Tuesday, September 4, 2012

O Espelho


O Espelho
“Então, ouvi o número dos que foram selados,
que era cento e quarenta e quatro mil,
de todas as tribos dos filhos de Israel:”
(Apocalipse 7:4)

Meu nome é Steve Sanders. Minha família sempre viveu numa pequena cidade na parte central dos EUA. Só recentemente mudei para Nova Iorque. Existem coisas que meu pai, falecido, me contou e que meu avô, relutantemente, me confirmou antes de morrer. Aparentemente esses fatos ocorridos no ano de 1937 e que meu avô presenciou, realmente marcaram as pessoas da pequena localidade. Ao contrário do que normalmente acontece, todos queriam esquecer, ninguém queria que eles entrassem para a história local.
Tudo começou com um homem que apareceu sem mais nem menos na praça da cidade no meio do mês de setembro daquele fatídico ano. Nunca ninguém soube seu nome porque ele nunca revelou. Aliás, ele nunca falou nada. Inspirava, entretanto, um ar de autoridade que certamente impediu os habitantes de exigirem qualquer informação. Tinha barba e bigode grisalhos, usava um belo terno, certamente confecção fina, um chapéu comum na época, mas certamente de alguma marca boa. Mas tudo isso era irrelevante. O que havia de estranho era que o elegante homem trazia consigo – imaginem – um espelho. Este tinha uma moldura de madeira trabalhada, cerca de 1 metro de largura e 1,80 m  de altura. No primeiro dia chegou-se a pensar que o distinto visitante era um comerciante e que estava ali a exibir sua mercadoria. No entanto não havia preço escrito em nenhum lugar e o dito cujo nada falava, só sorria. O fato de ele ser amigável de imediato afastou qualquer suspeita de algo errôneo ou maléfico. Como era natural, as pessoas automaticamente se olhavam no espelho assim que se aproximavam do ponto onde ele se instalara. As crianças e os adolescentes achavam graça e vinham mais de uma vez ver sua imagem refletida. Os adultos também vinham mas com um certo receio. Disfarçadamente também olhavam sua imagem. Um ou outro dirigia a palavra ao estranho que entretanto jamais respondia. Entretanto olhava com simpatia para seu interlocutor e invariavelmente ensaiava um sorriso.
 Especulou-se que talvez fosse um mágico que mais tarde viria para a cidade e estaria ali fazendo seu “marketing”, atiçando a curiosidade das pessoas. Dos boatos todos esse foi inicialmente o mais forte e que se espalhou rapidamente.  O dia seguinte se encarregou de desfazer essa primeira impressão. Isto aconteceu através da Sra. Jenkins que ao mesmo tempo botou na rua um monte de outras  conjeturas. Ela chegou logo de manhã e o senhor misterioso não estava mais na praça. Ela andara bastante para ver o espelho – uma vizinha havia lhe contado a história – e ficou um pouco decepcionada. Começou a voltar para casa quando viu, de repente, o misterioso espelho e seu portador numa rua distante três quadras do primeiro local. Não teve dúvidas. Parou e depois de falar algo para ele, procurou ver o reflexo de sua imagem . O que aconteceu a seguir é algo difícil de se descrever. Segundo meu avô, havia várias versões, mas a mais comum falava que a sra. Jenkins foi tomada de um pavor quase indiscritível e, agitadamente, tentava escrever algo na palma da mão com a caneta que tirara da bolsa. Depois, sem falar nada com ninguém, saiu em caminhada frenética de volta para casa. Em vão os vizinhos e outros amigos tentaram descobrir o que ela havia visto no espelho, o que a assustara tanto. Não ficou muda mas se recusava terminantemente a falar sobre o assunto. Mas as atenções logo se desviaram dela. No mesmo dia mais 9 pessoas tiveram reações estranhas ao se mirarem no espelho, que, a essa altura, já estava sendo chamado de “espelho mágico”. O caso mais dramático foi do Sr. Griffin, que ficou com a pele completamente vermelha e começou a dar gargalhadas como um louco. No terceiro dia a quantidade de pessoas com reações estranhas aumentou muito. É bem verdade que a maioria dos curiosos não via nada mais do que o próprio corpo. Para alívio de todos, no dia seguinte, quem quer que tivesse sido afetado pelo “reflexo” ou não se lembrava do que ocorrera ou não queria se lembrar, mas todos estavam calmos e apresentavam uma paz fora do comum.

