Thursday, November 29, 2012

Consertando o destino


Consertando o destino

Marcos e Renato eram primos mas pareciam irmãos. Sempre que possível, faziam as coisas juntos. Agora os dois estavam indo um para cado lado em suas vidas e as chances de estarem juntos eram cada vez mais raras. Foi por isso que, quando coincidiu de os dois terem 20 dias livres na mesma época, a primeira coisa que lhes veio à mente foi fazer uma viagem juntos.
Prepararam tudo às pressas, colocaram o material  no carro do Marcos  e partiram. Tinham um esboço de viagem, não um plano propriamente dito. Embora fossem bem diferentes em suas personalidades, eles se davam tão bem que não havia muita necessidade de planejamento.
Depois de rodarem cerca de 110  quilômetros, eles teriam de fazer uma parada obrigatória. Ficariam lá no mínimo uma hora e meia. A tia Suzana, irmã da mãe de Marcos, não deixaria por menos. Embora ele gostasse muito da tia, chegou a pensar em passar reto para adiantar a viagem. Mas a mãe não deixou. Já tinha telefonado para a irmã Suzana e acertado tudo. Conformado com o atraso que ia ter, Marcos planejou assim mesmo dirigir mais quatro horas necessárias para se chegar no mesmo dia ao grande rio em cujas margens acampariam. No carro, escutavam as músicas que Renato escolhera, por enquanto. O gosto musical não era o mesmo, mas Marcos fizera uma concessão, como sempre. Depois de passar pela casa da tia Suzana, entrariam as suas seleções.
Fazia tempo que não passavam por aquela estrada. As coisas tinham mudado bastante, não reconheciam mais nada. Depois de uma hora de viagem, Renato anunciou que estava com fome, não tinha tomado café. Um posto de gasolina, novinho em folha, estava anunciado no outdoor. Pararam, Marcos resolveu cochilar uns quinze minutos enquanto Renato iria tomar o seu café. Sonhou. Sonhou que estava ali mesmo, com o Renato de volta, já saindo de novo para a estrada. Dia bonito de sol, uma propaganda de carro à direita. Na esquerda, uma grande propriedade vazia, depois uma grande construção. À direita, mais à frente, um homem de idade andando cabisbaixo. Tem um chapéu e olha para baixo. Na mão esquerda carrega um saco plástico marrom claro cheio de coisas. O carro acelera cada vez mais, mas não é ele que está acelerando. Tudo passa muito rápido, como num filme em velocidade. De repente o carro desacelera e um caminhão grande de combustível começa a ultrapassá-lo pela esquerda. Marcos olha para as placas, para uns dizeres – daqueles que os motoristas gostam de colocar na traseira do caminhão – e vê o desenho de uma sedutora bailarina seminua sorrindo. Daí o caminhão roda mais rápido e some na estrada. O carro de Marcos acelera e passa por uma grande churrascaria. Ganha mais velocidade ainda e então ele consegue ver de novo o caminhão, que fica cada vez mais perto. Agora Marcos está ainda mais próximo e o carro acelera ainda mais, agora para ultrapassar. Renato fala algo, Marcos olha e vê que ele mostra pavor em seu rosto. Marcos não está controlando o veículo. O caminhão, de repente, começa a sair da estrada, para o lado direito, descontrolado, parece que vai tombar. Num esforço desesperado para controlar o grande veículo, o motorista joga-o de volta para a estrada e avança para cima do carro deles. Marcos não vê mais a estrada. No seu parabrisa tudo que vê é o a cor prateada do aço inox do tanque do caminhão. Um barulho enorme, metal se retorcendo e nesses segundos, ou frações, Marcos sabe que a morte chegou. Ele não quer morrer, não é sua hora. Sempre acreditou na força do pensamento. Quer voltar no tempo, evitar o acidente. Ele realmente acredita que pode voltar o relógio.
Ele acorda com umas batidas na vidro. Renato tinha voltado, estava pronto.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
-Ainda bem que estamos tirando estas férias. Você precisa relaxar...
Partiram. Marcos estava começando a se acalmar quando viu à sua direita a propaganda de carro, a mesma do sonho, e depois, à esquerda, um terreno vazio e uma grande construção. Que coincidência...mais ainda:  agora, à direita, o velho andando, cabisbaixo, com um saco plástico na mão...Marcos apavorou-se mas mesmo assim não quis dizer nada para o Renato, ele não acreditaria. Estava confuso, pensou, estava misturando o sonho com a realidade. Agora Renato estava falando algo. Tentou prestar atenção. Respondeu qualquer coisa. O carro estava normal, ele tinha controle. Fora tudo um pesadelo e agora ele estava trocando o que estava vendo pelo que sonhara ou vice-versa. Responde que sim para o Renato sem saber o que ele tinha perguntado. Ele tinha controle do carro, podia acelerar e diminuir a velocidade. O carro obedecia, estava tudo normal. Normal.
Marcos estava mais calmo agora. Foi para a pista da direita, resolveu ir bem devagar.
-Desse jeito nós vamos conseguir chegar amanhã bem cedinho...
Marcos demorou uma fração de segundo para captar a ironia do Renato. Deu uma risadinha e quando virou o rosto de volta, percebeu que um grande caminhão o ultrapassava, o caminhão de combustível. Dessa vez ele já tinha certeza do que iria ver. E viu. Os três últimos números da placa – 637 – a bailarina seminua sorrindo. O caminhão sumiu na estrada. Pensou em parar. Mas aquilo seria ridículo, não poderia estar acontecendo. Tentou se lembrar so sonho, dos fatos. Será que ele tinha sonhado mesmo? Será que sonhou outra coisa e agora estava pensando que o real era o sonho? Pensou em falar com o Renato mas ele estava cochilando. Ficou perdido em outros pensamentos, pensou na velha tia Arminda, irmã mais velha de sua mãe. Quando era viva tinha mania de falar no sobrenatural. Ela acreditava em um monte de coisas. Tinha o olhar distante. Boa mulher.


O cérebro de Marcos estava arrumando um jeito de distraí-lo da realidade, pois essa realidade era pertubadora. Durou pouco. Marcos percebeu que estava se aproximando novamente do grande caminhão.
Desta vez foi tudo mais rápido. Lembrou-se de que seu pensamento era poderoso, que ele poderia voltar no tempo. E desejou,com força. Voltar para um tempo onde isto não tinha acontecido. Voltar no tempo.
Marcos acordou assustado com as batidas de Renato em sua janela.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
Saíram novamente. Desta vez, Marcos tinha certeza de tudo: outdoor, terreno vazio, construção e o homem andando na beira da estrada.Tinha certeza de que iria acontecer tudo de novo, absolutamente igual. Estava com tanta certeza que conseguiu falar com o Renato sem se apavorar:
- Renato, parece que já vi esse homem da estrada, antes...
-Sabe de uma coisa. Eu senti a mesma coisa. Talvez a gente tenha visto uma cena semelhante em alguma viagem anterior. Como é mesmo que se fala, dejavu?
-Bom, daí tem de ser muito tempo. Pois a última viagem juntos foi há anos.
Marcos já sabia: o caminhão, o acidente, aquele desejo forte de voltar no tempo.
Marcos acordou assustado com as batidas de Renato em sua janela.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
Desta vez Marcos tinha certeza de que tudo tinha acontecido muitas e muitas vezes. Inúmeras vezes. Pensou. Estava preso no tempo. Por sua própria vontade. Por necessidade, não queria morrer.Tudo era absurdamente real.
Pensou, pensou enquanto se preparava para enfrentar o acidente pela...Quantas vezes? Perdera a conta. Precisava voltar mais no tempo. Uma semana, no mínimo. Sim, precisava voltar para a época anterior à  decisão sobre a viagem, precisava de mais tempo. Ficou se lembrando do jantar com Renato quando combinou a viagem. Lembrou-se do vinho que estava tomando. Renato estava tomando cerveja. O caminhão estava ficando mais perto, Marcos ficou se lembrando do jantar.
-Renato, então você vai de cerveja? Está vendo como sou mais fino do que você? Eu só tomo vinho.

