Thursday, July 9, 2015

A estrela quadrada: uma comédia cósmica

A estrela quadrada: uma comédia cósmica


Estava fazendo minha patrulha não muito longe – em termos cósmicos, é claro – da estrela Canopus. Isso mesmo, aquela monstruosidade, uma coisa sem fim. A minha nave fez uma curva à direita e aí me deparei com algo extraordinário. Nada mais, nada menos do que uma estrela quadrada. Absolutamente menor do que Canopus, estava ali, a desafiar a lógica. Imediatamente pensei que tivesse alguma coisa a ver com a Física Quântica, uma vez que essa está sempre a desafiar o bom senso. De qualquer forma, fiz minha obrigação. Chamei meu supervisor que estava por ali, na nave mãe, não tão longe assim. Uns sete ou oito minutos luz, se tanto. Pensei que ele fosse perguntar se eu tinha bebido, mas não. Achou quase normal. Diante da minha estupefação, explicou com aquele ar professoral – imaginei, pois não estava vendo – que, com a rotação, voltaria ao normal. As pontas iriam se desgastando e conforme os milênios fossem passando, ficaria como as outras: redonda. Pensei em ironizar e falar: redondinha da silva? Achei melhor me calar, entretanto. Poderia levar uma suspensão sem direito à remuneração embora, tecnicamente, já estivesse suspenso no espaço sideral.
Fiquei matutando. Aquela ideia não me saía da cabeça. Terminei meu turno e voltei para meu aposento na nave principal. Passei aquela luz azul que atualmente usamos para limpar os dentes e fui me deitar. Lembrei-me de ter lido em e algum lugar que antigamente – muito antigamente – as pessoas escovavam os dentes para limpá-los. Que absurdo, que trabalhão! Graças a Deus evoluímos bastante.
Enquanto caía no sono, fiquei pensando no incidente. Como pode haver uma estrela quadrada? A explicação de meu chefe não me convenceu. De repente, o óbvio me atacou de frente. Claro, aquilo não era uma estrela. Talvez fosse uma enorme máquina que alguma civilização próxima tivesse construído. Uma espécie de portal para mundos paralelos. Me senti um idiota. Provavelmente meu supervisor estava "tirando" uma comigo e eu nem percebi. Isso mesmo, estava claro agora. Fiquei com vergonha.
Fiquei com raiva também. Esses imbecis bem que poderiam ter construído um portal redondo. Não seria o certo, o normal? Não teria passado pelo vexame.
Que vergonha...

