Thursday, July 23, 2015

Um suco estranho



Um suco estranho

Uma saudade no peito,
uma esperança incerta,
um amor sem jeito,
uma ferida aberta,
um procurar insano,
um resultado frustrante,
um defeito humano,
uma dúvida constante,
uma certeza burra,
um desejo infantil,
uma voz que sussurra,
uma felicidade pueril,
um desejo erótico,
um orgulho idiota,
um pensar caótico,
uma alma devota?
Tudo isso junto,
no liquidificador,
com muito amor,
com muita dor:
este suco estranho,
é o que somos nós?


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Wednesday, July 22, 2015

Uma borboleta amarela



Uma borboleta amarela

O peso dos anos tornou-se evidente na hora de pressionar os pedais da bicicleta. Ainda assim eu continuava me esforçando, pois a palavra do médico tinha sido clara: exercício! Tentava me distrair com a bonita paisagem. Árvores, pássaros, tartarugas, e até um pequeno riacho que acompanhava a pista. De repente, uma companhia inesperada. Com um amarelo vibrante, moldurado por uma borda de um gracioso marrom escuro, lá estava ela: uma maravilhosa borboleta. Bem a meu lado, como se estivesse me acompanhando. Pensei que fosse logo embora, mas que nada, continuou por pelo menos uns quinhentos metros. Senti-me importante com tão singular presença. Finalmente ela ficou para trás.
Passaram-se alguns segundos e ela se jogou novamente a minha frente, vindo de cima. Parecia até que estava fazendo graça. Balançava seu gentil corpinho para lá e para cá. Subia um pouco e depois descia. A essa altura comecei a fazer conjeturas. Estaria ela aproveitando o ar que meu movimento fazia para a frente? Afinal de contas, com suas frágeis asas, aquilo teria feito uma diferença. Curiosidade? Seria essa talvez uma característica dos lepidópteros? Duvido. Talvez tenha se interessado pelo cheiro de um corpo humano. Pouco provável também, o ar estaria levando o odor para trás e não o contrário.

Finalmente me ocorreu uma ideia. Por mais absurda que fosse, me pareceu a mais lógica. Ela estaria apaixonada, não por mim, mas pela minha bicicleta. Talvez ela tivesse visto nela uma linda, enorme, borboleta cibernética. Apaixonou-se perdidamente por aquela forma, graciosa, azul, formosa como ela. Por que não? É verdade, um amor fugaz. Fugaz para ela, fugaz para mim. Fugaz como a própria vida. Porém, como falou o poeta uma vez, um amor infinito pelo menos enquanto duraram aqueles coloridos segundos.



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Tuesday, July 21, 2015

Coisas que um poeta coleciona


Coisas que um poeta coleciona

Coleciono muitos pores do sol,
lindos sorrisos de gente feliz.
Na máquina, guardo os primeiros,
mas é na alma que guardo os últimos.
Coleciono também alvoradas,
alvoradas de todo matiz,
e frases lindas que ouço por aí.
Todas elas, guardo dentro de mim.
Sou também uma espécie de gari,
que, com força, limpa a alma inteira
de todo evento e ideia ruim.
Jogo logo fora toda cara feia,
que alguém possa fazer para mim.
Varro da rua do meu coração
toda e qualquer palavra maliciosa,
e não ganho por isso um só tostão,
só mesmo uma grande satisfação.
E nas horas em que estou de folga,
invento muitas histórias estranhas,
coisas que jamais aconteceram.
As de verdade não quis contar
pois isso o jornal faz muito melhor.
E, finalmente, quando estou só,
e não tenho nada para criar,
me ponho, alegre e feliz, a cantar,
como um vagabundo, um ninguém,
que não tem nada no que pensar.