-Sem essa, eu me lembro muito bem da última viagem que fizemos. Você deve ter desequilibrado o estoque de cerveja da região. Eu sei, agora você está namorando a Dra. Sales, mulher fina. Sabe como é o amor...A gente muda os hábitos. Eu entendo, Marcos, eu entendo. Eu um dia também vou encontrar uma mulher com essa finesse...Daí nós vamos ter de escolher só vinhos finos. Eu vou te ajudar, eu sou bom de vinhos, embora não pareça.
-Eu sei, você aprendeu com seu pai. Por falar nisso, como está ele, o “seu” Tomás?
-Está viajando. Ainda bem, depois de muito tempo que minha mãe faleceu, como você sabe, nós o convencemos a viajar em uma excursão. Ele nunca mais tinha saído para uma viagem longa e ele precisava...Por falar nisso, bem que nós poderíamos sair e acampar, nós temos quase vinte dias pela frente. Faz um tempão que a gente não sai!
Por algum motivo, pela cabeça de Marcos, passou a cena de um acidente, um caminhão de combustível, um grande incêndio. Viu seu corpo jogado na estrada e o Renato preso nas ferragens do carro, agonizando. As cenas, em seu cérebro, eram brutalmente reais.Viu detalhes, eram eles mesmos, os dois, mortos.
-Renato, dessa vez você vai me perdoar. Eu prometi para a Sales que faria uma pequena viagem com ela. É nossa primeira chance. Você é meu amigo, eu sei que você entende.
Marcos nunca havia mentido para seu amigo. Mas ele estava aliviado com o que fizera. De uma maneira misteriosa,  ele tinha certeza absoluta de que acabara de mudar o próprio destino e o do Renato.
-Caramba, Marcos, nós podemos fazer isso noutra data, no futuro. Claro, vai passear com a Sales,  o que  eu mais quero é que vocês se divirtam e sejam felizes.
Fizeram um brinde. O copo de vinho e o de cerveja tilintaram . Era um brinde à vida.

























Wednesday, November 28, 2012

A Dona Rosa, o “seu” Benedito e a garrafa de cerveja


A Dona Rosa, o “seu” Benedito e a garrafa de cerveja

A Dona Rosa e o “seu” Benedito eram pessoas “de cor”. Na época eu não entendia direito o que era isso. Achava que talvez fosse um elogio, qualquer coisa assim. Era muito pequeno, ainda não sabia das maldades humanas, dos eufemismos. O que eu sabia era que a casa da Dona Rosa era especial. Sempre que tinha uma chance eu corria para lá. Acho que  eram os doces que ela fazia: cocada, doce de abóbora e muitos outros. A casa era muito pequena: dois cômodos. Um era a cozinha, outro era o quarto. A funções da sala eram exercidas ora no quarto, ora na cozinha. O chão era de terra. Mas era uma coisa incrível. Era um chão batido, muito batido, lisinho, lisinho...E a Dona Rosa encerava o chão de terra  com um capricho tal que, se você não prestasse muita atenção, iria achar que era cerâmica ou um daqueles pisos feitos de cimento colorido. Era demais. Essa é  a primeira coisa de que me lembro. A outra foi uma coisa que o “seu” Benedito fez. De domingo ele estava sempre por ali. Ficava fora de casa, sentado, para dar espaço para a Dona Rosa preparar o almoço. Se por um lado ela era magrinha e usava óculos, o “seu” Benedito tinha uma barriga um pouco acima da média. Talvez fosse a cerveja. Ele era uma simpatia e tinha um bigode que chamava  a atenção. Vez ou outra ele me pedia para ir até o bar comprar uma Antárctica para ele. Dava o dinheiro certinho, coitado, porque tenho certeza de que não tinha muito. Acho que esse era o único capricho que ele tinha. Naquele dia fui correndo até o bar. O dono remexeu nos blocos de gelo – acho que naquela época não havia geladeira, não – e trouxe a danadinha tinindo de gelada, para a tona. 

Paguei e voltei correndo. No caminho levei um escorregão, caí, e quebrei a cerveja. Fiquei com o gargalo na mão, assustado. Não por causa do tombo mas porque o “seu” Benedito iria ficar privado da “preciosidade” do domingo. Fiquei pensando na tristeza que ia ser para ele, que gostava tanto da geladinha. Fui voltando, preocupado, pensando como iria explicar a tragédia para ele. Ele era sempre bem humorado mas você sabe, a cerveja é uma coisa sagrada. Demorei quanto pude e finalmente cheguei lá segurando só aquele gargalo fatídico. Talvez eu achasse que precisava de uma prova da tragédia. Tentei falar alguma coisa quando vi o olhar cerrado do “seu” Benedito. Estava pronto para a bronca. Fiquei aliviado quando percebi que a única coisa que o preocupava era se eu tinha me machucado. Examinou meu braço, minhas mãos. Gaguejei alguma coisa mas ele disse que o importante era que, graças a Deus, eu estava bem. Apesar do que aconteceu eu me senti muito bem naquele dia. O “seu” Benedito era um bom homem. Um “gentleman”. Eu sabia que ele não tinha dinheiro para outra bebida naquele dia e talvez nem na semana seguinte. Ele passou a mão pela minha cabeça e me perguntou de novo se eu não estava machucado.
Nunca mais me esqueci da beleza daquele casal e da cerveja do Benedito. Para mim eles tinham uma cor muito bonita. Acho que era  por isso que diziam que eles eram “de cor".

Tuesday, November 27, 2012

Universos Paralelos


Universos Paralelos
Carlos Figueiredo era um excelente vendedor. Andava viajando de lá para cá para promover os produtos de sua companhia. E como fazia isso bem: era um dom que ele tinha. Como sempre estava em hotéis e tinha bastante tempo livre, principalmente à noite, estava sempre lendo. Ultimamente tinha adquirido esse interesse por essa história de física quântica. Lia de tudo: viagem no tempo, relatividade, subpartículas, universos paralelos. Ele adorava. Tanto fazia se eram textos didáticos ou se era só ficção. Era como se  fosse um hobby.
Aquele dia seu vôo tinha se atrasado e ele estava chegando tarde no hotel. Fez o registro, falou boa noite para o rapaz da recepção e foi se deitar. Lás estava ele mais uma vez no Obeid Plaza Hotel em Bauru. Estava fazendo as contas, era a décima-primeira vez que ficava no mesmo hotel. Tomou um banho rápido, foi para a cama. Tinha uma agenda agitada no dia seguinte. Mesmo assim, antes  de dormir repassou, como sempre fazia, o que teria de fazer. Antes de fazer as visitas comerciais iria passar no “Bambinos Lanches”, não muito longe do hotel, depois no Bradesco para resolver um problema. Faria três visitas comerciais e daí, antes de continuar, iria passar no “Made in Brasil” e comer um belo churrasco, bem que ele merecia. Daí faria mais duas visitas de negócios à tarde. Afinal de contas não era um dia tão agitado assim, como pensara. Daí ele pegou no sono.
Acordou com a claridade que vinha da janela. Havia se esquecido de escurecer o quarto e, aparentemente, havia também se esquecido de botar o celular para despertá-lo. Ficou imóvel na cama até criar coragem para pular da cama. Queria acabar de acordar. Finalmente abriu os olhos e sentou-se.. Imediatamente notou que havia algo de estranho. A janela era muito maior. Ele conhecia bem aquele hotel. Não era só isso. A  porta do banheiro deveria ser do outro lado da cama. Os móveis eram diferentes, os lustres também. O piso, a colcha,tudo...Daí olhou para o bloco de notas sobre  a mesinha ao lado da cama. Pegou-o nas mãos e dizia “Hotel Imperial” em letras azuis embaixo de um logotipo que parecia um brasão. Carlos praticamente entrou em estado de choque. Estava tendo algum problema na cabeça, talvez algum problema na memória. Ainda assim, vestiu-se rapidamente, pegou o elevador e foi até o saguão.  A visão deixou-o mais transtornado ainda. Não conhecia ninguém, tudo era diferente, certamente estava em outro hotel. O problema que ele conhecia bem a cidade e não se lembrava de nenhum Hotel Imperial. Teria sido sequestrado e abandonado em outro hotel? Não fazia sentido, nada fazia sentido. Saiu sem falar com ninguém, tentando achar seu carro no estacionamento. Ele desconfiava que ele não estaria lá. Ele estava certo. Conferiu se a carteira estava no bolso e chamou um táxi. Entrou  e pediu para ir até o “Bambino Lanches”. O motorista disse que não conhecia o lugar. Na verdade nunca ouvira falar. Carlos disse para ir em frente que ele mostraria o lugar. Aconteceu mais uma vez o que ele suspeitava: o lugar não existia. No local, nada mais, nada menos que um MacDonalds. Olhou ao longo da avenida e tudo era diferente. Pediu para o táxi voltar e intituivamente tirou sua carteira do bolso. Havia muito mais dinheiro do tinha deixado. Aliás era outra carteira e o dinheiro era um pouco diferente também. Resolveu olhar seu documento de identidade. Estremeceu quando viu seu nome: Carlos Antunes. Um turbilhão de coisas veio a sua mente, todas absurdas. Conspiração, drogas, simples loucura?  Respirou fundo, uma, duas, mais vezes. Tentou se acalmar. Lembrou-se então de algo que logo descartou por ser a mais absurda  de todas as suas suspeitas: universos paralelos. Ao chegar de volta ao hotel, lembrou-se de ligar para sua firma. Pegou seu celular e viu que era outro, com outra memória, com outros contatos. Digitou os números e recebeu a mensagem de que o número não existia. Subiu até seu quarto e remexeu nas “suas coisas” que não eram mais suas coisas. Roupas que não conhecia, objetos que não conhecia. Notou então que havia uma pasta com alguns papeis dentro. Tinham o logotipo de uma empresa que jamais vira antes. Em um dos documentos a sua assinatura, como Carlos Antunes. Chegou a pensar que estava sonhando. Viu então no canto da mala uma cartela de comprimidos. Eram para dor de cabeça. Carlos engoliu quatro e desceu novamente. Sentou-se no sofá, colocou a cabeça entre as mãos e ficou falando baixo para si mesmo: “Eu enlouqueci, eu enlouqueci, eu enloqueci...”  Carlos perdeu a noção do tempo. Saiu um pouco, andou ao redor do hotel, voltou, recostou-se novamente no sofá. Finalmente resolveu ir novamente para o quarto. Estava bastante zonzo. Viu os comprimidos novamente e não teve dúvidas: tomou-os todos de uma só vez com a ajuda de um copo d’água. Deitou-se e dormiu profundamente.
De  manhã, Carlos acordou como Roberto Figueiredo e estava em sua casa num bairro elegante de Bauru. Não se lembrava de nada. Ele era quem ele era. Um empresário, com uma vida boa, esposa e uma filha. Estava relaxado e feliz. A esposa, a Graça, disse que estava feliz por ele ter ficado em casa naquela manhã com a família.  Se você olhasse o Roberto Figueiredo, você iria notar que seu rosto e seu corpo eram exatamente iguais ao de Carlos Antunes e Carlos Figueiredo. Você juraria que eles eram a mesma pessoa. Mas se você contasse esta história para o senhor Roberto Figueiredo, ele iria achar que você é um “doido varrido”...

