Friday, August 7, 2015

Namorada politicamente correta



Namorada politicamente correta

Minha nova namorada é toda política.
Social, compenetrada, compromissada.
Quis ser legal com ela, quis ser como ela,
estar por dentro, para ela me aceitar...
Falei: sou um comunista assustador!
Ela se alarmou e muito me preocupei.
Logo a seguir mudei de opinião:
Sou de direita! Ultraconservador!
Mais assustada ainda ela ficou.
Sem saber o que fazer, tentei mais uma vez:
Sou do centro, então! Bem centrado eu estou:
Nem socialista, nem capitalista,
muito pelo contrário, nem sei o que sou.
Fez uma cara de desprezo e, imediatamente,
me abandonou, não sem antes comentar:
Não tem vergonha de ficar em cima do muro?
Vá se entender essas garotas de hoje em dia...


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Thursday, August 6, 2015

O Raimundo está pensando

O Raimundo está pensando

Raimundo era muito quieto. Ficava sozinho, por horas, pensando. Outras poucas vezes, estava alegre e conversava, e contava piadas. Em que pensava o Raimundo nas horas de quietude? Vinha uma avalanche de pensamentos, palavras, imagens. Às vezes tinham sentido, conexão, às vezes não. Só uma torrente de palavras loucas, sem nexo. Naquela manhã, se pudéssemos transcrever o que estava passando em sua mente, teríamos algo assim:
-Estou na boleia do trem contemplando o pôr do sol em Vênus. Comigo estão almas que não conheço. Me apaixono por uma que está atrás de mim, mas não posso ver seu rosto. O café que tomei de manhã, na esquina de minha casa, queimou minha língua. Pus groselha para tirar a dor. E a bebida me deixou leve, inspirado. Por isso, agora estou voando, em baixa altura, para meu trabalho. Vejo todos de cima. A rainha da Finlândia me espera lá para um encontro. Vai dar uma solução para meu casamento.
E assim ia, numa torrente. Ainda bem que não falava nada em voz alta. Iriam achar que não batia bem. Mas será que não somos todos assim? Quando pensamos sozinhos, pensamos coisas sem sentido também, como o Raimundo faz? Se pensamos, não confessamos.
Na manhã de domingo, Raimundo acordou diferente. Estava pensando nos anéis de Saturno. Via aviões da Varig no meio deles, tentando acertar o voo. Vez ou outra uma pequena pedra batia em suas asas e tirava um pedaço. Raimundo podia ver o piloto, desesperado, acenando através da janela, pedindo socorro. Foi daí que percebeu que ele também estava num pequeno avião. Era um jatinho, transparente, feito de vidro, mas que resistia a tudo. O ar, porém estava acabando.
Foi daí que Raimundo mudou. Naquele exato momento. Sentiu que precisava falar, se expressar, pedir socorro. Caso contrário, iria morrer sufocado dentro do avião de vidro. Era o mesmo problema do piloto da Varig: ninguém o ouvia.
Assim foi que, de repente, Raimundo começou a falar em voz alta, sem parar, pedir socorro, dizer tudo que lhe vinha a mente. Percebeu que a família, todos os seus, começaram a olhar para ele com estranheza. Horas mais tarde levaram-no para ver  um médico. De lá mesmo foi transportado para um hospital diferente. E fizeram exames e mais exames. E lá ficou para sempre. Seu caso não tinha cura.
Por que esse Raimundo tinha de abrir a boca? A maior parte das coisas não se diz para ninguém. Boca fechada.
Se o Raimundo tivesse ficado quieto, estaria vivendo uma vida normal como todos nós e não num hospício. Todos nós, que também pensamos besteiras e doidices o tempo todo e os que não pensam nada. Estaríamos todos juntos, vivendo felizes. Poderia, até, ter uma vida feliz, o Raimundo.

Raimundo, Raimundo... Ao contrário do que diz o poeta, você poderia rimar com o mundo, calando-se, seria mais que uma simples rima, seria uma solução. Provisória, pelo menos.