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Tuesday, July 7, 2015

Um quarto, um mundo, uma euforia sem fim, num novo Universo



Um quarto, um mundo e uma euforia sem fim

Jásper acordou num quarto todo pintado de branco. Estava deitado no chão e depois de percorrer o ambiente com os olhos, notou algo muito estranho.  Estava claro, embora não houvesse fonte de luz. Não havia janelas ou lâmpadas. Tentou racionalizar, entender como aquilo acontecera. Tinha deitado cedo em seu quarto normal, onde havia a sua cama, uma cômoda e uma cadeira de balanço. Notou que estava nu, embora tivesse ido para a cama de pijamas. O ambiente ali era completamente vazio, uma claridade que quase incomodava. Colocou a palma da mão na parede e ela era lisa, sem saliências. Por onde estaria entrando ar? Ele conseguia respirar bem, sem dificuldade nenhuma. Depois bateu com os nós dos dedos na superfície. A parede parecia sólida. Sabia que não podia ficar desesperado, pois em nada ajudaria. Sentou-se no chão por uns momentos. Depois levantou-se e foi andando pelo ambiente, acompanhando as paredes e tocando a superfície das mesmas para ver se descobria alguma coisa. Na terceira, de repente, percebeu que ela parecia ceder um pouco. Empurrou com mais força e, então, uma porta que não se podia ver antes, abriu-se.
Era um outro quarto, também completamente branco. Havia, porém, uma cadeira bem no centro. Sobre seu assento, notou que havia algumas roupas e um par de sapatos. Obviamente eram para ele, embora nunca as tivesse visto antes. Vestiu-se rapidamente. As vestimentas eram todas brancas. Somente os calçados eram pretos. Depois de ficar sentado por alguns minutos, pensando, chegou a uma óbvia conclusão. Teria de fazer a mesma coisa. Descobrir uma porta invisível e continuar. Continuar até achar uma saída para algum lugar conhecido, talvez para a rua. Tinha dúvidas se estava em sua casa. Certamente não. Como o teriam levado para aquele lugar? Por quê? Para quê?
Foi cuidadosamente forçando as paredes, com a esperança de encontrar uma saída. De repente percebeu que havia pisado em uma superfície diferente. Abaixou-se e apalpou o assoalho. Abriu-se um alçapão de onde podia se ver uma escada caracol. Ficou um pouco temeroso em descer, mas não havia outra alternativa. Como nos dois aposentos anteriores, era tudo absolutamente branco. Assim que chegou ao último degrau, teve uma surpresa. Havia uma outra escada, exatamente igual, no outro canto do aposento. Levaria de volta ao mesmo lugar? Ficou apreensivo. Seria o fim? Ficar ali, subindo e descendo? Subiu, ansioso. Como esperava, ao pressionar o teto, uma abertura em forma de círculo se abriu. Para seu alívio, não era o mesmo quarto. Desta vez era tudo amarelo e, novamente, havia um conjunto de roupas. Estava claro que deveria trocá-las. Elas eram azuis e não havia sapatos.
A situação estava evoluindo, algo estava mudando. Assim que fez a troca de roupas, percebeu que havia um objeto no bolso. Para sua surpresa, era uma lanterna. Assim que a ligou, a sala ficou escura, mas um foco de luz permitiu que ele visse uma porta. Era diferente. Toda trabalhada, tinha duas folhas, porém não tinha maçaneta. Aproximou-se, e ela, automaticamente se abriu. Aquele aposento era completamente diferente. Havia uma enorme quantidade de esferas, de diferentes cores e tamanhos, pairando no ar. De repente, elas começaram a se juntar, formando uma espécie de portal com um arco em cima. Jásper aproximou-se e viu que era um corredor. Encheu-se de esperança. Começou a andar, mas daí percebeu que era impossível ver seu fim. Apertou o passo e depois começou a correr. Depois de algum tempo percebeu que não adiantava. Ele era sempre igual, certamente não havia um fim e esse talvez fosse seu próprio fim. No fundo, porém, tinha esperanças. Andou e andou. Agora mal conseguia ver qualquer coisa à sua frente, tal era seu cansaço. Ainda assim continuou mais um tanto. Finalmente, seu corpo cedeu à fadiga. Caiu e lá ficou. Primeiro respirava rápida e sofregamente. Aos poucos, sua respiração foi se estabilizando.