Após  uma semana e meia podia se dizer que todos da cidade haviam olhado para o espelho para ver se viam algo diferente. A curiosidade agora era sobre as anotações que as pessoas afetadas fizeram ou na própria mão ou em pedaços de papel. Era inacreditável, ninguém conseguiu achar uma só anotação. Era definitivamente um grande mistério. Por falar em mistérios, outro, bem grande, era como o senhor do espelho aparecia na cidade e como saia no fim da tarde. Apesar de ser uma cidade pequena com poucas ruas, nunca ninguém conseguia saber de onde ele viera e como ele tinha saído. Era como se todo mundo ficasse hipnotizado nesse momento. No décimo terceiro dia ele não apareceu. Houve reunião na prefeitura, no clube e em outros lugares. As hipóteses sobre o que ocorrera eram inúmeras. Um enviado de outro planeta para estudar seres humanos ou uma entidade demoníaca perscrutando as almas? O Sr. Reynolds, mais prático, achava que era apenas um “gozador” de uma cidade grande querendo ridicularizar os caipiras do interior do estado.
Mal começou a diminuir o interesse sobre o assunto quando todas as teorias caíram por terra. Não porque tivessem conseguido uma explicação, mas porque algo mais grave aconteceu. Alguns dias depois houve um reboliço na praça principal. Inúmeras relatos de desaparecimento de pessoas. Conforme as notícias iam chegando, o painel foi ficando claro: os desaparecidos eram exatamente aqueles que tiveram reações estranhas ao se olharem no espelho. Haviam sumido durante a noite: todos exatamente na mesma noite. Tentou-se contatar alguém que tivesse tido a experiência do reflexo para se tentar evitar o desparecimento, mas não havia mais ninguém. Fizeram a lista e a conta: 143 habitantes haviam se evaporado. Não havia respostas e o pavor era tão grande que nem mais as teorias estavam aparecendo. O que poderia ser feito? Avisar o governo do estado, avisar as autoridades federais? A  política naquela época já funcionava. Imediatamente os líderes da cidade pensaram como seria péssimo para a reputação local aquela publicidade. Hoje em dia seria difícil, com Internet e grandes redes de TV, esconder um fato de tamanha amplitude. Naquela época, entretanto, era mais difícil divulgar do que esconder. Além disso, quem iria acreditar? A cidade seria ridicularizada. Um conjunto de 11 líderes resolveu determinar sigilo absoluto sobre o assunto. Estava proibido inclusive passar a história para filhos e netos. Cortariam o mal pela raiz. Confiscaram e queimaram todas as edições do pequeno jornal local sobre a matéria. Recolheram as cópias de casa em casa. Na verdade alguém guardou um pequeno recorte. Não só isso, passou a sua versão dos fatos para os filhos e para os netos. Nada mais, nada menos que o Sr. Sanders, o meu avô.
Agora, só mais alguns detalhes e podemos terminar esta história. Alguém se lembrou de que o Sr. Porter morava longe da cidade, na zona rural, e ninguém ouvira falar dele, ninguém sabia se ele havia desaparecido. Afinal fora ele que desmaiara ao olhar sua própria imagem. Imediatamente uma comitiva de pelo menos 15 pessoas se dirigiu para lá. Não deu outra. A casa estava completamente abandonada. Agora todos tinham o número exato de vítimas: 144. Não sei se a palavra “vítima” é apropriada, mas é a que me ocorre no momento. Quanto ao número, nem me atrevo a fazer conjeturas, pois esse é um assunto muito delicado. Prefiro pensar que tudo não passa de uma simples coincidência e que os fatos não são fatos mas fruto da imaginação de meu avô. Quanto aos recortes do jornal, ainda não sei o que dizer, estou tentando arrumar uma explicação...

Thursday, August 23, 2012

Por onde andará Fred?


Por onde andará Fred?

“Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
(Chico Buarque- “Pedaço de Mim”)





