Monday, July 20, 2015

A Fábula do Rato

http://www.freakingnews.com 

A Fábula do Rato

O Grande Reino dos Animais sempre teve reis importantes e imponentes. O primeiro e mais majestoso foi o Leão. Grande monarca. Mais recentemente outros vieram: o Leopardo, o Lince, um Gato, e até uma Anta. Por razões não bem explicadas, pássaros como o Condor, a Águia e a Coruja, nunca se interessaram pelo poder. Talvez porque de qualquer forma já estivessem por cima, ou talvez porque fossem sábios ou ainda porque para eles fosse mais importante voar. Não se sabe. O tempo foi passando e chegou a vez do Rato. Assim foi que ele tomou posse e começou a governar. Supostamente outro animal deveria substituí-lo quando morresse. Desafiando a lógica, sua majestade, o Rato, ficou no poder por muitos anos e que equivaleriam a cinco de suas vidas e nada de ele sair. Isto obviamente não fazia sentido, mesmo porque, quem supostamente tinha sete vidas, era o Gato.  E todos sabiam que a sua majestade, o Gato, na sua época, foi devidamente substituído após sua primeira vida. Havia algo de errado no Reino. Muitos animais nem percebiam o que estava acontecendo. Outros porém, mais espertos ou inteligentes, começaram a desconfiar.  A desconfiança virou certeza: obviamente um rato substituía o outro, defunto, sem que ninguém notasse. Tudo era feito secretamente nas dependências – talvez no porão – do castelo, que, por sinal, agora estava mais suntuoso do que nunca. Ao contrário do senso comum, os roedores tinham um bom gosto enorme e viviam como gente fina. A safadeza era fácil de se notar pois os ratos eram muito semelhantes entre si e ninguém percebia a diferença, a não ser os assessores mais imediatos. Mas com eles não havia problema, pois a manobra também lhes servia, pois se perpetuavam nos seus cargos também. Era, poderíamos dizer, uma safadeza real. Real de rei, embora fosse real “de verdade” também, se é que você me entende. A coruja, o cachorro e o papagaio, além de outros, por serem mais espertos que a maioria e mais sábios também, sabiam de tudo, mas no princípio se calaram. Claro, temiam pela própria vida.  Afinal para quem faz uma ratada dessas, livrar-se de alguns súditos mais ousados seria café pequeno. Chega uma hora, porém, que ninguém aguenta. Resolveram então não mais ratificar a ratada feita pelos ditos cujos e, ao contrário, retificar a rota do Reino. Começaram então a espalhar a verdadeira história da falsa longevidade do grande roedor. Foram rápidos e astutos e conseguiram difundir a revolução. A revolta foi geral. Folhetos, panfletos e manifestações se espalharam por toda a parte. Depois de algum tempo, a rebelião era total.
O Rato Primeiro, que primeiro não era não, mas sim o quinto, logo tentou dissipar a revolução. Ele que não era burro – sem querer ofender o coitado do animal, que, por sinal, nunca chegou a ser rei – mas, obviamente era ratão, sabia que violência não adiantaria. Os elefantes, por exemplo, estavam cientes da situação. E, como se sabe, eles não esquecem não. Além disso, já pensou levar um pisão de um deles? A realeza seria esmagada com certeza. Declarou então a sua majestade que queria, ele também, a verdade. Por isso instituiu uma comissão para apurar os fatos: “Comissão Democrática do Reino Animal”. Essa era composta democraticamente, como o nome sugeria. Ratazanas havia, claro, mas outros bichos também lá estavam.
Chegou o dia do grande julgamento. Lá estavam os membros da comissão, a família real, o público em geral, especialistas em direito animal, especialistas em direito selvagem, além de outros interessados. O Rato Primeiro, que além de ser rei, era réu, nesse caso funcionava também como o Grande Juiz. Era esquisito mas pelo menos estava havendo algum julgamento e talvez, quem sabe, a justiça fosse feita. Não era o tribunal mais justo do mundo, mas como se diz “Quem não tem cão, caça com gato”, que no nosso caso, seria “caça com rato”.
Todos falaram, reclamaram, apresentaram provas, documentos, testemunhas. Não havia nada de positivo que se pudesse falar do Grande Rato. A fraude era óbvia. Ficou muito claro que ele era um charlatão além de ratão, como o próprio nome indicava.  Foram horas e horas de denúncias contra as ratadas do rei. No final, a comissão pediu a deposição do tirano. O monarca então se levantou para dar a sentença que deveria ser cumprida por ele mesmo. Os pobres animais ainda não tinham, como os humanos, experiência nesse tipo de assunto. Estavam cheios de esperança. Achavam que a majestade do rei não lhe permitiria fazer um mau julgamento que o protegesse, diante de tantas evidências apresentadas. Ele, entretanto, olhou com grande arrogância e cinismo para todos e anunciou:
-Decido. Petição negada, requerimento indeferido. Tenho dito. Fica também decidido que a partir desta data o rei passa a se chamar o ”Grande Rei das Bestas”.
Fazia sentido. Assim terminou a grande parada democrática do agora chamado “Reino das Bestas”, antes cognominado o Grande Reino Animal. Afinal de contas, rei é rei, mesmo sendo um rato ratão.

