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Sunday, January 24, 2016

São Paulo de Bartira



São Paulo de Bartira

São Paulo, minha cidade,
não sei se és meu pai,
se és minha mãe.
Só sei que temos o mesmo DNA,
não há como negar.
Por que me deixaste,
ou fui eu quem te deixou?
Sou um distante filho de Bartira,
a índia de Ramalho.
Vem, portanto, me resgatar,
estou chorando de saudades,
mas também tenho medo de ti.
Tenho medo que me vicies,
que me engulas de vez,
em teu ventre fascinante,
belo, envolvente.
Cidade assustadora, insensível,
sussurrando segredos
que não quero ouvir.
Só sei que é um amor insensato,
esse amor que sinto por ti
e que sentes por mim.

Um pouco de história:


                *************
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Thursday, October 29, 2015

Prioridades (Revendo a velha cidade)



Prioridades (Revendo a velha cidade)

Tanto tempo sem ver a amada cidade, finalmente eu estava lá. A imponente São Paulo, toda cheia de si e de suas antigas contrariedades. Já tinham me avisado que não havia mais propagandas, para eu não estranhar. Gostei, assim deu para ver melhor sua alma. Falaram até para eu tomar cuidado nas ruas, como sempre falam, mas que nada. Deixei cair uma nota de 20 reais e, de repente, alguém me chamou e veio correndo devolver.
Vi as bicicletas para alugar, as novas linhas de metrô, uma exposição cultural no Centro Cultural Banco do Brasil, tudo coisa de muito se admirar. Ouvi palavras novas como “cadeirante” e outras tantas e tentei me acostumar. Tomei cafezinho e descobri que, agora, que charme, vem junto um copinho com água gaseificada! Foi bom, muito bom. Tudo isso é extra, pois o mais importante foi ver pelo menos algumas das pessoas amadas.

Estava me esquecendo. Descobri que, agora, sou “prioritário”. Com mais de sessenta, existe um monte de coisa que a gente pode fazer antes dos outros (deve ser para compensar as coisas que não podemos fazer por causa da idade.) Fiquei pensando muito sobre isso. Quem diria, hein, eu, prioritário...

 ===(((()))===


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Friday, April 5, 2013

O mundo em equilíbrio


O mundo em equilíbrio



Numa rua de Chicago, o rapaz da gang atira em alguém. No mesmo momento, alguém em Miami ajuda a se levantar uma velhinha que havia caído. No Rio, outra bala, desavisada,  do pessoal das drogas, acaba atingindo quem não deve. Em Americana, São Paulo, o rapaz avisa o homem que sua carteira havia caído no chão. Enquanto em Berlim alguém segura o braço do apressado que ia ser atropelado pelo  ônibus, no Afeganistão o fuzil do soldado mata mais que o soldado inimigo. Junto uma criança morre. Em uma grande metrópole alguém rouba um banco, enquanto outro alguém que pode, noutra metrópole, dá uma enorme quantia de dinheiro para a caridade. Na repartição alguém de mau humor faz cara feia e dá uma resposta atravessada, enquanto no exato mesmo segundo, um senhor acompanha um desconhecido, que não conhece a cidade, até a esquina para mostrar o prédio para o qual ele tem de ir. De uma lado, a mão estendida, de outro um punhal nas costas. 

Assim vai o mundo se equilibrando, fragilmente, sutilmente.Compensando,aqui e ali.
Uma coisa só, pequenina, de ruim, pode desequilibrar tudo. O braço da balança pode ir, de repente e abruptamente, para o outro lado. Quem vai ser o responsável?

Tuesday, March 26, 2013

A cidade grande


A cidade grande

O Duda estava assustado. Pensando bem, não sei se essa ideia de vir para São Paulo, a cidade grande, era mesmo uma boa. Ele tinha terminado o segundo grau e o pai falou o que tinha de falar. Ou faz faculdade ou vai trabalhar. Coisa de estudar não era com ele não. Veio capengando desde o primeiro ano primário, aquilo era uma tortura só. Qualquer outra coisa estava bem. Negociar, trabalhar duro, organizar...Mas ficar ali, enfiado em livros, aquilo era um suplício.
Deu uma de macho  e disse que era capaz de se virar sozinho, trabalhar e montar negócio, crescer e ganhar mais do que qualquer doutor. Não tinha medo de enfrentar a vida. E a cidadezinha onde viviam era muito pequena para tudo o que ele queria fazer. São Paulo, sim. Isso era coisa de homem de negócios, coisa de gente grande. O pai ainda tentou, pelo menos, arrumar uns contatos em São Paulo, lugar para ficar, pelo menos até ele se estabilizar. O Duda, entretanto, falou que não era preciso, sabia se virar.
Desceu na rodoviária, pegou um táxi e foi para um hotel. Só depois ficou sabendo, estava bem no meio da “boca”. Foi uma noite de cão. Não conseguiu dormir. Não pensem que o Duda fosse cheio de histórias. Não. Estava acostumado a um monte de coisas difíceis, dureza. Já dormira no mato inúmeras vezes, caçando ou acampando. O negócio ali era diferente, Não era só a feiúra, o jeito das coisas. Ali tinha coisa ruim, era coisa de espírito. Ele sabia, podia sentir.
No dia seguinte saiu de manhã, começou a andar pelas ruas, procurar. Tentou pedir emprego em dois ou três lugares, sem sucesso. As coisas que ele sabia fazer não eram as coisas que as firmas queriam que ele fizesse. Bateu uma depressão no coitado, uma coisa que ele nunca tinha sentido antes. Além disso bateu uma solidão em seu peito, algo que ele nem suspeitava que pudesse existir. De repente deu uma saudade de todo mundo lá do interior, até de quem ele não gostava.



Aguentou mais dois dias, mas foi só para disfarçar. Por ele teria voltado no minuto em que chegou. Precisava de uma desculpa, agora ele tinha. Não havia emprego, a coisa estava difícil. Quando chegou de volta, ninguém ousou comentar nada. Todo mundo apoiou, todo mundo ficou feliz.
O Duda viu a cidade pelo ângulo errado. Tinha tanta coisa bonita para ele ver, tanto emprego que ele podia ter, tanta gente bacana para ele conhecer. Ficou assustado antes da hora. Até lá na zona, se ele olhasse com cuidado, com bastante jeito, ele podia ver alguma coisa boa, alguma perspectiva interessante, sempre existe alguma coisa...
Eu contei essa história só para dizer que isso às vezes acontece na vida. Há gente que passa a vida inteira sem conseguir ver o lado certo, a parte cheia de luz.  Há gente que não consegue ouvir a música que está escondida nos ruídos, o sussurro suave que há no meio dos gritos, o poema que está escrito em códigos, por trás da notícia sangrenta do jornal. E, daí, ficam sempre rodando, rodando...