Não sabe quantas horas dormiu. Assim que acordou, percebeu que não estava mais no longo corredor. Dava para perceber, embora nebulosa, uma luz vinda de uma enorme porta. Tentou se levantar, quando alguém lhe tocou nos ombros. Era um padre. Jásper estava na Catedral da Sé, em São Paulo.
Foi difícil explicar para as autoridades o que estava fazendo lá. Sua casa estava a mais de 500 quilômetros de distância, no interior do estado. Telefonaram para sua esposa e ela ficou aliviada. Ele tinha sumido no meio da madrugada. Suas roupas e seus sapatos estavam ao lado da cama. Já tinha contatado a polícia local, que lhe dissera que não havia o que fazer por enquanto.
Jásper não ousou contar tudo que vira. Certamente pensariam que estava desequilibrado. Melhor assim. Não havia o que fazer, não havia explicação nem para ele nem para a polícia. Despediram-no, depois que a esposa disse para ele esperar lá fora, que um amigo iria buscá-lo e levá-lo para a rodoviária. Enquanto saía, percebeu que dois policias riam disfarçadamente. Devia ser por causa de sua roupa estranha, pois o que vira, não tinha contado para ninguém. Não ligou para a zombaria, ele riria também.
Em casa, a esposa, delicada, evitou falar sobre o assunto. No fundo, sabia que nem ele estava entendendo o que tinha acontecido. Ela não entendia, não havia lógica. E isso sem se considerar o fato de que ele não havia lhe contado sobre os quartos. Nem poderia, jamais. Jásper sabia que falar sobre isso não ajudaria em nada. A única consequência seria as pessoas pensarem que ele estava louco. E talvez estivesse.
Procurou não pensar mais sobre o ocorrido. O tempo foi passando e, embora fossem ficando mais suaves, aquelas imagens não sumiram de tudo. Ele já sabia que elas jamais sairiam de sua cabeça, mas, com o tempo, quem sabe, ele mesmo talvez começasse a desconfiar de sua autenticidade.
Uma noite, porém, aconteceu de novo. Estava dormindo e, de repente, apareceu naquele quarto branco, nu, assustado. Lembrou-se do que tinha acontecido da primeira vez e começou a tocar as paredes. Nada aconteceu, todas elas pareciam muito sólidas. Parou por um instante. Queria pensar.
Foi então que sentiu uma intensa vibração interior. Sentiu a própria vida explodindo dentro de si. Ele soube, a partir daquele momento, que tudo mudaria. Tinha sentado, mas agora se levantava, resoluto e, antes mesmo de tocar a branca parede, ela se abriu. Ele não sentia medo ou preocupação. Passou por tudo novamente. Pela segunda sala, pela escada que descia e pela que subia. Estava já no corredor, e, como ele esperava, perdeu os sentidos. Acordou algum tempo depois. Estava no chão e viu, de novo, aquela luz e uma grande porta. Algo excepcional, porém, tinha acontecido. Ninguém estava lá tocando-lhe no ombro, como da primeira vez. Andou firme e empurrou uma das folhas. Lá estava todo mundo na rua andando, conversando. Não era a Praça da Sé, nem outro lugar conhecido. Era um mundo novo, inédito. As pessoas falavam uma língua estranha, uma mistura de Português com alguma outra língua desconhecida. Podia ser um idioma do passado, podia ser do futuro. Algumas pessoas olhavam, amigáveis, para ele e sorriam. Sentiu uma enorme força dentro de si. Era a própria força da vida. Eram construções incomuns, outros veículos, que ele nunca tinha visto antes. As pessoas também eram especiais, como nunca tinha visto antes. As plantas tinham uma coloração diferente, as flores tinham outra clores. E Jásper foi andando, andando...
De repente, ele percebeu que alguém o segurava pela mão. Olhou para cima e era seu pai. Mas não era o pai de antes. Era alguém que ele nunca tinha visto, mas ele sabia que era seu pai e ele era uma criança de dez anos, não era mais um adulto casado. E, aos poucos, tudo que ele sabia de sua vida de antes foi ficando distante, como se fosse um sonho. E, na medida em que ele assimilava aquele maravilhoso e inédito universo, ele ia se esquecendo do outro. Agora a sua vida de antes nem sequer um sonho parecia mais. Agora o seu passado não era mais nada, talvez uma ideia louca de criança, aquelas coisas malucas que os garotos imaginam. Jásper não se chamava mais Jásper. Seu pai, sorrindo, chamou-o de Dijete. E ele era um menino feliz, num mundo singular, novo e maravilhoso, um insólito cosmos. Dijete estava imerso numa incomparável e singular euforia...

