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Saturday, September 17, 2016

A Lucy caiu da árvore



A Lucy caiu da árvore

A Lucy caiu da árvore e não me pergunte o que ela estava fazendo lá em cima. Coitada, quebrou vários ossos, sofreu feridas internas e acabou morrendo. Esta é a palavra dos especialistas.
Para quem não conhece a distinta senhora, ela é uma Australopithecus afarensis e viveu há mais de 3,18 milhões de anos. A querida Lucy não é nada mais, nada menos, do que uma de nossas antepassadas, e bota “ante” nisso aí. A respeito do que ela estava fazendo por ocasião do terrível acidente, minha primeira hipótese é de que ela estava verificando a extensa paisagem para ter certeza de que nenhum predador estava chegando. Muito nobre, cuidando de seus filhos. Talvez, também bastante nobre, estivesse colhendo frutos para poder propiciar uma dieta saudável para a família.
Alguns duvidam desta teoria - de que ela caiu da árvore - e dizem ser impossível fazer esta afirmação. Eu, porém, acredito nos cientistas. Sempre gostei deles e acho que, quando falam alguma coisa, baseiam-se em bastante pesquisa. É claro que, por outro lado, pode-se dizer que é uma afirmação audaciosa. Não queria fazer trocadilhos, mas “macacos me mordam”, esses especialistas vão mesmo a fundo nas pesquisas. Por outro lado, aqui também se aplica a expressão “cada macaco no seu galho”. Os cientistas fazem ciência e nós, pobres cronistas, apenas escrevemos histórias.
No fundo mesmo, o que me preocupa é que existem pobres coitados que acabaram de morrer e ninguém sabe qual foi o motivo. Na verdade, ninguém ficou sequer sabendo que eles morreram. Dependendo do local, mesmo sem ser cientista, eu diria que foi por causa de uma bala perdida ou de uma briga.
A Lucy não tinha celular, nem Facebook, nada disso. A danadinha, no entanto, conseguiu, mais de 3 milhões de anos depois, ter mais cliques na Internet que muita “Kardashian” por aí...


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À procura de Lucas


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Wednesday, June 20, 2012

Uma vez mais, eu te amo…


Uma vez mais, eu te amo…

Ronald acelerou suavemente seu carro quando o sinal abriu. Ouviu então aquele ruido sinistro de um outro carro tentando brecar e…
Cinco dias depois ainda estava no hospital e, pela primeira vez depois do acidente, abriu levemente os olhos. Viu apenas vultos, saindo e entrando...Mas estava tudo muito silencioso. As pessoas falavam mas as vozes não saíam de suas bocas. Dormiu de novo e acordou já no dia seguinte, mas isso ele não sabia. Via melhor agora. Tanto é que sabia que quem estava ali em pé, ao lado de sua cama era um médico. Dizia o seu crachá: Dr. Kalwinsky ou algo assim. O doutor estava tentando falar com ele. Ele não conseguia ouvir mas entendeu quase tudo. Podia ler seus lábios. Dizia que sua cabeça estava com sérios problemas. Haveria consequências, mas ele sobreviveria...Ronald tentou então perguntar sobre Lucy. Onde estava? Estava bem? Mas as palavras não saíam.
Lembrou-se então de que na fração de segundo antes de receber a pancada do outro carro, pensara que era muito azar Lucy estar daquele lado. Era  melhor se ele estivesse ali. Apagou este mau pensamento da cabeça e dormiu, dormiu bastante, sem sonhos, sem nada.
Ronald não sabia mais há quanto tempo estava ali na cama, mas sabia que era muito. O mesmo doutor estava ali, a sua frente de novo. Podia dessa vez ouvir, muito baixo, o que ele estava falando. O médico mencionara que ele constantemente chamava por Lucy, a esposa. Tinha de confessar que infelizmente, ela não tinha conseguido. Sentia muito.  Ronald não queria acreditar nele, aquilo era uma mentira. Por que mentir para ele, ele que estava ali na cama? Não quis ouvir mais e dormiu de novo.
Quando acordou na vez seguinte, lembrou-se que sempre acreditara na força do pensamento. Tinha amigos que acreditavam também. Tinha visto coisas. Mesmo quando algo já tinha acontecido, você podia mudá-lo com a força mental. O tempo não existe, é apenas uma referência para nosso cérebro. Ele tinha uma tática. Voltou com sua mente para os momentos que viveram antes de sair de casa. Ele pegando as chaves e ela pegando a bolsa. Estavam saindo para as compras. Lembrou-se dos detalhes. Pensou de novo e desta vez falou para Lucy que não queria mais fazer compras. Iriam mais tarde, naquele momento iriam mexer no jardim. Lucy ficou um pouco contrariada, não estava entendendo. O exercício mental foi um esforço muito grande para Ronald e ele adormeceu. Acordou mais vezes no mesmo dia e cada vez tentava convencer Lucy para não sair de carro. Finalmente ela concordou e disse qualquer coisa como “Se é isso que você quer...”
Nos próximos dias Ronald foi elaborando sua história. Detalhes, muitos detalhes. Pegando as ferramentas de jardim, mexendo na terra...Cuidar do jardim primeiro, compras depois. Viu Lucy sorrir várias vezes, ele gostava, como ela,  de mexer com plantas. Cada pequeno gesto estava sendo elaborado, caprichado, refeito na mente de Ronald. Ele nem se lembrava mais do acidente. Nada havia acontecido, eles não tinham nem saído. Lucy sorria e ele também .
As enfermeiras notaram que cada vez Ronald sorria mais. Sorria quando estava dormindo e quando estava acordado. Suzane, sua irmã, que o visitava constantemente, também notou. Era um sorriso de felicidade. Convincente, que inspirava paz.
Um dia, finalmente, Ronald viu Lucy entrar no quarto. Era ela e desta vez muito mais real que qualquer outra vez. Sorria o seu sorriso suave e lindo de sempre. Essa Lucy...Ele sabia que iria trazê-la de volta. Ali estava ela, carne e osso, real...Sentou-se a seu lado, passou a mão pelos seus cabelos. Com a outra acariciou seus dedos. E sorria...Ronald apertou seus dedos só para garantir, conhecia muito bem a textura da pele dela. Ronald pensou, se alguém não acreditava que ele era capaz de fazer o que fez, ali estava a resposta. As duas enfermeiras e mais uma visita que ele não estava reconhecendo, eram testemunhas visuais. A sua Lucy estava ali, na frente de todos.
O que estava acontecendo no quarto de hospital entretanto era outra coisa.
Era uma cena até bonita, pensou a enfermeira mais velha. Ficou  emocionada de ver ali, o paciente Ronald, que agora já era um velho conhecido, segurando a mão de sua irmã Suzane. A outra enfermeira pensou como seria bom ter  um irmão como Ronald, que gostasse dela da mesma maneira.
O corpo de Ronald melhorou mas seu cérebro nunca voltou. Ele estava sempre com aquele sorriso nos lábios, sempre conversando com a Lucy. Foi internado numa instituição. Lá, logo todos se acostumaram com ele. Volta e meia estava segurando a mão de uma enfermeira ou de uma paciente, chamando-as de Lucy e sorrindo.  Muitas vezes falava:  “Eu te amo.” Ele se cuidava bem, se barbeava, tomava banhos constantes. Afinal de contas, Lucy era exigente nesse aspecto.
Alguns tinham pena dele, outros achavam que ele era feliz. Sabe de uma coisa? Eu acho que ele era feliz. E digo mais, acho que a Lucy era feliz também. Acho até que ela estava sorrindo...