Você nunca imagina que certas coisas –bizarras, trágicas – possam acontecer com você, pois elas só acontecem com os outros. Com Beth porém elas aconteceram. E ela era uma pessoa bem simples, moça do campo, com costumes e hábitos bem prosaicos e comuns.Vivia na zona rural de uma cidadezinha no interior de Iowa. O lugar era tão retirado e tão longe de tudo que, até mesmo se a pessoa quisesse, era difícil entrar em confusão. Mas sabe de uma coisa? O destino é cheio de surpresas, cheio de histórias e Beth entrou para a lista de pessoas que...Bem vamos aos fatos.
Beth e seu marido eram os pais de um garoto de 9 anos chamado Fred. Ele era um bom menino, especialmente se considerarmos  que vivia naquele fim de mundo. O único contato que ele tinha com o povo de fora – que não era tão “de fora” assim – era a escola. Para chegar até lá era uma dificuldade. Seus pais tinham de dirigir por uns quatro quilômetros só para alcançar um ponto onde o ônibus escolar passava. Ali se encontrava com outros alunos que também viviam na zona rural e então a condução chegava e levava todo mundo. Segundo os pais de Fred isto era absolutamente necessário pois, além da educação em si, ele precisava de pelo menos um pouco de contato com o mundo exterior.
No princípio as coisas iam bem, Beth e o marido trabalhando, fazendo as coisas do dia a dia. Dirigiam sua caminhonete pelas estradas da região, encontravam aqui e ali, moradores locais, andando ou guiando seus carros. Cumprimentavam a todos, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. A casa mais próxima à deles estava a cerca de cinco quilômetros. Entre outros, havia um senhor baixo, que os cumprimentava sem levantar a cabeça. Tinha um bigode, andava sempre ligeiro e usava um chapéu que, além da cabeça, usava para encobrir também o rosto. Dele o marido de Beth não gostava. Não havia motivo. Alguma intuição talvez, ou simplesmente porque ele não levantava a cabeça, parecia esquisito.
Quando tudo parecia melhorar, um pouco de dinheiro guardado do que produziam no sítio, o Fred fazendo amigos na escola, não é que de repente o marido morre, sem mais nem menos, de um ataque do coração? Parecia mentira, Beth não conseguia acreditar. O mundo de Fred parecia estar desmoronando. Mas, como se diz, o que não tem solução, solucionado está, e a esposa e filho, inconsoláveis, juntaram os pedaços da desgraça, fizeram as adaptações necessárias e continuaram a viver. Quando se vive isolado desse jeito, é muito mais difícil. O tempo todo as lembranças continuam a aparecer. Além de tudo, agora a Beth tinha de fazer o trabalho dela e o do marido. Tinha de se consolar e consolar o menino. Foi por isso que ela não pode acreditar quando a próxima tragédia aconteceu. Morrer, sabia ela, era parte da vida e um dia acontece para todos. Mas acontecer algo para seu menino Fred era algo insuportável. Além de ele ser a única razão dela existir, era apenas um menino, tinha toda a vida pela frente .Pois bem, aconteceu o que de pior poderia acontecer. Um dia, quando ela estava na estrada para ir buscar o menino no ponto de ônibus, vindo da escola, o pneu furou. Ela já estava acostumada com esse tipo de coisa, pois era “homem” e “mulher” da casa ao mesmo tempo e não demorou para trocá-lo. Mesmo assim uns quinze minutos se passaram e seu coração de mãe ficou apreensivo. Ela sabia que o menino ia ficar sozinho por algum tempo, pois todos os seus colegas saiam rápido dali e ela não tinha intimidade com nenhum outro pai ou mãe para socorrê-los numa situação dessas. Ela sabia que Fred ia ficar sozinho algum tempo e, pela lógica, não deveria haver problemas, mas a sua cabeça estava até latejando de preocupação. Também com a vida que estava tendo ultimamente não era para menos. Procurou se acalmar e racionalizar. Tentou pensar o que o garoto estaria pensando e foi acelerando com força. Algum tempo depois fez a última curva e, na distância, tentou avistar o seu filho. Não viu ninguém. Talvez estivesse um pouco para trás, escondido no meio das árvores. Chegou perto. Definitivamente não havia ninguém. Estava desesperada mas tentou se acalmar, tentou pensar. Quem sabe ele foi embora com algum colega? Não havia lógica, mas , quem sabe, no desespero de ficar sozinho...Lembrou-se então de que ele explicara onde era a casa de um de seus amigos, um daqueles que estava sempre ali no ponto. Ligou o carro e saiu voando. Não demorou vinte minutos e lá estava ela. A explicação de Fred tinha sido boa. Conversou com a mãe do outro aluno. Ela informou que, quando ela saiu de lá, Fred era o último, não havia mais ninguém. Insistiu para levá-lo para casa, ele não aceitou. Era bastante tímido, o Fred. Depois ofereceu a ele trazê-lo para a casa dela, deixariam um bilhete espetado na árvore para a Beth. Disse que não se preocupassem, que ele sabia que a mãe chegaria logo, tinha certeza. Era questão de minutos. No mesmo segundo as duas mães pensaram que o certo era ter esperado junto até a Beth chegar. Mas nenhuma das  duas ousou falar nada. A cabeça de Beth começou a girar. Pegou com a mãe do colega os endereços de quem costumava esperar no ponto. Foi de casa em casa, demorou mais de duas  horas. Sempre a mesma história, todos foram indo embora e Fred acabou ficando sozinho. A essa altura o coração começou a pesar como chumbo.Voltou até sua casa, quem sabe, ele teria andado pelo meio da mata para cortar caminho e já estaria em casa. Sua alma se encheu de esperança só para ficar frustrada mais uma vez. Era quase noite quando chegou ao posto policial no centro da cidade. Falou com os policiais, foram feitas anotações, dariam uma olhada no mesmo dia, mas investigações oficiais só no dia seguinte.