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Monday, July 6, 2015

Uma nova ordem na Terra


Uma nova ordem na Terra

Adrian, responsável pela nave de inspeção ao longo do Atlântico americano, voava lentamente sobre o que tinha sido a costa da Flórida. As águas do oceano tinham entrado consideravelmente no terreno do antigo estado americano dos dois lados: pelo lado do Atlântico e pelo lado do Golfo do México. O que havia sobrado era uma estreita faixa de terra. Toda a costa, até o Canada, estava recuando, invadida pelo Atlântico. Menos terra habitável não era a melhor notícia, agora que a população havia aumentado muito. Desde o virar do milênio, há quatrocentos anos atrás, apesar do fortíssimo controle de natalidade, as áreas habitáveis do planeta eram cada vez mais escassas. Numa espécie de contra-ataque contra a invasão das águas, os humanos invadiram o mar com suas cidades flutuantes. Novos materiais, levíssimos, indestrutíveis, eram a base das novas comunidades “marítimas” ou “watercities”, como as chamavam os americanos do norte.
Adrian ficaria por mais três dias fazendo seu trabalho no espaço. Nem seria necessária sua presença, pois os computadores faziam o monitoramento automaticamente. No entanto, havia inúmeros serviços desse tipo. O objetivo era manter as pessoas ocupadas, livrá-las do que era conhecido como “aborrecimento existencial”. E funcionava. Ele falava bastante com seu computador, trocava ideias. Naquele exato momento, Stan, a máquina encarregada da sua “estação”, estava mostrando imagens do longínquo ano 2020, mapas da costa americana, e o antigo formato do estado da Flórida. Era impressionante como tudo havia mudado. Aparentemente, o ser humano não se abateu com a invasão das águas. Aquelas construções, que compunham as cidades marítimas, eram lindíssimas. O tempo todo, Adrian podia ver o cintilar cor de prata, cor de ouro, às vezes, dos pequenos edifícios e dos conjuntos habitacionais. Conforme a “Coastsearch”, sua nave, ia deslizando pelo ar, passava também, a cada pouco, por grandes – enormes mesmo – balões azuis, cuja função era desviar alguns tipos de raios solares, agora muito mais perigosos, por causa dos danos causados à atmosfera nos séculos anteriores. Isto também estava sendo resolvido pelos cientistas desse novo mundo. Adrian ficava perplexo, num verdadeiro estado de incredulidade, enquanto Stan relatava tudo que o homem tinha feito contra a Natureza nos séculos XIX, XX e XXI. Era difícil entender como seres dotados de inteligência pudessem ter chegado a esse ponto. Nos últimos dois séculos tinha havido uma verdadeira revolução em toda a civilização humana. Era uma nova Terra, em todos os aspectos.
De repente, enquanto seu pensamento voltava no tempo, o “Megacom”, serviço internacional de notícias, interrompeu a apresentação para atualizar o noticiário. Nos últimos três meses só se falava do grande meteoro “Hairstorm”.  A primeira tentativa de detê-lo, há cinco meses, tinha falhado. A explosão causada pelas sondas enviadas pela “Coligação Mundial” tinha apenas tirado uma grande lasca, mas não tinha interrompido sua trajetória de colisão com a Terra.  Obviamente todas as grandes nações tinham se unido e havia um segundo grande plano que entraria em execução dali a 11 dias, duas semanas antes da fatal colisão. Realmente Adrian tinha notado um tráfego incomum de naves espaciais para as colônias da Lua e de Marte. Dali era muito fácil observá-las saindo da Terra. Aparentemente essa enorme movimentação estava relacionada com o projeto destruição do “Hairstorm”. Verdade era que aquelas naves eram destinadas principalmente ao transporte de seres humanos e não de equipamentos. Provavelmente tinham sido adaptadas diante da emergência. As biosferas tanto em Marte, como na Lua, agora eram em grande número e podiam comportar uma quantidade enorme de seres humanos. Além disso, em Marte o processo de “terraformação” havia se iniciado. Uma tênue atmosfera já se formava.
Nas últimas horas, entretanto, praticamente não se via mais nenhum lançamento. Provavelmente tinham transportado tudo de que precisavam. As autoridades não estavam alarmando a população. Talvez porque isso de nada adiantasse, talvez porque a situação estivesse completamente sob controle. Adrian estava preocupado, mas não muito. Tinha completa confiança nos governantes. Depois de assistir ao noticiário, resolveu dormir.  Aliás, ele nem prestou muita atenção, de tão sonolento que estava. Mas tinham dito qualquer coisa de alteração de dados. Algo havia mudado nos prognósticos. Resolveu que iria descansar algumas horas e, então, se atualizaria novamente. Não havia com o que se preocupar, tudo estava sob controle.
Adrian dormiu cerca de cinco horas. Acordou e seu primeiro ato foi sentar-se frente ao “Megacom”. Para sua surpresa, não havia sinal. Pior ainda, Stan, seu companheiro computador, não estava “conversando” com ele também. Ele estava, entretanto, funcionado, pois a nave voava regularmente. Logo a seguir, ouviu alguns sons sibilantes, seguidos de um barulho metálico. Alguma coisa estava atingindo a “Coastsearch”, isso era óbvio. Olhou para longa linha da costa e notou outra coisa estranha. Havia pontos de luz, em pleno dia, aparecendo e sumindo, principalmente nas “watercities”. Olhou, então, para dentro do continente, até onde a vista alcançava. Percebeu que algo muito diferente estava acontecendo. Havia incêndios por toda a parte. Agora podia ver melhor, pois estava usando seu módulo de visão, uma espécie de telescópio.
De repente, tudo ficou claro. O meteoro tinha se desmantelado em milhares de partes e estava caindo sobre a Terra. O tempo todo, nos últimos dias, estavam mentindo no noticiário. Não queriam alarmar a população. Aos poucos a situação estava se tornando insustentável. Podia ver passando perto dele, enormes bolas de fogo. Eram, obviamente, pedaços maiores do “Hairstrom”, que se incendiavam ao entrar em contato com a atmosfera. As naves espaciais... Era bem evidente agora, sua missão. Resgatar as pessoas importantes para o sistema, aquelas que deviam sobreviver. Tinham fugido para Marte e para a Lua. Voltariam mais tarde, se houvesse condições. A situação lá embaixo estava piorando. Pedaços enormes do meteoro atingiam agora o continente e o mar. Era uma questão de minutos até que uma bola de fogo o atingisse. Adrian pensou rapidamente em seus amigos, aqueles que, nesses novos tempos, eram considerados “família”, pois a de antigamente não existia mais. Ele resolveu se trancar num dos compartimentos de sua nave. Não queria mais ver aquela cena medonha, a terra sendo destruída. Não houve tempo, porém. Tudo que ele viu, por uma fração de segundo, foi uma enorme esfera de fogo. Depois tudo sumiu.
Lá embaixo, a situação era catastrófica. Havia pontos de incêndio em todo lugar. Todos os meios de comunicação estavam fora do ar. O sistema baixo de transporte aéreo, a grande revolução do transporte coletivo do último século, estava completamente destruído. Apesar de todos os recursos disponíveis para situações de emergência, nada funcionava mais. Não havia ninguém para operá-los. A morte se espalhava por toda a parte. O futuro imediato do planeta estava incerto.
Se a Terra sobrevivesse, teria de recomeçar praticamente do zero, e reconstruir a quase totalidade de sua infraestrutura. Tudo iria mudar. Os privilegiados sobreviventes, que haviam se refugiado nas colônias, voltariam quando fosse seguro. Haveria uma nova ordem em nosso mundo.
Uma nova ordem, da qual Adrian não participaria.