E assim, ao contrário do conto de fadas, todos viveram infelizes e reprimidos para sempre.

oooooOOO0OOOooooo

ooooooOOO0OOOooooo

O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------
Para adquirir este livro nos Estados
 Unidos 

Friday, July 17, 2015

Angústia do tempo












Angústia do tempo



Giovani saiu do prédio do “Instituto de Inovação Genética”, nos arredores de Zurique, e ligou seu carro. Era um daqueles sem motorista, portanto tinha tempo de olhar mais uma vez no computador os detalhes de seu plano de “reestruturação genética”. Passara quase dois dias pelo processo. Poderia, agora,  viver mais de 150 anos. Deu um sorriso indefinido. Era quase noite e as luzes azuis dos modernos conjuntos habitacionais reverberavam na neblina tênue que cobria a paisagem. Ele sabia que, na verdade, viveria mais de duzentos. Por motivos legais eles colocavam no contrato o mínimo de 150. Só com o avanço normal da ciência e da medicina, muita gente já alcançava essa idade. Por outro lado, ultimamente tinha lido muito sobre o que chamavam “angústia do tempo”, uma expressão mal traduzida do alemão. Apesar do enorme aparato de entretenimento, passatempo e tudo mais que as novas tecnologias ofereciam, havia aquele pavor do tédio. A certa altura parece que você já fez tudo, principalmente numa sociedade em que as coisas  já vêm prontas para você, nada precisa ser conquistado. Giovani tinha apenas 27 anos e, lá no fundo, desconfiava que já tinha dentro de si a sementinha da “angústia do tempo”. Talvez por isso seu sorriso era “indefinido”. Indefinido como seu futuro, suas aspirações.  Olhou de novo para a neblina azulada e tentou pensar em outra coisa.  Era o primeiro dia de dezembro de 2060.


