Saturday, April 12, 2014

Palavras


Há palavras tão doces, que, quando enunciadas, podem curar tudo: a alma e o corpo. Há palavras duras, que poderiam ter sido evitadas. Há outras duras também, que, ainda assim, precisam ser faladas. Há palavras falsas que envenenam, de modo irreparável, o espírito e o coração. Há palavras difíceis que, uma vez pronunciadas, trazem alívio sem igual. Há palavras fáceis, às quais ninguém dá valor. Há palavras certas que, faladas porém na hora errada, são muito daninhas e não podem mais ser desmentidas. Há as palavras soltas e que acabam caindo no ouvido errado. Há as palavras presas dentro do peito e que não conseguem sair. Elas corroem por dentro, machucam e cortam como navalha.

Há, por outro lado, as palavras que não precisam ser faladas. Estão escritas na face, no olhar. Para lê-las, entretanto, você precisa conhecer uma linguagem que a poucos pertence: a linguagem do silêncio...


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Sunday, April 6, 2014

Paraíba do Sul



Eu tinha dez anos de idade e não sabia ao certo o que estava acontecendo. Só sabia que viajava, veloz, no banco de um trem da Central do Brasil rumo a Lavrinhas, Estado de São Paulo, quase divisa com o Rio e divisa certa com Minas Gerais. O destino era o Colégio São Manuel, um seminário salesiano. Fiquei lá apenas um ano, era muito longe. Meus pais me transferiram para São Roque, muito mais perto da capital.
Recentemente, tentei achar fotos ou filmes, tentei me lembrar dessa época distante, por volta do ano 1960.
Finalmente encontrei um vídeo interessante, que mostrava as dependências da instituição. Ele mostrava o local aos poucos e eu tentava ajustar a memória. Parecia vagamente familiar, mas nenhuma lembrança perfeita acontecia. Os vitrais da capela, bem coloridos, chegaram a atiçar meu cérebro. Só me lembrei exatamente de um lugar quando chegamos ao dormitório. Ainda não me recordava de nada específico. Até que, finalmente, vi aqueles velhos armários de madeira ao lado de cada cama. São truques da memória que a gente não entende. Pude ver – numa volta ao passado - as poucas peças de roupa, as sandálias e meu par de sapatos, tudo arrumadinho, como tinha de ser, em cada divisão.
Do lado de fora, o vídeo não me mostrava nada conhecido. Entretanto, eu me lembrei das grandes magueiras esparramando mangas pelo chão. Mas a imagem mais forte, a que pareço estar vendo ainda hoje, é a do Rio Paraíba do Sul que passava no fundo da propriedade. Suas águas caudalosas, fortes, correndo pesadas pelo meio da cidade, bem ao lado do seminário. A maior parte do tempo eram escuras ou barrentas, nada se podia ver.
Eu olhava para aquelas águas em tumulto, uma torrente sem controle, levando tudo. Sentia um medo vago, indistinto, do futuro. O rio estava me ensinando que não tínhamos controle de nada. Podíamos agitar os braços, gritar, chorar. No fim, ele nos levava para onde queria. Éramos crianças, não tínhamos controle de nossas vidas. Mais tarde aprenderia que, uma vez adultos, teríamos a sensação de estarmos no comando, mas seria apenas uma ilusão.

Ele nunca me saiu da cabeça. Forte, insensível, bruto, tempestuoso. Controlando nosso destino, direcionando nossas vidas, nossas almas, tudo. Paraíba, Paraíba do Sul, torrente incontrolável, turbulenta. Para mim, símbolo claro, insano e doido de nosso fado, de nossa sorte...

Saturday, April 5, 2014

Onde está?



Nossas sondas espaciais passeiam pelo sistema solar e tiram fotos incríveis. Podemos ver detalhes do solo de Marte, podemos apreciar os anéis de Saturno e as luas de Júpiter. Tudo com uma precisão absoluta, fantástica. Fomos capazes de façanhas extraordinárias nestas últimas décadas.
E os nossos telescópios? E o Hubble? Fotografando berços de estrelas, planetas escondidos, galáxias perdidas? Sabemos onde há água, onde há gelo. Temos um mapa preciso da nossa Lua.
Mas o avião da Malaysia Airlines, por que não o achamos? Um avião enorme, bem aqui no nosso quintal? Talvez o conhecimento de nossos oceanos seja infinitamente menor do que o que temos do espaço sideral. Talvez nos interessemos pelo impossível, pelo que está longe, mais do que pela nossa própria casa . Talvez sejamos como o homem tolo que se apaixona pela mulher inatingível, distante, e não vê a beleza da mulher que está ao lado?
Por causa da história da aeronave que sumiu, uma coisa, porém, aprendemos sobre os oceanos. Descobrimos através das operações de resgate, que além de serem enormes e misteriosos, alguns deles, como o Índico, estão cheios de lixo, detritos e poluição. A ponto de pensarmos que eram escombros do aparelho. Como conseguimos tal façanha? Não se sabe, não se sabe...