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Sunday, July 5, 2015

Antes que tudo acabe


Antes que tudo acabe
Antes que tudo acabe,
ainda mais uma vez,
quero voltar para Parati.
Viajar para Santarém,
que eu nunca conheci.
Jantar numa cantina do Bixiga,
com ar de quem é feliz.
Respirar o ar dos pinheirais,
na cidade em que eu vivi.
Rever sinceros amigos
que ficaram por aí.
Mais do que tudo, porém,
dar mil beijos e abraços,
na mulher que sempre amei,
tudo isso, antes de partir...

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Saturday, July 4, 2015

O locutor de rádio



O locutor de rádio

Na solitária madrugada da cidade,
a voz grave de veludo do locutor
anuncia o programa das almas na solidão.
Esta é a noite, ele proclama com vaidade:
Você que sofre, venha expor sua aflição,
pegue o telefone e revele sua dor!
Logo, logo, alguém chama da Liberdade.
Preso a alguém por anos a fio, um coração,
agora abandonado, pede por ajuda.
O que faço, o que faço, ele partiu!
O mágico homem do rádio não vacila.
Com firmeza, anuncia a voz graúda:
Esqueça o ingrato: logo, um novo amor,
melhor, mais sincero, vai brilhar em sua vida!
Como um bálsamo, sua palavra a dor mitiga.
Agora chama alguém de São Miguel.
Soluçando, conta sua grande aflição:
O noivo amado a traiu com sua amiga,
meu Deus, meu Deus, que papel!.
E agora, meu Deus, que vai ser de mim?
O locutor responde com decisão exemplar:
Este safado merece castigo sim!
outro homem, de verdade, já está por aí.
É só olhar para a frente, ele vai chegar!
O mesmo se deu com a moça do Cambuci.
Como num milagre, ele faz cessar o pranto.
E assim, de bairro em bairro, um grito, uma dor.
Sobre todas mágoas ele coloca um manto.
Dentro do estúdio, porém, o famoso locutor,
dá muitas gargalhadas, se diverte com requinte.
Para ele, tudo aquilo é uma grande piada!
Fala frases decoradas para cada ouvinte,
indiferente a sua dor, a seu clamor.
Recebe cada chamada, e com paciência,
junta todas elas, com cínico primor:
Tudo que deseja é aumentar a audiência.