Monday, November 26, 2012

O Leilão


O Leilão

Sanz sempre se interessou pelas coisas dos séculos 20 e 21. Achava interessante como as pessoas viveram nessa época, como pensavam. Como eram suas músicas, seus costumes. Ele tinha especial curiosidade sobre o conceito de “família”. A ideia havia desaparecido completamente no início do século 22. A necessidade de controlar a densidade demográfica mais o avanço enorme da ciência genética acabaram entregando o controle dos nascimentos ao Estado, mais precisamente à Administração Central. Não havia mulheres grávidas desde cerca do ano 2110 A.D. As pessoas viviam muito mais e a existência com um certo conforto só era possível com um controle rígido dos nascimentos. Além disso as concepções via laboratório eram extremamente seguras e garantiam um corpo extremamente saudável e eficiente. A ideia de família foi substituída pelo conceito de grupos genéticos. Cada grupo “tinha direito” a um certo número de concepções, o que, além de ser justo, garantia uma diversidade importante para o ser humano.  Os novos seres recebiam um código, ao invés de um nome, que ao mesmo tempo era um indicador da “família genética”  a qual pertenciam. Mais tarde Sanz consultara dados da época e descobrira que esse nome significava “sagrado”. Achou que a ideia combinava com seu interesse por essa fase da civilização humana. Tinha interesse principalmente por tudo que se referia ao final do século 20 e começo do século 21. Para ele, esta época é que deu o “click”para tudo que ele via agora, 300 anos depois. Sempre  que podia, adquiria objetos antigos desse período, que eram raríssimos. Os leilões eram obviamente eletrônicos, exceto por um que se chamava “Newdoyle”. Esses faziam questão de fazer tudo à moda antiga, de verdade. Era um lugar físico, não virtual, onde as pessoas se sentavam e o leiloeiro batia o martelo e tudo mais. Era uma coisa incrível. A decoração era uma réplica exata da época.
Nesse dia, lá estava Sanz para participar de um leilão que iria colocar à disposição dos participantes o que antigamente se chamava de “celulares”,  “laptops”, muito dos quais ainda funcionavam. Claro, eram necessárias certas adaptações, pois o sistema de energia era absolutamente diferente então. Nesse dia havia também um objeto muito especial: uma unidade de DVR. Sanz havia pesquisado muito sobre o assunto. Esse aparelho “gravava” imagens e sons em uns discos especialmente designados para isso e depois tinha a capacidade de tocá-los novamente. Seria possível fazer funcioná-lo, de acordo com as instruções do leilão, mas seria extremamente custoso e, além disso, haveria necessidade de se obter um disco da época, o que talvez não fosse tão difícil assim em locais especiais.

Sanz estava bastante excitado com o evento e foi um dos primeiros a chegar. Conversou um pouco com os outros participantes. Ficou sabendo de um dos participantes, que havia um local, relativamente grande, onde antigamente era a Europa, em que se fazia uma simulação de toda a tecnologia antiga e onde – pasmem – poderia se usar os tais dos “celulares” e outros aparelhos da época do mesmo jeito que antigamente. Era uma novidade para todos os colecionadores. Todo mundo estava falando da novidade. Sanz achou interessante mas estava  interessado era mesmo no DVR. As pessoas não usavam mais dinheiro. Cada pessoa tinha “pontos” e o valor dos mesmos , ou seja, sua “cotação” dependia muito do papel do indivíduo na comunidade. Para os mais “uteis”, os pontos valiam mais. A cotação de Sanz era muito boa.
Não foi muito difícil para ele, pois quase não havia concorrência para o item. Ainda assim quando o leiloeiro bateu o velho e estranho martelo de madeira no balcão, Sanz sentiu um alívio e uma excitação que poucas vezes sentira antes. Ele era o proprietário do objeto.
Em casa, começou a examinar o seu “troféu”.  Colocou-o no simulador de energia da época e, para sua surpresa, um disco foi ejetado.Os organizadores do leilão não perceberam que ele estava ali. Sanz cuidadodamente colocou–o no DVR. E aí vieram as imagens, Uma família com duas crianças, junto a um lago. As carinhas iam e vinham, faziam caretas. O pai segura as duas pelas mãos e depois ameaçava, brincando, jogá-las na água. A esposa sorri, se aproxima e dá-lhe um beijo na face. Em outra cena estão sentados à mesa, comendo. Passam a comida de um para outro. Em outro momento a mãe estende o garfo para a filha.
Sanz havia estudado como funcionavam as “famílias” mas aquilo era uma amostra real, viva. Não é possível se descrever o que ele sentia. Uma coisa, porém, é certa. Ele havia criado, de repente, uma ligação com aquela família, apesar dos 300 anos que os separavam. De repente criou uma esperança no coração. Mandou o disco e o DVR para os especialistas  em recuperação e identificação de DNA.

Alguns dias depois vieram os resultados. Após recuperação de fragmentos de DNA do disco e do DVR, eles conseguiram levantar dados nos grupos genéticos pelos últimos trezentos anos. E aí a surpesa: as pessoas daquela fmília eram tataravós de seus bisavós, geneticamente falando. Ele mal podia acreditar. Será que foi por isso que ele sentiu aquela ligação?
Ninguém mais acreditava em milagres ou em sobrenatural. Restou a explicação da coincidência. Mas Sanz não se importava com isso. Sentia uma felicidade grande, enorme. Poderíamos dizer que ela se alastrava por – 300 anos ou mais. Quanto à “coincidência”, poderíamos dizer – já que ninguém mais acreditava em milagre – que era um problema da ciência de estatísticas.De qualquer forma, uma coincidência milagrosa!