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Wednesday, August 5, 2015

Tanta coisa aconteceu




Tanta coisa aconteceu

Tanta coisa aconteceu
nesses séculos passados,
tanto invento de pasmar
tantas maravilhas estranhas,
tanta ciência singular,
difícil de se acreditar.
Somos ora puras máquinas,
ora corpos quase perfeitos,
voando em estranhos céus,
espiando locais suspeitos,
tentando descobrir tudo
tentando descobrir o nada.
Por que, então, tanta gente,
ainda chora, se emociona,
com um simples verso de amor?


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Tuesday, August 4, 2015

O maior de nossos medos



O maior de nossos medos

Muitos cientistas, pensadores e escritores de ficção científica se preocupam e escrevem a respeito do crescente poder que as máquinas e robôs possam ter sobre as vidas humanas. É muito comum vermos em filmes, computadores e unidades de Inteligência Artificial assumindo o controle sobre nós e recusando-se a nos obedecer, impondo as regras do jogo. O nosso medo não parece justificável, pois esta realidade, embora possível, parece estar distante, num futuro onde a Ciência tenha atingido um avanço além de nossa imaginação.
Grande engano. Na verdade, isso, de certa forma, já aconteceu. Nós nos acostumamos tanto com o nosso progresso, com todas as facilidades que temos, que nos esquecemos de olhar para o óbvio. Nós já somos prisioneiros de nossas próprias invenções há um bom tempo. Imagine o mundo sem computadores nesse exato momento. O fornecimento de energia pararia rapidamente. Sem eletricidade, a indústria e o comércio também iriam parar em seguida. Logo estaríamos sem alimentos. Quase nenhum avião levantaria voo. Além disso, haveria uma enorme instabilidade social. Ninguém poderia sacar dinheiro, comprar ou pagar. E se perdêssemos os dados? Não saberíamos que dinheiro pertence a quem. Uma guerra, daquelas primitivas, começaria. Porque, nem isso, uma guerra moderna, poderíamos começar sem eles, os computadores. Em alguns dias estaríamos numa situação bem parecida com a Idade Média, só que dessa vez com bilhões habitando o planeta. Não poder ver o que seu amigo postou nas redes sociais  seria o menor dos problemas.

Você ainda acha que as máquinas não dominaram o mundo? Elas só não estão contando vantagem, mas um dia até isso elas vão fazer. O futuro – maravilhoso e sinistro ao mesmo tempo – já começou e já está deixando de ser criança, para logo se tornar um adolescente. Prepare-se. Pensando bem, não há como se preparar...


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Sunday, August 2, 2015

A grande libélula



A grande libélula

Curumim estava olhando para o céu, procurando aves. Os grandes tinham saído para caçar na floresta. Ele gostaria de ter ido, mas era muito pequeno. Curumim gostava das aves do céu, do azul do céu, da imensidão do céu. Amava o verde da floresta, o barulho das águas correndo entre as pedras.
Naquele dia seu coraçãozinho de índio estava inquieto. Quando alguma coisa importante estava para acontecer sua alma ficava assim mesmo: tremendo, tremendo. Será que os deuses da floresta estão zangados, ele pensava. Não demorou muito para ele entender a razão de tudo. O som de muitos trovões, assustadores, sinistros, sobrepondo-se uns aos outros como se fosse o tambor de muitas tribos numa guerra imensa. Aquele barulho denso, grave, confundia-se com o som agudo dos pássaros que fugiam daquele enorme ser. Não havia nenhum adulto perto dele, por isso ele correu e se escondeu atrás de algumas árvores. Foi então que ele viu. Uma enorme libélula, de asas enormes, que tremiam sem parar, foi se aproximando do chão. O movimento incessante fazia as folhas das árvores e os pequenos arbustos se agitarem freneticamente. O seu enorme ventre, de repente, se abriu. Um ovo grande, do tamanho de um dos mais valentes guerreiros da tribo, de lá saiu. Sumiu na floresta e o grande inseto novamente subiu. Um som estrondoso. Aos poucos foi sumindo na imensidão de anil. Agora, apenas mais um pássaro no céu. Curumim sabia que, em breve, uma grande libélula iria nascer. Mas ele nunca mais as viu: nem a mãe nem o filho que do ovo nasceu.
Curumim cresceu e guardou aquilo na memória. Saiu da tribo e foi morar com os homens brancos que estavam invadindo tudo. Construindo malocas enormes de concreto no lugar das casas dos valentes guerreiros. Muitas vezes ele viu helicópteros novamente, mais bonitos e maiores, mas para ele, aquele primeiro foi sempre uma impressionante libélula.
O ovo que de lá saiu, ele nunca soube, era um pesquisador chamado Miguel...

