Sunday, July 5, 2015

Antes que tudo acabe


Antes que tudo acabe
Antes que tudo acabe,
ainda mais uma vez,
quero voltar para Parati.
Viajar para Santarém,
que eu nunca conheci.
Jantar numa cantina do Bixiga,
com ar de quem é feliz.
Respirar o ar dos pinheirais,
na cidade em que eu vivi.
Rever sinceros amigos
que ficaram por aí.
Mais do que tudo, porém,
dar mil beijos e abraços,
na mulher que sempre amei,
tudo isso, antes de partir...

ooooooOOO0OOOooooo

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Saturday, July 4, 2015

O locutor de rádio



O locutor de rádio

Na solitária madrugada da cidade,
a voz grave de veludo do locutor
anuncia o programa das almas na solidão.
Esta é a noite, ele proclama com vaidade:
Você que sofre, venha expor sua aflição,
pegue o telefone e revele sua dor!
Logo, logo, alguém chama da Liberdade.
Preso a alguém por anos a fio, um coração,
agora abandonado, pede por ajuda.
O que faço, o que faço, ele partiu!
O mágico homem do rádio não vacila.
Com firmeza, anuncia a voz graúda:
Esqueça o ingrato: logo, um novo amor,
melhor, mais sincero, vai brilhar em sua vida!
Como um bálsamo, sua palavra a dor mitiga.
Agora chama alguém de São Miguel.
Soluçando, conta sua grande aflição:
O noivo amado a traiu com sua amiga,
meu Deus, meu Deus, que papel!.
E agora, meu Deus, que vai ser de mim?
O locutor responde com decisão exemplar:
Este safado merece castigo sim!
outro homem, de verdade, já está por aí.
É só olhar para a frente, ele vai chegar!
O mesmo se deu com a moça do Cambuci.
Como num milagre, ele faz cessar o pranto.
E assim, de bairro em bairro, um grito, uma dor.
Sobre todas mágoas ele coloca um manto.
Dentro do estúdio, porém, o famoso locutor,
dá muitas gargalhadas, se diverte com requinte.
Para ele, tudo aquilo é uma grande piada!
Fala frases decoradas para cada ouvinte,
indiferente a sua dor, a seu clamor.
Recebe cada chamada, e com paciência,
junta todas elas, com cínico primor:
Tudo que deseja é aumentar a audiência.


