Saturday, August 15, 2015

Um suspiro


Um suspiro

Um suspiro, breve, surdo, manso, é o que nós somos. É somente isso o que representa nossa vida inteira nesse Universo estupidamente imensurável, absurdamente incompreensível. Mal ouvido por nós mesmos, pelos outros, pelas pessoas que nos amam. Encontramos inúmeras desculpas para nos afastar dessa ideia. Falamos de nossas almas, de nossa inteligência, de nossa capacidade de viajar pelo espaço sideral. Mas, convenhamos, no fundo somos um pontinho que praticamente não existe. Imperceptível, intangível, inconsequente, mesmo aqui em nossa própria constelação.
Não é o que sentimos, no entanto. Somos movidos por um incrível orgulho, uma sensação de presunção, de poder, que parece até ridículo, se considerarmos o resto do Cosmos. Há, dentro de nós, uma motivação, uma vontade que, às vezes, nos torna heróis ou gênios e que, outras vezes, nos transforma em monstros. A verdade é que tudo isso é um nada, dentro de uma minúscula gota de água, dentro de um infinito oceano.

No entanto, todos os dias, a todo instante, este suspiro, breve, surdo, suspira por outro suspiro também surdo e breve, formando um compasso, uma onda, uma diminuta energia que de alguma forma é percebida. Alguns chamam essa conexão de amor. Percebido, medido, talvez, num laboratório sofisticadíssimo, ultrassensível, do Criador. Só ele mesmo para observar tão minúsculo ponto no Universo.

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Friday, August 14, 2015

O dia em que Steve perdeu as estribeiras



O dia em que Steve perdeu as estribeiras


Steve era um empregado exemplar. Sempre lá do outro lado do balcão do hotel, tentando resolver os problemas dos hóspedes, tentando ajudá-los. Como se costuma dizer, para ele não havia tempo ruim. Fazia verdadeiros malabarismos para contornar situações difíceis, encontrar um ponto comum entre os interesses do hotel e as necessidades ou desejos de quem precisasse. Era educadíssimo. Diante de pessoas arrogantes, sem educação, ele sempre conservava sua calma e mantinha o respeito, mesmo quando não era respeitado.
Aquele fulano de Nova Iorque estava sendo um teste rigoroso para ele. Embora o erro na reserva tivesse sido do próprio, pois solicitou uma cama de casal, quando na verdade eram duas camas o que queria, ele insistia que aquilo era incompetência do hotel. O Steve já tinha provado para ele, de uma maneira inequívoca, que não havia como o computador ter errado. Estava agora tentando resolver a situação da melhor forma possível. O impaciente senhor, entretanto, não dava folga, não parava de falar. Hotel incompetente! Cinco estrelas? Nem duas merecia, e assim por diante. O Steve mexia e mexia no computador, tentando acomodar o inconveniente hóspede. Fazia de conta que aquele xingamento todo não era com ele, era apenas um desabafo. Num determinado momento, porém, o homem começou a falar muito alto e chamou o Steve de incompetente.
Não sei o que deu no nobre servidor. Ele levantou a cabeça, olhou bem para os olhos do reclamante e soltou, bem sonoro:
-Fuck you!
Deixo o palavrão no original, pois, nesse caso, soa melhor. Todo mundo do saguão olhou para o Steve e para aquela insolente figura, que, de repente tinha ficado muda. Saiu dali, foi para a sala onde os funcionários deixam suas coisas, pegou a mochila, e foi para casa de uniforme mesmo. No dia seguinte foi informado que tinha sido transferido para um cargo inferior, sem contato com o público e, para salvar seu emprego, teria de fazer um tratamento psicológico. Justo ele que nunca tinha se irritado.
Todos estavam solidários com ele, pois tinham visto o que tinha acontecido e sabiam como ele era. O Steve, no entanto, estava muito bem. Repetia para todos:
-Eu me sinto leve, leve...
E se você visse a cara dele, você concordaria. Ele estava tranquilo, suave, quase pairando no ar....

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Thursday, August 13, 2015

Pedacinhos do Céu



Pedacinhos do Céu

Já se discutiu muito se um chorinho deve ter letra ou não. As opiniões são bem diversas. Originalmente eles não tinham, eram só instrumentais, mas a partir de 1930, por influência do rádio, alguns compositores começaram a introduzi-la nas composições. Embora eu não entenda de música, acho que eles ficam melhores assim, em sua pureza original. Acho que eles não precisam de mais nada. E olha que eu gosto de um bom texto, quase sempre. É um gênero gostoso, suave, que toca bem no fundo da alma brasileira.

Estava a pensar nessa e em outras coisas e ouvindo uma sequência deles. E, de repente, ouvi um que me deu uma paz, uma alegria, uma sensação maravilhosa. Eu já o conhecia mas não conseguia me lembrar do nome. Fiquei curioso e fui conferir: Pedacinhos do Céu. Achei que era o nome mais apropriado que eu já tinha visto para uma canção. Ela realmente não precisava de letra, mas, daquele nome, precisava. Era o perfeito nome para o perfeito chorinho, de um perfeito compositor: Waldir Azevedo. Definitivamente, pedacinhos do céu...