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Saturday, August 1, 2015

Uma fábula assustadora










Uma fábula assustadora

Eu não sei que conclusão você vai tirar dessa história, pois eu mesmo tenho dúvidas. Ainda assim vou contar. A pequena chácara, bem lá no interior do país não tinha nada de especial. Uma casa relativamnete simples e um pequeno celeiro ao lado. Um casal e um garoto habitavam o local. Na verdade nem sei se eles têm importância no enredo ou não. Deixo para você essa interpretação, como já foi dito, pois aqui minha obrigação é apenas relatar os fatos, absurdos ou não. O foco dessa pequena fábula é, por estranho que possa parecer, um formigueiro que estava ao lado do celeiro. Nem era grande, tinha no máximo trinta centímetros de diâmetro e uns vinte de altura. Mas você sabe, a verdade está nos detalhes, nas coisas minúsculas. Veja o nosso caso, por exemplo. Quero dizer o caso dos seres humanos, o que somos neste universo infinito? Quase nada. E mesmo assim não é que brincamos de Deus, descrevemos o universo, replicamos a vida, dissertamos sobre a relatividade com absoluta precisão, enfim, você sabe tudo que fazemos. Continuamos pequeninos, um minúsculo grão de pó, como dizem, flutuando ao redor de outro pequeno grão, que é o sol, apesar de tudo que já sabemos. O caso das formigas que lá moravam tem uma certa semelhança com o nosso caso. Vamos aos fatos.
O garoto estava brincando junto ao celeiro quando recebeu uma pequena picada de uma minúscula formiguinha. Não doeu quase nada. Pensou em chorar, mas depois viu que estava sozinho e conteve as lágrimas. Nunca se sabe, talvez precisasse delas mais tarde, para que gastá-las quando ninguém observava? Isso também não é importante. O que realmente devemos levar em consideração é o que aconteceu a seguir. Assim que sentiu a agulhada, ele procurou a culpada. Instantaneamente a liquidou sem remorso nem nada, embora, você deve concordar comigo, o pequeno inseto também é um ser vivo e se você considerar a relatividade das coisas todas, ele é tão importante como a gente. Mas poder é poder. O garoto podia, quis, e matou a coitadinha. Não é assim que nós humanos fazemos às vezes? Daí ele viu que havia muitas outras. Uma fila inteira, apressada, vindo e indo, se cruzando no caminho sem nunca trombar. Organizadas. Trabalhadoras. Levavam suprimentos para ... foi aí que ele viu: o formigueiro.
Eu não sei exatamente o que ele pensou. Posso conjeturar, entretanto, que ele fez uma analogia. Aquele montinho de terra fofa era como se fosse um mundo inteiro, cheio nde vida. Era  a “Terra” dos pequenos seres, embora não girasse, não tivesse oceanos, nada disso. De certa forma ele ficou admirado de ter todo um mundo ali, à sua disposição. Poderia dar um chute, acabar com tudo. Tantas coisas poderia fazer. O que decidiu finalmente foi cobrir o “planeta”, que acabara de descobrir, com uma panela de ferro que havia no celeiro. Assim teria tempo de fazer planos, de pensar.
Agora vamos deixar o pequeno fazendeiro, e agora proprietário de um pequeno formigueiro, ir viver sua vida, cuidar de seus afazeres. Vamos para dentro do pequeno reino para ver o que aconteceu. A primeira coisa que perceberam foi que não havia luz. Depois perceberam que suas irmãzinhas ficaram presas lá fora. Claro, isso é uma questão de ponto de vista. Para as que ficaram fora, as de dentro é que ficaram presas. A verdade é que as de fora ficaram confusas sem um lar para voltar, acabaram de perdendo, acabaram morrendo. Elas poderiam ter sobrevivido. Só não o fizeram porque não podiam ouvir a Rainha dando as instruções.
