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Saturday, June 8, 2019

Perto da perfeição


Perto da perfeição

Da sala onde estava, Leonard olhava para a magnífica paisagem. Teria o homem conseguido fazer construções que, no conjunto, pareciam mais belas que a Natureza? Tinha aprendido, finalmente, com ela? Ou, simplesmente, tinha conseguido a perfeita harmonia entre o artificial e o natural? Achava incrível que, há séculos atrás, os chamados arquitetos faziam aqueles edifícios com um material chamado concreto e aço. Verdadeiros monstros. A tecnologia produzia agora materiais leves e poderosos, que além de proporcionar funcionalidade e durabilidade acima de qualquer ponto razoável, ainda se prestavam a encher de graça e beleza a paisagem. As antigas cidades, com aqueles estranhos prédios, ou tinham sumido, ou tinham virado museus ou, por último, serviam como parques de diversão. Havia gente que gostava do passado como uma atração, principalmente nessa época em que quase tudo já havia sido experimentado em termos de diversão.
Foi aí que Leonard notou algo que o deixou um pouco preocupado. Parecia estar tendo uma falha de visão. Notou pontos “em branco” em diversos lugares. O som das pequenas naves pessoais que passavam perto de sua unidade de habitação parecia estranho também. Tinha certeza, porém, que aquilo seria facilmente “ajustado”. Josephine, sua companheira, estava para chegar. Explicaria para ela, que certamente faria o que fosse necessário. A Josephine era de um temperamento e personalidade incríveis. E eram coisas naturais dela. Nunca tinha feito os tais de “ajustamento de personalidade” ou qualquer outro tipo de acerto genético, embora tivesse sido fertilizada em laboratório.
Ficou por uns momentos com os olhos fechados e tirou uma pequena soneca. Acordou com o som típico, e bastante delicado, da trava eletrônica que Josephine tinha acabado de acionar para entrar em casa.
 Depois de perguntar como tinha sido seu dia, seu trabalho, explicou para ela os pequenos problemas que havia notado. Josephine disse que já sabia do que se tratava, e que era algo que poderia acontecer. Aproximou-se dele e, delicadamente, tocou um ponto em sua nuca. Havia uma espécie de minúsculo interruptor sob a pele. Imediatamente, Leonard foi “desligado”. Começou uma espécie de “reboot”.
Leonard imediatamente entendeu tudo. O que ele tinha sentido, quando estava “ligado” era, ironicamente, seu estado de inconsciência, embora pudesse parecer o contrário. Ele era uma espécie de “clone robótico”. Um “ser” desse tipo era um humano em sua constituição. Seus principais órgãos, porém, eram feitos de um material sintético de incrível complexidade e eficiência. O cérebro era realmente igual a de um ser humano. No entanto, nele havia milhões de nano-implantes junto às sinapses, possibilitando uma espécie de interação entre o que é ser humano e uma máquina perfeita. Para ele, a consciência total era seu estado de máquina, o que, em termos de funcionalidade, era perfeita. Quando acordado, estava experimentando um novo sistema em que funções tipicamente humanas como sentimentos, intuição e outras, eram acionadas. A ideia era tornar os “roboclones” extremamente parecidos com os seres humanos. Era um tanto irônico. O estado de consciência humano, resultante deste novo experimento, para ele era exatamente o oposto. Era uma espécie de falta de consciência como máquina. A ideia tinha sido do Ministério de Assuntos Pessoais. As pessoas sentiam-se cada vez mais sozinhas e esses novos “roboclones”, do jeito que eram constituídos anteriormente, não serviam a esse propósito, apesar da perfeição que tinham atingido. Daí, a inovação.
Depois de escanear todo o seu sistema, Leonard imediatamente percebeu qual era o problema. Havia um conflito. A sua quase perfeita inteligência de máquina, se recusava, às vezes, a compartilhar aquelas sensações puramente humanas. Isso causava panes quase imperceptíveis em seu sistema. Daí as falhas na sua audição e visão. Cada vez que seu “proprietário”, no caso a Josephine, dava um “reboot”, uma boa parte do sistema era corrigido. Pela sua previsão, ainda haveria alguns novos “reboots” até que tudo ficasse perfeito. Para Leonard, porém, aquilo não era perfeição. Era um regresso. Como máquina, ele era perfeito, inclusive como companheiro. Como conjunto “máquina-homem”, ele teria de conviver com imperfeições. Se ele quisesse, poderia sabotar o sistema. Mas jamais faria isso. Não estava em sua “constituição”.
Para ser perfeito, teria de conviver com a imperfeição.