o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o

Histórias do Futuro

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)
Histórias do Futuro

Sunday, July 12, 2015

A Criação: o Sétimo Dia


A Criação: o Sétimo Dia



No princípio o homem era só uma célula. Isso foi há bilhões de anos atrás. Foi a primeira etapa.
Aquilo era um pouco sem graça, então a célula se desenvolveu e, sem pressa, ficou complexa, evoluindo para a forma de peixes, répteis, insetos, anfíbios, dinossauros e finalmente mamíferos.
Depois, há 65 milhões de anos atrás, os pobres dinossauros desapareceram, por causa de um asteroide desastrado que não sabia navegar e acabou estacionando em um local proibido: a península de Yucatán. Esse foi o triste fim da segunda etapa.
Há 200 mil anos atrás a gente começou a ficar com a cara da gente, mas acho que você não vai querer, agora, se parecer com a cara que a gente tinha então. Foi a terceira etapa.
Os humanos começaram a ficar mais ousados. Começaram a ter certeza que eram melhores que os outros. Viajaram pelo mundo, se espalharam. Haviam começado com ferramentas simples, feitas de pedra, depois se sofisticaram. Já sabiam fazer catapultas e outras coisas mais. Pegaram um gostinho pelas guerras, passaram a se organizar, falar línguas diversas. Acho que alguns tinham até partidos políticos. Foi essa a quarta etapa.
Chegou uma hora em que o Criador inicial – agora nós criamos também - achou melhor dar uma conferida em tudo, pois as coisas estavam indo de um tal jeito que já era para se preocupar. Fez umas regras novas, avisou todo mundo para ter cuidado e depois se foi. Alguns acham que não foi ele que fez isso. Falam que foi o Maomé, o Buda, etc. A gente tem de respeitar a opinião dos outros.
O fato é que depois disso foi uma correria. Muita coisa aconteceu. Aprenderam a fazer livros, fazer regras, elaborar. Organizaram a Terra e o Universo dentro de regras bem claras. Parece que tudo ia bem. As coisas estavam se comportando de acordo os estatutos da Ciência que o homem escreveu. Alguns pequenos e insignificantes detalhes não se encaixavam. Coisa mínima. Um dia, além de tudo que já sabiam, aprenderam a voar. Era a quinta etapa.
Estavam um pouco aborrecidos, sem nada o que fazer, parece que tudo já havia sido descoberto. Então resolveram fazer duas guerras grandes, daquelas de arrepiar. Só para variar.  Um estrago danado. Daí, é claro, começaram a refazer tudo, tim-tim por tim-tim. Começaram a pensar melhor em tudo. Inclusive naquelas coisinhas que não se encaixavam na Ciência. Tem gente que não pode sossegar. Cutuca daqui, cutuca dali e fizeram a tal da Física Quântica. Uma coisa doida. Junto com ela começaram a fazer uns aparelhos doidos, conseguiram até ir para a Lua. Agora, estão pensando em Marte. Nem vou contar dos outros aparelhos que saíram por aí, até para fora do sistema solar.  Falam até em coisas esquisitas como... Eu não queria falar, mas tem gente que acha que o nosso mundo nem existe, é tudo imaginação, um negócio virtual, que não tem nada a ver com virtude, que por sinal se tornou coisa rara. Outros falam que tem outros mundos e que a Maria desse nosso mundo pode existir num outro. Não sei se lá ela se chama Maria Segunda ou Airam, ao contrário. Talvez “Mariah” faça mais sentido. Enfim, acabaram até com a indivisibilidade do átomo, dizendo que ele pode ser picado muito mais, em pedacinhos tão pequenos, tão pequenos, que nem sei... É o fim da picada!
Enfim, a coisa está muito complicada. Estão até falando que o Criador vai vir de novo para dar um jeito nessas coisas. De qualquer forma, essa é a sexta etapa, nem sei quando terminou, se é que já terminou.
A sétima etapa era para a gente descansar, parar com tudo isso, parar com essa loucura. Não é no sétimo dia que a gente descansa? Até Ele descansou!
Entretanto, não sei não. Esse povo não está com jeito de parar. Nem com furacão, nem com terremoto, nem com tsunami. Asteroides? Nem com isso eles se importam. Por isso que ainda não estamos na sétima etapa e, para dizer a verdade, eu nem sei se ela vai chegar. Essa turma não quer dar uma folga.
Quero dizer, não é todo mundo. Tem gente que está descansando desde o dia em que nasceu... Eles já começaram no sétimo dia!

o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o

Histórias do Futuro

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)