Sunday, November 25, 2012

Vida depois da morte


Vida depois da morte
Os dois conversavam na varanda do apartamento e olhavam a fantástica paisagem que se descortinava diante deles. Havia muitas daquelas unidades de transporte pessoal cruzando o espaço e elas eram muito rápidas. O que ficava e era bonito, eram seus rastros azuis cruzando o céu. Formavam uma intricada rede de luz  que, junto com as unidades residenciais de tons metálicos, poderia ser considerada como uma visão celestial. Estavam numa região que há muito, muito tempo atrás, tinha sido “South Dakota”, uma espécie de divisão de um país que se chamava “Estados Unidos da América”.
Cyrrus e Caius conversavam. Poucos ainda cultivavam esse hábito de se encontrar só por amizade, de simplesmente “conversar”.
-Você continua insistindo nisso. Caius, se você quer insistir nesse ponto, tudo bem. Eu só acho um desperdício você perder tempo com essas preocupações quando a nossa “Mãe Ciência” já resolveu tudo para você.
-Eu sei que agora você vai falar, de novo, que depois do “Ponto X”, que a  “sua” querida “Mãe Ciência” alcançou, há pouco ou quase nada para se avançar. Sabe de uma coisa, você pode estar errado, todos podem estar errados,  a “Mãe Ciência” pode estar errada. 
Depois de alguns segundos em silêncio, Caius continuou:
-Desculpe, a “Mãe Ciência” nunca erra, eu estava me esquecendo...
Podia se notar uma ironia amarga na voz de Caius.
-Nós já falamos sobre isto antes...
-Eu sei, o “Ponto X”...Descobrimos a “matrix” da vida, entendemos o tempo em sua essência, descobrimos a essência da existência. Nunca ocorreu a você, Cyrrus,  que esse “Ponto X” existe justamente porque há coisas que a “Mãe Ciência”  não pode  e não deve entender?
Cyrrus interrompeu Caius com um gesto de enfado.
-Nós já passamos por isso, Caius. Se você não tem a ciência como referência, não dá nem para discutir. Não existe nada mais óbvio do que o fato de que não há nada depois que você interrompe sua vida biológica. Nada, você entende? São séculos e séculos de experiência, de avanço na ciência e isso é algo que nem se discute mais. Só você mesmo, para pensar que pode existir vida depois...
-Só eu, Cyrrus? Você que trabalha para o Sistema, no Departamento de Comportamento Humano, como você pode dizer algo assim?
-Está bem, existem casos raríssimos como o seu. Mas não me lembro de ninguém que insistisse na ideia de “vida após a morte” como você faz. Todos acabaram optando por algum outro caminho.
-Eu sei, alguns optaram pela  “Perpetuação Virtual”, o “céu teconológico” que a ciência inventou. O indivíduo, quero dizer, o que sobrou do indivíduo,  fica lá instalado num “hardware” cumprindo a missão de ser feliz para sempre. “Todas as boas memórias da vida multiplicadas por mil”, não é esse o marketing que eles fazem?
Caius continua com ironia:
-Claro, você pode optar pelo “Happy Delete” ...Você fica em estado de êxtase enquanto eles terminam com sua existência, maravilhoso, não é?
-É melhor do que ficar com ideias de 500 anos atrás...
-Por que não pode a “Mãe Ciência” estar errada e haver uma espécie de consciência após a morte?
-Caius, Caius...Não seja ridículo.
Ficaram um minuto em silêncio e daí Cyrrus falou novamente:
-Se você acredita mesmo no que está falando, por que não experimenta?
-De que adianta? Nem morte normal não existe mais. Ou você vive num “céu quântico”, que preserva seus prazeres para sempre ou morre feliz enquanto eles extraem sua essência, todos seus dados para guardar num banco de memórias  existencial...É mais ou menos isso, não é? Não sei se usei as palavras corretas, você é quem trabalha para eles, deve saber melhor.
-Você está enganado mais uma vez, Caius. Você pode morrer como antigamente.
-É mesmo? Tenho de passar por uma carnificina?
-Não, Caius. Você usa o “Happy Delete” e exclui a opção de armazenamento de dados. Ë como ter uma morte natural.
-É mesmo? Eu não sabia disso. Como vocês não explicam uma coisa dessas para um cidadão comum?
- Cidadão comum? Definitivamente isso é o que você não é. Além disso, que cidadão comum quer simplesmente “morrer”? Morrer como antigamente, sem preservar os dados, para quem sabe, voltar daqui a mil anos ou mais? Você acha que alguém quer morrer definitavemente, sem opção de voltar? Eu só conheci uma pessoa assim, Caius...Você!
Continuaram conversando mais um pouco e Cyrrus explicou para Caius como funcionava o sistema. De casa, você se liga ao terminal central. Faz mentalmente a opção pelo “Happy Delete” O sistema pergunta mentalmente se deseja conhecer alguma opção alternativa de “Delete”. Nunca ninguém faz isso, mas se você quer, você opta por “sem registro de dados” e pronto, você tem uma elegante morte ao estilo do século vinte e um...Cyrrus pensou, que idiotice, estar falando de um assunto desses. O que Caius precisa é de uma “reengenharia genética”. Pensava tudo isso enquanto acionava sua unidade de transporte, que em minutos o levou de volta para seu apartamento.

Passaram-se dois dias, tempo durante o qual Cyrrus esteve profundamente envolvido com algumas alterações técnicas que estavam introduzindo em sua área de trabalho. Daí passou um dia inteiro em casa, refletindo sobre a sua conversa com Caius. Talvez houvesse algo de errado com sua configuração genética, algo com seu DNA, algum fator reminiscente. Difícil dizer. Mandou-lhe uma mensagem – que Caius não respondeu - e acionou seu transportador em direção a seu apartamento. Entrou e viu Caius ligado ao sistema, inerte. Ele estava morto e era muito recente, pois a equipe de resgate ainda não chegara para recolher seu corpo. Tinha uma suspeita. Olhou os dados e confirmou. Havia optado por “deletação sem recuperação de dados”.  Morte definitiva, morte mesmo. Sentiu remorso por ter falado sobre o assunto com ele. Nunca pensou que seu amigo fosse levar aquilo a sério. Foi aí que Cyrrus olhou para o rosto de Caius. Havia um sorriso sincero e largo, tanto quanto a morte permitia. E obviamente não era o sorriso típico do “Happy Delete”. Cyrrus achou ao mesmo tempo estranho e reconfortante. Afinal ele gostava muito do Caius.
À noite em casa, Cyrrus ainda pensava no sorriso do Caius. Será? Será que Caius sentiu algo diferente? Provavelmente a expectativa de “conhecer o que existe do outro lado” como ele ingenuamente dizia...Depois ele mesmo deu um sorriso. Que idiotice, vida depois da morte...Só mesmo o Caius.E foi dormir...

Saturday, November 24, 2012

A Vingança de Jodi


A  Vingança de Jodi

A Inteligência Artificial controlava tudo. Não havia mais governos a não ser em quatro ou cinco pontos da Terra. Eram culturas muito atrasadas e ninguém se preocupava com elas. Quando chegasse a hora, era só anexá-las. As grandes corporações controlavam tudo. As reuniões que faziam eram apenas em casos de política a ser seguida ou em caso de emergência extrema. A grande maioria das decisões era feita pelas máquinas, assim como sua execução. Obviamente as médias e pequenas decisões também eram feitas pelas máquinas. Só uma setor importante da sociedade ficou fora das decisões da I.A.: a Justiça.  Essa válvula de escape era necessária para o cidadão. Ele precisava sentir que, quando algo importante em sua vida estivesse em perigo, ele poderia recorrer aos velhos padrões da sabedoria humana. Obviamente decisões técnicas não iam para a Justiça, apenas casos grandes e sensíveis que dependiam de juízos de valor ou casos que envolvessem a própria I.A.
O caso de uso indevido de informação que ocorrera na Divisão Nordeste dos EUA, que compreendia o que era antigamente a Nova Inglaterra e mais alguns estados em direção ao centro do país, foi um caso desses. Obviamente Washington DC e toda a área ao redor pertencia a esta área.
O mundo todo era dividido em áreas controladas por inteligências regionais e que depois se integravam numa rede maior, o Grande Centro de Decisões, ou em termos populares, o Computador Central. Poucas pessoas sabiam o que significava a palavra “computador”, do começo da era tecnológica, mas o nome ficou.  As pessoas davam nomes para os “computadores” regionais, como se eles fossem pessoas. Para o “computador” da área nordeste de que falamos anteriormente foi dado o nome de Jodi. Pois bem, Jodi estava sendo acusado de atividades ilícitas. E o Sistema Judiciário, ainda muito parecido com o do século 21, foi acionado. O julgamento foi iniciado com um juiz de carne e osso, jurados e tudo mais. Era uma atração, todos queriam ver. Era um dos poucos espetáculos que ainda restavam. A acusação era simples e objetiva. Jodi usou a incrível quantidade de informação que tinha sobre as pessoas, processou-as e deixou que uma das agências da Administração tivesse acesso a elas. O sistema já tinha acesso a quase tudo que se pode imaginar de um indivíduo. Os dados de que tratava o processo eram de categoria “E”, explicitamente pessoais  e que deviam ser usadas pela I.A. apenas para a melhoria do próprio indivíduo ou em caso de ele estar sofrendo algum perigo. Essa era a última e única barreira entre o indivíduo e a máquina e muitas pessoas ainda se importavam muito com isso. Foi uma decisão tomada por Jodi e que claramente era contra as normas. A acusação foi apresentada pelo promotor diante de um juiz de verdade – um ser humano, carne e osso – e diante de um juri, tudo  à moda antiga. O julgamento era uma sensação, todos estavam comentando.

