Friday, August 21, 2015

Elas estão na minha cabeça



Elas estão na minha cabeça

Irriquietas, eufóricas,
atropelam-se, vez ou outra,
secretas, melancólicas,
nas teclas do computador.
Palavras buliçosas,
inquietas, com ardor,
se agitam e dizem coisas
que não deviam dizer.
Dizem mais do que podem,
ou menos do que devem.
Ora tem gosto de mel,
outras vezes, de fel.
Estão na minha cabeça,
louquinhas para sair.
Às vezes eu até penso
que elas são realmente,
nada mais que pura gente.
Gente como a gente,
de verdade, carne e osso,
doidinhas como estão,
para nascer e crescer
e, enfim, acontecer!

          ooooooOOO0OOOooooo



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Monday, August 17, 2015

A prova dos nove

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A prova dos nove
(ou “A Matemática não é uma ciência exata”)

Juanita sempre dizia que o nove era seu número de sorte. Qualquer dia algo extraordinário iria acontecer e tudo por causa do nove.
Naquele dia, uma segunda à tarde, seu marido Júlio tinha saído um pouco mais cedo do trabalho. Um ano de casamento, claro que merecia uma comemoração. Um pingente de ouro numa caixinha, no bolso, esperava ele fosse alegrar o coração da esposa. De uma vez por todas apagar aquela mania de achar que havia outra mulher na vida dele. Imagine, além de muito sério, Júlio jamais faria algo horrível assim, logo no primeiro ano de matrimônio. Todo feliz e lampeiro, ele para na esquina da rua de casa. Lá havia uma floricultura e ele tinha acabado de ter uma grande ideia. Perguntou para Jonas, o florista, se era possível arrumar um buquê só com nove rosas. Claro que sim, o freguês é quem manda. Enquanto o rapaz preparava o pequeno arranjo, Júlio escrevia uma cartão. Tudo pronto, seguiu para casa, logo ali.
Alguns minutos antes, imaginem que coincidência, passou por ali o Pinda. Rapaz chamoso, sempre exibindo aquele ar de conquistador, comprou três rosas. Ele não precisava de muito para agradar sua nova namorada. Ele, por si  só, já era o agrado, pensou. Ele era metido mesmo, isso sim ele era. Assim que saiu da floricultura, passou bem à sua frente uma verdadeira gata. Ele não teve dúvidas, aproximou-se dela e começou a conversar. Foi com aquele ar de galanteador que ele sempre exibia. Disse que a viu de longe – que mentira – e não pode resistir, Comprou três rosas, pois, segundo ele, ela era três vezes mais bonita que qualquer mulher daquela cidade. Ela aceitou, meio a contragosto, mas saiu com pressa, deixando-o para trás. Pinda, que era muito sábio com as mulheres não se preocupou. Qualquer dia desses, completaria o serviço. Sabia que ela morava ali mesmo naquela rua. Falou “ciao”, metido a italiano, que era para impressionar e se despediu. A nova namorada teria de esperar pelas flores. Tinham ficado para outra ocasião. O importante era não perder aquela oportunidade.
Juliana era o nome da quase nova conquista do Pinda. Enquanto ela ia para casa, encontrou a Juanita no caminho. Elas eram quase  vizinhas. Eram de dizer apenas  “Olá, como vai?, mas diante da cara de felicidade da Juliana com três flores na mão, perguntou o que  tinha acontecido. Ela só falou que alguém se apaixonou por ela de repente, deu-lhe três lindas flores e ...

Juanita pensou que garota de sorte, ganhar assim três flores de um estranho. Ficou ali no portão, esperando o maridão chegar. E ele chegou com um lindo buquê de flores na mão. Beijaram-se, ela estava feliz. Ela sim tinha alguém que a amava de verdade. Daí comentou que não era todo dia que ganhava uma dúzia de rosas. Ele respondeu que eram nove. Antes mesmo dele explicar o que achava óbvio, nove era o número de sorte dela, a Juanita teve um ataque de fúria. Fez a conta dos nove. Doze menos três são nove. Ele havia tirado três rosas para dar para a vizinha. Safado. E ainda vem com essa cara de apaixonado. Jogou as flores na cara dele e o expulsou de casa. Ele foi para um hotel aquela noite. Tentando, de todas as formas entender a mulher. Coitado, quem consegue entendê-las? Afinal, a Matemática não é uma ciência exata.

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Saturday, August 15, 2015

Um suspiro


Um suspiro

Um suspiro, breve, surdo, manso, é o que nós somos. É somente isso o que representa nossa vida inteira nesse Universo estupidamente imensurável, absurdamente incompreensível. Mal ouvido por nós mesmos, pelos outros, pelas pessoas que nos amam. Encontramos inúmeras desculpas para nos afastar dessa ideia. Falamos de nossas almas, de nossa inteligência, de nossa capacidade de viajar pelo espaço sideral. Mas, convenhamos, no fundo somos um pontinho que praticamente não existe. Imperceptível, intangível, inconsequente, mesmo aqui em nossa própria constelação.
Não é o que sentimos, no entanto. Somos movidos por um incrível orgulho, uma sensação de presunção, de poder, que parece até ridículo, se considerarmos o resto do Cosmos. Há, dentro de nós, uma motivação, uma vontade que, às vezes, nos torna heróis ou gênios e que, outras vezes, nos transforma em monstros. A verdade é que tudo isso é um nada, dentro de uma minúscula gota de água, dentro de um infinito oceano.