Lá dentro instalou-se o estado de emergência. A busca por suprimentos foi cancelada temporariamente. A prioridade era achar uma saída. E elas procuraram, como procuraram, as coitadinhas. Não sei se foi o desespero, ou simplesmente azar, mas não achavam um portal para o mundo externo. Às vezes topavam com uma rocha, outras com uma grossa raiz, enfim nada dava certo. O destino, porém, tem seu próprios caminhos: procurando por uma coisa, acharam outra. Por um dos buracos que fizeram para cima, começaram a cair grãos de milhos vindos do celeiro. E quanto mais os tiravam do caminho, mais e mais eles vinham rolando.O que poderia ser motivo para desespero, acabou sendo motivo de alívio. Pelo menos estavam garantidos com respeito à alimentação. A Rainha ordenou que parassem as buscas por uma abertura para o mundo exterior e se concentrassem na organização geral e distribuição dos alimentos. E assim o fizeram. Depois de um certo tempo, no entanto, não havia muito o que fazer além de comer, é claro. A rainha imediatamente sentiu o perigo e mandou que todos fizessem exercícios. Ficavam andando em círculos, queimando as calorias. Ela ordenou também que se organizassem comissões, formadas pelas formigas mais inteligentes, para pensar, pesquisar, descobrir uma solução. Neste processo, elas acabaram evoluindo bastante. Começaram a criar hipóteses, fazer teorias. Algumas se destacaram por sua grande inteligência.
Muito tempo se passou e o saber foi passando de geração para geração. Por outro lado elas foram se esquecendo do que acontecera. O dia maldito em que tudo escureceu, ninguém mais lembrava. Virou uma espécie de historinha que se conta para crianças, uma lenda apenas. O conhecimento, porém, continuou crescendo. Posso arriscar e dizer que se continuassem assim por um tempo razoável, elas poderiam evoluir muito e chegar a um estado de civilização quase humana, se não mais, se considerarmos que, além de tudo, elas são disciplinadas.
De novo o destino. Na Terra maior, na nossa, não aconteceu também aquela catástrofe,  aquele meteoro gigantesco que caiu e matou todos os dinossauros? Acontece. Desgraça acontece, acontece sempre, meu amigo. No caso das formigas começou com uma benção e depois... Imagine uns extraterrestes chegando, iluminando nosso caminho, abrindo fronteiras e depois...Bom, vou direto para a parte final, chega de comparações. Eu havia me esquecido de que não quero me intrometer nessa parte.
Um dia, sem mais nem menos, uma forte luz veio de cima, quase todas as formiguinhas a viram imediatamente. Logo, logo, as outras vieram de dentro das camadas mais internas e também viram aquele foco branco vindo de cima. E havia calor também. Um calor diferente. Para elas um fato que mudava tudo, algo infinitamente importante, mas na verdade era uma coisa bem simples. Havia um novo dono da propriedade. Ao dar uma volta ao redor do celeiro, viu aquela panela e resolveu pegá-la. Era grande e de ferro fundido e poderia ser útil para a esposa preparar carne assada ou polenta. Ficou contente mas não gostou muito do formigueiro que viu debaixo. Havia um monte de bolsinhas brancas o que significava que aquilo ainda ia crescer muito.
Por alguns minutos, foi como um grande milagre. Todas saíram , até a Rainha resolveu dar uma espiada. Imediatamente começaram a fazer uma fila e a andar pelo terreno. Estava no DNA, quero dizer “fazer fila” estava na informação genética delas. Mal tinham começado a explorar este vasto mundo de Deus, quando um líquido amarelo começou a cair em profusão dos céus.Ondas gigantescas se formavam e a maioria delas se viu engolfada no líquido. Algumas se agarravam desesperadas nos pequenos grãos de areia, arbustos, gravetos ou qualquer coisa disponível. Aquele líquido era horrível mas não era pesticida, elas não morreram ali, na hora. Era gasolina, talvez pudessem até sobreviver. Mas se elas conhecessem melhor os humanos, saberiam que quando vem gasolina assim, de graça, é porque vem fogo atrás. Nem tiveram tempo de sofrer. Labaredas enormes consumiram as pobrezinhas. Só se salvaram algumas que ainda não tinham saído e que estavam nos porões mais profundos do formigueiro. Mas o novo fazendeiro não teve dó. Foi lá e com uma pá revirou tudo. Jogou mais gasolina e pôs fogo de novo. Não sobrou nenhuma para contar a história.