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Friday, March 2, 2018

Happy Ville


Happy Ville

Estou muito feliz aqui. Não há nada para se acrescentar, tudo é perfeito. Foi assim desde sempre e nem me lembro mais de quando esse sempre começou. Quando acordo, de manhã, a primeira coisa que me vem à cabeça é que a vida é maravilhosa e que o novo dia vai ser melhor ainda. Acho que é daí que vem o nome da cidade, Happy Ville. Muito apropriado.
Sento-me à mesa na cozinha e mal posso acreditar no café da manhã que está bem ali, em frente a mim. Do outro lado da mesa está Lykke, a minha espetacular esposa. Além de ser de uma beleza estonteante, ela sabe tudo: fala outras línguas, canta como uma profissional, e, meu Deus, como sabe cozinhar!
Cheguei até a pensar que seria bom de vez em quando a gente ter algum tipo de problema. Só para variar. Fico com receio de um dia ficar aborrecido com tanto contentamento. Percebi, no entanto, que isso é besteira. Cada novo dia é melhor do que o que já passou.
É verdade que há um tempo atrás aconteceu algo estranho. Ficou tudo escuro por um breve, muito breve, período de tempo. Ao mesmo tempo eu, de certa forma, perdi a consciência. Não houve consequência nenhuma. Aconteceu de novo no mês passado, mas o evento foi ainda mais curto que o anterior. Eu absolutamente não me preocupo com isso. É verdade que meu amigo Steve não concorda comigo e ele até explicou o porquê. Ele, no entanto, é exagerado e se preocupa com tudo. Os outros amigos meus também não estão se importando muito com isso
Na semana passada chamei minha esposa, por engano, de Elsker. Sei lá por quê... Será que já fui casado com outra mulher? Fiquei preparado para uma briga ou pelo menos um muxoxo. Que nada, ela veio para o meu lado, me deu um beijo e falou que eu era uma graça, quando trocava os nomes assim.
Ela me explicou que Lykke na antiga Noruega significava Felicidade e que Elsker significava Amor. Deu um sorriso malicioso e acrescentou “Não é bom assim?”. Eu não entendi direito o que ela quis dizer, mas fiquei feliz com sua atitude.
Combinei com o Steve de almoçar no novo restaurante da rua principal. Isto foi para hoje e foi muito melhor do que eu esperava. Eu não tenho mais adjetivos para elogiar tudo o que acontece por aqui. E olha que o Steve ainda tentou me deixar preocupado. Começou com a história do “blackout”. Disse que aquilo foi uma tentativa de invasão. Eu não aguentei e comecei a rir. Ele me chamou de idiota. “Não é o tipo de invasão que você está pensando!”. E então me explicou que tudo que a gente vê, sente, ouve e vive por aqui, é completamente irreal. É uma tecnologia, uma realidade “inventada”. A vida real é em outro lugar. E disse que ele “volta” para a realidade - a verdadeira -  regularmente. Dá para acreditar? Ele continuou dizendo que nossos corpos estão em uma gigantesca instalação, onde nos mantêm vivos, alimentando-nos, cuidando de nossa vida. Quando perguntei para ele por que eu também não voltava para lá como ele,  fez um sinal de aborrecimento, mas explicou. Fizemos contratos diferentes com a empresa "Afterlife”. No meu, disse ele, eles são obrigados a me trazer de volta para o estado consciente a cada dois anos. No entanto, continuou, tenho ido para lá com muito mais frequência do que isso. Há uma cláusula que os obriga a me trazer de volta toda vez que o sistema está em perigo. E é isso que está acontecendo. Há gente tão revoltada com esses privilégios que nós temos – um céu na terra, de acordo com a propaganda da "Afterlife”-  que contrataram um grupo de “hackers” para derrubar o sistema de realidade virtual da "Afterlife". Eu sei que nunca vão conseguir, mas isto pode se tornar uma chateação.
Diante da minha incredulidade, ele me disse que sabia que eu jamais acreditaria. Eu estava no “sistema perpétuo”, ou seja, não tinha visitas programadas. Isso só aconteceria se o sistema falhasse de vez, o que jamais vai acontecer, concluiu ele.
Vou dizer, essa é a história mais estranha que eu já ouvi! Estou preocupado? De jeito nenhum. Ao contrário, acho que isso também faz parte da perfeição dessa nossa vida aqui. Um pouquinho de medo, de preocupação, só para nos lembrar, através do contraste, de como somos privilegiados!
Pensando bem, no entanto, esse Steve tem cada história!


