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Thursday, February 7, 2013

O Trem da morte


O Trem da morte

Estava olhando e não acreditava. Estava paralisado de terror. Havia corpos no meio dos trilhos, de um e de outro lado da estrada-de-ferro também. Um corpo sem vida eu já vira antes, embora a gente nunca se acostume com isso. Mas ali...Havia membros decepados, rostos desfigurados, havia partes humanas por todos os lados. No meio do arbustos, por entre as pedras que sustentam os trilhos. No entanto o que machucou mesmo o coração foi quando eu vi, no meio da carnificina, livros e cardernos dilacerados, marmitas, bolsas, objetos pessoais. Não eram as coisas em si, era o fato de elas estarem ali, junto com a morte, espalhadas pelo chão. Era a prova de que a vida havia sido cortada, exterminada. À noite, no curso noturno, aquela garota não abriu o livro. O trabalhador também não abriu a marmita na hora dpo almoço.
De repente, para acabar de destruir meu coração, vejo numa mão separada do corpo, uma aliança. Daquelas grossas, que se usavam antigamente. Um casamento que não ia mais acontecer, um filho que não ia mais nascer, um amor que não mais ia se realizar.
Uma hora antes, a composição de passageiros que estava quebrada em Caieiras, acabou sendo consertada por um mecânico da estrada de ferro que estava passando na outra linha. Antes, porém, havia sido pedido socorro para Perus, que mandou uma locomotiva diesel com pessoal para consertar a composição na mesma linha. Já consertada, ela partiu, sem saber, de encontro à locomotiva. Essa destruiu os primeiros vagões, causando várias mortes e inúmeros feridos.
Era a manhã do dia 21 de março de 1969. Havia acordado com um burburinho vindo da rua. Fui ver, falaram do acidente. Corri para lá para ver o que não queria ver, o que não era para ser visto. Nesse dia era melhor ter ficado dormindo, sem saber de nada...

Saturday, December 1, 2012

O dono do cinema


O dono do cinema
Faz muito tempo. Com certeza eu tinha menos de dez anos. Estava lá na ponta do morro. Uma ladeira chocante despencava diante de nós e caía lá na praça. Era feita de paralelepípedos. Por falar nisso, nunca entendi porque deram um nome tão complicado para uma coisa tão simples: paralelepípedos. Especialmente porque quem tinha de falar, eram pessoas simples também. Mistérios linguísticos, paralelepípedos.  Pois bem, o senhor, cujo nome graças a Deus eu não me lembro,  estava preocupado. Eu sabia que ele era o dono do cinema, uma coisa muito importante. Naquela época, nada era mais importante dos que os filmes que a gente via aos domingos. Seu olhar se estendia até a praça. Do outro lado da praça estava a estrada de ferro, a gloriosa Santos a Jundiaí. O trem acabara de  apontar do lado direito. Ele deveria parar ali, na estação de Perus, e depois prosseguiria até São Paulo. Foi aí que o “fulano” – o dono do cinema - falou comigo e apontou uma mulher magra que começava a atravessar a praça em direção ao trem que se aproximava. Estendeu-me um envelope e disse que eu teria de alcançar a mulher e lhe entregar o envelope antes que ela pegasse o trem. Uma missão impossível, eu sabia, mas criança adora o impossível, especialmente se o prêmio for um ingresso para a matinê.


Não tive dúvidas. Voei morro abaixo. Os paralelepípedos desapareciam sob meus pés. O lógico era eu ter caído e rolado morro abaixo, mas, como você sabe, as crianças de então eram indestrutíveis. Eu não sabia que podia ser tão veloz. Ainda consegui, com a cara encostada na tela de arame da estação, chamar pela dona...cujo nome não me lembro também. Ela não ouviu e entrou no trem. Respirei fundo, decepcionado e triste,  juntei as minhas forças infantis e comecei a subir de volta o famoso Morro de São Jorge, ou a ladeira do Cartório. Era óbvio que não daria para eu alcançar a dona. Era uma missão impossível, como já falei. Eu esperava que o fulano – ainda bem que não me lembro de seu nome – iria entender o meu desvairado esforço e me dar o ingresso: afinal dei tudo de mim naquela empreitada. Para ele um ingresso não custava nada. Para mim era tudo. Para minha lógica infantil, aquilo era óbvio. Fazia sentido. E daí eu tive a minha maior decepção com um adulto até então. O fulano resmungou uns palavrões e me deixou ali sozinho na ponta do morro. Eu sabia que ele não devia fazer aquilo. Fiquei triste e chocado, mas aprendi uma coisa:  existem pessoas que, definitivamente, não têm coração. Por outro lado, aquilo me fortaleceu para a vida. E bem feito: mais tarde ele precisou vender o cinema. Isso mesmo, pessoas assim não merecem ter um cinema, lugar de sonhos, de fantasia...Imagina só, não combina...