A escuridão da noite quase sem dormir oficializou a tragédia. Quando o filho definitivamente não dormiu em casa, a desgraça estava confirmada.  Ela já sabia, no fundo do coração, que algo horrível havia acontecido. A dor era tão grande que nem conseguiu sentir culpa por não ter ido mais cedo pegá-lo ou por não ter feito tudo de um jeito diferente.  Nos próximos dias, a velha rotina nesse tipo de casos. Depoimentos, entrevistas, até um helicóptero sobrevoou a região durante dois dias para ver se descobria algo. Nada. Estranhamente, às vezes ela se pegava pensando como o Fred ficaria excitado com o movimento, com aquele helicóptero para lá e para cá.
Dor desse tipo não vai embora nunca, mas  vai cicatrizando ou fica como uma brasa debaixo das cinzas, você não vê, mas continua queimando. O marido há um tempo atrás e agora o menino. Deus, pensou ela, não estava tendo dó dela mesmo. O que mais poderia acontecer? Ela morrer? Até que seria bom!
E não é que aconteceu outra desgraça? A Beth não morreu não, mas acabou matando alguém.  Estava guiando pela estrada, bem no meio de árvores altas dos dois lados, quando, do nada, alguém apareceu em frente a sua caminhonete. Aquele barulhão, ela ainda passou por cima do corpo. O veículo sendo alto e a vítima pequena, o atropelado foi parar embaixo. Sai desesperada do carro e reconhece a vítima. Nada mais nada menos do que aquele senhor que não levantava a cabeça para cumprimentar e de quem o marido não gostava muito mesmo sem conhecer. E agora o que fazer? Colocar o defunto em cima da caçamba não era uma opção, além disso de que adiantaria? Ele já estava morto. Provavelmente isso, de qualquer forma não pudesse ser feito, pois era um evidência, ela não poderia mudar a cena do atropelamento. Deixou passar um tempo, recuperou-se parcialmente. Cobriu o pobre homem com alguns arbustos, sinalizou a estrada como pode, e dirigiu-se para a polícia. Foi pensando que desta vez Deus exagerou. Depois disso tudo ainda a transformou em uma criminosa. Daí seu pensamento começou a voltar para o ocorrido. Voltou bem clara para sua mente a imagem. O homenzinho saiu da floresta, parou um pouco na beirada, olhou para ela – como nunca havia feito antes – e deu dois passos bem em cima da hora, quando não daria mais para brecar. Foi suicídio. Estava tão claro. Não, ela não estava se enganando. Lembrou-se vividamente da imagem. Parou bem em frente do posto policial. Saiu do veículo e, ao invés de entrar lá, entrou numa mercearia do outro lado da rua. Agindo como se fosse uma máquina, um robô, comprou algumas coisas e voltou para casa, evitando passar no local do acidente. Você sabe como é a mente humana, muita desgraça junta, o cérebro arruma algum jeito de se enganar. Assim ela conseguiu passar umas semanas. Por incrível que pareça, não sentia culpa. Era como se, mesmo tendo cometido um crime, já tinha pago por ele antes, com a morte do marido e o desaparecimento do filho. Agora Deus tinha que dar um jeito, tinha aque fazer a contabilidade dele. Na dela, ela tinha certeza de que estava positiva.
Alguns meses depois ninguém mais falava do homem atropelado. Virou estatística, como dizem. A Beth lembrava-se dele frequentemente mas, para ser franco, não sentia culpa. No entanto começou a sonhar. Alguém batia à sua porta, ela ia atender e não havia ninguém. Depois começou a sonhar que, quando atendia, via só o vulto de alguém desaparecer no mato. Ela, entretanto, sabia quem era. Um dia, ela atendeu à porta – no sonho – e lá estava ele, o homenzinho de bigode. Pela primeira vez pode observar como era sua face com detalhes. Ele ficou lá parado, com cara de besta, não falou nada e foi embora. E assim fez inúmeras vezes. Até que um dia o sonho de Beth foi diferente. Ela estava dormindo – um sono leve – e percebeu que alguém tinha entrado na casa. Ela não sentiu medo. A pessoa chegou bem perto dela, no escuro , e sussurou umas palavras, umas explicações. Ela deu um pulo mas o homenzinho não estava lá, pois era apenas um sonho. Mas ela se lembrava detalhadamente de tudo o que ele dissera. Ele tinha dado explicações precisas de onde estava enterrado o corpo de seu filho.
Ela pensou, pensou e decidiu. Foi até a polícia e disse que tinha recebido um telefonema anônimo revelando o local. No dia seguinte três carros policiais, num deles a Beth, foram até o local. Era muito específico, não dava para errar. Para assombro de todos  lá estava o corpo decomposto do coitadinho. Beth desmaiou, foi levada para o hospital. Alguns dias depois fez um enterro decente para o filho e, de certa forma, a alma de Beth teve um pouco de paz após tanto tempo.
A figura do homenzinho, entretanto, não saía da cabeça da Beth e ela tinha uma suspeita terrível no coração. Com cuidado levantou toda a informação que conseguiu e obteve o endereço do homem que atropelara. Já sabia que ele vivia sozinho e que tinha uma velha caminhonete que raramente usava. Foi chegando ao local e viu que estava tudo abandonado. Os arbustos haviam crescido muito e escondiam praticamente o veículo. Logo atrás, havia uma garagem, separada da casa. Intuitivamente, dirigiu-se à mesma. Fez um pouco de esforço e conseguiu abrir a prota de madeira. No meio havia uma dessas mesas que se usa para fazer trabalhos de marcenaria. Viu algo em cima dela que a deixou petrificada. Lá estava, sem dúvida alguma, o boné que Fred usava para ir à escola. Chegou perto, pegou-o na mão e teve certeza. Havia uma mancha na aba, que ela pensou várias vezes em tirar mas não conseguira pois Fred estava sempre com ele na cabeça. Numa das pontas da mesa, uma mancha de sangue. Ela não quis ver mais nada. Ficou tudo claro para ela. O assassino num ato de remorso, se jogou na frente de seu carro. Nos seus sonhos, veio para tentar se redimir e pelo menos informar onde estava o corpo.
 Não dá para saber o que é verdade e o que é falso nesta história. Para Beth, no entanto, finalmente, veio um pouco de paz, de justiça e de redenção.