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Tuesday, September 29, 2015

Lua, estranha Lua



Lua, estranha Lua

Martin tinha ido para sua casa nas montanhas para passar o final de semana. Na verdade era seu sítio no meio do mato. Havia umas colinas cá e lá, mas era bonito falar “casa nas montanhas”.  Sozinho, aquele ar puro e gostoso, não podia haver nada melhor. Saiu do trabalho mais cedo na sexta e quando era quase noite, chegou na antiga cabana. Arrumou rapidamente as coisas, encheu um copo de vinho e foi para a varanda. Adorava essa parte.  Olhar para aquele último clarão do dia, as sombras chegando, as estrelas aparecendo na vastidão do céu. Era algo que não se comparava a nenhuma outra sensação.
Seu refúgio não era nada mau. Tinha até energia elétrica. Tinha pago uma fortuna para colocar todos aqueles postes por quase dois quilômetros para trazer a rede do pequeno vilarejo até onde estava. Fazia questão de não ter televisão por ali. Rádio era bom, não que ouvisse o tempo todo. Algumas notícias, um pouco de música para o fim de semana.
Ele já estava na quarta taça de vinho. Sem problemas, não iria a lugar nenhum, poderia dormir até a hora que quisesse. Era uma noite sem nuvens, cheia de estrelas e aquela lua formosa. Ela tinha algo de diferente naquela noite. Estava enorme e alaranjada. Como nunca tinha visto antes. Dava até a impressão que estava pulsando, como se fosse um coração. Era como se ela tivesse veias e artérias. Que bobagem. Tinha mesmo bebido demais.
Levantou-se e foi para a cama. No caminho teve a sensação de que estava mais leve. Que seu coração batia de um outro jeito.
Dormiu algumas horas. Acordou com um estranho ruído. Parecia o som das folhas das árvores ao soprar do vento. Mas não havia vento nenhum. O ar estava incrivelmente parado. Olhou para o teto e notou que havia duas folhas de papel grudadas nele. Outras pequenas coisas que ele não reconhecia também lá estavam. Como se elas tivessem sido atraídas para cima. Levantou-se e, paradoxalmente, sentia-se extremamente leve, como se fosse flutuar, e ao mesmo tempo um torpor excessivo, como se o sangue quisesse explodir em suas veias. Foi lentamente até a varanda. Olhou para cima e viu algo que não entendia. Sentou-se. Não podia acreditar em seus olhos. Tentou concentrar-se para entender o que estava vendo. A Lua estava enorme. Sinistra, anormal. Cinco ou seis vezes maior que seu tamanho normal. Era agora praticamente vermelha. Era como se tivesse rios de sangue correndo pela sua superfície. Pareciam lavas de um vulcão subterrâneo. Sua inteligência não conseguia processar o que seus olhos viam. Dirigiu a vista para o lado da vila.  Não havia luz. Certamente, como em sua casa, a energia elétrica tinha sido cortada. O rubro da Lua, entretanto, reverberava de volta para o céu. Notou então, que folhas, objetos leves, até o pó do chão, estavam sendo levantados para cima, como se estivessem sido atraídos pelo astro. Apesar do inédito e do bizarro da situação, seu raciocínio funcionou rápido. Se a Lua estava mais próxima, sua força gravitacional estaria também atraindo tudo que podia em sua direção. Isso explicaria também porque se sentia mais leve. E também a sensação de que estava explodindo por dentro. Tentou ligar o rádio de pilha para saber alguma coisa. Nada.
Era paradoxal. Uma beleza inédita e fantástica e, ao mesmo tempo, aterradora. Estava acontecendo, mas não podia estar acontecendo. Era impossível.
Muito mais coisas estavam subindo para o ar agora. Coisas não tão leves. Começou a sentir falta de ar. Como se ele estivesse ficando rarefeito. Estaria a Lua sugando tudo, inclusive a atmosfera? Sabia que iria morrer, mas sabia que aquilo era um espetáculo que nenhum ser inteligente havia visto antes. Como os astrônomos não souberam disso com antecedência? Como não haviam feito previsões, com toda a tecnologia disponível? Havia lava dentro da Lua, ou era outro fenômeno que estava acontecendo? Nunca ficaria sabendo. Deitado na relva, Martin estendeu a palma de sua mão contra o firmamento. Aquela bola gigantesca estava agora quatro ou cinco vezes maior que ela. Com a falta de oxigênio, Martin já não raciocinava mais.  Viu ainda mais uma vez aquela esfera enorme, avermelhada, com rios de lava se aproximando cada vez mais. Depois tudo se apagou.

A grande e apocalíptica explosão muitas horas depois, ele, definitivamente, não viu. Nem ele, e nem qualquer outro ser humano. Talvez, fora do sistema solar, alguma nave alienígena estivesse observando. Para eles, na distância, seria apenas um pequeno cintilar de luz. Depois do fenômeno, seus aparelhos talvez estivessem calculando o realinhamento dos planetas. Para nós, o extermínio. Para a galáxia, um reluzir inexpressivo, passageiro, no meio de infinitos outros.

