Tuesday, July 28, 2020

Minha dor nem é tão forte






Minha dor nem é tão forte

Minha dor nem é tão forte assim,
já que muitos a compartilham comigo...
Alguns por pensarem como eu,
outros por odiarem o que penso...
Minha parte na dor é pequena,
talvez devesse ser muito maior...
Há aqueles que têm dor tão imensa,
que nem têm mais vontade de falar.
São tão fracos, humildes e sofridos,
que nem têm mais força para gritar...
Já sofreram tanto e de tantas formas,
que já nem sabem como é ficar, 
assim, vivo, sem ter o que sofrer.
Se você tem religião, ore por eles...
Se você é ateu, proteste bastante,
Que protestar é uma forma de oração...

Monday, July 13, 2020

Que vai ser de mim?



Que vai ser de mim?

Que barulho é esse?
Que multidão é essa?
Que conflito é esse?
Que traição é essa?
Que monstros são esses?
Que sombras são essas?
Não sei, não sei...
Estava meditando,
estava absorto na minha luz,
estava vivendo em meus sonhos,
estava fugindo de tudo...
Agora, que estou desperto,
que vai ser de mim?

Tuesday, July 7, 2020

Um minipoema sobre o Amor





Um minipoema sobre o Amor

Se você ama o corpo de uma mulher,
esse amor vai durar muito tempo...
Se você ama o sorriso de uma mulher,
esse amor vai durar mais ainda...
Se você, no entanto, ama a alma de uma mulher...
ah, esse amor vai ser para sempre!

Sunday, June 7, 2020

Mãe, mulher





Mãe, mulher

A mãe estendia a toalha
A mãe botava os pratos na mesa
A mãe distribuía os talheres
A mãe olhava a gente comer
A mãe perguntava se estava bom
A mãe via a gente sair
A mãe mandava tomar cuidado
A mãe via a gente voltar
A mãe perguntava da gente
A mãe cismava com nosso cismar
A mãe não queria a gente doente
A mãe não queria nosso sofrer
A mãe era pura poesia
A mãe era santa, era anjo
A mãe era uma mulher....

Friday, June 5, 2020

Meus alunos da oitava série





Meus alunos da oitava série

Faz tanto tempo, acho que nem é oitava mais. Mesmo essa oitava um dia tinha sido a quarta série do Ginasial. Alguém deve estar se perguntando, por que os alunos da oitava e não da sétima, da sexta...? Bem, na verdade, os alunos são os mesmos e eles passaram por todas antes de chegar à oitava e é deles que quero falar.
Mas vamos ao que interessa. A oitava era uma série muito especial para um professor de Português. Era nela que aprendíamos (professor sempre aprende junto...) Linguagem Figurada. Uma delícia. Nem sei se ainda isso é assunto nas aulas de Português. Tomara que seja! Navegar pelas sutilezas da língua, suas várias camadas de significado, sentir todo seu potencial.
E como aqueles queridos alunos eram bons! Quase todos tinham uma habilidade enorme em identificar metáforas, hipérboles, metonímias, ironias... Eu me lembro até agora de suas carinhas de prazer ao dizer o nome certo da figura: “É metáfora, professor!”
Embora tudo isso seja bonito, ainda não é aí que quero chegar. Para identificar o sentido conotativo de uma palavra ou de uma frase, você precisa saber antes o significado inicial. Ou seja, você precisa saber interpretar um texto. E não é o que mais falta hoje?
Por isso tenho um orgulho enorme de todos os meus alunos dessa época. E, embora, talvez eles não se lembrem mais daqueles nomes esquisitos das figuras, com certeza sabem entender o que leem, tanto no sentido denotativo como no conotativo. E eu tenho certeza de que, pelo pouco que vejo deles por aí, que eles fazem uma diferença enorme nessa época absurda que estamos vivendo.
Só estou escrevendo essa crônica para que, se um deles estiver lendo, saiba que a sua presença é notada por mim e, certamente, por muitos outros. E, saibam que vocês, como todas as outras pessoas de boa vontade no mundo, é que estão “segurando a barra” (aí está uma figura de linguagem...) nesse caos do novo milênio. Parabéns, eu admiro vocês e de todos tenho muito orgulho!

Saturday, May 30, 2020

A macabra história dos mortos pelo COVID19 em Nova Iorque




A macabra história dos mortos pelo COVID19 em Nova Iorque
                                                                                                         
 “Fazemos isso pelos vivos!”

Você já deve ter visto um funeral americano num dos filmes a que você assistiu. Esqueça essa cena, por um momento, e saiba o que realmente está acontecendo. Em NY, seres humanos estão morrendo às centenas e alguém precisa fazer a busca e resgate dos corpos. Há pessoas que morrem nas vielas, sem socorro. Há outros que morrem em casas de repouso, em hospitais. E a situação mais triste e penosa é quando as pessoas morrem sozinhas, em suas casas, em seus apartamentos.
Às vezes passam dias ou até semanas até que algum vizinho sinta o mau cheiro por causa da decomposição. As pessoas não saem de suas residências por causa da quarentena numa cidade onde normalmente não se sabe quem é o vizinho. O pessoal de resgate tem que fazer o difícil trabalho de tirar o corpo em decomposição e, às vezes, levá-lo pelas escadas até o térreo. É muito comum vizinhos espiarem horrorizados de suas janelas o triste espetáculo. São colocados em plásticos pretos e levados para um grande terminal perto da Estátua da Liberdade. Há três grandes instalações,  cada uma do tamanho de um campo de futebol americano onde os corpos são colocados em carros frigoríficos. Esses foram modificados para poderem abrigar mais “unidades”: construíram mais prateleiras de madeira em cada um.
Vem agora a parte mais macabra. Depois de identificados - nem todos são – algum parente é chamado. O mais “paradoxalmente” felizes são os que têm família que contrata um agente funeral. Esses, vão passando pelos trailers refrigerados para apanhar seus “clientes” que não poderão ser vistos pela família. Vão em fila, em horas marcadas, “Leigos” não podem entrar no lugar. Muita gente não tem dinheiro para o funeral e, junto com os não identificados, vão para uma ilha, onde deverão ser enterrados por presos.
Mesmo quando você tem capacidade de enfrentar financeiramente a situação, ainda assim há dificuldades homéricas. As casas funerárias não têm capacidade para receber mais corpos. Não atendem mais telefone e até fecham a entrada principal, não tem mais espaço para manter os defuntos em suas instalações. Um caos.
Um oficial da cidade, Frank DePaolo, encarregado da operação, quando perguntado como ele estava vendo e vivendo esse episódio horrível, disse: Nós não estamos fazendo isso pelos mortos, estamos fazendo isso pelos vivos. (“We don’t do this work for the dead, we do it for the living.”)
Estamos falando de Nova Iorque, uma das cidades mais ricas do mundo. Fico imaginando se nossa cidade, São Paulo, tiver de enfrentar algo assim.

O artigo “We do it for the living!” está no link abaixo para quem quer ver o original em Inglês.


Friday, May 29, 2020

Vamos adiar nossos sonhos





Vamos adiar nossos sonhos

Vamos adiar nossos sonhos,
vamos cuidar do presente!
E com muito cuidado,
puros, seguros, trancados,
num cofre vamos guardá-los.
E quando a tragédia passar,
vamos, felizes, reabri-los,
e vivos, agradecidos,
vamos então reparti-los,
com a família, os amigos,
e também com todos aqueles,
que não podem mais sonhar...


                               Flávio Cruz