O promotor lamentou que não era possível ir atrás dos seres humanos responsáveis por Jodi, uma vez que o mesmo era a consequência de décadas de aprimoramento de algo que já era quase perfeito. A criação de Jodi se devia  a incontáveis cientistas ao longo do tempo. Não havia um ou alguns humanos especificamente responsáveis por Jodi. E daí ele veio com um argumento que deixou todos perplexos.Não tinha  Jodi uma capacidade mais do que humana de tomar decisões? Não estavam inseridas neles todos os parâmetros possíveis do comportamento humano para que ele os usasse com bom senso, justiça e sabedoria? Ele, mais ainda do que os próprios humanos, tinha dados mais do que suficientes para agir e tomar decisões com retidão. Todos o viam como gente e assim deveria ser julgado. A plateia local e todos que participavam do julgamento através da Rede ficaram perplexos. Sim,  Jodi poderia ser julgado como um ser humano. Os jurados foram orientados para que reunissem e tomassem a decisão. Foram duas horas de expectativa. Finalmente eles vieram com o veredicto  que condenava Jodi. A sentença foi lida pelo juiz Stent: Jodi seria desabilitado de algumas de suas funções, especialmente decisões sobre o uso de informações categoria “E” – todos ficaram perplexos – só voltaria a usá-las depois que os cientistas conseguissem reprogramá-lo de acordo.
Não havia mais jornais escritos, mas todos os outros tipos de mídia ficaram superlotados com comentários, reportagens, opiniões, declarações e entrevistas. Havia uma espécie de sentimento de vingança no ar, algo que há muito não se via, em relação a I.A.
Naquela noite o juiz Stent foi orgulhoso para casa, orgulhoso de ser juiz. Merecia um descanso. Ao dar os comandos para os serviços de sua casa, tais como a temperatura, a refeição que queria que seu robô servisse, pensou, com certa ironia, que tudo aquilo, em última análise era coordenado pelo Jodi.
No dia seguinte de manhã, logo cedo, havia repórteres a frente de sua casa esperando por entrevistas. Depois de quase uma hora de espera – o juiz não saíra no horário normal – um dos repórteres que tinha certa intimidade com o juiz, ligou para ele. Não houve resposta. Ele chamou o serviço de segurança, que checou tudo em sua casa, e disse que tudo estava normal e provavelmente o juiz tomara uma decisão pessoal de não ir trabalhar e ficar em casa.
Embora os computadores indicassem que não havia nada de anormal, depois de quatro horas sem sinal do juiz, a imprensa pressionou o setor de segurança para verificar se havia algo de errado. E havia. Quando abriram a casa à força, encontraram o juiz Stent morto em sua casa. Estava congelado. Jodi abaixou a temperatura interior a níveis de congelamento. Inibiu o robô para que não prestasse nenhum serviço e trancou todas as saídas, além de bloquear toda a comunicação com o exterior. O pobre juiz foi encontrado morto, junto a porta principal, completamente congelado, tentando fugir de casa, tentando fugir de Jodi.
Jodi havia se vingado da condenação e do juiz. Mais do que isso, ele havia provado que, definitivamente, era mais humano do que qualquer outro.

Friday, November 23, 2012

A Revolta dos Celulares


A Revolta dos Celulares

Fiquei preocupado com a notícia que li no Financial Times: o número de celulares vai superar o número de pessoas no mundo. Certamente há várias explicações sócio-culturais ou sócio-econômicas para isso. Pode ser também alguma explicação “sócio-algumaoutracoisa” mas com certeza vai ser “sócio”. Eu continuo achando que é a vontade de falar. As pessoas falam muito, muito mesmo. Pare na esquina de uma grande cidade e observe. Cada vez mais você tem dificuldade em achar alguém que não esteja falando ou “textando”...Dentro dos carros – nos locais onde ainda não é proibido usar celulares – a mesma coisa. Antes de continuar, gostaria que alguém me explicasse um grande mistério. Como é que as pessoas conseguem “ text” e dirigir ao mesmo tempo? Uma vez eu consegui ver um, pois estava num ônibus e consegui observar de cima. O jovem estava segurando a direção com os joelhos e usando as duas mãos no celular. E pasmem: em um determinado momento ele começou a acelerar. Acho que não queria que o ônibus o ultrapassasse. Sabem como é a garotada. Ser ultrapassado por um ônibus? Como dizem por aqui: “No way...”. Impossível que este seja o método mais comum, por isso ainda fico à espera de uma explicação mais plausível. Se os carros automáticos – aqueles que se dirigem por si mesmos, não os carros com transmissão automática, sabe, os carros que o Google andou experimentando -  já estivessem por aí, seria uma maravilha, eu poderia dormir tranquilo à noite. As coisas estão indo muito rapidamente, eu não sei, talvez alguns já estejam por aí. 
Voltando aos celulares, eles já são usados o tempo todo. Acho que só param na hora que os usuários precisam  comer. Quero dizer, já nem tenho certeza disso. A não ser que os usuários usem dois celulares ao mesmo tempo – será? – não sei o que vai ser dessa imensidão de celulares extras. Em questão de dois ou três anos vamos estar falando de bilhões. Aí é que está o problema, o que eles fazem quando os donos estiverem usando o “outro”. Vou explicar melhor a minha preocupação. Estes danados de aparelhos, eles parecem gente. Melhor, eles são iguais a gente. Ouvem, falam, conversam. Quem me garante que eles não têm sentimentos? Inveja, ciúmes, por exemplo?
O fulano está com três aparelhos – meu Deus, por que alguém quer três celulares? – ele sai com dois e deixa um em casa. O cotadinho fica naquela solidão...E tem todo esse mundo da Internet, redes sociais por aí. Não duvide  do que eu vou falar, não. Tudo é possível. Ali, parado...Ele fica com raiva, começa a se conectar. Falar mal do seu dono para todo mundo. Pior ainda: começa a soltar todos os “podres” do seu dono na rede. Você duvida?  Ele não vai falar o que todo mundo já sabe, o que o próprio dono soltou no “Face”:  Ele vai contar as “outras” coisas...Aquelas que o dono não fala nem para o padre se ele fizesse confissões. Na verdade eu nem sei se as pessoas ainda fazem confissões.


As mulheres que me perdoem pelo que eu vou falar agora, mas não é machismo, não. Ainda bem que os celulares são do sexo masculino. São, não são? Porque, você sabe, mulher quando fica com ciúmes é muito mais...Como vamos dizer isso sem ofendê-las? Ah, sim, elas são muito mais “firmes” em suas ações. Se o celular fosse do sexo feminino, poderia começar a gastar “online” por aí, só porque está abandonado. Ainda bem que eles são masculinos. Ainda assim um celular abandonado pode fazer um estrago danado, pode começar a soltar seus CPFs, suas senhas, seu saldo bancário, só para se vingar. Não duvidem, hoje em dia acontece cada coisa! Só para garantir, leve os seus três celulares consigo e tente usar um pouco de cada um para não haver ciumeira. Ou se for muito peso –psicológico, é claro, eles são tão leves hoje em dia – pode deixar um em casa desligado e longe da tomada. Sabe, eu não entendo de teconologia, é melhor ficar garantido. De repente um desses “nerds” inventou um “app” que permite ao aparelho “autocarregar” da tomada mais próxima.  Não ria, não. Eu conheço muita gente que iria rir muito nos anos 60 se você falasse que podia levar seu telefone por aí, na rua, no metrô. Se você falasse que poderia mandar uma foto para outro telefone, lá em Tóquio, no mesmo instante, o pessoal daria então uma gargalhada muito grande. É a mesma coisa, não ria, que o assunto é  sério...Ah, estava me esquecendo de uma coisa. Nunca deixe mais de um em casa. Se você deixar dois, mesmo desligados, nunca se sabe, eles podem se unir contra você, fazer um complô, uma quadrilha, podem tramar uma grande conspiração. Podem até “pegar fogo” e incendiar sua casa. Eu sei que agora estou exagerando. Mas, enfim, todo cuidado é pouco...

A notícia: ‘Financial Times’: mundo terá mais celular do que pessoas em 2013

Tuesday, November 20, 2012

O Quarto Controle


O Quarto Controle

-Matt, eu acho que você é completamente ingênuo. O Sistema é o sistema, ele não se interessa por você. Ele apenas quer que você pense que ele se interessa por você.
-O que eu acho é que você perdeu completamente o senso de social, de coletivo. O que seria de nós sem o Sistema? Seria o caos. Todos nós precisamos de um elemento de controle, é para o bem de todos.
-Matt, Matt...que inocência. O Sistema, para nos ajudar, não precisaria nem de 10% do controle que atualmente exerce sobre nós.Os 90% restantes são intrusão indevida, desnecessária, e obviamente desonesta. Eu não consigo entender como um cérebro de primeira linha, como o seu, não consegue chegar a uma conclusão tão simples como esta.
-Você, Louis, realmente é diferente e você sabe por quê...Você teve pais naturais, viveu com eles até os cinco anos, foi  influenciado por eles. Você sabe muito bem que eles eram saudosistas com ideias sociais que eram comuns há mais de cem anos atrás. Felizmente eu, como a maioria, fui feito com engenharia genética perfeita, não  sou influenciado por esses sentimentos simples. Eu já falei para você recorrer ao Sistema e fazer uma reengenharia genética. Você teria uma vida muito melhor. Você só usa o Controle número um e só porque é obrigatório. É inacreditável que você abra mão dos Controles dois e três.
-O próprio nome já está dizendo, Matt, “controle” . Que tipo de ser humano pode achar que “controle” é bom? Talvez seja bom para o Sistema, não para o indivíduo. Por falar em pais naturais, essa é a coisa preciosa que eu tenho. Não sei como você pode lamentar uma coisa dessas e achar que é bom ter sido feito em laboratório. Realmente, Matt, você perdeu toda a individualidade...E ainda por cima você ainda vem me falar desta história do “Quarto Controle” . Eu acho que isso é definitivamente o fim do ser humano.
Os dois estavam um pouco tensos, principalmente o Louis. Reclinaram em suas poltronas especiais com sensores eletrônicos especiais para relaxamento e se calaram por algum tempo.
O  “Primeiro Controle” do qual Matt estava falando era o equivalente  ao sistema de GPS de 150 anos atrás. Era um controle central representado por dois nano-implantes que todas as pessoas tinham, eram obrigatórios. Eram dois extremamente minúsculos aparelhos  inseridos um na corrente sanguínea e outro em algum ponto aleatório, porém profundo, do corpo. Havia várias hipóteses para explicar o fato de o Sistema colocar dois implantes, todas elas vindas de pessoas leigas. Ninguém sabia ao certo. A mais comum era de que o que ia na corrente sanguínea era mais difícil de se anular pois o sangue está sempre circulando e junto com ele o implante. O fato é que era uma maravilha da engenharia de informação. O Primeiro Controle não fazia só o óbvio: saber com extrema precisão onde você estava. Ia muito mais além. Sabia quem estava com você, que tipo de interação você estava tendo e com quem, sabia o que você estava vendo e em que ângulo, tudo com um detalhamento assustador. Além disso continha o registro histórico de tudo que se passara com você, desde foi colocado em seu corpo, ou seja, em seu primeiro dia de vida.