Saturday, July 11, 2015

Era uma vez um poeta



Era uma vez um poeta

Era uma vez um poeta
que parou de fazer poesia.
Perdeu a graça da vida,
ficou em dívida com a palavra,
ficou em dúvida com a poesia.
O que é um poeta sem poemas?
Um história sem tema?
Um matemático sem teoremas?
Um linguista sem semantemas?
Um médico sem pacientes,
um profeta impaciente?
O poeta que parou de poetar,
está agora, lá fora,
no jardim de sua casa,
plantando flores.
Será então, que agora

resolveu fazer poesia concreta?


ooooooOOO0OOOooooo

O poema acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------
Para adquirir este livro nos Estados
 Unidos 

Thursday, July 9, 2015

A estrela quadrada: uma comédia cósmica

A estrela quadrada: uma comédia cósmica


Estava fazendo minha patrulha não muito longe – em termos cósmicos, é claro – da estrela Canopus. Isso mesmo, aquela monstruosidade, uma coisa sem fim. A minha nave fez uma curva à direita e aí me deparei com algo extraordinário. Nada mais, nada menos do que uma estrela quadrada. Absolutamente menor do que Canopus, estava ali, a desafiar a lógica. Imediatamente pensei que tivesse alguma coisa a ver com a Física Quântica, uma vez que essa está sempre a desafiar o bom senso. De qualquer forma, fiz minha obrigação. Chamei meu supervisor que estava por ali, na nave mãe, não tão longe assim. Uns sete ou oito minutos luz, se tanto. Pensei que ele fosse perguntar se eu tinha bebido, mas não. Achou quase normal. Diante da minha estupefação, explicou com aquele ar professoral – imaginei, pois não estava vendo – que, com a rotação, voltaria ao normal. As pontas iriam se desgastando e conforme os milênios fossem passando, ficaria como as outras: redonda. Pensei em ironizar e falar: redondinha da silva? Achei melhor me calar, entretanto. Poderia levar uma suspensão sem direito à remuneração embora, tecnicamente, já estivesse suspenso no espaço sideral.
Fiquei matutando. Aquela ideia não me saía da cabeça. Terminei meu turno e voltei para meu aposento na nave principal. Passei aquela luz azul que atualmente usamos para limpar os dentes e fui me deitar. Lembrei-me de ter lido em e algum lugar que antigamente – muito antigamente – as pessoas escovavam os dentes para limpá-los. Que absurdo, que trabalhão! Graças a Deus evoluímos bastante.
Enquanto caía no sono, fiquei pensando no incidente. Como pode haver uma estrela quadrada? A explicação de meu chefe não me convenceu. De repente, o óbvio me atacou de frente. Claro, aquilo não era uma estrela. Talvez fosse uma enorme máquina que alguma civilização próxima tivesse construído. Uma espécie de portal para mundos paralelos. Me senti um idiota. Provavelmente meu supervisor estava "tirando" uma comigo e eu nem percebi. Isso mesmo, estava claro agora. Fiquei com vergonha.
Fiquei com raiva também. Esses imbecis bem que poderiam ter construído um portal redondo. Não seria o certo, o normal? Não teria passado pelo vexame.
Que vergonha...

0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o

Histórias do Futuro

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)