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Monday, July 20, 2015

A Fábula do Rato

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A Fábula do Rato

O Grande Reino dos Animais sempre teve reis importantes e imponentes. O primeiro e mais majestoso foi o Leão. Grande monarca. Mais recentemente outros vieram: o Leopardo, o Lince, um Gato, e até uma Anta. Por razões não bem explicadas, pássaros como o Condor, a Águia e a Coruja, nunca se interessaram pelo poder. Talvez porque de qualquer forma já estivessem por cima, ou talvez porque fossem sábios ou ainda porque para eles fosse mais importante voar. Não se sabe. O tempo foi passando e chegou a vez do Rato. Assim foi que ele tomou posse e começou a governar. Supostamente outro animal deveria substituí-lo quando morresse. Desafiando a lógica, sua majestade, o Rato, ficou no poder por muitos anos e que equivaleriam a cinco de suas vidas e nada de ele sair. Isto obviamente não fazia sentido, mesmo porque, quem supostamente tinha sete vidas, era o Gato.  E todos sabiam que a sua majestade, o Gato, na sua época, foi devidamente substituído após sua primeira vida. Havia algo de errado no Reino. Muitos animais nem percebiam o que estava acontecendo. Outros porém, mais espertos ou inteligentes, começaram a desconfiar.  A desconfiança virou certeza: obviamente um rato substituía o outro, defunto, sem que ninguém notasse. Tudo era feito secretamente nas dependências – talvez no porão – do castelo, que, por sinal, agora estava mais suntuoso do que nunca. Ao contrário do senso comum, os roedores tinham um bom gosto enorme e viviam como gente fina. A safadeza era fácil de se notar pois os ratos eram muito semelhantes entre si e ninguém percebia a diferença, a não ser os assessores mais imediatos. Mas com eles não havia problema, pois a manobra também lhes servia, pois se perpetuavam nos seus cargos também. Era, poderíamos dizer, uma safadeza real. Real de rei, embora fosse real “de verdade” também, se é que você me entende. A coruja, o cachorro e o papagaio, além de outros, por serem mais espertos que a maioria e mais sábios também, sabiam de tudo, mas no princípio se calaram. Claro, temiam pela própria vida.  Afinal para quem faz uma ratada dessas, livrar-se de alguns súditos mais ousados seria café pequeno. Chega uma hora, porém, que ninguém aguenta. Resolveram então não mais ratificar a ratada feita pelos ditos cujos e, ao contrário, retificar a rota do Reino. Começaram então a espalhar a verdadeira história da falsa longevidade do grande roedor. Foram rápidos e astutos e conseguiram difundir a revolução. A revolta foi geral. Folhetos, panfletos e manifestações se espalharam por toda a parte. Depois de algum tempo, a rebelião era total.
O Rato Primeiro, que primeiro não era não, mas sim o quinto, logo tentou dissipar a revolução. Ele que não era burro – sem querer ofender o coitado do animal, que, por sinal, nunca chegou a ser rei – mas, obviamente era ratão, sabia que violência não adiantaria. Os elefantes, por exemplo, estavam cientes da situação. E, como se sabe, eles não esquecem não. Além disso, já pensou levar um pisão de um deles? A realeza seria esmagada com certeza. Declarou então a sua majestade que queria, ele também, a verdade. Por isso instituiu uma comissão para apurar os fatos: “Comissão Democrática do Reino Animal”. Essa era composta democraticamente, como o nome sugeria. Ratazanas havia, claro, mas outros bichos também lá estavam.
Chegou o dia do grande julgamento. Lá estavam os membros da comissão, a família real, o público em geral, especialistas em direito animal, especialistas em direito selvagem, além de outros interessados. O Rato Primeiro, que além de ser rei, era réu, nesse caso funcionava também como o Grande Juiz. Era esquisito mas pelo menos estava havendo algum julgamento e talvez, quem sabe, a justiça fosse feita. Não era o tribunal mais justo do mundo, mas como se diz “Quem não tem cão, caça com gato”, que no nosso caso, seria “caça com rato”.
Todos falaram, reclamaram, apresentaram provas, documentos, testemunhas. Não havia nada de positivo que se pudesse falar do Grande Rato. A fraude era óbvia. Ficou muito claro que ele era um charlatão além de ratão, como o próprio nome indicava.  Foram horas e horas de denúncias contra as ratadas do rei. No final, a comissão pediu a deposição do tirano. O monarca então se levantou para dar a sentença que deveria ser cumprida por ele mesmo. Os pobres animais ainda não tinham, como os humanos, experiência nesse tipo de assunto. Estavam cheios de esperança. Achavam que a majestade do rei não lhe permitiria fazer um mau julgamento que o protegesse, diante de tantas evidências apresentadas. Ele, entretanto, olhou com grande arrogância e cinismo para todos e anunciou:
-Decido. Petição negada, requerimento indeferido. Tenho dito. Fica também decidido que a partir desta data o rei passa a se chamar o ”Grande Rei das Bestas”.
Fazia sentido. Assim terminou a grande parada democrática do agora chamado “Reino das Bestas”, antes cognominado o Grande Reino Animal. Afinal de contas, rei é rei, mesmo sendo um rato ratão.