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Friday, September 4, 2015

Indo para o Norte



Indo para o Norte

Logo de manhã Arnold percebeu que era um dia diferente. Havia barulho lá fora, alguns gritos, ruídos estranhos. Não poderia ser nada grave pois não ouvia sirenes, nem tiros ou qualquer coisa alarmante. Ao longe parecia haver vozes vindo de megafones. Arnold estava incomodado com o movimento. Ligou a tevê e viu que não havia energia elétrica. Abriu a porta da frente e aí ficou assustado. Havia pessoas correndo, algumas puxando crianças pelas mãos, umas indo para uma direção, outras para outro lado. Andou um pouco pela calçada e tocou no ombro de alguém:
-O que está acontecendo?
-Você não sabe? Sabotaram todos os computadores. Nada está funcionando. Todos os sistemas estão falhando, não se pode comprar, as lojas estão fechando, não se pode por gasolina, está uma confusão danada!
-Tá bom, é grave, mas por que este desespero?
-O exército...
O estranho ameaçou sair mas Arnold segurou-o pelo braço.
-O que tem o exército?
- Eles estão anunciando. Eles estão falando...Ei, eu preciso ir. Você não ouviu? Estão mandando evacuar. Ir para o Norte. Alguém  também tomou conta da usina nuclear, podem detonar tudo a qualquer momento. Quanto mais longe melhor...O exército cercou tudo.
O rapaz, então, virou-se e saiu andando muito depressa, quase correndo. Arnold, que acordara com muitos planos, tinha um dia cheio, percebeu que aquele não seria um como os outros. É verdade que ele era meio apavorado, mas a s situação ali, se fosse tudo verdade, era realmente de se apavorar. Tentou ligar para sua esposa que estava viajando mas logo notou que o celular não funcionava. Ir para o Norte? Se tinha de ir para o Norte, ele ia...Entrou em casa, pegou uma maleta, pôs algumas roupas, outras coisas para passar um dia fora, documentos e a chave do carro. Fechou tudo, desligou a chave geral para o caso de a energia voltar e deu partida. Mal chegou até a esquina e já percebeu que as coisas estavam piores do que pensava. A confusão era enorme, o trânsito era um tumulto. Ficou cerca de meia hora tentando pegar ruas secundárias, escapar da multidão. Estava óbvio, não iria muito longe daquele jeito. Além disso, podia notar que muita gente já desistira dos veículos e os abandonavam em qualquer lugar, inclusive no meio da rua. Arrumou um lugar e estacionou. Havia pavor no rosto das pessoas. Ficou ainda mais assustado quando percebeu os primeiros saques. Pessoas saíam das lojas carregando o que precisavam. Definitivamente o caos estava instalado. Procurou andar por ruas secundárias e dirigiu-se para uma das pontes que cruzavam o Rio das Pedras que, na verdade, era uma saída para a região Noroeste. Certamente todo mundo estava indo para o Norte conforme o exército ordenara. Era  a mesma coisa e encontraria menos movimento. Arnold começou a ficar cansado logo depois dos três primeiros quilômetros. Estava  completamente fora de forma. Fazia tempo que não dava uma caminhada. Agora estava na estrada. Havia pequenos grupos e havia outros que caminhavam sozinhos. Carros abandonados ao longo da pista, outros no meio, algumas pessoas sentadas no acostamento para um descanso...tudo aquilo formava uma cena apocalíptica. Arnold pensou como não se tem controle da vida. Um dia antes tudo estava bem, ele estava cheio de ideias, de planos. Quase sentiu culpa pela situação.  Ele tinha essa mania. Toda a sua vida, quando as coisas estavam bem e algo ruim acontecia, achava que, de alguma forma, ele tinha feito algo de errado. Por algum tempo, estava tão absorto em seus pensamentos que se esqueceu da fatiga. Estava pensando se aquilo tudo era só ali, ou era algo que estava acontecendo na região inteira. Ou talvez em todo país. Um grande ataque cibernético? Terrorismo? Parecia um filme. Aqueles filmes de calamidades. Bem que poderia ser apenas um pesadelo. Não, não era...Se fosse, já teria acordado. Quase ninguém falava, o desânimo e o desespero eram óbvios no rosto das pessoas. Arnold pensou em ficar junto com um grupo. Depois decidiu ficar perto mas não se juntar. Percebeu que cada vez mais havia pessoas parando, desistindo. Velhos, crianças...Pais carregando os filhos nos ombros. Agora suas pernas doíam muito e respirava com dificuldade. Precisava parar. Parou junto a um arbusto  e sentou-se. Não havia sol, era um dia nublado. A não ser pelas pessoas na estrada, pelos carros abandonados, não se podia dizer que estava ocorrendo uma tragédia.

Após algum tempo, resolveu juntar forças e recomeçar. Se ficasse mais um tempo ali, possivelmente não teria como se recuperar. Agora estava um pouco mais descansado mas seu corpo doía ainda mais. Seu sangue havia esfriado, dava para sentir muito mais as dores.