Tuesday, July 7, 2015

Um quarto, um mundo, uma euforia sem fim, num novo Universo



Um quarto, um mundo e uma euforia sem fim

Jásper acordou num quarto todo pintado de branco. Estava deitado no chão e depois de percorrer o ambiente com os olhos, notou algo muito estranho.  Estava claro, embora não houvesse fonte de luz. Não havia janelas ou lâmpadas. Tentou racionalizar, entender como aquilo acontecera. Tinha deitado cedo em seu quarto normal, onde havia a sua cama, uma cômoda e uma cadeira de balanço. Notou que estava nu, embora tivesse ido para a cama de pijamas. O ambiente ali era completamente vazio, uma claridade que quase incomodava. Colocou a palma da mão na parede e ela era lisa, sem saliências. Por onde estaria entrando ar? Ele conseguia respirar bem, sem dificuldade nenhuma. Depois bateu com os nós dos dedos na superfície. A parede parecia sólida. Sabia que não podia ficar desesperado, pois em nada ajudaria. Sentou-se no chão por uns momentos. Depois levantou-se e foi andando pelo ambiente, acompanhando as paredes e tocando a superfície das mesmas para ver se descobria alguma coisa. Na terceira, de repente, percebeu que ela parecia ceder um pouco. Empurrou com mais força e, então, uma porta que não se podia ver antes, abriu-se.
Era um outro quarto, também completamente branco. Havia, porém, uma cadeira bem no centro. Sobre seu assento, notou que havia algumas roupas e um par de sapatos. Obviamente eram para ele, embora nunca as tivesse visto antes. Vestiu-se rapidamente. As vestimentas eram todas brancas. Somente os calçados eram pretos. Depois de ficar sentado por alguns minutos, pensando, chegou a uma óbvia conclusão. Teria de fazer a mesma coisa. Descobrir uma porta invisível e continuar. Continuar até achar uma saída para algum lugar conhecido, talvez para a rua. Tinha dúvidas se estava em sua casa. Certamente não. Como o teriam levado para aquele lugar? Por quê? Para quê?
Foi cuidadosamente forçando as paredes, com a esperança de encontrar uma saída. De repente percebeu que havia pisado em uma superfície diferente. Abaixou-se e apalpou o assoalho. Abriu-se um alçapão de onde podia se ver uma escada caracol. Ficou um pouco temeroso em descer, mas não havia outra alternativa. Como nos dois aposentos anteriores, era tudo absolutamente branco. Assim que chegou ao último degrau, teve uma surpresa. Havia uma outra escada, exatamente igual, no outro canto do aposento. Levaria de volta ao mesmo lugar? Ficou apreensivo. Seria o fim? Ficar ali, subindo e descendo? Subiu, ansioso. Como esperava, ao pressionar o teto, uma abertura em forma de círculo se abriu. Para seu alívio, não era o mesmo quarto. Desta vez era tudo amarelo e, novamente, havia um conjunto de roupas. Estava claro que deveria trocá-las. Elas eram azuis e não havia sapatos.
A situação estava evoluindo, algo estava mudando. Assim que fez a troca de roupas, percebeu que havia um objeto no bolso. Para sua surpresa, era uma lanterna. Assim que a ligou, a sala ficou escura, mas um foco de luz permitiu que ele visse uma porta. Era diferente. Toda trabalhada, tinha duas folhas, porém não tinha maçaneta. Aproximou-se, e ela, automaticamente se abriu. Aquele aposento era completamente diferente. Havia uma enorme quantidade de esferas, de diferentes cores e tamanhos, pairando no ar. De repente, elas começaram a se juntar, formando uma espécie de portal com um arco em cima. Jásper aproximou-se e viu que era um corredor. Encheu-se de esperança. Começou a andar, mas daí percebeu que era impossível ver seu fim. Apertou o passo e depois começou a correr. Depois de algum tempo percebeu que não adiantava. Ele era sempre igual, certamente não havia um fim e esse talvez fosse seu próprio fim. No fundo, porém, tinha esperanças. Andou e andou. Agora mal conseguia ver qualquer coisa à sua frente, tal era seu cansaço. Ainda assim continuou mais um tanto. Finalmente, seu corpo cedeu à fadiga. Caiu e lá ficou. Primeiro respirava rápida e sofregamente. Aos poucos, sua respiração foi se estabilizando.
Não sabe quantas horas dormiu. Assim que acordou, percebeu que não estava mais no longo corredor. Dava para perceber, embora nebulosa, uma luz vinda de uma enorme porta. Tentou se levantar, quando alguém lhe tocou nos ombros. Era um padre. Jásper estava na Catedral da Sé, em São Paulo.
