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Saturday, August 19, 2017

Internet, lendas e mitos


Internet, lendas e mitos



Há decadas atrás, a informação seguia um árduo caminho até chegar ao seu ponto final. Os jornais precisavam  mandar repórteres ao local, escrever a matéria, revisar, passar por todo o processo de impressão e, depois de tudo isso, ainda distribuir o jornal. Os rádios e as TVs também precisavam de pessoal de campo para colher o material e preparar a redação final. No processo, a notícia já nã era mais a mesma notícia, as coisas tinham evoluído ou perdido a importância inicial. Para preencher os vazios e a lentidão, o povo criava mitos, fantasias, falsas análises. Para corrigi-los depois, era muito difícil. Certamente temos hoje, por causa disso, várias versões de fatos, até históricos, que não são necessariamente acurados.
Agora tudo mudou. Qualquer um é repórter tirando fotos com seu celular, no exato momento do acontecimento. As correções e atualizações também são imediatas. Os órgãos de imprensa precisam usar estas fontes, pois se forem esperar por seu pessoal chegar o lugar do acontecimento, vão perder o “momento”. Claro, os profissionais ainda precisam ir até os locais dos fatos para fazerem uma cobertura mais sofisticada, mais profissional. Mas as “manchetes” não podem esperar, qualquer um pode ser a fonte. Além disso, não é necessária uma grande estrutura para gerar notícias. Certas pessoas, por sua fama ou por habilidade, acabam sendo fornecedores de material. Basicamente, todo mundo é repórter, todo mundo tem algo para falar. Qualquer um pode tuitar.
É nesse ponto que as coisas se complicam. Muitas fontes, muitas pessoas falando e escrevendo o que querem. Muitos, muitos mesmo, não resistem. Inventam “fatos”, criam “manchetes”, aparecem com novidades falsas de  todos os tipos, em todo lugar. Muita gente querendo ficar famosa, aparecer. Transformam o que viram. Ironicamente, neste aspecto de confiabilidade, voltamos para a mesma situação de décadas atrás. Muita mentira, muita notícia falsa, texto falso, fotos falsas e vídeos falsos também. A única diferença é que agora, essas lendas, essas falsidades, esses mitos, foram multiplicados por mil. Melhor dizendo, mil vezes mil...

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Monday, November 9, 2015

Antigas sintonias e sonhos de uma nova era

Antigas sintonias e sonhos de uma nova era



Examinava com atenção aquelas lâmpadas estranhas, de vários tamanhos, com aqueles araminhos incandescentes. Tentava descobrir seus segredos e seus mistérios. Havia também aquele cordão fino que se enrolava em duas roldanas, uma em cada lado da caixa. E havia outras coisas, enigmáticas, fascinantes, que eu não conseguia entender. Na frente do aparelho, do lado direito superior, havia uma pequena circunferência e, dentro dela, havia uma luzinha verde que escurecia e clareava, alternadamente. Tremeluzia. Na parte de baixo, um painel de vidro, onde estavam faixas escritas com números e pequenas letras. Ondas longas, médias, e curtas. E eu olhava lá dentro, excitado, tentando descobrir seu significado. E aquela caixa falava e cantava. Às vezes, a voz parecia distante, quase sumia. Ruídos indefinidos, indecifráveis, se misturavam com as canções que eu ouvia e com os relatos daqueles homens com timbres graves, vindo de não sei onde.
Esse era o pequeno aparelho de rádio que minha mãe ligava toda manhã, enquanto arrumava a casa. Era um daqueles bem antigos, como não existem mais. As lâmpadas estranhas eram as válvulas e as roldanas com um cordão era o dial das estações. Eu aprendi depois, que as ondas curtas eram exatamente as que vinham de longe, de outros países, ou de remotos cantos do Brasil. Sempre tentei entender por que as chamavam de “curtas”. Talvez por virem da distância, se misturassem com outros ruídos, tentando achar seu caminho pelos céus, para, depois de longa jornada, aterrissarem ali no nosso pequeno receptor. Encurtando distâncias?
Era só magia. E não era só isso, havia outras tantas surpresas para as crianças de nosso tempo. E nossas cabeças viajavam, em êxtase, por esse mundo fantástico, delicioso, sem fronteiras.
Depois, com o tempo, a vida e os adultos foram nos explicando como as coisas funcionam. Os segredos sumiram, e tudo ficou claro, mas ao mesmo tempo insípido e sem vida. Substituíram por plástico a graciosa madeira envernizada e demitiram aquelas válvulas pomposas. No lugar, circuitos e placas, sem graça e que mal se podem ver.
Nossos corações e nossas cabeças de adulto ficam agora, então, procurando esta graça perdida em outras coisas de nossa existência, mas ela não está mais lá. Ficou perdida para sempre no passado, como um tesouro que não podemos mais resgatar, e do qual podemos vagamente nos lembrar.

Hoje, vejo meninos e meninas com tanta explicação para tudo na vida, logo nos primeiros anos da infância. Sabem de tudo. Será que não lhes estão roubando a oportunidade de descobrir, de adivinhar? Ou será que é como deve ser? Seriam assim os sonhos e as sintonias da nova era?


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