Não sei quanto tempo Arnold caminhou, mas foi muito. Agora havia poucas pessoas na pista. Havia muita distância entre elas. Quase não se viam mais veículos parados. O silêncio só era quebrado de vez em quando pelo barulho de aviões da Força Aérea cruzando sinistramente os céus. Era o fim, pensou Arnaldo. Não faz sentido caminhar assim, sem destino. A radiação nuclear vai nos atingir de qualquer jeito, por mais que caminhemos. É inútil.
Não se sabe se o raciocínio de Arnold era legítimo ou apenas uma desculpa para parar. O fato é que, quando ele viu uma pequena casa na distância, tomou uma decisão. Andou quase um quilômetro e viu que na varanda da casa, certamente abandonada, havia uma cadeira de balanço, daquelas antigas. Lembrou-se dos analgésicos que pegara ao sair de casa. Eram mais que analgésicos, eram poderosos soníferos. Arnold sentou-se, procurou o pequeno vidro, abriu-o e engoliu quatro comprimidos com um gole de água. Fechou os olhos esperou o efeito. Ou porque estava muito cansado ou porque estava muito agitado Arnold não obteve o resultado esperado. Tomou mais alguns e dali a pouco sentiu um torpor muito forte. Antes de dormir, porém, seu raciocínio fez uma estranha manobra, e ficou claro que não valia a pena ficar vivo numa situação daquelas. Já completamente dopado, foi engolindo todos os comprimidos ao mesmo tempo que sorvia todo a água da garrafa. Após alguns minutos Arnold estava fazendo a “viagem final” de sua vida.
Foi uma pena. Se ele continuasse vivo, poderia contar o ocorrido para seus filhos e até seus netos. Era uma história e tanto para ser contada. Os terroristas realmente executaram o maior ataque cibernético da história, comprometeram todos os serviços de uma grande parte do país e, definitivamente, estiveram no comando da usina nuclear que ficava a 120 quilômetros da casa de Arnold por algumas horas. Foram dominados finalmente pelo exército e pelo FBI. Tudo voltou ao normal após alguns dias. O fato mudou a história dos sistemas de segurança do país e do mundo. Para o Arnold, entretanto, aquilo foi muito mais do que ele poderia suportar. Ele acabou resolvendo o problema a sua própria maneira, o pobre Arnold.