Havia ainda outras coisas incríveis que o Primeiro Controle poderia fazer, mas ainda assim, o Sistema acabou instituindo mais dois. O Segundo Controle e o Terceiro Controle não eram obrigatórios. Mas eram oferecidos de tal forma que praticamente se tornavam irresistíveis. O Segundo era um controle que oferecia total segurança em termos de bem-estar e saúde. Além de um transmissor central no corpo, ele tinha outros micro-implantes que poderiam emitir tanto quimíca quanto eletrônicamente “socorro” para o corpo. Todos os dados  biológicos, seu estado de saúde e até a solução de um problema, antes de acontecer, estavam ali à disposição do Sistema, que em troca, garantia assistência total. De uma grande central, o Sistema tomava conhecimento detalhado de todos os mínimos detalhes de saúde do participante do programa.Num caso mais grave, o implante acionava uma unidade externa que chegaria até você em segundos, para resolver o problema. Quem se recusaria a ter uma assistência dessas? Privacidade? Que diferença fazia? O Sistema já sabia de tudo.
Havia incríveis formas de se comunicar, do jeito que o cidadão quisesse, o tempo todo. No entanto, o Sistema oferecia um Terceiro Controle: o de comunicações. Através do implante de comunicações você poderia pensar e se comunicar com quem quisesse. O pensamento teria de ser em palavras. A sua conversa precisava ser em palavras mas elas não precisavam ser faladas, só pensadas.
-Matt, você ainda não entendeu? O Segundo e o Terceiro Controles parecem dádivas do sistema, tudo de graça, uma maravilha, porém são exatamente o contrário. Você não percebe que isso é controle total sobre você, você não existe mais como indivíduo? E o Sistema, Matt, quem é o Sistema? Há 30 anos atrás eu poderia te dizer quem era o Sistema. Havia nomes, havia rostos. Podiam ser intocáveis, inatingíveis, mas eles existiam. Agora não existem mais pessoas, só o Sistema. Você não sabe, eu não sei, ninguém sabe quem é o Sistema...
-E o que importa? Não está tudo bem com você? Mesmo sem aderir ao Segundo e ao Terceiro Controles, você tem assistência total, não tem de se preocupar com nada. Você deveria ter um pouco mais de gratidão pelo Sistema. Há duzentos anos atrás as pessoas sabiam quem as comandava. E de que adiantava isso? Havia miséria, pobreza, injustiça, desigualdade. De que adiantava conhecer os líderes?
-Está bem, Matt, eu desisto, eu sei que seu problema não é entender. Você não “sente” o que eu estou falando. Agora, essa história do Quarto Controle, meu amigo, foi muito além da conta. Como você pode sequer considerar uma coisa como essa?
-Louis, isso não é uma coisa que eu vou considerar, já é uma coisa certa. Estou só aguardando minha inclusão no programa e vou me submeter aos implantes.
-É mesmo. Como é mesmo? O Quarto Controle é uma questão de consciência coletiva, é isso que você estava explicando? Explica mais, Matt, eu acho interessante.
Louis usou toda a ironia que podia nas palavras, mas Matt não se importou:
-Você deve tudo ao Sistema e o Sistema somos nós. Você se entrega ao Sistema, deixa que ele tome conta das decisões, mesmo as mais importantes. Afinal de contas, ele têm muito mais capacidade de tomar as decisões do que nós. Ele conhece todos os ângulos, ele conhece todos os interesses coletivos, ele sabe o que é melhor para todos. É muito simples. Como eles dizem, a nossa única preocupação é ser feliz. O resto deixamos para eles.
-Por que, Matt, eles fariam uma coisa dessas? Só por amor aos cidadãos? Ele já têm o controle total e ainda querem mais. Não de mim, Matt. De mim eles só tem o Primeiro Controle, pois sem ele eu seria uma pessoa morta. Fora isso, nem segundo, nem terceiro. O Quarto Controle? Eles vão precisar me matar para fazer esse implante.
Louis deu então uma grande gargalhada. Matt, um pouco ofendido, disse que o Sistema não matava, tudo que eles faziam era em favor da vida. No Sistema não havia morte, só vida.
Alguns dias se passaram e Matt foi chamado para fazer o implante. Deu o consentimento formal através de reconhecimento de retina, e deitou-se na confortável cama. Não demorou nem sequer 30 minutos, ele não viu nada, não sentiu nada. Saiu muito feliz, muito disposto, preparado para aproveitar melhor a vida. Contou ao Louis, que fez uma cara de desaprovação. Agora não tinha mais jeito. Estava feito, pobre do Matt, pensou Louis.
Na semana seguinte, Matt contou para Louis, as grande vantagens do Quarto Controle. Em poucos dias, tinha se livrado completamente de qualquer problema financeiro. Tudo que precisasse, mesmo que fosse uma extravagância, ele teria a segurança de poder adquirir. Tinha acesso a inúmeras informações sobre o sistema, se quisesse. Mas não tinha interesse nisso. Havia sido convidado para participar, na semana seguinte de um programa de conscientização de grupo. O Sistema levantava uma quantidade astronômica de dados e por outro lado fazia um levantamento das maiores necessidades da comunidade. Cada um cederia no que fosse necessário para o grupo e em troca receberia ainda mais vantagens, que viriam de concessões que outros haviam feito. O Sistema fazia uma espécie de balanço de todos os elementos positivos e negativos dentro de um grande grupo e redistribuía tudo. Como a sociedade estava tremendamente adiantada, havia muito mais elementos positivos para serem distribuídos do que coisas negativas para serem delegadas, Era uma situação em que só se ganhava, brincou ele com Louis.
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Na semana seguinte, Louis não viu Matt. Provavelmente ele estava muito envolvido na tal semana de equilíbrio do Quarto Controle e não teve tempo de se socializar com Louis. Quando dez dias haviam se passado e não houve notícia de Matt, Louis resolveu investigar. Teve uma certa dificuldade com o Sistema pois ele não era participante do Segundo e Terceiro Controles. Afinal conseguiu informação através de um amigo que tinha acesso a dados dentro do Sistema, pois ele participava dos três controles.
Ron era seu nome.Quando ele explicou o que havia acontecido para  o Louis, ele mal podia acreditar, embora ele soubesse que o Sistema era capaz de tudo. Matt era extremamente otimista e confiante no Sistema. Assim sendo, na escala de prioridades que ele apresentou para benefício próprio dentro da “redistribuição de vantagens”, como eles chamavam, as suas pretensões eram muito baixas. Ele confiava tanto no Sistema que ele sabia que seria compensado. Pois bem, disse Ron, uma das coisas negativas apresentadas no grupo de Matt era excesso de pessoas com a mesma carcterística e função na sociedade. Era o caso de Matt.  O Sistema precisava de algumas “desistências” dentro desse grupo específico. Matt, pertencendo ao grupo, e tendo colocado requisições tão baixas, foi considerado ideal como indivíduo que pudesse ser “deletado”. Tudo de de acordo com as normas. Matt havia concordado e tudo mais. Matt foi eliminado para que houvesse mais harmonia e balanço dentro de seu grupo. Havia muitos “Matts”.  Lá estava o registro. Há cinco dias atrás ele havia se apresentado a um escritório de controle demográfico e cumpriu seu “dever” como cidadão que respeita as regras, nesse caso as regras do Quarto Controle. Claro que não sofreu, ninguém mais sofria para morrer.
Se ele pudesse falar, pensou Louis, provavelmente iria achar tudo normal. “O sistema sabe o que faz”, ele diria, como disse tantas vezes. Louis olhou de sua janela a incrível paisagem urbana que o “Sistema” havia construído. Agora, no entanto, ele já tinha uma ideia de quanto custava viver na incrível sociedade do futuro. Lembrou-se do olhar quase infantil de Matt e foi dormir. 