ooooooOOO0OOOooooo

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Friday, July 3, 2015

Adams e Évora, a história recontada



Adams e Évora, a história recontada

Adams vivia de graça numa fazenda onde havia muitas árvores frutíferas, animais de todos os tipos, inclusive aves e répteis. Não tinha do que reclamar. Um dia porém, quando acordou, estava com uma tremenda dor no lado do corpo. Havia uma grande cicatriz. Já estava seca e fechada, mas ficou pensando no que poderia ter acontecido. Naquela época, ele ainda não sabia das coisas, então não desconfiou de nada. Por coincidência, no mesmo dia, mais tarde, apareceu uma mulher – ele ainda nem sabia o que era mulher – que dizia se chamar Évora. Ela não pediu, nem nada, chegou como se fosse dona da fazenda também, nem o Adams era, e ficou por lá. Ele não era muito de conversar, então a Évora não teve outra saída a não ser conversar com os bichos mesmo. Não sei como ela fazia, mas conseguia se comunicar. Imaginem vocês, até com a cobra ela batia papos intermináveis.
O fato é que, bem no meio da fazenda, havia uma árvore enorme, altíssima. Acho que era uma macieira e estava carregadíssima de frutos. O Adams não era muito de conversa, mas mesmo assim, os bichos passaram a contar coisas para ele. Falaram que ouviram alguém falar que a Évora falou que a cobra tinha dito para ela, ufa, que as frutas da grande árvore, eram proibidas, mas muito gostosas. Não sei como esse pessoal já sabia, desde aquela época, que coisas proibidas são mais gostosas. Para falar a verdade, o Adams nem sabia que aqueles frutos eram tão importantes. Na fazenda tinha tanta fruta, algumas praticamente iguais àquela, que diferença podia fazer? Além disso, ultimamente, o Adams tinha se ligado em comer peixe, o que ele achava uma delícia.
O problema era que, quando o povo começa com uma coisa, não tem jeito de parar. Veio um pássaro mais sábio que todo mundo e avisou que se ele e a Évora comessem daquela árvore, ia ser um problema. Que as coisas todas iam parar de crescer. Ele ia ter que plantar as próprias árvores, esperar crescer, para depois comer as frutas. Falou até que ele ia ter de suar, mas essa parte ele não entendeu.
Adams perguntou qual seria a vantagem de fazer isso? Claro que não tinha a menor intenção de comer do fruto proibido. Daí, então, ela explicou, que, por outro lado, ele ia conhecer todas as coisas, ia ser sábio. Dentro da árvore, havia uma coleção incalculável de livros, sobre todos os assuntos, sobre todas as coisas.
Não era nem para pensar, estava claro que aquilo era um absurdo. Livros? Adams não tinha a menor ideia do que era aquilo. Não que fosse ignorante, embora ele fosse também. No bom sentido, que ignora, que não sabe. O que quero dizer, é que ele não tinha conhecimento dos livros porque eles não tinham sido inventados ainda. Claro que o pássaro então explicou que mais tarde, muito mais tarde, um tal de Godofredo – acho que era isso – ia inventá-los.
O que pegou mesmo foi o que o Adams pensou... Se dentro da árvore existem todos os ensinamentos, lá vai haver a explicação também de como contornar essa história de ter de plantar tudo de novo, que absurdo, se tudo já estava plantado. De qualquer jeito estava bem: comendo ou não comendo da árvore.
Foi aí então, que, na noite seguinte, a Évora chegou perto dele e fez um dengo. Ele nem sabia o que era isso. Achou interessante e pensou que talvez ... Bem até que a Évora era interessante. Essa danada era muito esperta e logo percebeu onde estava a cabeça do Adams. Então, com muita graça, mostrou a mão, que até então escondera atrás do corpo, com uma maçã já mordida. Adams desconfiou, por motivos vários, que aquela era uma fruta da árvore proibida.
Antes de continuar, queria explicar que, nem ele nem ela, sabiam que estavam nus. Na verdade, eles eram nus. Isso não era relevante na época. Depois passou a ser e, muito, muito tempo depois, começou a ser irrelevante de novo... Mas vamos voltar ao que interessa.
Era óbvio que Évora queria que Adams desse uma mordida. Ele relutou e deu um monte de razões para ela, para não fazê-lo. Ela sorriu. Eu desconfio que ela já sabia o que era nudez a essa altura. Sorriu e explicou para ele, que tanto fazia, pois a maçã já estava mordida mesmo e se algo acontecesse, ela era a responsável.  Além disso, havia a história de “toda a sabedoria”, etc. etc.... Tudo isso deu um nó na cabeça do Adams e, quando ele percebeu, estava comendo toda a maçã.
De nada adiantaram os argumentos todos. Foram expulsos os dois. O Adams alegou que a maçã estava já mordida e Évora alegou que não foi ela que mordeu primeiro, tinha sido o macaco. Que besteira, pois todo mundo sabia que macaco não contava, pois ele não tinha virado homem ainda, era irracional.
No outro dia, Adams voltou até a fazenda para reclamar os livros a que tinha direito, afinal de contas, regra é regra. Pediu também um adiantamento de frutas, pois ninguém tinha avisado para ele que as árvores demoram tanto para crescer. Foi atendido em tudo. O dono da fazenda era muito justo e correto.
Ele estava confuso. Sabia que algo enorme tinha acontecido. Por outro lado, algumas coisas eram bem interessantes. Percebeu que agora Évora usava roupas e que dava uma vontade enorme de vê-la sem elas. Nunca pensou que uma coisa tão simples fosse tão boa.
A má notícia que teve, foi que os bichos todos avisaram que não iam trabalhar. Primeiro eles eram irracionais e segundo, eles não comeram da fruta. Não tinham nada a ver com isso, aquilo era um problema dos dois. No fim convenceram o tal do burro que ele tinha de ajudá-los. Ele, como não tinha nada para fazer, concordou.
Depois teve um papo muito sério com a Évora. Ficou bem claro que ela era a grande culpada e que ela o tinha enganado. Tudo bem que agora ele tinha interesse nela, pois ela era, assim, tão boa como uma fruta. Para dizer a verdade, muito melhor que qualquer fruta. Mesmo assim, ela teria de começar a plantar e cuidar de tudo em casa. Ele tinha uma grande obra a realizar. Tinha de aprender a ler e depois repassar todos aqueles livros para ver como poderia viver sem ter de plantar, colher, etc. aquela chatice toda. Tinha de haver algum jeito.
E assim fez. A Évora trabalhava e ele estudava. Ela reclamava muito mas ele deixou claro que as coisas não iam mudar tão cedo.
Demorou muito. Adams teve de ler tanta besteira até chegar nos livros certos, você nem imagina. Cada história boba, coisa sem sentido. Leu até um livro de Direitos Humanos e um sobre os Direitos da Mulher. Como esse pessoal perdia tempo em escrever todas essas coisas tolas. Claro, ele nem comentou sobre esse último com a Évora – ela nem sabia ler – mas de repente ela poderia começar a ter ideias. E você sabe, ela era do tipo, ela que começou com a primeira ideia, não foi mesmo?
Antes de o Adams chegar no livro certo, outras coisas aconteceram. Com aquela história de eles gostarem de ficar sem roupa à noite – de dia não podia – a barriga da Évora começou a crescer e saíram dois outros iguaizinhos a ele, um mistério. Ele se assustou na época, mas depois aprendeu o que tinha acontecido com um livro sobre genética. Leu também um outro livro depois, explicando que dava para fazer a mesma coisa – quero dizer, os dois moleques, sem mesmo tirar a roupa. Claro que isso era uma besteira. Qual a vantagem?
Contei sobre os livros para dizer que finalmente o Adams leu um livro chamado “Constituição” e foi aí que as coisas ficaram muito claras. Em primeiro lugar, ele nunca poderia ter sido expulso da fazenda. Ele tinha direitos adquiridos. Segundo, não avisaram que ele podia reclamar – a palavra que eles usavam era “recorrer” – do que tinham feito com ele. Terceiro, ele nem sabia se a fruta que ele comeu era da árvore proibida. E assim foi. Era um absurdo tudo que tinham feito com ele. Seus direitos foram usurpados dezenas de vezes.
Ele tinha aprendido a escrever há um bom tempo. Escreveu a petição e deu entrada. Passou por um monte de juiz. Por falar nisso, sabe aqueles dois que saíram da barriga da Évora? Fizeram a maior confusão por aí. Roubo, briga e até morte. E o pior que um deles, até virou juiz – claro, o que não morreu, portanto o que matou -  e agora estava encarregado de dar um parecer na petição que ele fez.
Faz muito tempo que o seu caso está rodando por aí. Recurso daqui, recurso dali, impugnação. Não se sabe quando vai haver uma solução.