Friday, August 17, 2012

A Estátua sem Cabeça

Autor: Flávio Cruz







A Estátua sem Cabeça












Rafael era funcionário público de Serena.  A cidade era muito, muito pequena, e obviamente todos se conheciam.  Não havia o que fazer por lá e por isso fofocar era o esporte preferido. Havia até reuniões especiais com tal objetivo. Obviamente ninguém admitia  qual era a real meta dos encontros e nem precisava, pois era óbvio. A desculpa podia ser qualquer coisa: caridade, discussão sobre o rendimento escolar, poluição, limpeza,  enfim  não importava. Cinco minutos depois de iniciado o evento, começava um falatório sobre  todo mundo que não estava na reunião e também sobre quem estava, desde que estivesse na outra ponta da sala e não pudesse ouvir. Era uma verdadeira sem-vergonhice, uma falta de respeito.  Rafael nunca gostara dessa atitude e jamais participava. Quando alguém tentava falar algo, ele saía rapidinho. Havia até gente que não gostava dele por causa disso. Onde se viu, que arrogância não participar!
Realmente Rafael era diferente dos demais. Era inteligente, educado, culto e entendia um pouco de tudo: literatura, línguas, história, pintura, escultura. Seu trabalho na prefeitura era, no entanto,um trabalho normal de escritório.Por outro lado era vantagem para ele ter um emprego estável e foi por isso que se casou com sua linda noiva, que morava em uma cidade vizinha. A mulherada – não pense que os homens não fofocavam - sentia uma pequena esperança de que ela se juntasse às demais no esforço de bisbilhotar a vida do próximo. Engano. Ela seguiu os passos do marido. Só Deus sabe o que não estariam falando agora do casal. Ainda bem que eles não se interessavam em saber. Assim não se perturbavam.
Rafael e sua esposa Linda não participavam mas também não provocavam. As coisas iam andando relativamente bem até que um dia o prefeito anunciou que a cidade iria se voltar para suas raízes e, como primeiro passo, mandariam fazer uma estátua do fundador e a colocariam no centro da praça principal. Começaram a consultar preços de escultores. Era um absurdo. Imaginem que um deles pediu o equivalente a 40% de todo o orçamento da cidade para confeccionar o monumento. Daí começaram a consultar empresas que faziam essas estátuas de jardim. Ainda assim era muito caro. Foi aí então que um dos assessores do prefeito sugeriu falarem com o Rafael. Afinal, ele era metido nesses assuntos e havia um boato que ele andara confeccionando umas estatuetas em sua casa. Para surpresa de todos, Rafael aceitou a empreitada com muita alegria. O prefeito disse que ele poderia se ausentar do seu serviço normal para começar a trabalhar no projeto. Rafel agradeceu e disse que seria melhor trabalhar nos finais de semana. Afinal de contas não haveria uma crise municipal se a obra demorasse um pouco mais e não ficaria bem faltar ao trabalho. Ofereceram a ele o valor que tinha sido antes aprovado pelo Departamento de Finanças e que era um valor apreciável se considerarmos a receita da cidade. Rafael sabia que aquilo geraria falatório e disse então que ficaria satisfeito em ganhar por hora o mesmo que ganhava em suas horas normais de dias de semana na repartição.
Examinou as antigas fotos  do fazendeiro que tinha sido o iniciador daquela comunidade, fez desenhos, projetos e começou a trabalhar diretamente no local. Resolveu fazer a estátua de concreto, pois sabia que  não era um grande artista em pedra. Era um pequeno show todo final de semana. As pessoas ficavam ao redor olhando o moço trabalhar. Ele era meticuloso, tinha várias ferramentas e fazia tudo com muito capricho, cuidado e método. À noite, quando ia para casa, deixava tudo limpinho.
Dá para imaginar o que aquele povo ficava falando naquelas intermináveis horas dos sábados e domingos. Especulavam sobre o valor da obra, que favores especiais ele teria, etc., etc...Quando o assunto acalmava sempre vinha alguém com mais lenha. Não dava para calcular quanto ele ia ganhar, falou alguém da prefeitura. Claro, porque ele não sabia quantas horas iria durar. Mas a conclusão do povo era outra. O preço da obra era “incalculável”. A cidade iria à falência. E a esposa que nunca estava lá? Onde andava? Daí veio uma história ainda mais absurda. Disseram que a esposa do pobre Rafael estava “saindo” com o prefeito para agradecer a “fortuna” que ele iria receber pela obra de arte. A imaginação perniciosa do povo não tinha limites.
A estátua, indiferente a tudo, ia crescendo e ficando mais bonita e imponente. A paciência do Rafael, no entanto, estava terminando. Ouvia gracinhas o tempo todo, insinuações maldosas. Até bilhetes com a histórias mais escabrosas e mentirosas jogavam perto da estátua. Recebia cartas anônimas com coisas absurdas sobre ele e a esposa. O fato de ambos ficarem calados mais a excitação de tudo que estava acontecendo deixou um povo doentio mais doentio ainda. Rafael pensou em parar várias vezes. Sua consciência do dever e sua personalidade porém  o impediam de desistir. Mesmo quando o prefeito anunciou que ele estava trabalhando por um salário muito baixo – o mesmo que ganhava na prefeitura – os comentários não cessaram. Pelo contrário, até tomaram rumos piores.
Faltava só a cabeça da estátua. Rafael resolveu fazê-la no quintal de sua casa, pois teria mais tranquilidade e, além disso, iria usar uns moldes especiais. Obviamente isso gerou inúmeras outras fofocas.
Finalmente a cabeça ficou pronta. Havia um espigão de ferro que saía do pescoço da estátua. Era simplesmente enfiar a cabeça lá e pronto. Na segunda-feira Rafael não veio trabalhar na prefeitura. Nem na terça e nem na quarta. O prefeito ficou muito preocupado e foi até sua casa que era um pouco retirada do centro, num lugar isolado. Entrou pelo jardim e já foi percebendo algo estranho. Parecia tudo vazio. Havia um bilhete na porta. Dizia que a cabeça estava lá dentro. Realmente lá estava sobre a mesa da sala. Um envelope amarelo dizia:”instruções”. O que surpreendeu, no entanto, que havia mais do que simples instruções. Rafael deixava bem claro que o povo de Serena havia passado do limite. Que ele jamais voltaria para aquele “buraco”. Que agora eles teriam de fazer uma opção. Se a estátua ficasse sem a cabeça, nada aconteceria. Ou seja, a diária visão daquele solene pescoço nu apontando insolitamente para o céu azul seria a lembranca perpétua para o povo de Serena de como as pessoas lá eram mesquinhas, diminutas e pobres de espírito, ou até mesmo “sem cabeça”. A outra opção seria colocar a cabeça no lugar. Nesse caso, ele, Rafael, se sentia no direito de divulgar tudo que sabia sobre todos da cidade. Durante muito tempo colecionara informações a respeito de todos. Sua posição na repartição mais tudo que ouvira ali  por meses e anos davam-lhe substanciosa carga de informação. As pessoas nunca se preocuparam em tomar cuidado quando ele estava por perto, pois sabiam que ele não passaria adiante. Segundo o próprio Rafael, a única diferença era que o que ele tinha eram fatos, pessoas e casos reais, com prova e tudo e não simples fuxicos de comadres. Enviaria uma carta para todos, contando tudo de todos.Coisas horríveis.  Era uma coisa que o prefeito e  o povo tinham de decidir: com cabeça ou sem cabeça.
Foi assim que a cidade de Serena ficou, para vergonha geral,  com uma estátua sem cabeça para sempre no meio da praça. Até hoje lá está ela grandiosa, magnífica e ...decapitada!

