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Wednesday, December 27, 2017

Sobre o Amor e outras coisas



Sobre o  Amor e outras coisas
Poetas, seresteiros, namorados, correi 
É chegada a hora de escrever e cantar 

Talvez as derradeiras noites de luar 
(Lunik 9, Gilberto Gil)

O amor e outros sentimentos sempre foram objeto do estudo humano. Muito antigamente eram coisas simbolizadas por deuses e havia um deles para cada sentimento.  Palavras como “Eros” e “Vênus”, relacionadas com a mais importantes emoções humanas ainda estão por aqui para provar sua característica eterna. A palavra “venérea” (de Vênus), por ironia, deboche ou zombaria por parte da língua, acabou vindo junto no vocabulário. Não importa, tudo na vida tem uma dupla face. O tempo passou e vieram os tempos pré-modernos e os estudiosos começaram a analisar os sentimentos como mais humanos do que divinos até se chegar à época da psicologia e psicanálise modernas. Essas disciplinas tiraram um pouco da graça do assunto de tanto que explicaram como tudo funciona em nossa cabeça. O amor até foi chamado por outros nomes para ser melhor explicado. Não sou especialista no assunto, mas sei que o nobre amor foi dissecado, repartido, exibido numa relação de causa-efeito, tudo dentro de uma rede de determinismo, fatalismo e muitos outros “ismos”. A gente se conforma com isso e na hora de amar nem pensa nessas explicações todas, pois, convenhamos, perde a graça. Quem quer dar um beijo na amada, pensando em Freud, por mais que “ele explique”.  Já tínhamos nos conformado com esse “amor desnudo” – não é isso que quero dizer, se for isso o que você está pensando – quando mais recentemente, vieram com mais uma. A medicina moderna acabou se metendo na história e começou a também explicar o amor. Para ela o funcionamento pode ser analisado e definido através de um conjunto de neurônios com cargas elétricas, química do cérebro, sei lá mais o quê... Logo, logo, vão vir com uma fórmula matemática. E vocês jovens apaixonados ou que estão para se apaixonar, não se empolguem. Não é nenhuma fórmula para conseguir a paixão de outra pessoa. É fórmula mesmo, números, parênteses e colchetes e tudo que se usa nesse tipo de coisas. Não seria melhor se fosse tudo apenas uma equação, sem solução? Graças a Deus os poetas não acreditam nessas bobagens da ciência e dão, como Vinicius, sua própria definição: “Para viver um grande amor perfeito... É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.” Ou ainda do mesmo querido poeta: “Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure...” Podemos ainda cantar com Maria Bethânia : “Eu não vou negar que sou louco por você, estou maluco pra lhe ver, Eu não vou negar...”
Quanto ao ódio, concordo. Que façam uma análise detalhada, refinada, definitiva e científica. Que achem uma cura pois é uma doença. Quem façam um mapa genético e retirem do nosso DNA. Que façam uma cirurgia e tirem de nosso cérebro. Que façam psicanálise, e se necessário, uma “simpatia”, e tirem de nosso coração. Que aqueles que têm fé, orem e rezem bastante e definitivamente o apaguem nossas almas.

Infelizmente não podemos ter dois pesos e duas medidas e o rancor vai ser estudado junto com o amor pelos cientistas. Para consolo, no entanto, ouvi dizer que o ódio envelhece e o amor não. Sim, tenho certeza de que não envelhece e não é só isso: às vezes, depois de muito tempo, ele ainda rejuvenesce um pouco. Por isso, digo: “nada mais gostoso do que um amor antigo...”

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O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Wednesday, February 18, 2015

O Raimundo está pensando



O Raimundo está pensando

Raimundo era muito quieto. Ficava sozinho, por horas, pensando. Outras poucas vezes, estava alegre e conversava, e contava piadas. Em que pensava o Raimundo nas horas de quietude? Vinha uma avalanche de pensamentos, palavras, imagens. Às vezes tinham sentido, conexão, às vezes não. Só uma torrente de palavras loucas, sem nexo. Naquela manhã, se pudéssemos transcrever o que estava passando em sua mente, teríamos algo assim:
-Estou na boleia do trem contemplando o pôr do sol em Vênus. Comigo estão almas que não conheço. Me apaixono por uma que está atrás de mim, mas não posso ver seu rosto. O café que tomei de manhã, na esquina de minha casa, queimou minha língua. Pus groselha para tirar a dor. E a bebida me deixou leve, inspirado. Por isso, agora estou voando, em baixa altura, para meu trabalho. Vejo todos de cima. A rainha da Finlândia me espera lá para um encontro. Vai dar uma solução para meu casamento.
E assim ia, numa torrente. Ainda bem que não falava nada em voz alta. Iriam achar que não batia bem. Mas será que não somos todos assim? Quando pensamos sozinhos, pensamos coisas sem sentido também, como o Raimundo faz? Se pensamos, não confessamos.
Na manhã de domingo, Raimundo acordou diferente. Estava pensando nos anéis de Saturno. Via aviões da Varig no meio deles, tentando acertar a rota. Vez ou outra uma pequena pedra batia em suas asas e tirava um pedaço. Raimundo podia ver o piloto, desesperado, acenando através da janela, pedindo socorro. Foi daí que percebeu que ele também estava num pequeno avião. Era um jatinho, transparente, feito de vidro, mas que resistia a tudo. O ar, porém estava acabando.
Foi daí que Raimundo mudou. Naquele exato momento. Sentiu que precisava falar, se expressar, pedir socorro. Caso contrário, iria morrer sufocado dentro do avião de vidro. Era o mesmo problema do piloto da Varig: ninguém o ouvia.
Assim foi que, de repente, Raimundo começou a falar em voz alta, sem parar, pedir socorro, dizer tudo que lhe vinha a mente. Percebeu que a família, todos os seus, começaram a olhar para ele com estranheza. Horas mais tarde levaram-no para ver  um médico. De lá mesmo foi transportado para um hospital diferente. E fizeram exames e mais exames. E lá ficou para sempre. Seu caso não tinha cura.
Por que esse Raimundo tinha de abrir a boca? A maior parte das coisas não se diz para ninguém. Boca fechada.
Se o Raimundo tivesse ficado quieto, estaria vivendo uma vida normal como todos nós e não num hospício. Todos nós, que também pensamos besteiras e doidices o tempo todo e os que não pensam nada. Estaríamos todos juntos, vivendo felizes. Poderia, até, ter uma vida feliz, o Raimundo.

Raimundo, Raimundo... Ao contrário do que diz o poeta, você poderia rimar com o mundo, calando-se, seria mais que uma simples rima, seria uma solução. Provisória, pelo menos.

oooooOOOooooo

Estranhas Histórias
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