a gente doente
A mãe não queria nosso sofrer
A mãe era pura poesia
A mãe era santa, era anjo
A mãe era uma mulher....

Friday, June 5, 2020

Meus alunos da oitava série





Meus alunos da oitava série

Faz tanto tempo, acho que nem é oitava mais. Mesmo essa oitava um dia tinha sido a quarta série do Ginasial. Alguém deve estar se perguntando, por que os alunos da oitava e não da sétima, da sexta...? Bem, na verdade, os alunos são os mesmos e eles passaram por todas antes de chegar à oitava e é deles que quero falar.
Mas vamos ao que interessa. A oitava era uma série muito especial para um professor de Português. Era nela que aprendíamos (professor sempre aprende junto...) Linguagem Figurada. Uma delícia. Nem sei se ainda isso é assunto nas aulas de Português. Tomara que seja! Navegar pelas sutilezas da língua, suas várias camadas de significado, sentir todo seu potencial.
E como aqueles queridos alunos eram bons! Quase todos tinham uma habilidade enorme em identificar metáforas, hipérboles, metonímias, ironias... Eu me lembro até agora de suas carinhas de prazer ao dizer o nome certo da figura: “É metáfora, professor!”
Embora tudo isso seja bonito, ainda não é aí que quero chegar. Para identificar o sentido conotativo de uma palavra ou de uma frase, você precisa saber antes o significado inicial. Ou seja, você precisa saber interpretar um texto. E não é o que mais falta hoje?
Por isso tenho um orgulho enorme de todos os meus alunos dessa época. E, embora, talvez eles não se lembrem mais daqueles nomes esquisitos das figuras, com certeza sabem entender o que leem, tanto no sentido denotativo como no conotativo. E eu tenho certeza de que, pelo pouco que vejo deles por aí, que eles fazem uma diferença enorme nessa época absurda que estamos vivendo.
Só estou escrevendo essa crônica para que, se um deles estiver lendo, saiba que a sua presença é notada por mim e, certamente, por muitos outros. E, saibam que vocês, como todas as outras pessoas de boa vontade no mundo, é que estão “segurando a barra” (aí está uma figura de linguagem...) nesse caos do novo milênio. Parabéns, eu admiro vocês e de todos tenho muito orgulho!