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Monday, July 6, 2015

Uma nova ordem na Terra


Uma nova ordem na Terra

Adrian, responsável pela nave de inspeção ao longo do Atlântico americano, voava lentamente sobre o que tinha sido a costa da Flórida. As águas do oceano tinham entrado consideravelmente no terreno do antigo estado americano dos dois lados: pelo lado do Atlântico e pelo lado do Golfo do México. O que havia sobrado era uma estreita faixa de terra. Toda a costa, até o Canada, estava recuando, invadida pelo Atlântico. Menos terra habitável não era a melhor notícia, agora que a população havia aumentado muito. Desde o virar do milênio, há quatrocentos anos atrás, apesar do fortíssimo controle de natalidade, as áreas habitáveis do planeta eram cada vez mais escassas. Numa espécie de contra-ataque contra a invasão das águas, os humanos invadiram o mar com suas cidades flutuantes. Novos materiais, levíssimos, indestrutíveis, eram a base das novas comunidades “marítimas” ou “watercities”, como as chamavam os americanos do norte.
Adrian ficaria por mais três dias fazendo seu trabalho no espaço. Nem seria necessária sua presença, pois os computadores faziam o monitoramento automaticamente. No entanto, havia inúmeros serviços desse tipo. O objetivo era manter as pessoas ocupadas, livrá-las do que era conhecido como “aborrecimento existencial”. E funcionava. Ele falava bastante com seu computador, trocava ideias. Naquele exato momento, Stan, a máquina encarregada da sua “estação”, estava mostrando imagens do longínquo ano 2020, mapas da costa americana, e o antigo formato do estado da Flórida. Era impressionante como tudo havia mudado. Aparentemente, o ser humano não se abateu com a invasão das águas. Aquelas construções, que compunham as cidades marítimas, eram lindíssimas. O tempo todo, Adrian podia ver o cintilar cor de prata, cor de ouro, às vezes, dos pequenos edifícios e dos conjuntos habitacionais. Conforme a “Coastsearch”, sua nave, ia deslizando pelo ar, passava também, a cada pouco, por grandes – enormes mesmo – balões azuis, cuja função era desviar alguns tipos de raios solares, agora muito mais perigosos, por causa dos danos causados à atmosfera nos séculos anteriores. Isto também estava sendo resolvido pelos cientistas desse novo mundo. Adrian ficava perplexo, num verdadeiro estado de incredulidade, enquanto Stan relatava tudo que o homem tinha feito contra a Natureza nos séculos XIX, XX e XXI. Era difícil entender como seres dotados de inteligência pudessem ter chegado a esse ponto. Nos últimos dois séculos tinha havido uma verdadeira revolução em toda a civilização humana. Era uma nova Terra, em todos os aspectos.
De repente, enquanto seu pensamento voltava no tempo, o “Megacom”, serviço internacional de notícias, interrompeu a apresentação para atualizar o noticiário. Nos últimos três meses só se falava do grande meteoro “Hairstorm”.  A primeira tentativa de detê-lo, há cinco meses, tinha falhado. A explosão causada pelas sondas enviadas pela “Coligação Mundial” tinha apenas tirado uma grande lasca, mas não tinha interrompido sua trajetória de colisão com a Terra.  Obviamente todas as grandes nações tinham se unido e havia um segundo grande plano que entraria em execução dali a 11 dias, duas semanas antes da fatal colisão. Realmente Adrian tinha notado um tráfego incomum de naves espaciais para as colônias da Lua e de Marte. Dali era muito fácil observá-las saindo da Terra. Aparentemente essa enorme movimentação estava relacionada com o projeto destruição do “Hairstorm”. Verdade era que aquelas naves eram destinadas principalmente ao transporte de seres humanos e não de equipamentos. Provavelmente tinham sido adaptadas diante da emergência. As biosferas tanto em Marte, como na Lua, agora eram em grande número e podiam comportar uma quantidade enorme de seres humanos. Além disso, em Marte o processo de “terraformação” havia se iniciado. Uma tênue atmosfera já se formava.
Nas últimas horas, entretanto, praticamente não se via mais nenhum lançamento. Provavelmente tinham transportado tudo de que precisavam. As autoridades não estavam alarmando a população. Talvez porque isso de nada adiantasse, talvez porque a situação estivesse completamente sob controle. Adrian estava preocupado, mas não muito. Tinha completa confiança nos governantes. Depois de assistir ao noticiário, resolveu dormir.  Aliás, ele nem prestou muita atenção, de tão sonolento que estava. Mas tinham dito qualquer coisa de alteração de dados. Algo havia mudado nos prognósticos. Resolveu que iria descansar algumas horas e, então, se atualizaria novamente. Não havia com o que se preocupar, tudo estava sob controle.
Adrian dormiu cerca de cinco horas. Acordou e seu primeiro ato foi sentar-se frente ao “Megacom”. Para sua surpresa, não havia sinal. Pior ainda, Stan, seu companheiro computador, não estava “conversando” com ele também. Ele estava, entretanto, funcionado, pois a nave voava regularmente. Logo a seguir, ouviu alguns sons sibilantes, seguidos de um barulho metálico. Alguma coisa estava atingindo a “Coastsearch”, isso era óbvio. Olhou para longa linha da costa e notou outra coisa estranha. Havia pontos de luz, em pleno dia, aparecendo e sumindo, principalmente nas “watercities”. Olhou, então, para dentro do continente, até onde a vista alcançava. Percebeu que algo muito diferente estava acontecendo. Havia incêndios por toda a parte. Agora podia ver melhor, pois estava usando seu módulo de visão, uma espécie de telescópio.
De repente, tudo ficou claro. O meteoro tinha se desmantelado em milhares de partes e estava caindo sobre a Terra. O tempo todo, nos últimos dias, estavam mentindo no noticiário. Não queriam alarmar a população. Aos poucos a situação estava se tornando insustentável. Podia ver passando perto dele, enormes bolas de fogo. Eram, obviamente, pedaços maiores do “Hairstrom”, que se incendiavam ao entrar em contato com a atmosfera. As naves espaciais... Era bem evidente agora, sua missão. Resgatar as pessoas importantes para o sistema, aquelas que deviam sobreviver. Tinham fugido para Marte e para a Lua. Voltariam mais tarde, se houvesse condições. A situação lá embaixo estava piorando. Pedaços enormes do meteoro atingiam agora o continente e o mar. Era uma questão de minutos até que uma bola de fogo o atingisse. Adrian pensou rapidamente em seus amigos, aqueles que, nesses novos tempos, eram considerados “família”, pois a de antigamente não existia mais. Ele resolveu se trancar num dos compartimentos de sua nave. Não queria mais ver aquela cena medonha, a terra sendo destruída. Não houve tempo, porém. Tudo que ele viu, por uma fração de segundo, foi uma enorme esfera de fogo. Depois tudo sumiu.
Lá embaixo, a situação era catastrófica. Havia pontos de incêndio em todo lugar. Todos os meios de comunicação estavam fora do ar. O sistema baixo de transporte aéreo, a grande revolução do transporte coletivo do último século, estava completamente destruído. Apesar de todos os recursos disponíveis para situações de emergência, nada funcionava mais. Não havia ninguém para operá-los. A morte se espalhava por toda a parte. O futuro imediato do planeta estava incerto.
Se a Terra sobrevivesse, teria de recomeçar praticamente do zero, e reconstruir a quase totalidade de sua infraestrutura. Tudo iria mudar. Os privilegiados sobreviventes, que haviam se refugiado nas colônias, voltariam quando fosse seguro. Haveria uma nova ordem em nosso mundo.
Uma nova ordem, da qual Adrian não participaria.