Tuesday, August 14, 2012

A Dona Maria e a Eternidade


Autor: Flávio Cruz

A Dona Maria e a Eternidade

A Dona Maria, pouco antes de morrer, comoveu a todos. Não havia uma só pessoa que não gostasse dela. Ela era doce e suave. Não sofreu quase nada. Teve uma doença breve, o coração falhou e e ela se foi.
Na verdade, embora todos amassem a Maria, ninguém a conhecia por dentro. Era uma verdadeira selvagem. Quando moça, tinha aquelas ideias super liberais. Não tinha tabus nem preconceitos. Era, com certeza, uma das cabeças mais liberadas da sua época, pelo menos a sua volta. Estranhamente suas amigas e conhecidos nada sabiam a respeito. Ela não queria chocar ou envergonhar ninguém. Sabia como as pessoas se sentiam. Para que abalar aquelas cabecinhas todas, pensava ela, se do jeito que estava, estava todo mundo feliz? O tempo foi passando, ela se casou e nem seu marido nunca ficou sabendo de nada. Coitado do Armando, ela raciocinava, teria um enfarte se conhecesse metade de suas opiniões. Ele era feliz com ela desse jeito, para que mudar? E mais tempo se passou e vieram os netos. Nem quando eles ficaram jovens chegaram a ser tão “avançados” como ela. Mas ela nunca passava da quota certa para não escandalizar. Quem a conhecesse por dentro, entretanto, saberia que ela estava à frente de todos. E lá estava ela com aquela carinha festeira, sempre alegre, sempre disposta a tudo.
Assim foi que quando chegou a hora de partir, todos estavam torcendo por ela.Uns oravam, outros rezavam, cada um de acordo com sua fé. Certeza de que ela iria para o céu, todos tinham, era unanimidade. O que ninguém sabia era o que ela pensava a respeito da eternidade, do paraíso. Não era que ela não acreditasse em Deus ou coisa assim. Ela não acreditava no Deus das pessoas em geral. Para ela, Ele era mais sofisticado, mais grandioso, mais tudo. O mais próximo que alguém tinha chegado perto da sua concepção divina eram aqueles cientistas que ela vira um dia na televisão. Eles tinham descoberto aquelas partículas ultra, ultra pequenas e que vibravam o tempo todo, doidamente, dentro dos átomos. Aquilo sim podia ser uma coisa de Deus. Não gostava daquele Deus descrito por alguns que ficava agindo como se fosse a gente, fazendo coisas banais, sentindo sentimentos de homens e mulheres. Como sempre, não falava nada para ninguém, não queria ser arrogante, não queria humilhar os outros. Outra ideia muito diferente da Dona Maria era que ela não entendia por que as pessoas deduziam automaticamente que Deus existindo, nós seríamos imortais também e viveríamos para sempre.