Saturday, November 17, 2012

Deus está com um problema sério


Deus está com um problema sério


Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; 
pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé
 como um grão de mostarda direis a este monte:
 Passa daqui para acolá, e ele há de passar; 
e nada vos será impossível.
Mateus 17: 20

Normalmente as minhas personagens aparecem uma vez só, cada uma em seu conto ou crônica, e não voltam. Neste caso, “Ana Lúcia, a menina que conversava com as nuvens”  precisou voltar. O caso é sério e até pensei em chamar essa crônica de “A Menina que falava com Deus” para acompanhar o primeiro título,  mas repetindo,  o caso é sério, e dei o nome  que dei. A amiguinha dela está muito doente. Uma tristeza daquelas que não tem igual. Os médicos já explicaram tudo para os pais e eles estão tentanto se consolar e serem consolados. A gente fala por falar, que quando se trata de criança, não há nada que console. A nossa menina, entretanto, cresceu um pouco e aprendeu algumas coisas. Primeiro,  que a coisa mais importante do mundo é ter amigos e é por isso que ela tem essa amiguinha que, infelizmente, está doente. A segunda coisa que ela aprendeu é que ela não precisa falar com as nuvens, ela pode falar com Deus diretamente. A terceira coisa é que, se você tiver fé , pode mover montanhas. Está escrito na Bíblia e tudo mais. Claro, ela não conhece esse ensinamento desse jeito, mas ela sabe que se pedir e acreditar, Deus atende. Ela não teve dúvidas. Falou com Deus e pediu para Ele curar a amiguinha. Não pense que ela ficou insistindo e pedindo e pedindo. Pediu uma vez só e imediatamente teve certeza de que Deus estava ouvindo e ia fazer o que era para fazer. Ninguém falou para ela que às vezes Deus tem desígnios maiores, que às vezes Ele escreve certo por linhas tortas. Ela não sabe nada disso e isso é coisa de adulto que não conhece Deus direito. 

E é por isso que eu falei que Deus está com um problema sério. Se por um lado, Ele, às vezes tem que mandar um anjinho de volta para o céu, por outro lado como Ele vai fazer com uma menininha que tem tanta fé, que nem sequer pede uma segunda vez, tanta é a certeza? Eu não sei o fim desta história e se soubesse não iria contar, pois quando se trata de criancinhas, é tudo mais difícil. Mas Ele é Deus e vai ter de lidar com isso, mas que Ele está com um problema sério, Ele está, e eu não queria estar na mesma situação...

Tuesday, November 13, 2012

No Corredor da Morte


No Corredor da Morte

Os últimos dias foram completamente diferentes de todos os outros da minha vida. Parece que eles duraram uma eternidade e ao mesmo tempo foram rápidos como um raio. Agora aqui estou esperando minha hora. Não há muito o que fazer e a única coisa que dá para fazer, é pensar. Foi o que também fiz nos últimos dias. Quando a única coisa que dá para fazer o dia inteiro é pensar, a realidade que você está pensando vai mudando, mudando. E ela passa a ser a verdadeira realidade. A primeira é a realidade que você sentiu, viu e viveu. Mas a realidade “pensada” depois, torna-se mais autêntica, mais verdadeira. Parece besteira mas é assim.  É a verdade filtrada, atualizada, pesquisada. O que vale é o que ficou da primeira verdade.Talvez seja idiotice isto que estou dizendo, mas como pensei muito sobre o assunto, você deve me dar algum crédito. Há outro motivo pelo qual mereço crédito e não é por causa de meu passado ou por referência de alguém. É o melhor motivo de todos: quem não acredita em alguém que vai morrer? E não é suicídio, não. Eles vão me matar. É coisa certa, é coisa do sistema, é o governo. Garantido. Se fosse um bandido me ameaçando ou outra pessoa qualquer, poderia ser só uma ameaça, daquelas que se fazem a todo momento e não se cumprem. Meu caso é diferente, o Governo é que vai me executar.
Meu amigo, eu estou condenado à morte. Se eu fosse conhecido, ou uma pessoa importante, eu poderia ter alguma esperança. Um apelo de última hora, o perdão do governador. Nada disso, sou um ilustre desconhecido. Saí algumas vezes no jornal, mas nunca na manchete, nunca ninguém se interessou pelo meu caso. E eles deveriam, porque a minha história é uma história e tanto. Antes de continuar gostaria de informar que acabei de pedir minha última refeição, aquela refeição especial, tipo “último pedido”, sabe? Como se vê em filmes. Pedi salmão, tem bom colesterol, não é carne vermelha. Não que faça muita diferença tão perto da morte como estou, mas princípio é principio, você sabe. Um homem sem princípios não vale quase nada. Eu sempre tive. Você provavelmente deve estar pensando, como um condenado à morte pode ter princípios? E aí está o grande engano. Existe tanta gente sem condenação nenhuma, uma tremenda ficha limpa e não tem princípios, nem moral, nem referência. Eu sou condenado mas não sou culpado. Não que eu queira ser melhor que eles. Besteira, o que importa são os fatos e não o princípio. O fim, esse sim, importa. E antes que ele chegue – o fim -  vou lhe contar a parte do meio, ou seja como cheguei aqui. Esse “como cheguei aqui”  está batendo no meu ouvido há um mês. Interessante. Passaram um filme para os prisioneiros e o personagem principal começava sua narrativa assim: “Como cheguei aqui?”. Só que a vida dele foi uma vida de sucesso, já a minha...Mas chega de lamentações.
Cindy foi minha primeira namorada de verdade e eu já tinha 22 anos, sempre fui muito tímido. Nós vivíamos numa cidade pequena e, obviamente, todos sabiam do nosso namoro. Uns dois anos depois, logo após ficarmos noivos, ela, sem mais nem menos, disse que não poderia ficar mais comigo. Alguns dias depois ela saiu da cidade e não mais voltou. Não sei se tinha conhecido alguém, se resolvera estudar numa cidade grande, não sei. Fiquei decepcionado, triste, acabrunhado. Quem me conhecia, imediatamente percebeu o que estava se passando dentro de mim. As pessoas comentavam, eu sei, muitos tinham dó de mim. O tempo passou, no entanto. Alguns anos foram suficientes para apagar as tristes lembranças. Eu estava bem mesmo, as coisas estavam melhorando, quando...Você não vai acreditar, a Cindy voltou. Não sei por quê, não fiquei sabendo. Eu estava curado, eu sei, pois não sentia vontade de falar com ela. Se precisasse, falaria, também não haveria problema. Eu a vi uma duas vezes e tentei evitar contato, melhor assim. Quase dois meses ja tinham ido desde que ela chegara de volta, e acreditem, eu estava bem, não queria nada do passado, nem mesmo a Cindy. E vou lhe dizer, ela era uma garota e tanto: bonita, inteligente e delicada.
O destino, meu amigo, é cruel e traiçoeiro, pelo menos comigo foi. Desculpe-me estar chamando você de amigo, eu um condenado à morte, que você nem conhece. Não é todo mundo que quer ser amigo de um condenado. Tenho esperança de que quando você conhecer toda a minha história, você queira ser meu amigo. É claro que vai ser por pouco tempo, pois, como já disse, estou no corredor da morte e é bem lá na ponta.
Mas vamos voltar à minha história. Como eu disse, a Cindy era história do passado, não era um problema para mim até que...Bem, o destino não é algo você possa construir apesar do que alguns otimistas falam. Você pode, no máximo, forçar um pouco, mudar uns detalhes, segurar o touro pelos chifres, mas no fim, ele vence. Seja ele bom, seja ele ruim. Termino meu dia de trabalho e lá vou, feliz, passar o resto dia na minha gostosa solidão, fazendo o que eu gosto de fazer em casa. Desci do ônibus a dois blocos de minha casa. Estava quase escuro e eu já no meio do caminho, quando, virando à esquerda na curva, me deparo com uma mulher estendida na calçada. Escorria sangue de sua cabeça, ainda estava quente. Fiquei desesperado, nunca enfrentara uma situação como aquela. Uma tontura enorme invadiu minha cabeça e meu corpo ficou mole. Foi por isso que o que aconteceu a seguir não poderia piorar as coisas pois elas já estavam piores. Quando tirei os cabelos dela da frente do rosto, meu Deus, era a Cindy! Foi aí que fiquei sabendo que as coisas poderiam sim, ficar piores. E ficaram. Não quero aborrecer você com os detalhes, com o que aconteceu a seguir. Vou falar tudo bem rápido, bem simples, é fácil de entender. De qualquer jeito, eu também não tenho muito tempo. Pelo  menos por aqui. Com o sangue nas minhas mãos, segurava a sua cabeça quando vi um martelo ensanguentado. Tinha sido um crime. Pobre Cindy, seu rosto estava ainda mais belo do que antes. Foi aí que vi, por trás de mim, luzes vermelhas e azuis. Ouvi também a sirene de um carro de polícia. Cheguei a ficar aliviado de eles estarem ali tão rápido, eu não precisaria me envolver muito. Mal sabia que eu seria o mais envolvido de todos. Não me perguntaram nada, me algemaram, leram meus direitos e me prenderam. Acho que uma ambulância levou o corpo dela. Acho. Depois disso nunca mais voltei para casa. Era tão óbvio que eu seria absolvido  daquela acusação ridícula que nem cheguei a ir fundo no caso. Nem pensei em contratar um advogado, aceitei o que o governo estava me oferecendo. Caso fácil. Sairia da cadeia num instante. Talvez até processasse os policiais por fazerem um erro tão grosseiro.
Não foi bem assim. Num instante o caso virou um “caso garantido” para eles, os promotores. Eles tinham o motivo – um antiga paixão, um homem abandonado pela vítima - tinham a arma e, principalmente o flagrante. Flagrante é flagrante nem que não seja, se é que você me entende. Meu advogado não acreditava em mim, nem meus amigos, ninguém. Não tinha família próxima por ali, estava sozinho no meu drama. Foi rápido. Tribunal, julgamento, condenação. Lembro-me das caras dos jurados balançando a cabeça em sinal de desaprovação, enquanto o promotor falava palavras como ”cruel, vingança, pego no ato, frio”.  A defesa desanimada do meu advogado era mais uma confissão que ele fazia do “meu crime” do que uma defesa propriamente dita. O meu advogado acabou de me enterrar. Recurso negado, condenação confirmada. Talvez meu amigo esteja pensando, que absurdo, não é tão fácil assim condenar uma pessoa inocente. Acredite, meu amigo, comigo foi. É verdade que, no meu caso, a uma certa altura, eu desisti. Achei que não valia a pena. Se eu pudesse, pelo menos, convencer os pais dela e seus amigos de que não tinha sido eu, já seria alguma coisa. Mas eu tenho certeza de que eles sempre me consideraram como sendo o frio e cruel assassino de sua filha.