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Friday, July 3, 2015

Adams e Évora, a história recontada



Adams e Évora, a história recontada

Adams vivia de graça numa fazenda onde havia muitas árvores frutíferas, animais de todos os tipos, inclusive aves e répteis. Não tinha do que reclamar. Um dia porém, quando acordou, estava com uma tremenda dor no lado do corpo. Havia uma grande cicatriz. Já estava seca e fechada, mas ficou pensando no que poderia ter acontecido. Naquela época, ele ainda não sabia das coisas, então não desconfiou de nada. Por coincidência, no mesmo dia, mais tarde, apareceu uma mulher – ele ainda nem sabia o que era mulher – que dizia se chamar Évora. Ela não pediu, nem nada, chegou como se fosse dona da fazenda também, nem o Adams era, e ficou por lá. Ele não era muito de conversar, então a Évora não teve outra saída a não ser conversar com os bichos mesmo. Não sei como ela fazia, mas conseguia se comunicar. Imaginem vocês, até com a cobra ela batia papos intermináveis.
O fato é que, bem no meio da fazenda, havia uma árvore enorme, altíssima. Acho que era uma macieira e estava carregadíssima de frutos. O Adams não era muito de conversa, mas mesmo assim, os bichos passaram a contar coisas para ele. Falaram que ouviram alguém falar que a Évora falou que a cobra tinha dito para ela, ufa, que as frutas da grande árvore, eram proibidas, mas muito gostosas. Não sei como esse pessoal já sabia, desde aquela época, que coisas proibidas são mais gostosas. Para falar a verdade, o Adams nem sabia que aqueles frutos eram tão importantes. Na fazenda tinha tanta fruta, algumas praticamente iguais àquela, que diferença podia fazer? Além disso, ultimamente, o Adams tinha se ligado em comer peixe, o que ele achava uma delícia.
O problema era que, quando o povo começa com uma coisa, não tem jeito de parar. Veio um pássaro mais sábio que todo mundo e avisou que se ele e a Évora comessem daquela árvore, ia ser um problema. Que as coisas todas iam parar de crescer. Ele ia ter que plantar as próprias árvores, esperar crescer, para depois comer as frutas. Falou até que ele ia ter de suar, mas essa parte ele não entendeu.
Adams perguntou qual seria a vantagem de fazer isso? Claro que não tinha a menor intenção de comer do fruto proibido. Daí, então, ela explicou, que, por outro lado, ele ia conhecer todas as coisas, ia ser sábio. Dentro da árvore, havia uma coleção incalculável de livros, sobre todos os assuntos, sobre todas as coisas.
Não era nem para pensar, estava claro que aquilo era um absurdo. Livros? Adams não tinha a menor ideia do que era aquilo. Não que fosse ignorante, embora ele fosse também. No bom sentido, que ignora, que não sabe. O que quero dizer, é que ele não tinha conhecimento dos livros porque eles não tinham sido inventados ainda. Claro que o pássaro então explicou que mais tarde, muito mais tarde, um tal de Godofredo – acho que era isso – ia inventá-los.
O que pegou mesmo foi o que o Adams pensou... Se dentro da árvore existem todos os ensinamentos, lá vai haver a explicação também de como contornar essa história de ter de plantar tudo de novo, que absurdo, se tudo já estava plantado. De qualquer jeito estava bem: comendo ou não comendo da árvore.
Foi aí então, que, na noite seguinte, a Évora chegou perto dele e fez um dengo. Ele nem sabia o que era isso. Achou interessante e pensou que talvez ... Bem até que a Évora era interessante. Essa danada era muito esperta e logo percebeu onde estava a cabeça do Adams. Então, com muita graça, mostrou a mão, que até então escondera atrás do corpo, com uma maçã já mordida. Adams desconfiou, por motivos vários, que aquela era uma fruta da árvore proibida.
Antes de continuar, queria explicar que, nem ele nem ela, sabiam que estavam nus. Na verdade, eles eram nus. Isso não era relevante na época. Depois passou a ser e, muito, muito tempo depois, começou a ser irrelevante de novo... Mas vamos voltar ao que interessa.