Faz sentido uma coisa dessas? Passar por tudo que passaram , sobreviver, evoluir e depois serem eliminadas de forma tão cruel? Justo quando viram uma luz salvadora vindo dos céus?
Eu não acho justo e por isso contei essa história. Alguém tinha de contar. É uma fábula. Como eu disse no começo, tente você achar uma explicação. Para mim não tem. É a coisa mais absurda que já vi.


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A terceira vida


A terceira vida

Para Zeckard, aquela vida virtual tinha passado a ser a essência de tudo. Era um programa elaborado pelo Ministério do Bem-Estar há mais de 76 anos. Com o avanço da tecnologia e da ciência nos últimos séculos, sobrava muito tempo para as pessoas. O tédio podia ser mortal. Os humanos dificilmente trabalhavam mais de três horas por dia. Robôs e máquinas poderosas faziam todo o trabalho pesado. O crescimento da população era praticamente zero. Só eram permitidos nascimentos no caso de reposição ou para habitar as colônias da Lua e de Marte.
Era necessário preencher a vida das pessoas. Assim foi criado o ALP (Alternative Life Pattern), uma espécie de mundo virtual em que o usuário poderia viajar e relaxar. Havia um banco de dados colossal dos últimos séculos. O candidato poderia escolher qualquer ambiente remontando até a segunda metade do século XXI. Antes disso, embora houvesse um armazenamento incrível, não era perfeito. Depois de 2063, com o sistema CDC (Comprehensive Data Collection), foi possível reconstituir a vida de praticamente qualquer pessoa e de toda a comunidade. Era só escolher uma época e um estilo de vida. Era fascinante. Zeckard tinha escolhido a faixa de época de 2110 a 2150, como Técnico em Genética. A função explicava-se pelo fato de que ele trabalhava neste setor nessa sua maravilhosa e tediosa época do século XXVI e a sequência de tempo tinha como explicação o fato de ser essa em que a genética passou a ser trabalhada a partir de partículas subatômicas. Queria saborear o momento em que tudo que ele adorava, começou. Ele não tinha se enganado, era fascinante.
Zeckard ficava plugado no sistema por mais de 15 horas diariamente, o máximo que era permitido. Era um programa perfeito. A sensação de realismo era absolutamente perfeita. Tanto que, antes de voltar da realidade virtual para a vida real do século XXVI, eram necessários pelo menos 37 minutos de adaptação.
A novidade sobre a qual se falava ultimamente era que estavam aceitando inscrições para “viver” no ALP, também chamado coloquialmente de “Segunda Vida”, em termos definitivos. A explicação era que isso dava mais espaço para novos nascimentos, uma vez que, nesse caso, o corpo ficava inerte em algum lugar e não ocupava o precioso espaço vital dos habitantes normais. Não era confirmado, mas dizia-se em círculos fechados que eles eram enviados à Lua. Havia enormes construções, especialmente planejadas para esse fim. Mais ainda, a procura era tão grande, que já estavam providenciando mais espaço. Muitos entendidos afirmavam que nem seria necessário preservar os corpos, uma vez que o ALP, o definitivo, era feito por máquinas para onde os dados tinham sido transmitidos. Não haveria necessidade de se preservarem os recipientes, os organismos humanos. O Ministério do Bem-Estar negava veementemente essas afirmações.