E assim, ao contrário do conto de fadas, todos viveram infelizes e reprimidos para sempre.

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Friday, July 17, 2015

Angústia do tempo












Angústia do tempo



Giovani saiu do prédio do “Instituto de Inovação Genética”, nos arredores de Zurique, e ligou seu carro. Era um daqueles sem motorista, portanto tinha tempo de olhar mais uma vez no computador os detalhes de seu plano de “reestruturação genética”. Passara quase dois dias pelo processo. Poderia, agora,  viver mais de 150 anos. Deu um sorriso indefinido. Era quase noite e as luzes azuis dos modernos conjuntos habitacionais reverberavam na neblina tênue que cobria a paisagem. Ele sabia que, na verdade, viveria mais de duzentos. Por motivos legais eles colocavam no contrato o mínimo de 150. Só com o avanço normal da ciência e da medicina, muita gente já alcançava essa idade. Por outro lado, ultimamente tinha lido muito sobre o que chamavam “angústia do tempo”, uma expressão mal traduzida do alemão. Apesar do enorme aparato de entretenimento, passatempo e tudo mais que as novas tecnologias ofereciam, havia aquele pavor do tédio. A certa altura parece que você já fez tudo, principalmente numa sociedade em que as coisas  já vêm prontas para você, nada precisa ser conquistado. Giovani tinha apenas 27 anos e, lá no fundo, desconfiava que já tinha dentro de si a sementinha da “angústia do tempo”. Talvez por isso seu sorriso era “indefinido”. Indefinido como seu futuro, suas aspirações.  Olhou de novo para a neblina azulada e tentou pensar em outra coisa.  Era o primeiro dia de dezembro de 2060.