Foi difícil explicar para as autoridades o que estava fazendo lá. Sua casa estava a mais de 500 quilômetros de distância, no interior do estado. Telefonaram para sua esposa e ela ficou aliviada. Ele tinha sumido no meio da madrugada. Suas roupas e seus sapatos estavam ao lado da cama. Já tinha contatado a polícia local, que lhe dissera que não havia o que fazer por enquanto.
Jásper não ousou contar tudo que vira. Certamente pensariam que estava desequilibrado. Melhor assim. Não havia o que fazer, não havia explicação nem para ele nem para a polícia. Despediram-no, depois que a esposa disse para ele esperar lá fora, que um amigo iria buscá-lo e levá-lo para a rodoviária. Enquanto saía, percebeu que dois policias riam disfarçadamente. Devia ser por causa de sua roupa estranha, pois o que vira, não tinha contado para ninguém. Não ligou para a zombaria, ele riria também.
Em casa, a esposa, delicada, evitou falar sobre o assunto. No fundo, sabia que nem ele estava entendendo o que tinha acontecido. Ela não entendia, não havia lógica. E isso sem se considerar o fato de que ele não havia lhe contado sobre os quartos. Nem poderia, jamais. Jásper sabia que falar sobre isso não ajudaria em nada. A única consequência seria as pessoas pensarem que ele estava louco. E talvez estivesse.
Procurou não pensar mais sobre o ocorrido. O tempo foi passando e, embora fossem ficando mais suaves, aquelas imagens não sumiram de tudo. Ele já sabia que elas jamais sairiam de sua cabeça, mas, com o tempo, quem sabe, ele mesmo talvez começasse a desconfiar de sua autenticidade.
Uma noite, porém, aconteceu de novo. Estava dormindo e, de repente, apareceu naquele quarto branco, nu, assustado. Lembrou-se do que tinha acontecido da primeira vez e começou a tocar as paredes. Nada aconteceu, todas elas pareciam muito sólidas. Parou por um instante. Queria pensar.
Foi então que sentiu uma intensa vibração interior. Sentiu a própria vida explodindo dentro de si. Ele soube, a partir daquele momento, que tudo mudaria. Tinha sentado, mas agora se levantava, resoluto e, antes mesmo de tocar a branca parede, ela se abriu. Ele não sentia medo ou preocupação. Passou por tudo novamente. Pela segunda sala, pela escada que descia e pela que subia. Estava já no corredor, e, como ele esperava, perdeu os sentidos. Acordou algum tempo depois. Estava no chão e viu, de novo, aquela luz e uma grande porta. Algo excepcional, porém, tinha acontecido. Ninguém estava lá tocando-lhe no ombro, como da primeira vez. Andou firme e empurrou uma das folhas. Lá estava todo mundo na rua andando, conversando. Não era a Praça da Sé, nem outro lugar conhecido. Era um mundo novo, inédito. As pessoas falavam uma língua estranha, uma mistura de Português com alguma outra língua desconhecida. Podia ser um idioma do passado, podia ser do futuro. Algumas pessoas olhavam, amigáveis, para ele e sorriam. Sentiu uma enorme força dentro de si. Era a própria força da vida. Eram construções incomuns, outros veículos, que ele nunca tinha visto antes. As pessoas também eram especiais, como nunca tinha visto antes. As plantas tinham uma coloração diferente, as flores tinham outra clores. E Jásper foi andando, andando...
De repente, ele percebeu que alguém o segurava pela mão. Olhou para cima e era seu pai. Mas não era o pai de antes. Era alguém que ele nunca tinha visto, mas ele sabia que era seu pai e ele era uma criança de dez anos, não era mais um adulto casado. E, aos poucos, tudo que ele sabia de sua vida de antes foi ficando distante, como se fosse um sonho. E, na medida em que ele assimilava aquele maravilhoso e inédito universo, ele ia se esquecendo do outro. Agora a sua vida de antes nem sequer um sonho parecia mais. Agora o seu passado não era mais nada, talvez uma ideia louca de criança, aquelas coisas malucas que os garotos imaginam. Jásper não se chamava mais Jásper. Seu pai, sorrindo, chamou-o de Dijete. E ele era um menino feliz, num mundo singular, novo e maravilhoso, um insólito cosmos. Dijete estava imerso numa incomparável e singular euforia...