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Friday, April 4, 2014

A batalha de Ryan, um soldado americano

A batalha de Ryan, um soldado americano



Ryan enfrentava combate de verdade pela segunda vez. Antes só havia sido treino. Agora era sério, granadas explodindo, barulho de saraivada de balas. Não queria arriscar mais do que o necessário, mas não tinha jeito. Não podia ficar ali abaixado na trincheira emquanto seus colegas estavam atirando quase o tempo todo.  Pela terceira vez levantou-se e mirou a metralhadora para o lado de onde vinham as rajadas inimigas e  ficou um bom tempo disparando.
Abaixou-se novamente porque o fogo inimigo aumentara muito. Foi aí que percebeu que, pelo menos três de seus colegas, estavam ensanguentados e inertes no chão. Haviam sido atingidos. Não havia nada que pudesse ser feito. Esperou um pouco, precisava ter certeza de que teria condições de atirar novamente. Estava com muito medo depois que descobriu que os companheiros estavam mortos.  Finalmente juntou coragem e força, e tentou se levantar. Foi então que percebeu que não conseguia. Passou a mão pelo rosto e percebeu que havia sangue. Talvez tivesse vindo dos outros soldados que tinham sido atingidos. Passou o braço direito pela face e pela testa. Havia muito sangue, estava aumentando agora. E era seu. Estava claro que vinha do lado direito de sua cabeça. Como não tinha percebido que estava ferido?
A fúria do combate aumentou. Ouviam-se claramente gemidos de dor, gritos de pavor. Mais pessoas haviam caído. Tudo tinha ficado vermelho. Começou a se lembrar de seu pai, de seus irmãos menores. Sentiu saudades de casa.
O som foi se dissipando. Embora estivesse de olhos fechados, podia ver os colegas morrendo, rostos de contorcendo de dor, horror por todo o lado. Mais corpos que caíam, era um verdadeiro massacre. O sangue grosso escorria pelo seu rosto, podia sentir. Agora alguém o carregava. De repente, só silêncio, parecia estar num chão liso. Numa sala? Finalmente, um pouco de paz.
De repente, começou a ouvir uma voz chorosa, quase sussurrando: “Por quê, meu filho, por quê? Por que você fez isso?” Ele sabia, era a voz de seu pai.
O pai de Ryan estava desolado. Estava li, na casa do filho, segurando sua cabeça ensanguentada. Ao  lado, sua mão ainda segurava a arma com a qual tinha se suicidado. Tinha voltado da guerra há seis meses e nunca mais tinha sido a mesma coisa. Sempre quieto, soturno, capisbaixo. Pesadelos, visões da guerra. Mas não sabia que estava tão mal assim, nunca pensou que fosse cometer um ato tão insano.

A verdadeira luta de Ryan finalmente tinha terminado e ele tinha perdido a batalha, a batalha final. 



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Sunday, March 30, 2014

A nova lei

A nova lei



Importantes orientais curvam-se respeitosamente e fazem negócios milionários por todo o território nacional. Gays esvoaçam suas múltiplas cores e proclamam seu ponto de vista para a nação. Casam-se com quem amam, protegidos pela constituição. Homens da raça negra, extremanete elegantes, em suas roupas de marca, dão entrevistas na televisão. Latinos tornam-se famosos nos jogos, nas artes e em outras áreas também. O vietnamita e o cubano requerem sua cidadania, que é garantida pela lei da imigração. São todos livres, com direitos iguais, sem retaliação.
Revoltados com tudo isso, num lugar escuro do sul, demônios medonhos, sujos, estão indignados com as coisas em questão. Reviram seus armários procurando o capuz branco com a inscrição “KKK”. Querem queimar tudo, mas não podem. Agora precisam conter seu ódio na privacidade de seu lar. Há uma nova lei, é a lei da nova nação.