E se Deus tivesse nos criado para viver só aqui na Terra?  Sabe, como uma experiência? Depois seria o nada.  Por que não? Não seria tão mau assim ficar sem saber, durante todo o infinito dos tempos, das desumanidades dos humanos. Ela achava o ser humano arrogante por pensar que teria direito à eternidade. Pode até ser mas...certeza ninguém tinha de nada. Você pode ter fé, aí é outra coisa, pensava consigo mesmo. Mas saber mesmo, ninguém sabia.
Bom, agora ela está lá do outro lado...ou não está? Como ela dizia, ninguém sabe. Uma coisa é certa, porém: aqui, neste mundo, a Dona Maria, ironicamente, de certa maneira virou eterna, ela que não acreditava na eternidade.  Ela ficou para sempre no coração de todos...

Saturday, August 11, 2012

Este é um país livre…


Este é um país livre…

Assim pensava Mike. Liberdade é a coisa mais importante coisa na vida de uma pessoa. Por isso achava estar no país certo. Precisava também livrar-se de tudo que significasse restrição, apego, etc...Assim é que não tinha família, nem casa, nada que pudesse restringir seus atos, seus movimentos. Já pensou o quanto uma esposa e filhos tiram de sua liberdade? Quanta coisa você deixa de fazer? Entretanto, precisava morar em algum lugar: o carro era sua casa. Um velho carro que não custara quase nada. Além disso, não percorria grandes distâncias. Ficava por ali...De manhã, acordava, procurava o 7 Eleven mais próximo, ia té o banheiro e fazia sua higiene pessoal na torneira. Ao contrário do que se possa pensar, era asseado e cuidadoso com suas roupas. Usava aquelas máquinas de lavar roupa e secadoras de moedas e mantinha toda sua vestimenta – claro, não era muita – impecável, dobrada e limpa. A sua refeição mais comum eram aqueles hambúrgueres de 99 centavos. O refrigerante ele não pagava. Era só pegar um copo do lixo – não era sujo como você pode estar pensando... -  ir até a máquina e pegar um “refil”. Gasolina? Fácil. Encostava o carro na bomba, “tentava” passar um velho cartão de crédito, que, claro, não funcionava mais, e fazer uma cara de contrariedade. Isso, sempre perto de uma senhora ou senhor daqueles que se “comovem” facilmente com o problema do próximo. Daí, explicava, que não entendia porque o cartão não estava funcionando. Ele precisava só de um galão de gasolina, ir até em casa pegar o talão de cheques e...O bom samaritano, sempre falava que não era necessário, que não se preocupasse, isso acontecia com todo mundo, etc..Geralmente colocavam mais de um galão e Mike andava mais um ou dois dias. Havia solução para tudo e, além disso, não teria de abdicar de sua liberdade trabalhando para um desses patrões exploradores.
Acontece que, como todos nós mortais sabemos, um dia a coisa aperta. E com Mike acontecia o mesmo. Principalmente porque ele, além de ter o hábito de fumar cigarros tradicionais, gostava de outros especiais. E isso custava dinheiro mesmo para homens livres como ele. Havia também sempre a possibilidade de o carro quebrar. Em situações como essas, ele fazia o sacrifício máximo de arrumar um emprego. Escolhia bem, não servia qualquer coisa. Trabalhava então umas longas três ou quatro semanas e pronto: tinha munição para mais dois ou três meses de “liberdade”.
Volta e meia algum policial – esses, definitivamente não têm a menor ideia do que seja a verdadeira liberdade – interpelava-o, queria saber o que estava fazendo ali, etc., etc....Mas era só isso. Nada mais interferia em sua vida. Afinal de contas, ele morava num país livre...e liberdade, como todos sabemos, é um conceito relativo.