oooooOOOOOooooo

Histórias do Futuro

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)






Monday, July 6, 2015

Uma nova ordem na Terra


Uma nova ordem na Terra

Adrian, responsável pela nave de inspeção ao longo do Atlântico americano, voava lentamente sobre o que tinha sido a costa da Flórida. As águas do oceano tinham entrado consideravelmente no terreno do antigo estado americano dos dois lados: pelo lado do Atlântico e pelo lado do Golfo do México. O que havia sobrado era uma estreita faixa de terra. Toda a costa, até o Canada, estava recuando, invadida pelo Atlântico. Menos terra habitável não era a melhor notícia, agora que a população havia aumentado muito. Desde o virar do milênio, há quatrocentos anos atrás, apesar do fortíssimo controle de natalidade, as áreas habitáveis do planeta eram cada vez mais escassas. Numa espécie de contra-ataque contra a invasão das águas, os humanos invadiram o mar com suas cidades flutuantes. Novos materiais, levíssimos, indestrutíveis, eram a base das novas comunidades “marítimas” ou “watercities”, como as chamavam os americanos do norte.
Adrian ficaria por mais três dias fazendo seu trabalho no espaço. Nem seria necessária sua presença, pois os computadores faziam o monitoramento automaticamente. No entanto, havia inúmeros serviços desse tipo. O objetivo era manter as pessoas ocupadas, livrá-las do que era conhecido como “aborrecimento existencial”. E funcionava. Ele falava bastante com seu computador, trocava ideias. Naquele exato momento, Stan, a máquina encarregada da sua “estação”, estava mostrando imagens do longínquo ano 2020, mapas da costa americana, e o antigo formato do estado da Flórida. Era impressionante como tudo havia mudado. Aparentemente, o ser humano não se abateu com a invasão das águas. Aquelas construções, que compunham as cidades marítimas, eram lindíssimas. O tempo todo, Adrian podia ver o cintilar cor de prata, cor de ouro, às vezes, dos pequenos edifícios e dos conjuntos habitacionais. Conforme a “Coastsearch”, sua nave, ia deslizando pelo ar, passava também, a cada pouco, por grandes – enormes mesmo – balões azuis, cuja função era desviar alguns tipos de raios solares, agora muito mais perigosos, por causa dos danos causados à atmosfera nos séculos anteriores. Isto também estava sendo resolvido pelos cientistas desse novo mundo. Adrian ficava perplexo, num verdadeiro estado de incredulidade, enquanto Stan relatava tudo que o homem tinha feito contra a Natureza nos séculos XIX, XX e XXI. Era difícil entender como seres dotados de inteligência pudessem ter chegado a esse ponto. Nos últimos dois séculos tinha havido uma verdadeira revolução em toda a civilização humana. Era uma nova Terra, em todos os aspectos.
De repente, enquanto seu pensamento voltava no tempo, o “Megacom”, serviço internacional de notícias, interrompeu a apresentação para atualizar o noticiário. Nos últimos três meses só se falava do grande meteoro “Hairstorm”.  A primeira tentativa de detê-lo, há cinco meses, tinha falhado. A explosão causada pelas sondas enviadas pela “Coligação Mundial” tinha apenas tirado uma grande lasca, mas não tinha interrompido sua trajetória de colisão com a Terra.  Obviamente todas as grandes nações tinham se unido e havia um segundo grande plano que entraria em execução dali a 11 dias, duas semanas antes da fatal colisão. Realmente Adrian tinha notado um tráfego incomum de naves espaciais para as colônias da Lua e de Marte. Dali era muito fácil observá-las saindo da Terra. Aparentemente essa enorme movimentação estava relacionada com o projeto destruição do “Hairstorm”. Verdade era que aquelas naves eram destinadas principalmente ao transporte de seres humanos e não de equipamentos. Provavelmente tinham sido adaptadas diante da emergência. As biosferas tanto em Marte, como na Lua, agora eram em grande número e podiam comportar uma quantidade enorme de seres humanos. Além disso, em Marte o processo de “terraformação” havia se iniciado. Uma tênue atmosfera já se formava.