Ultimamente Adams tem pensado muito. Ele já não tem mais certeza de que quer ganhar o processo. Já pensou se o juiz despacha que ele tem razão, manda tudo voltar atrás, com todos os direitos, etc.? Provavelmente lá naquela fazenda, não vão deixar a Évora fazer com ele, tudo que ela faz agora. E o que ela faz é muito bom. Ou se deixarem, vai ser sem graça, como era no começo. No fundo, ele está torcendo para ficar tudo do jeito que está. Ë só a Évora não aprender a ler. Não vai ser nada bom ela saber do tal de “Direitos da Mulher” ... Vai ser um problema e, além disso, acho que ela vai ficar sem graça. Como ela era antes. Antes de comer a maçã...

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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Thursday, July 2, 2015

Não existe ninguém para organizar essa bagunça?


Não existe ninguém para organizar essa bagunça?

O atleta está dopado, o cartola compra o resultado, o médico receita esteroides, o cambista vende os ingressos e nós vamos ao estádio. O goleiro defende o pênalti.

O hacker invade o sistema, nós mudamos a senha, a moça vai parar no Youtube, o bandido clona o cartão, nós postamos no Facebook e apostamos na loteria.

O cientista descobre  a cura, o laboratório faz o remédio, requer a patente, eu não tenho plano médico e os pobres morrem no sistema.

Ninguém acredita no filósofo, todo mundo assiste a novela, outros torcem no Big Brother, a criança abandonada cresceu e agora já assalta no farol.

O foguete entra em órbita, o astronauta conserta a estação espacial, o astrônomo descobre mais um planeta e ninguém liga mais para eles.

O artista usa drogas,  a garota decide ser atriz pornô, a mulher faz um aborto e alguém protesta contra a invasão de terras.

A Rússia não é mais comunista. Dizem que os Estados Unidos ainda são imperialistas. A China não está nem aí, só quer faturar. Quem precisa de liberdade de expressão?  Eu só quero expressar minha libertação.

