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Saturday, October 13, 2018

Os mortos que voavam vivos



Os mortos que voavam vivos
(ou “O que vocês fizeram, hermanos?”)

Com algumas diferenças de datas, nossos “hermanos” uruguaios, argentinos e chilenos, tiveram suas ditaduras. Todas militares, é claro.Todas tinham presos politicos, é claro.Todas torturavam na escuridão, é claro.
É claro, também, que foi uma época de sombras, de medo e de terror. Alguns nem sabiam, eram a grande massa alheia, sem nome, sem opinião. As massas são sempre assim, são fáceis de levar. Nossos mortos, os brasileiros,  acabavam em diversos lugares. Um deles ficou famoso, o Cemitério Dom Bosco de Perus. Coitado do santo. Como podem dar um nome assim, para um lugar assim? Que Deus os perdoe.
Nossos irmãos argentinos, colegas de ditadura e de tortura, sempre quiseram ser  melhores do que a gente. Em tudo, até nisso. Por isso, criaram os “voos da morte”. Juntavam militantes já mortos com outros ainda vivos e voavam. Uns com algemas e dopados, outros em sacos plásticos. Os aviões decolavam, voavam sobre o Atlântico, e jogavam os corpos. Alguns deles foram mais tarde parar nas praias do Uruguai, irreconhecíveis.
É assim que se constroem grandes nações. Era assim que os inimigos da ditadura voavam. Os pilotos sobrevoavam, então, o Rio da Prata, leves, sem pecado.
Nem sei por que a gente fica falando dessas coisas. Ninguém se lembra de mais nada...









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Thursday, October 11, 2018

Pessoas jogadas do céu e crianças roubadas





Pessoas jogadas  do céu e crianças roubadas

Imaginem uma república hipotética, onde os militares tomaram o poder e instalaram uma feroz ditadura. Imaginem, ainda hipoteticamente, que habitantes dessa nação resolveram discordar da maneira como eles estavam conduzindo o governo. Ainda, tudo supostamente, os ditadores resolveram calar essas bocas dissidentes.
Mas eles não se calavam. Continuavam a reclamar dos desmandos e do autoritarismo do novo governo. Imaginem só! O que fazer com gente que não para de reclamar, de protestar? Torturá-los, matá-los? Quem sabe jogá-los lá do alto, de um avião, sobre o mar?
E se houvesse também mulheres protestando? E se elas estivessem grávidas? Será possível - tudo, ainda, no campo da pura imaginação – que os detentores do poder seriam capazes de matá-las? Isso mesmo, as mães, logo depois do parto? Arrancarem delas seus filhos e entregarem a casais militares, em segredo?
Será que as pessoas que gostam de “governos fortes”, autoritários, achariam esse um bom governo? Que tipo de nação seriam esses homens capazes de construir? Uma nação baseada na tortura, em assassinatos, em sequestro de crianças?
Eu acho impossível ter havido uma nação assim. Roubando crianças de seus pais, jogando os que protestam de aviões para afundarem no mar?
Mas houve. Foi o que a  Argentina fez de 1976 a 1983. Provavelmente muito mais do que isso. Muitas daquelas crianças procuram, ainda hoje, descobrir quem foram seus pais. Muitos avós procuram seus netos, enraizados, sem saber, em outras estranhas famílias. Parece um pesadelo, mas foi verdade.
Se eu acreditasse em maldição, eu diria que é por isso que até agora eles não conseguiram se estabilizar, formar um país forte, uma grande nação. Mas eu não acredito.

Talvez apenas uma pura e maldita coincidência...

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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)







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