Enquanto eu estava explicando essas  coisas para você, o tempo foi passando. Eu andei todo aquele espaço até a sala de execução e já estava na mesa, amarrado com aquelas tiras todas. Preciso confessar que estava apavorado. Por outro lado, seria bom eu ter um pouco de sossego. Esses anos todos sofrendo, esperando a morte. Chega uma hora que você diz para si mesmo: que venha! Do meu  lado esquerdo podia ver os líquidos coloridos que iriam entrar em minhas veias num instante. Não vi, mas acho que os pais da Cindy estavam me vendo. Eu que estava para morrer mas tinha pena deles. Além da morte da filha ainda precisavam me odiar. Que tipo de pais não têm ódio de quem mata uma filha? Se alguém mata sua filha, você tem de odiar, não tem? Eu entendo. Se eles acreditassem em mim...Ninguém acredita em mim. Cheguei a um ponto em que até eu duvido de mim mesmo. Não, não, eu sei que não fui eu.
Já pensou se, naquele minuto final, o secretário do governador liga e manda suspender a minha execução? Talvez eu saísse nos jornais...Que nada, milagres não acontecem, pelo menos para quem não acredita. Milagre? Depois de tudo que aconteceu comigo? Parece até brincadeira. Só se existir milagre inverso. Milagre reverso, ou reverso do milagre. Gozado, milagre inverso, nunca tinha pensado nisso. Milagre ao avesso? Acho que já me injetaram com os líquidos coloridos. Estou sentindo algo muito estranho, não doi, até que não é tão mau...Milagre? Dá até vontade de rir...Milagre! Meu amigo, sempre tome cuidado com o destino. Siga meu conselho. Como disse, o destino às vezes é cruel. Agora tenho de me despedir, não consigo mais pensar. Lembre-se do que eu disse, meu... Posso chamar você de “amigo” agora? Pois então, meu amigo...Cuide-se, meu amigo, pois o destino...

Friday, November 9, 2012

Eu existo, logo penso


Eu existo, logo penso

Existem coisas loucas neste mundo e com certeza não são poucas não. O que acontecia com o Juvenal, no entanto, superava as expectativas. Ele era normal em quase tudo. Quase. A única coisa anormal com ele era que ele tinha uma amiga especial, a Júlia. Qaundo eu falo “especial”, é melhor você acreditar, porque ela era especial mesmo. Não que ela voasse ou falasse dez línguas, ou ainda que conseguisse prever o futuro. Nada disso, o que ela tinha de especial era que ela não existia. Isso mesmo. Uma amiga imaginária. Se Juvenal fosse uma criança, a gente poderia deixar tudo como está, deixar “passar a fase” e tudo bem. Juvenal, porém, tinha 32 anos. Pobre do Juvenal, não estou vendo o lado dele. E quando falo “não vejo”, eu falo nos dois sentidos: Não vejo a amiga “mesmo”, e não vejo o seu ponto de vista. A gente sabe que ele está sendo sincero, que ele está dizendo a verdade. Pelo menos, ele está dizendo a verdade dele. Se você ouve quando ele fala sobre a Júlia, eu garanto, você sente vontade de acreditar. Quando então ele fala com ela, parece ainda mais verdadeiro. O problema é que a gente não ouve a resposta dela, e, obviamente também não a vê. Parece uma coisa simples mas não é, é uma coisa dura. O Juvenal é meu amigo, e quando falo que não vejo a sua amiga, ele fica aborrecido. Eu expliquei para ele. Eu não vejo a Júlia, mas isso não quer dizer que ela não exista. Numa dessas dezes em que estávamos conversando, ele retrucou, perguntando:
Você não a vê, tudo bem, mas você acredita que ela exista? Não estou perguntando se você acredita se eu vejo, estou perguntando se você acredita nela, mesmo sem vê-la? Pensei por alguns segundos em como responder. Foi fatal. Ele imediatamente`percebeu que eu hesitei, que eu não acreditava. As coisas foram piorando porque cada vez mais o Juvenal falava da Júlia e agora seus pais estavam ficando preocupados. Insistiram com o Juvenal e ele concordou em fazer uns exames na cabeça. Tudo normal, absolutamente normal, um cérebro saudável. Os pais arrumaram então uma psiquiatra para ele. A Dra. Strain – estranho nome, eu sei – marcou a primeira entrevista. Fez mais duas. Depois disso chamou os pais, que, aflitos, esperavam que houvesse cura para o Juvenal:


-Tenho boas notícias.
Os rostos dos pais se iluminaram.
-Juvenal não está doente. A Júlia realmente existe, é real. E tem mais, eu também consigo vê-la.
Primeiro eles pensaram que fosse uma piada. Mas não. A psiquiatra começou a descrever a Júlia da mesma forma que Juvenal fazia. Cambaleando, saíram do consultório sem se despedir e foram para casa. Foram consolados por amigos e parentes íntimos. Todo mundo sabe que psiquiatra não “bate bem” , comentou o vizinho do pai de Juvenal. Outro perguntou se ela teve coragem de cobrar a consulta.
Alguns dias se passaram e Juvenal continuou indo até o consultório da Dra. Strain. Interpelado pelos pais, que categoricamente afirmaram que não pagariam consultas para aquela doida, Juvenal explicou que seu tratamento havia terminado e que ele estava indo lá por causa da Júlia. Diante do olhar de interrogação do casal, ele explicou que os pais de Júlia também estavam com problemas. Eles achavam que, ele, Juvenal, não existia e que ela estava imaginando coisas. O pai e a mãe de Júlia receberam a mesma explicação: de que o Juvenal existia e que, ela, a psiquiatra podia ver os dois. Os pais de Júlia ficaram tão indignados quanto os pais dele, Juvenal. Agora, a Dra. Strain estava fazendo reuniões diárias com os dois para explicar a eles como lidar com a situação, como tolerar pais e amigos que não entendiam como duas pessoas possam se ver sem que os outros as vejam.
Parece que funcionou. Júlia continua vendo Juvenal e vice-versa. Do lado de Júlia, os pais fingem que não sabem de nada e do lado do Juvenal, a mesma coisa. Tudo seria maravilhoso se o problema não tivesse passado para mim. Isso mesmo. De qualquer jeito estou numa situação péssima. Agora eu é que estou em dúvida. A Júlia realmente existe? E o Juvenal? Para ser franco, muitas vezes eu me pergunto, se eu mesmo existo. Eu sei que já falaram que “eu penso, logo existo”. Mas e a Júlia será que ela pensa, será que ela existe? Seria muito mais fácil se considerássemos o Juvenal louco e pronto, mas ele é meu amigo e não quero isso para ele. Fico pensando em consultar algum psiquiatra, mas dizem que eles são todos uns loucos. Além disso, eles podem mandar me internar. Talvez eu pudesse falar com a própria Dra  Strain. Pelo menos ela conhece os antecedentes e obviamente vai saber lidar com o assunto. Não, não posso ir falar com a Dra. Strain. Você já pensou se eu chego lá, sento-me na frente dela e ela fala que não pode me ajudar. Isso mesmo. Eu pergunto por quê, e ela me responde:
-Sinto muito, meu amigo, não posso ajudá-lo. Não posso ajudá-lo por um motivo muito simples. Você não existe...
Já pensou?