Monday, August 6, 2012

O Sullivan apareceu em casa


O Sullivan apareceu em casa

Cheguei um pouco mais cedo em casa, estacionei e  me dirigi para a porta. Para minha absoluta surpresa havia um jovem sentado na soleira. Já fui  ficando zangado e me preparando para falar umas boas. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele deu um sorriso, estendeu a mão e falou:
-Eu sou o Sullivan, mas claro que você já me conhece...Você, eu sei muito bem quem é!
Fui pego de surpresa. Não tinha a menor ideia de quem era Sullivan.
-Sullivan?
-Claro, seu personagem, não se lembra?
-Personagem?
-Claro, você não escreve histórias?
-Sim, mas não me lembro de ter escrito nenhuma história com um personagem Sullivan...
-Este é exatamente o problema, vim aqui para reclamar.
Achei que era melhor ir para dentro. Essa conversa parecia coisa de louco. Não queria nem pensar na ideia de aparecer algum conhecido e começar a ouvir aquela conversa absurda. Como o “Sullivan” não parecia oferecer perigo, convidei-o para entrar.
Sentamo-nos no sofá e reiniciamos o diálogo. Pensei que talvez ele fosse um vendedor, que aquilo fosse uma e+
stratégia inovadora de marketing e sei lá...vamos ver.
-Sério que você não se lembra? Acho impossível. Você ficou mais de duas horas deitado na rede me “bolando”...O problema é que depois que você me completou, não escreveu história nenhuma, deixou-me vagando por aí como se fosse uma alma penada.
Finalmente eu me lembrei. Era verdade o que ele estava falando. Tinha decidido primeiro criar o personagem e depois criar a história, ao contrário do que fizera outras vezes. Depois acabei me esquecendo. Senti um calafrio, aquilo era impossível! Será que comentei com alguém as minhas ideias e esse alguém estava aprontando uma brincadeira comigo? Não, impossível, eu nunca comento esse tipo de coisa com ninguém.
-Eu sei que você se lembra. Assim como você sabe muita coisa sobre seus personagens, nós também sabemos sobre os escritores que nos criam. De qualquer forma, vim aqui para reclamar. Não se pode fazer isso. Fazer a personagem inteirinha, com roupas, aparência, pensamento e tudo mais e depois não nos dar uma história, um enredo. Eu me senti completamente desprezado e não tive outra alternativa senão vir até sua casa.
A história toda estava ficando tão surreal que não sabia o que fazer. Para ganhar tempo e tentar entender o que estava acontecendo, resolvi navegar na história completamente.
-E então?
Olhou com um olhar quase de súplica. Retruquei então meio ansioso:
- O que exatamente você quer de mim?
-Eu quero minha história. Uma história bonita, com emoção. Por favor, não me coloque nesses contos doidos de ficção científica. Veja bem, nós já não somos personagens de cinema ou de novela que todos consideram verdadeiros. No nosso caso, os leitores têm que usar a imaginação. Se você nos manda viajar em espaçonaves e, pior ainda, nos manda para mundos paralelos ou através de máquinas do tempo...sabe, ficamos mais irreais ainda. Além disso, não quero me transformar em subpartículas quânticas num desses relatos estranhos que você escreve. Quero uma história aqui na Terra, com vida e emoção. Pelo amor de Deus, nem pense em me dar essas personalidades doentias, gente esquisita que às vezes você inventa. Além disso, o pessoal está reclamando que tem muita personagem morrendo. Sabe, acidentes de carro? Você já me deixou por aí sem rumo, só falta me matar logo de cara num desses relatos.
Estava perplexo. Sullivan parecia tão real, tão convincente, nem de longe parecia um ser fictício. Estava para responder, quando ele continuou:
-Por falar nisso, a Ana Lúcia estava para vir comigo para reclamar, mas daí você a colocou numa história e tudo bem, não houve necessidade.
Ela até que ficou contente com a história, achou bonita. A única coisa que ela não gostou...
-Ana Lúcia?, interrompi.
-Sim, a Ana Lúcia. “A menina que andava nas nuvens”, não lembra? Você acabou de escrever.
Fiquei estupefato. Mesmo assim, perguntei:
-Você estava falando que ela não gostou de alguma coisa...
-Ah, sim. Ela disse que no conto inteiro ela falou uma só palavra:”Pronto”. Ela achou meio estranho. Mas do enredo ela gostou sim, achou comovente.
-Ainda bem, que eu escrevi aquela história com muito carinho.
Ia continuar falando sobre aquele conto, quando a campainha tocou. Tremi de medo só de pensar que poderia ser outro personagem. Já pensou se a mania pega e todos eles começam a aparecer aqui em casa? E aqueles que morreram, então. Nossa, era só essa que faltava. Abri a porta e não havia ninguém. Olhei para os lados e nada. Talvez algum garoto brincando, sei lá. Voltei-me para continuar a conversa mas o Sullivan não estava mais lá. Olhei nos quartos, no resto da sala.
Eu não sei se foi tudo minha imaginação, mas o Sullivan parecia tão real, muito mais real que algumas pessoas de verdade que conheço. Só para garantir, vou tentar inventar uma história para ele. Não custa nada e não acho uma boa ele ficar aparecendo aqui em casa para reclamar...

Saturday, August 4, 2012

O Reencontro


O Reencontro














O Seu Horácio andava meio triste e deprimido. Nada mais tinha graça para ele. Afinal, a sua querida Rita havia falecido há algum tempo e as coisas não faziam mais sentido. Nem no trabalho e muito menos em casa. Naquele dia, então, ele estava ainda mais para baixo do que qualquer outra ocasião. Chegou em casa à noite, naquele vazio, e mergulhou na sua solidão. Tentou se recompor, tomou um banho, preparou uma refeição leve – que saudades das coisas que ela fazia – e foi dormir.
Daí, então ele sonhou. Sonhou um sonho diferente. Que tinha morrido e que tinha ido para o céu. Assim, sem mais nem menos. Foi entrando, parecia um velho conhecido de todos. Foi andando, andando e olhando para todas aquelas faces celestiais. Estava, na verdade, procurando a sua Rita.
De manhã, Helena, sua filha, telefonou para ele. Não houve resposta. Ela achou esquisito, e como morava perto, resolveu dar uma passada para conferir se estava tudo bem. Tocou a campainha e ninguém respondeu. Pegou a chave que estava debaixo do capacho e entrou. Teve um sobressalto quando viu o corpo inerte do pai na cama. Após se refazer viu que ele tinha um sorriso suave e gostoso na face. Como poucas vezes vira antes. Imediatamente ela entendeu o que havia acontecido: finalmente, após dois anos, o Seu Horácio havia reencontrado a Dona Rita.