No entanto, todos os dias, a todo instante, este suspiro, breve, surdo, suspira por outro suspiro também surdo e breve, formando um compasso, uma onda, uma diminuta energia que de alguma forma é percebida. Alguns chamam essa conexão de amor. Percebido, medido, talvez, num laboratório sofisticadíssimo, ultrassensível, do Criador. Só ele mesmo para observar tão minúsculo ponto no Universo.

ooooooOOO0OOOooooo



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Friday, August 14, 2015

O dia em que Steve perdeu as estribeiras



O dia em que Steve perdeu as estribeiras


Steve era um empregado exemplar. Sempre lá do outro lado do balcão do hotel, tentando resolver os problemas dos hóspedes, tentando ajudá-los. Como se costuma dizer, para ele não havia tempo ruim. Fazia verdadeiros malabarismos para contornar situações difíceis, encontrar um ponto comum entre os interesses do hotel e as necessidades ou desejos de quem precisasse. Era educadíssimo. Diante de pessoas arrogantes, sem educação, ele sempre conservava sua calma e mantinha o respeito, mesmo quando não era respeitado.
Aquele fulano de Nova Iorque estava sendo um teste rigoroso para ele. Embora o erro na reserva tivesse sido do próprio, pois solicitou uma cama de casal, quando na verdade eram duas camas o que queria, ele insistia que aquilo era incompetência do hotel. O Steve já tinha provado para ele, de uma maneira inequívoca, que não havia como o computador ter errado. Estava agora tentando resolver a situação da melhor forma possível. O impaciente senhor, entretanto, não dava folga, não parava de falar. Hotel incompetente! Cinco estrelas? Nem duas merecia, e assim por diante. O Steve mexia e mexia no computador, tentando acomodar o inconveniente hóspede. Fazia de conta que aquele xingamento todo não era com ele, era apenas um desabafo. Num determinado momento, porém, o homem começou a falar muito alto e chamou o Steve de incompetente.
Não sei o que deu no nobre servidor. Ele levantou a cabeça, olhou bem para os olhos do reclamante e soltou, bem sonoro:
-Fuck you!
Deixo o palavrão no original, pois, nesse caso, soa melhor. Todo mundo do saguão olhou para o Steve e para aquela insolente figura, que, de repente tinha ficado muda. Saiu dali, foi para a sala onde os funcionários deixam suas coisas, pegou a mochila, e foi para casa de uniforme mesmo. No dia seguinte foi informado que tinha sido transferido para um cargo inferior, sem contato com o público e, para salvar seu emprego, teria de fazer um tratamento psicológico. Justo ele que nunca tinha se irritado.
Todos estavam solidários com ele, pois tinham visto o que tinha acontecido e sabiam como ele era. O Steve, no entanto, estava muito bem. Repetia para todos:
-Eu me sinto leve, leve...
E se você visse a cara dele, você concordaria. Ele estava tranquilo, suave, quase pairando no ar....

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Thursday, August 13, 2015

Pedacinhos do Céu



Pedacinhos do Céu

Já se discutiu muito se um chorinho deve ter letra ou não. As opiniões são bem diversas. Originalmente eles não tinham, eram só instrumentais, mas a partir de 1930, por influência do rádio, alguns compositores começaram a introduzi-la nas composições. Embora eu não entenda de música, acho que eles ficam melhores assim, em sua pureza original. Acho que eles não precisam de mais nada. E olha que eu gosto de um bom texto, quase sempre. É um gênero gostoso, suave, que toca bem no fundo da alma brasileira.

Estava a pensar nessa e em outras coisas e ouvindo uma sequência deles. E, de repente, ouvi um que me deu uma paz, uma alegria, uma sensação maravilhosa. Eu já o conhecia mas não conseguia me lembrar do nome. Fiquei curioso e fui conferir: Pedacinhos do Céu. Achei que era o nome mais apropriado que eu já tinha visto para uma canção. Ela realmente não precisava de letra, mas, daquele nome, precisava. Era o perfeito nome para o perfeito chorinho, de um perfeito compositor: Waldir Azevedo. Definitivamente, pedacinhos do céu...


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Wednesday, August 12, 2015

Um sonho, apenas um sonho

Um sonho, apenas um sonho



Foi um sonho apenas, mas foi bom para esclarecer.
Sonhei que podia, como mágica, apagar todos os maus momentos de minha vida. Apagar as coisas erradas que fiz. As palavras que eu não deveria ter dito. Os contatos que era melhor não ter feito. O botão ainda faria sumir os momentos em que falei quando deveria ter me calado. Em que me calei quando deveria ter falado. Desaparecerem as decisões apressadas que depois se tornaram um pesadelo. Sumirem os momentos em que tive muita raiva e não deveria ter. Os momentos em que deveria ter ajudado mais quem de mim precisava. Os momentos em que disse um não no lugar de um sim e um sim no lugar de um não.
E, no sonho, apertei o tal do botão que apaga tudo. Era perfeito, sem igual. Depois vi que tudo  era completamente sem vida, sem sabor. Aquilo não era eu.

Acordei e vi que era melhor assim, sem o tal do botão. Eu mesmo, com esse monte de erros e defeitos. Uma estranha e deliciosa sensação de estar vivendo a vida como ela é.

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Tuesday, August 11, 2015

Por que passas assim?



Por que passas assim?

Por que passas assim,
sem sequer olhar para mim?
Isso mesmo, falo com você.
O que pensas que eu sou?
Um vagabundo sem destino?
Uma pessoa sem razão?
Sem amor, sem emoção?
Não se pode, simplesmente,
passar assim, sem sentido,
sem pausa, sem direção,
como se eu não existisse.
Não, não, moça bonita,
não é com você, não
que eu estou falando..
Nem mesmo com você,
minha própria vida,
que eu estou a falar.
Estou mesmo a conversar,
é com você, tempo cruel,
que passa, passa e
não para de passar,
numa espiral sem fim.

ooooooOOO0OOOooooo



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