No segredo, o dinheiro muda de mão. No escuro, transações incomuns são feitas. No claro, o banco cobra as taxas. No lusco-fusco também. Claramente um abuso. Atrás da porta, alguém paga a propina. Só gente fina. Fico confuso.

As notícias saem no jornal que ninguém lê. Outras saem na televisão na hora que ninguém vê. As mentiras saem na internet. As verdades também. Acreditamos no que queremos e no que não devemos. O que funciona mesmo é a meia verdade.


Não existe ninguém para organizar essa bagunça?

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Histórias do Futuro

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Saturday, June 27, 2015

O que é o amor?



O que é o amor?

Por falar em emoção,
nem sei o que é amar.
Ainda assim, amo sem parar.
Sem sentido, sem explicação.
Será que é aquela pontada,
doída, doida, que dói no peito?
Será que é aquela fisgada,
besta, infantil, na cabeça,
e para a qual não há jeito?
Será que está na alma?
Talvez estará no coração?
Será aquela ideia gozada,
que nos faz parecer sem razão?
Aquele fúria danada?
Aquela vontade de suspirar?
Aquela vontade de voar?
De beijar? De estar? De ser?
Nada sei, mas, muitas vezes,
me sinto como um menino,
sem rota, sozinho, a correr.
Acho que é isto que sou eu
Acho que sou um garoto:
Um garoto apaixonado,
que cresceu e nem percebeu.

ooooooOOO0OOOooooo

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Friday, June 26, 2015

Ainda que


Ainda que

Ainda que não haja o eterno,
que tudo tenha um fim,
que a vida seja um sonho,
só um suspiro etéreo,
um caminho tristonho,
quero estar aqui, mesmo assim.
Ainda que todo o passado,
tenha sido só dor e tristeza,
que o destino malvado
tenha dado golpes pesados,
ainda assim, foi bom existir.
Ainda que seja ilusão a vida,
um reflexo do inexistente,
do que não há, uma recriação,
um absurdo sem razão,
ainda assim foi bom ter vivido.
Um só segundo, só uma fração,
um só momento contido,
desta consciência de existir
é uma inefável sensação,
que vale a pena sentir.

ooooooOOO0OOOooooo

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Monday, June 22, 2015

É


É

É. Pode existir palavra menor que esta? Mas não se enganem, aqui vale o velho ditado de que “tamanho não é documento”. É uma das mais fortes e poderosas da Língua Portuguesa. Para começo de conversa, ela significa que algo ou alguma coisa existe de fato, está ali. Além disso pode dizer poucas e boas sobre uma pessoa: “é um fulano desprezível”, “é um idiota” e por aí vai. Pode também indicar, com certeza que “alguém é um grande sujeito”, “é um cara legal”. É uma palavra modesta na estatura mas poderosa no significado. Devo reconhecer, porém, que ela, na verdade, é uma forma conjugada de uma palavra maior, o verbo “ser”. Por outro lado, ela mostra como “é” independente. Rebelou-se contra sua forma infinitiva, mostrando como ela é definida, sintética, poderosa, não “é” mesmo? Provou que, com uma só letra, ao invés de três, “é” mais ela. Além disso, ela é extremamente popular, sem deixar jamais de ser erudita. Não é como certas palavras que conheço, como “oculista” que está na boca do povo e que, quando quer dar uma de “chique”, vira “oftalmologista”.
Um doutor em Filosofia vai usar um “é” com a mesma naturalidade e poder do que uma pessoa bem simples respondendo: “É, sim, senhor”. A palavra “é” tem uma amiga muito parecida com ela, que é a conjunção “e”, sem acento. Não pensem, porém, que ela é fraca, só porque a pronúncia é fechada. Muito ao contrário, ela significa “mais”, “acréscimo”, “adição”. Eu e você, somos nós!
Voltando ao “é”, na expressão “pois é”, ele pode sugerir sarcasmo, ironia. Viram como ela “é” eclética, múltipla, pluralista, dentro de sua forma tão sintética, tão singela? Existem tantas coisas que o “é” pode fazer, que precisaria de um livro inteiro para explicar.

Vou encerrando por aqui, não sem antes lembrar que, em alguns casos, esse “é” pode mudar a vida de uma pessoa. Imagine um juiz perguntando aos jurados se o réu é culpado. Já imaginou o peso de um “é” se essa for a resposta. E este é o fim desta crônica. Não é? É sim...

oooooOOOOOooooo

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