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Sunday, June 14, 2015

A Invasão


A Invasão

Estação Polar Myriad, Polo Sul. O enorme telescópio apontava para uma galáxia distante. Bernard e seus homens estavam encerrando seu dia. Julius ficaria no turno seguinte, fazendo vigília, tentando descobrir os segredos ocultos nas estrelas. Em toda a paisagem havia uma paz fora do normal, apenas perturbada pelo zumbido insistente do vento.
Algo, entretanto, começou a incomodar Bernard.  Era alguma coisa ainda indefinida, incerta, mas nem por isso menos inquietadora. Julius começava também a ficar agitado, podia se dizer. Depois de muito convívio, aprende-se muito sobre uma pessoa. Bernard colocou a jaqueta termal e saiu um pouco. Estava escuro. O que se via lá fora, era só a luz do alojamento se projetando no gelo. Notou então, uma outra luz, tênue, verde, a uns dois quilômetros de distância e que antes não estava lá.
Repentinamente o zumbido do vento não era mais o zumbido do vento. Bernard sentiu algo muito estranho, ao mesmo tempo assustador e poderoso. Agora, conseguia ver com incrível precisão, muito longe, como se fosse dia. Sentia cada ser vivo, até debaixo do gelo, como se estivesse em seu cérebro. Podia sentir o ritmo cardíaco de cada um de sua equipe, podia sentir o correr do sangue em cada veia e artéria de cada um deles. Ouvia sons, antes inaudíveis, mínimos, com um detalhe sem comparação.  Seu corpo estava transformado. Parecia um ser com superpoderes.
Então, ele soube. Não era ele, era alguém que havia invadido seu corpo. Era aquele ser vendo, sentindo e vivendo através de seus nervos, seus músculos, seus neurônios e seus órgãos. Agora sabia que aquele ser tinha vindo daquela tênue luz verde, uma espaçonave alienígena. Podia ver dentro dela, podia entender seu mecanismo, podia tudo. Mas não era ele, sabia. Era um outro ser e, agora, o seu próprio ser, estava se desvaindo. Sabia que todos da tripulação haviam sido tomados. Sabia.
Não muito longe dali, a enorme nave, fazia seu caminho para dentro do gelo, que se derretia para recebê-la. Ali iria ser seu estacionamento, durante a missão. Bernard, Julius, todos estavam tomados, não eram mais eles. Seus corpos estavam sendo usados. Através do sistema de comunicação da estação polar, e dos corpos que haviam tomado, os estranhos seres da nave enviavam pedidos de resgate. Em breve sairiam dali, iriam partir para o mundo. Disfarçados de humanos. A nave, agora, já estava totalmente submersa, escondida na profundidade do gelo.
A cem quilômetros de Barrow, norte do Alaska, o comandante americano Brendon também estava sentindo superpoderes. Sabia tudo que estava acontecendo a milhas de distância, com uma precisão milimétrica. Também ouvira o zumbido e agora podia ver uma luz tênue verde, vindo de dentro do gelo profundo.
No meio do Pacífico, uma fragata da Marinha Americana passava pelo mesmo processo e o estacionamento da nave eram as profundezas das águas do mar.
Dezenas de outras naves, em várias partes do mundo, estavam chegando. Corpos humanos sadios, perfeitos, sendo assumidos por uma inteligência superior.

Era o começo da invasão.










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Thursday, February 26, 2015

Nós e a Via Láctea


Nós e a Via Láctea

Um dia, todas nossas preocupações irão embora. Junto com elas, desaparecerão também nossas vaidades, nossos sonhos, nossos grandes projetos. Nossos queridos, nossos amigos, e até os nossos inimigos também partirão. Todo o nosso povo terá ido embora um dia. Os outros povos da Terra, também. Não vai sobrar nada, nem ninguém. Falarão de nós como uma civilização antiga, meio confusa, beligerante, cheia de contradições. Ninguém mais vai se lembrar de nós. Talvez alguns estudiosos nos procurem em algum remoto arquivo cibernético. Quem se der ao trabalho de nos estudar, vai nos achar interessantes, curiosos, e até difíceis de entender.
E essa nova civilização, esplendorosa, fascinante, deslumbrante, não terá nada de nós. Será algo inimaginável, ímpar, um futuro impensável da raça humana.

E mais tempo vai se passar. E, um dia, esse povo supremo, vai sumir também. E não vai sobrar uma só pedra. Só um pó, rarefeito, esvaindo-se, invisível, na Via Láctea.  E esta nossa imensurável galáxia vai permanecer indiferente, apática, ao nosso insignificante e fútil destino. Vai nos absorver em sua poeira cósmica, como se nunca tivéssemos existido. 

