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Friday, August 26, 2016

A dúvida do papa


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A dúvida do papa


Por dentro, ele era um iluminista, obcecado por novas ideias, por uma nova visão do mundo. Por fora, um fervoroso homem da religião, crente em Deus e apegado à tradição da Igreja. Sofria muito com a dualidade. Seu cérebro se fundia em conflito, em desespero.
Se isso não fosse suficiente, se já não bastasse toda essa tortura, ele foi escolhido para Sumo Pontífice. A grandeza do posto, a importância da situação, por um tempo curto, o imunizaram das dúvidas cruéis sobre a própria fé. Sua esperança de clarear suas incertezas  teológicas e outras mais, agora se baseava no fato de que teria acesso a documentos aos quais antes não tinha. Documentos secretos do Vaticano. Que mistérios haveria lá?
Assim que o turbilhão da posse passou, mergulhou em todos os papéis por tantos séculos guardados. Estudou, estudou.  Aprendeu coisas importantes sobre a tradição religiosa, sobre tudo aquilo em que se baseava sua crença. Entretanto, o novo conhecimento, ao invés de aumentar sua fé, abriu ainda questões mais dolorosas. Se ele não fosse o papa, certamente teria abandonado sua religião. Mas não podia. Ele era a autoridade máxima.
Foi por isso que, assim que se abriram as portas que davam para a sacada além da qual o esperava uma plateia enorme, um povo fiel  e sequioso, ele avançou, resoluto, e fez o sermão mais fervoroso, mais animado e mais inspirado de sua vida.

 Afinal de contas, ele era o papa.

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Thursday, June 9, 2016

O segredo do menino

O segredo do menino



Não havia mais nada o que fazer. As chamas já estavam bem altas, o fogo era incontrolável. Os bombeiros pareciam inertes, as pessoas olhavam incrédulas e assustadas para a velha igreja que ardia num incêndio incontrolável. Era começo de noite e aquela luz vermelha iluminava o rosto das pessoas, as paredes brancas das casas vizinhas e tudo que estava próximo. Muitos estavam simplesmente mudos diante do espetáculo, outros choravam baixinho, uns poucos falavam alto. Conversas paralelas tentavam atinar com as causas do incidente. Falavam em velas acidentalmente caídas sobre os bancos de madeira, falavam sobre fios elétricos velhos e descascados. Até em coisa do demônio se falava.
De repente, alguém perguntou sobre o padre. Ninguém sabia dele. Alguém comentou que na casa paroquial a dois blocos dali, ele não estava. Ninguém o tinha visto mais desde a hora do almoço, quando ele tinha saído da casa para a igreja. Meu Deus, será que ele estava lá? Alguém comentou que era impossível ele ter ficado preso lá dentro. O fogo começou calmo, teria tido tempo de sair.
De repente, quando todos começaram a se agitar diante da possibilidade de ele estar lá dentro, o teto ruiu. Logo a seguir, a pequena torre e o sino também cederam para o lado de dentro. Ficaram aquelas quatro paredes com a imensa fogueira dentro delas. Parecia um inferno.
Quietinho, escondido, o Lico olhava por entre uns arbustos. As labaredas rubro-amarelas se espelhavam dentro de seus olhos brilhantes. Havia uma mistura de medo e alívio, de culpa e justiça, estampada em seu rosto infantil. Assim que ouviu o estrondo do sino ruindo para dentro, junto com a cruz e a torre, levantou-se sorrateiramente e foi andando por uma rua paralela. Estava vazia, todos estavam ocupados em ver o incêndio. Ele foi andando, sozinho, sem olhar para trás.
Dali para frente sua vida mudaria. Aquele era seu segredo, seu segredo de menino.


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