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Sunday, July 12, 2015

A Criação: o Sétimo Dia


A Criação: o Sétimo Dia



No princípio o homem era só uma célula. Isso foi há bilhões de anos atrás. Foi a primeira etapa.
Aquilo era um pouco sem graça, então a célula se desenvolveu e, sem pressa, ficou complexa, evoluindo para a forma de peixes, répteis, insetos, anfíbios, dinossauros e finalmente mamíferos.
Depois, há 65 milhões de anos atrás, os pobres dinossauros desapareceram, por causa de um asteroide desastrado que não sabia navegar e acabou estacionando em um local proibido: a península de Yucatán. Esse foi o triste fim da segunda etapa.
Há 200 mil anos atrás a gente começou a ficar com a cara da gente, mas acho que você não vai querer, agora, se parecer com a cara que a gente tinha então. Foi a terceira etapa.
Os humanos começaram a ficar mais ousados. Começaram a ter certeza que eram melhores que os outros. Viajaram pelo mundo, se espalharam. Haviam começado com ferramentas simples, feitas de pedra, depois se sofisticaram. Já sabiam fazer catapultas e outras coisas mais. Pegaram um gostinho pelas guerras, passaram a se organizar, falar línguas diversas. Acho que alguns tinham até partidos políticos. Foi essa a quarta etapa.
Chegou uma hora em que o Criador inicial – agora nós criamos também - achou melhor dar uma conferida em tudo, pois as coisas estavam indo de um tal jeito que já era para se preocupar. Fez umas regras novas, avisou todo mundo para ter cuidado e depois se foi. Alguns acham que não foi ele que fez isso. Falam que foi o Maomé, o Buda, etc. A gente tem de respeitar a opinião dos outros.
O fato é que depois disso foi uma correria. Muita coisa aconteceu. Aprenderam a fazer livros, fazer regras, elaborar. Organizaram a Terra e o Universo dentro de regras bem claras. Parece que tudo ia bem. As coisas estavam se comportando de acordo os estatutos da Ciência que o homem escreveu. Alguns pequenos e insignificantes detalhes não se encaixavam. Coisa mínima. Um dia, além de tudo que já sabiam, aprenderam a voar. Era a quinta etapa.
Estavam um pouco aborrecidos, sem nada o que fazer, parece que tudo já havia sido descoberto. Então resolveram fazer duas guerras grandes, daquelas de arrepiar. Só para variar.  Um estrago danado. Daí, é claro, começaram a refazer tudo, tim-tim por tim-tim. Começaram a pensar melhor em tudo. Inclusive naquelas coisinhas que não se encaixavam na Ciência. Tem gente que não pode sossegar. Cutuca daqui, cutuca dali e fizeram a tal da Física Quântica. Uma coisa doida. Junto com ela começaram a fazer uns aparelhos doidos, conseguiram até ir para a Lua. Agora, estão pensando em Marte. Nem vou contar dos outros aparelhos que saíram por aí, até para fora do sistema solar.  Falam até em coisas esquisitas como... Eu não queria falar, mas tem gente que acha que o nosso mundo nem existe, é tudo imaginação, um negócio virtual, que não tem nada a ver com virtude, que por sinal se tornou coisa rara. Outros falam que tem outros mundos e que a Maria desse nosso mundo pode existir num outro. Não sei se lá ela se chama Maria Segunda ou Airam, ao contrário. Talvez “Mariah” faça mais sentido. Enfim, acabaram até com a indivisibilidade do átomo, dizendo que ele pode ser picado muito mais, em pedacinhos tão pequenos, tão pequenos, que nem sei... É o fim da picada!
Enfim, a coisa está muito complicada. Estão até falando que o Criador vai vir de novo para dar um jeito nessas coisas. De qualquer forma, essa é a sexta etapa, nem sei quando terminou, se é que já terminou.
A sétima etapa era para a gente descansar, parar com tudo isso, parar com essa loucura. Não é no sétimo dia que a gente descansa? Até Ele descansou!
Entretanto, não sei não. Esse povo não está com jeito de parar. Nem com furacão, nem com terremoto, nem com tsunami. Asteroides? Nem com isso eles se importam. Por isso que ainda não estamos na sétima etapa e, para dizer a verdade, eu nem sei se ela vai chegar. Essa turma não quer dar uma folga.
Quero dizer, não é todo mundo. Tem gente que está descansando desde o dia em que nasceu... Eles já começaram no sétimo dia!

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Saturday, July 11, 2015

Era uma vez um poeta



Era uma vez um poeta

Era uma vez um poeta
que parou de fazer poesia.
Perdeu a graça da vida,
ficou em dívida com a palavra,
ficou em dúvida com a poesia.
O que é um poeta sem poemas?
Um história sem tema?
Um matemático sem teoremas?
Um linguista sem semantemas?
Um médico sem pacientes,
um profeta impaciente?
O poeta que parou de poetar,
está agora, lá fora,
no jardim de sua casa,
plantando flores.
Será então, que agora

resolveu fazer poesia concreta?


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