Era óbvio que Évora queria que Adams desse uma mordida. Ele relutou e deu um monte de razões para ela, para não fazê-lo. Ela sorriu. Eu desconfio que ela já sabia o que era nudez a essa altura. Sorriu e explicou para ele, que tanto fazia, pois a maçã já estava mordida mesmo e se algo acontecesse, ela era a responsável.  Além disso, havia a história de “toda a sabedoria”, etc. etc.... Tudo isso deu um nó na cabeça do Adams e, quando ele percebeu, estava comendo toda a maçã.
De nada adiantaram os argumentos todos. Foram expulsos os dois. O Adams alegou que a maçã estava já mordida e Évora alegou que não foi ela que mordeu primeiro, tinha sido o macaco. Que besteira, pois todo mundo sabia que macaco não contava, pois ele não tinha virado homem ainda, era irracional.
No outro dia, Adams voltou até a fazenda para reclamar os livros a que tinha direito, afinal de contas, regra é regra. Pediu também um adiantamento de frutas, pois ninguém tinha avisado para ele que as árvores demoram tanto para crescer. Foi atendido em tudo. O dono da fazenda era muito justo e correto.
Ele estava confuso. Sabia que algo enorme tinha acontecido. Por outro lado, algumas coisas eram bem interessantes. Percebeu que agora Évora usava roupas e que dava uma vontade enorme de vê-la sem elas. Nunca pensou que uma coisa tão simples fosse tão boa.
A má notícia que teve, foi que os bichos todos avisaram que não iam trabalhar. Primeiro eles eram irracionais e segundo, eles não comeram da fruta. Não tinham nada a ver com isso, aquilo era um problema dos dois. No fim convenceram o tal do burro que ele tinha de ajudá-los. Ele, como não tinha nada para fazer, concordou.
Depois teve um papo muito sério com a Évora. Ficou bem claro que ela era a grande culpada e que ela o tinha enganado. Tudo bem que agora ele tinha interesse nela, pois ela era, assim, tão boa como uma fruta. Para dizer a verdade, muito melhor que qualquer fruta. Mesmo assim, ela teria de começar a plantar e cuidar de tudo em casa. Ele tinha uma grande obra a realizar. Tinha de aprender a ler e depois repassar todos aqueles livros para ver como poderia viver sem ter de plantar, colher, etc. aquela chatice toda. Tinha de haver algum jeito.
E assim fez. A Évora trabalhava e ele estudava. Ela reclamava muito mas ele deixou claro que as coisas não iam mudar tão cedo.
Demorou muito. Adams teve de ler tanta besteira até chegar nos livros certos, você nem imagina. Cada história boba, coisa sem sentido. Leu até um livro de Direitos Humanos e um sobre os Direitos da Mulher. Como esse pessoal perdia tempo em escrever todas essas coisas tolas. Claro, ele nem comentou sobre esse último com a Évora – ela nem sabia ler – mas de repente ela poderia começar a ter ideias. E você sabe, ela era do tipo, ela que começou com a primeira ideia, não foi mesmo?
Antes de o Adams chegar no livro certo, outras coisas aconteceram. Com aquela história de eles gostarem de ficar sem roupa à noite – de dia não podia – a barriga da Évora começou a crescer e saíram dois outros iguaizinhos a ele, um mistério. Ele se assustou na época, mas depois aprendeu o que tinha acontecido com um livro sobre genética. Leu também um outro livro depois, explicando que dava para fazer a mesma coisa – quero dizer, os dois moleques, sem mesmo tirar a roupa. Claro que isso era uma besteira. Qual a vantagem?
Contei sobre os livros para dizer que finalmente o Adams leu um livro chamado “Constituição” e foi aí que as coisas ficaram muito claras. Em primeiro lugar, ele nunca poderia ter sido expulso da fazenda. Ele tinha direitos adquiridos. Segundo, não avisaram que ele podia reclamar – a palavra que eles usavam era “recorrer” – do que tinham feito com ele. Terceiro, ele nem sabia se a fruta que ele comeu era da árvore proibida. E assim foi. Era um absurdo tudo que tinham feito com ele. Seus direitos foram usurpados dezenas de vezes.
Ele tinha aprendido a escrever há um bom tempo. Escreveu a petição e deu entrada. Passou por um monte de juiz. Por falar nisso, sabe aqueles dois que saíram da barriga da Évora? Fizeram a maior confusão por aí. Roubo, briga e até morte. E o pior que um deles, até virou juiz – claro, o que não morreu, portanto o que matou -  e agora estava encarregado de dar um parecer na petição que ele fez.
Faz muito tempo que o seu caso está rodando por aí. Recurso daqui, recurso dali, impugnação. Não se sabe quando vai haver uma solução.