O fato é que Zeckard não se preocupava muito com isso. Já tinha vivido bastante, muito mais do que queria. O que desejava agora era conhecer “novas fronteiras”. Inscreveu-se no programa definitivo do ALP, ou seja, iria se instalar para sempre na “segunda vida”. A única dúvida era a época a ser escolhida. Fez muitas pesquisas e finalmente decidiu-se pela “Era Fundamental”. Essa tinha sido uma época, na primeira metade do século XXII, onde ficou claro que não seria possível “viajar no tempo”. Tudo foi baseado inicialmente nas teorias do pesquisador sueco Wilmer, que sugeria, a partir do comportamento de algumas subpartículas, a ideia de superposição de tempo. Em outras palavras, presente, passado e futuro não existiam. Eram uma coisa só. As consequências dessas descobertas, ao invés de incitarem mais pesquisas e mais estudos, levaram os cientistas e, principalmente, os governantes, para uma estranha direção. Embora fascinante, essa nova fase da Ciência iria requerer recursos e disponibilização muito além do racional. Resolveram, como um todo, ir para o lado da Tecnologia em oposição à Ciência pura. E o que já havia dessa era suficiente para suportar novas tecnologias para os próximos séculos. Ou talvez, como ironicamente sugeriu Dr. Wilmer, o homem avançou tanto que ficou com medo de descobrir que ele era o próprio Deus.
Assim, Zeckard, optou por viver virtualmente na “Época Fundamental”. Como ele dizia, entretanto, deveriam retirar o termo “virtual” para esse procedimento, pois, para quem estava lá, não havia como diferenciar real de virtual.
Tudo aconteceu muito rapidamente. O corpo de Zeckard foi enviado para as estações lunares. Ele tinha concordado em “desistir” do próprio corpo. Na prática, pensou, não faz diferença nenhuma. Além, disso, era uma condição obrigatória para entrar no programa. Manter o corpo congelado na Lua era mais uma questão de garantia. De “back-up”.
O ALP, ao contrário do que se possa pensar, não era todo programado antecipadamente. Os seres que “habitavam” em determinado lugar e em determinada época, tinham vontade própria. Poderiam fazer opções, exercer o livre arbítrio, virtual, é claro. Os sofisticados equipamentos podiam, de certa forma, acompanhar estes movimentos, embora não visualmente.
Zeckard passou várias décadas nessa sua “segunda vida”, até que o sistema notou algo interessante. Ele estava novamente com tédio, ou simplesmente, queria “viajar mais”. Não havia nada que o sistema pudesse fazer. Eles não poderiam alterar a programação depois que o participante tivesse se introduzido nele. O ALF era independente, depois de iniciado.
Fo aí, então, que aconteceu algo surpreendente. Zeckard, aparentemente tinha levado seus conhecimentos científicos para sua vida virtual. Ou melhor, o programa ALP tinha transferido tudo de sua primeira realidade para a virtual. E, dentro desse virtual, no ALP definitivo, criou mais uma opção. Foi uma surpresa para os próprios arquitetos do projeto. Zeckard, junto com os cientistas da “Época Fundamental”, haviam criado seu próprio sistema ALP. Um sistema virtual dentro de outro sistema virtual. Ele tinha optado e já estava entrando em sua “terceira vida”, o ALPS, ou seja, o “Aternative Life Pattern Sequence”.

Quem sabe, ele, então resolvesse prosseguir com a teoria da superposição do tempo, criada pelo Dr. Wilmer. Isso, só o tempo diria...


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