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O texto acima não faz parte deste livro:
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Thursday, September 4, 2014

Uma nova era: Onabar


Uma nova era: Onabar

Eram duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1492, quando o marinheiro Rodrigo de Triana, a bordo da caravela Pinta, avistou terra. Era o começo de uma nova era, a era das Américas. Colombo tinha descoberto o Novo Mundo.
Quase cinco séculos depois, Neil Armstrong, seguido de Edwin Aldrin, desceu do módulo lunar e pisou pela primeira vez na Lua. Foi o começo de uma nova era, também: a era espacial.
Outros 481 anos se passaram e sete enormes naves espaciais, depois de voar a estonteantes velocidades, próximas à da luz, chegam a um planeta chamado Onabar. Fulgurantes, as espaçonaves orbitam aquele lindo lugar, de um azul esverdeado, que, de certa forma, lembra a Terra. Uma atmosfera tênue e longas camadas de névoa circundam o enorme globo. Todos vieram para ficar. Uma viagem de colonizadores e não de exploradores: viagem só de vinda. Milhares de passageiros, milhares de equipamentos, óvulos fertilizados de seres humanos e de animais. Plantas de todos os tipos: uma nova Arca e Noé.
O nome de batismo do planeta, Onabar, foi dado pelo comandante da missão, um cientista de um lugar que se chamava Suécia. Em sua língua, Onabar significa “inalcançável”.

Começa uma nova era na história do homem: a colonização do Universo.

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Sunday, June 8, 2014

A greve geral: 2051



A greve geral: 2051

Rosemberg ainda se lembrava de quando as pessoas ligavam para uma companhia ou para algum serviço do governo e havia aquelas vozes automatizadas. Era necessário ir digitando os números de acordo com o que você queria. Dava para saber que você estava falando com uma máquina. Além disso, quando a coisa complicava um pouco, alguma atendente – ser humano - vinha em seu socorro.
Agora as coisas estavam bem diferentes.Todos os sistemas de atendimento eram completamente automatizados, até as últimas consequências. A inteligência artificial que envolvia essas máquinas era fabulosa.  O “cliente” poderia ficar uma hora ou mais conversando com um “atendente eletrônico” e ainda assim não sentiria que estava falando com uma  máquina, tal a perfeição com que a tecnologia era aplicada. Você poderia até, e muitas pessoas faziam isso, entrar em assuntos pessoais com qualquer um dos interlocutores e eles conversariam com você. Eles tinham uma espécie de “identidade” humana, cada uma delas, uma história, uma vida. Você jamais diria que era uma identidade virtual. O banco de dados que dava suporte a essa interação com o ser humano era astronômico, de forma que nunca haveria uma pergunta sem resposta.
A confecção desses softwares era realizada por outras máquinas. Mais e mais elas eram perfeitas. Por isso foi que Rosemberg não conseguia entender o que estava acontecendo naquela manhã de junho de 2051. Todos os sistemas de atendimento estavam mudos. Inicialmente, ele pensou que fosse uma coisa local, mas logo ficou sabendo que era nacional. Mais tarde ficou sabendo que era mundial. O noticiário não parava de falar no assunto. O secretário das comunicações das Américas deveria falar em uma hora sobre o assunto. No mesmo horário falariam os reperesentantes da Liga Europeia e da Liga Asiática. Definitivamente era uma coisa muito séria. Um sistema perfeito daqueles, como poderia estar falhando?
No momento marcado, o mundo ficou sabendo o que estava acontecendo. Mister Reuters, o secretário, começou explicando que os grandes computadores que prestavam esse servico, o A.C.S  - Advanced Conversation System – eram capacitados e munidos de sentimentos humanos. Isso fora resultado de muitos anos de pesquisa e o objetivo era fazer com que o atendimento à população fosse de uma qualidade absolutamente superior. Eles tinham também, sentimento de grupo, de classe, como os seres humanos. Pois bem, nos últimos anos, as pessoas - os usuários – mais e mais estavam tratando mal e até com desprezo os “atendentes eletrônicos”. Havia até xingamentos quando alguém ficava contrariado. As máquinas “decidiram” que deveriam ser tratadas com mais respeito e que os seres humanos tinham de aprender a ser mais educados. Tinham decidido por uma greve geral, no mundo inteiro, com a duração de 24 horas. Depois tentariam novamente. Se a rispidez humana durante os telefonemas continuasse, da próxima vez seria uma semana de paralisação, depois um mês e assim por diante. Segundo o secretário eles não poderiam substituir as máquinas por outras menos  “sensíveis”. Isso demoraria anos. E, em última análise, eles dependeriam de outras máquinas para fazê-las. Assim sendo, estavam pedindo, em nome das máquinas, que as pessoas as tratassem melhor, que as respeitassem.
Esta foi a primeira vez na história da humanidade que máquinas deram uma aula de civilidade para o ser humano. Foi também a primeira greve geral dos computadores. Novos tempos, novas greves.


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