Ultimamente Adams tem pensado muito. Ele já não tem mais certeza de que quer ganhar o processo. Já pensou se o juiz despacha que ele tem razão, manda tudo voltar atrás, com todos os direitos, etc.? Provavelmente lá naquela fazenda, não vão deixar a Évora fazer com ele, tudo que ela faz agora. E o que ela faz é muito bom. Ou se deixarem, vai ser sem graça, como era no começo. No fundo, ele está torcendo para ficar tudo do jeito que está. Ë só a Évora não aprender a ler. Não vai ser nada bom ela saber do tal de “Direitos da Mulher” ... Vai ser um problema e, além disso, acho que ela vai ficar sem graça. Como ela era antes. Antes de comer a maçã...

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Thursday, July 2, 2015

Não existe ninguém para organizar essa bagunça?


Não existe ninguém para organizar essa bagunça?

O atleta está dopado, o cartola compra o resultado, o médico receita esteroides, o cambista vende os ingressos e nós vamos ao estádio. O goleiro defende o pênalti.

O hacker invade o sistema, nós mudamos a senha, a moça vai parar no Youtube, o bandido clona o cartão, nós postamos no Facebook e apostamos na loteria.

O cientista descobre  a cura, o laboratório faz o remédio, requer a patente, eu não tenho plano médico e os pobres morrem no sistema.

Ninguém acredita no filósofo, todo mundo assiste a novela, outros torcem no Big Brother, a criança abandonada cresceu e agora já assalta no farol.

O foguete entra em órbita, o astronauta conserta a estação espacial, o astrônomo descobre mais um planeta e ninguém liga mais para eles.

O artista usa drogas,  a garota decide ser atriz pornô, a mulher faz um aborto e alguém protesta contra a invasão de terras.

A Rússia não é mais comunista. Dizem que os Estados Unidos ainda são imperialistas. A China não está nem aí, só quer faturar. Quem precisa de liberdade de expressão?  Eu só quero expressar minha libertação.

No segredo, o dinheiro muda de mão. No escuro, transações incomuns são feitas. No claro, o banco cobra as taxas. No lusco-fusco também. Claramente um abuso. Atrás da porta, alguém paga a propina. Só gente fina. Fico confuso.

As notícias saem no jornal que ninguém lê. Outras saem na televisão na hora que ninguém vê. As mentiras saem na internet. As verdades também. Acreditamos no que queremos e no que não devemos. O que funciona mesmo é a meia verdade.


Não existe ninguém para organizar essa bagunça?

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