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Wednesday, August 12, 2015

Um sonho, apenas um sonho

Um sonho, apenas um sonho



Foi um sonho apenas, mas foi bom para esclarecer.
Sonhei que podia, como mágica, apagar todos os maus momentos de minha vida. Apagar as coisas erradas que fiz. As palavras que eu não deveria ter dito. Os contatos que era melhor não ter feito. O botão ainda faria sumir os momentos em que falei quando deveria ter me calado. Em que me calei quando deveria ter falado. Desaparecerem as decisões apressadas que depois se tornaram um pesadelo. Sumirem os momentos em que tive muita raiva e não deveria ter. Os momentos em que deveria ter ajudado mais quem de mim precisava. Os momentos em que disse um não no lugar de um sim e um sim no lugar de um não.
E, no sonho, apertei o tal do botão que apaga tudo. Era perfeito, sem igual. Depois vi que tudo  era completamente sem vida, sem sabor. Aquilo não era eu.

Acordei e vi que era melhor assim, sem o tal do botão. Eu mesmo, com esse monte de erros e defeitos. Uma estranha e deliciosa sensação de estar vivendo a vida como ela é.

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Tuesday, August 11, 2015

Por que passas assim?



Por que passas assim?

Por que passas assim,
sem sequer olhar para mim?
Isso mesmo, falo com você.
O que pensas que eu sou?
Um vagabundo sem destino?
Uma pessoa sem razão?
Sem amor, sem emoção?
Não se pode, simplesmente,
passar assim, sem sentido,
sem pausa, sem direção,
como se eu não existisse.
Não, não, moça bonita,
não é com você, não
que eu estou falando..
Nem mesmo com você,
minha própria vida,
que eu estou a falar.
Estou mesmo a conversar,
é com você, tempo cruel,
que passa, passa e
não para de passar,
numa espiral sem fim.

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Friday, August 7, 2015

Namorada politicamente correta



Namorada politicamente correta

Minha nova namorada é toda política.
Social, compenetrada, compromissada.
Quis ser legal com ela, quis ser como ela,
estar por dentro, para ela me aceitar...
Falei: sou um comunista assustador!
Ela se alarmou e muito me preocupei.
Logo a seguir mudei de opinião:
Sou de direita! Ultraconservador!
Mais assustada ainda ela ficou.
Sem saber o que fazer, tentei mais uma vez:
Sou do centro, então! Bem centrado eu estou:
Nem socialista, nem capitalista,
muito pelo contrário, nem sei o que sou.
Fez uma cara de desprezo e, imediatamente,
me abandonou, não sem antes comentar:
Não tem vergonha de ficar em cima do muro?
Vá se entender essas garotas de hoje em dia...


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Thursday, August 6, 2015

O Raimundo está pensando

O Raimundo está pensando

Raimundo era muito quieto. Ficava sozinho, por horas, pensando. Outras poucas vezes, estava alegre e conversava, e contava piadas. Em que pensava o Raimundo nas horas de quietude? Vinha uma avalanche de pensamentos, palavras, imagens. Às vezes tinham sentido, conexão, às vezes não. Só uma torrente de palavras loucas, sem nexo. Naquela manhã, se pudéssemos transcrever o que estava passando em sua mente, teríamos algo assim:
-Estou na boleia do trem contemplando o pôr do sol em Vênus. Comigo estão almas que não conheço. Me apaixono por uma que está atrás de mim, mas não posso ver seu rosto. O café que tomei de manhã, na esquina de minha casa, queimou minha língua. Pus groselha para tirar a dor. E a bebida me deixou leve, inspirado. Por isso, agora estou voando, em baixa altura, para meu trabalho. Vejo todos de cima. A rainha da Finlândia me espera lá para um encontro. Vai dar uma solução para meu casamento.
E assim ia, numa torrente. Ainda bem que não falava nada em voz alta. Iriam achar que não batia bem. Mas será que não somos todos assim? Quando pensamos sozinhos, pensamos coisas sem sentido também, como o Raimundo faz? Se pensamos, não confessamos.
Na manhã de domingo, Raimundo acordou diferente. Estava pensando nos anéis de Saturno. Via aviões da Varig no meio deles, tentando acertar o voo. Vez ou outra uma pequena pedra batia em suas asas e tirava um pedaço. Raimundo podia ver o piloto, desesperado, acenando através da janela, pedindo socorro. Foi daí que percebeu que ele também estava num pequeno avião. Era um jatinho, transparente, feito de vidro, mas que resistia a tudo. O ar, porém estava acabando.
Foi daí que Raimundo mudou. Naquele exato momento. Sentiu que precisava falar, se expressar, pedir socorro. Caso contrário, iria morrer sufocado dentro do avião de vidro. Era o mesmo problema do piloto da Varig: ninguém o ouvia.
Assim foi que, de repente, Raimundo começou a falar em voz alta, sem parar, pedir socorro, dizer tudo que lhe vinha a mente. Percebeu que a família, todos os seus, começaram a olhar para ele com estranheza. Horas mais tarde levaram-no para ver  um médico. De lá mesmo foi transportado para um hospital diferente. E fizeram exames e mais exames. E lá ficou para sempre. Seu caso não tinha cura.
Por que esse Raimundo tinha de abrir a boca? A maior parte das coisas não se diz para ninguém. Boca fechada.
Se o Raimundo tivesse ficado quieto, estaria vivendo uma vida normal como todos nós e não num hospício. Todos nós, que também pensamos besteiras e doidices o tempo todo e os que não pensam nada. Estaríamos todos juntos, vivendo felizes. Poderia, até, ter uma vida feliz, o Raimundo.

Raimundo, Raimundo... Ao contrário do que diz o poeta, você poderia rimar com o mundo, calando-se, seria mais que uma simples rima, seria uma solução. Provisória, pelo menos.




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