Nas últimas horas, entretanto, praticamente não se via mais nenhum lançamento. Provavelmente tinham transportado tudo de que precisavam. As autoridades não estavam alarmando a população. Talvez porque isso de nada adiantasse, talvez porque a situação estivesse completamente sob controle. Adrian estava preocupado, mas não muito. Tinha completa confiança nos governantes. Depois de assistir ao noticiário, resolveu dormir.  Aliás, ele nem prestou muita atenção, de tão sonolento que estava. Mas tinham dito qualquer coisa de alteração de dados. Algo havia mudado nos prognósticos. Resolveu que iria descansar algumas horas e, então, se atualizaria novamente. Não havia com o que se preocupar, tudo estava sob controle.
Adrian dormiu cerca de cinco horas. Acordou e seu primeiro ato foi sentar-se frente ao “Megacom”. Para sua surpresa, não havia sinal. Pior ainda, Stan, seu companheiro computador, não estava “conversando” com ele também. Ele estava, entretanto, funcionado, pois a nave voava regularmente. Logo a seguir, ouviu alguns sons sibilantes, seguidos de um barulho metálico. Alguma coisa estava atingindo a “Coastsearch”, isso era óbvio. Olhou para longa linha da costa e notou outra coisa estranha. Havia pontos de luz, em pleno dia, aparecendo e sumindo, principalmente nas “watercities”. Olhou, então, para dentro do continente, até onde a vista alcançava. Percebeu que algo muito diferente estava acontecendo. Havia incêndios por toda a parte. Agora podia ver melhor, pois estava usando seu módulo de visão, uma espécie de telescópio.
De repente, tudo ficou claro. O meteoro tinha se desmantelado em milhares de partes e estava caindo sobre a Terra. O tempo todo, nos últimos dias, estavam mentindo no noticiário. Não queriam alarmar a população. Aos poucos a situação estava se tornando insustentável. Podia ver passando perto dele, enormes bolas de fogo. Eram, obviamente, pedaços maiores do “Hairstrom”, que se incendiavam ao entrar em contato com a atmosfera. As naves espaciais... Era bem evidente agora, sua missão. Resgatar as pessoas importantes para o sistema, aquelas que deviam sobreviver. Tinham fugido para Marte e para a Lua. Voltariam mais tarde, se houvesse condições. A situação lá embaixo estava piorando. Pedaços enormes do meteoro atingiam agora o continente e o mar. Era uma questão de minutos até que uma bola de fogo o atingisse. Adrian pensou rapidamente em seus amigos, aqueles que, nesses novos tempos, eram considerados “família”, pois a de antigamente não existia mais. Ele resolveu se trancar num dos compartimentos de sua nave. Não queria mais ver aquela cena medonha, a terra sendo destruída. Não houve tempo, porém. Tudo que ele viu, por uma fração de segundo, foi uma enorme esfera de fogo. Depois tudo sumiu.
Lá embaixo, a situação era catastrófica. Havia pontos de incêndio em todo lugar. Todos os meios de comunicação estavam fora do ar. O sistema baixo de transporte aéreo, a grande revolução do transporte coletivo do último século, estava completamente destruído. Apesar de todos os recursos disponíveis para situações de emergência, nada funcionava mais. Não havia ninguém para operá-los. A morte se espalhava por toda a parte. O futuro imediato do planeta estava incerto.
Se a Terra sobrevivesse, teria de recomeçar praticamente do zero, e reconstruir a quase totalidade de sua infraestrutura. Tudo iria mudar. Os privilegiados sobreviventes, que haviam se refugiado nas colônias, voltariam quando fosse seguro. Haveria uma nova ordem em nosso mundo.
Uma nova ordem, da qual Adrian não participaria.


ooooOOOoooo

Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA: