Thursday, March 9, 2017

Jogando conversa fora



Jogando conversa fora

As pessoas têm tantas palavras novas para aprender com essa história de informática, rede social, etc, que fiquei preocupado com o fato de que expressões antigas possam acabar caindo no esquecimento. Por isso, fiz uma historinha sem graça, boba, só para você se lembrar de algumas delas.
O Mané estava se sentindo muito sozinho. Por isso perguntou para seu amigo se ele não queria jogar um pouco de conversa fora. O outro achou esquisito jogar fora uma conversa: só se fosse fiada ou se fosse sem pé nem cabeça. Ficou, portanto, com um pé atrás: será que o Mané estava pensando que ele era cabeça oca? Falou para o Mané que concordava, mas não era para vir com a cabeça feita. O Mané pensou com seus botões: esse cara é um pé no saco. Só porque queria trocar umas palavrinhas, já está botando banca, pensando que é o rei da cocada preta.
O Mané, então, botou as barbas de molho. Para evitar ficar batendo na mesma tecla, bater boca, ou pior, bater com a língua nos dentes, suspendeu o lero-lero e foi para casa bater uma boia. O amigo do Mané comentou, então, que sabia que ele estava mesmo era com conversa para boi dormir. Foi para casa também. Melhor do que ficar falando “abrobrinha”. O Mané, então, decidiu cair nos braços de Morfeu e pensou: “em boca fechada não entra mosquito”.

Quantas dessas você não usa mais?

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Novo lançamento no Clube dos Autores: Essa vida da 
gente

Monday, March 6, 2017

Nossos medos


Nossos medos

Falaram que os comunistas iam chegar, acabar com tudo que era nosso. Eles nunca vieram. Falaram que os alienígenas iam invadir a terra, acabar com nossa civilização. Eles nunca chegaram. Na Guerra Fria, disseram que seríamos destruídos por bombas atômicas. As bombas nunca explodiram. Um grande asteroide, destruindo nosso mundo? Também não.
Alguém, porém,  destruiu muita coisa que era nossa, mas não foram os comunistas.  Também não foram os alienígenas que invadiram nosso mundo. Nós mesmos estamos acabando com nossa civilização. Quando puseram esse medo na gente – o de uma catástrofe atômica -  isto já tinha acontecido, bem antes, no Japão. Nem precisaram dos bandidos do gibi, o próprio mocinho fez tudo. Destruição de florestas, poluição dos mares? Tudo nós mesmos, nossa ganância, nosso egoísmo.

Nossos medos, na maioria das vezes,  estão nos lugares errados.



Histórias do Futuro

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Saturday, March 4, 2017

Ficamos a ver navios...



Ficamos a ver navios...

O rei D. Sebastião, de Portugal, era uma figura querida e adorada pelos portugueses. Ele desapareceu heroicamente na batalha de Alcácer-Quibir, na África, em 1578. Dizem que os chamados sebastianistas ficavam num morro chamado Alto de Santa Catarina, na vã esperança de ver a querida figura voltar, gloriosa, em uma caravela real. Realmente não aconteceu. Alguns historiadores acreditam que a expressão “ficar a ver navios” vem daí. Ou seja, esperar algo que nunca vai acontecer, ser frustrado em suas esperanças.

Nós, brasileiros, nunca tivemos um D. Sebastião que pudéssemos venerar. Alguém querido, um grande líder, por quem esperar. Acho que sempre estivemos a ver navios e para sempre vamos ficar a vê-los, em nossas praias, em nossos oceanos. Um grande chefe que nunca vai chegar...

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As serpentes, o sonho e a realidade


As serpentes, o sonho e a realidade

Coisa estranha. Chegando em casa com as compras em um saquinho plástico, Jonas notou algo que não estava certo. Por entre os arbustos - que eram muitos - podia ver o que parecia ser uma cauda de animal. Desconfiado, olhou melhor o jardim inteiro e foi aí que reparou quão horrenda era a visão toda. Uma enorme cobra, quase um metro de diâmetro, e certamente uns dez de comprimento, estava “estacionada” em frente à casa, bem na porta, impedindo a entrada. Era cheia de manchas, combinação de marrom claro e marrom escuro, um verdadeiro retrato do demônio.
Jonas gelou na hora em que se lembrou de que a esposa estava em casa. Pensou imediatamente na entrada de trás e circundou a casa de longe. O coração quase parou de bater quando viu que atrás havia um outro réptil da mesma espécie, um pouco menor, mas ainda assim, muito, muito grande. Era como se o diabo tivesse trazido uma assistente e estava cercando a casa. A cabeça de Jonas estava fervilhando com um monte de pensamentos. Pensou em cem diferentes ideias para expulsar o monstro, mas todas elas pareciam inúteis. De repente, a segunda serpente levantou a cabeça triangular, ejetou a língua abominável umas dez vezes, arrepiando a pele do coitado do Jonas. Ela estava olhando para o bosque atrás da casa, de onde ouvira um ruído de algum animalzinho correndo.
Ele precisava entrar, a qualquer custo, para salvar a mulher. Podia tentar agora, que a maldita serpente estava olhando para a mata. Mesmo assim, seria muito arriscado. Em uma fração de segundo ela voltaria a cabeça nojenta e acabaria com ele. É nessas horas que você se enche ou de coragem ou de fé. Coragem ele tinha bastante, mas muita coragem perto daquele monstro horrível ainda era pouca. Restava a fé. Pensou no Todo Poderoso e fez uma oração pedindo proteção para a corrida que iria dar até a porta. Se conseguisse entrar sem ser engulido,  ainda teria depois outra batalha: sair. Mas durante a vida, Jonas tinha aprendido que tinha de vencer os obstáculos por etapas e, se você fica pensando nas etapas que vêm depois, você não consegue cumprir nem a primeira.
Você sabe como as pessoas são. Nessas horas pensam em tudo, quero dizer na hora do perigo, na hora da necessidade. E foi aí que Jonas pensou que sua fé talvez não fosse suficiente ou que talvez ele não fosse merecedor da piedade de Deus. Prova disso estava ali, bem na sua frente. Por que Ele havia permitido que aquele monstro – dois deles – estivessem ali? Com tanta casa que havia pela redondeza, justo ali?Pensou então numa outra solução. Sabe, assim como se estivesse “dando uma dica” para Deus de como resolver o problema de uma maneira mais fácil, uma maneira mais sutil, como se para o Criador fizesse alguma diferença o jeito que Ele ia usar para derrotar o monstro. Mesmo na hora da necessidade, algumas criaturas acabam sendo arrogantes querendo ensinar o Pai Nosso para o vigário, mal comparando. Aliás, muito mal comparando. Enfim, lá vai o que Jonas pensou. Que Deus poderia simplesmente considerar aquilo um sonho, um pesadelo, para ser mais preciso, e fazer com que ele acordasse naquela horinha. Mas daí se o que era a realidade virasse sonho, para o que ele acordaria? Pois, a realidade era do que ele estava fugindo. Acredite, passou tudo isso na cabeça do pobre coitado. Quem diria que ele fosse capaz de fazer essas considerações metafísicas? Enfim, ele optou pelo último pensamento, aquele de transformar a realidade num sonho e depois, bem, depois Deus  reinventaria a realidade e ele cairia nela de novo. Sei lá, essa parte é complicada demais, Deus saberia o que fazer. E repetindo como um doido “É um sonho, é um sonho, um tremendo de um pesadelo” , ele correu para a porta.
E não é que, ao correr aquele pequeno trecho, de repente sentiu as pernas sendo seguradas por uns panos, quero dizer, ele estava na cama, esperneando entre os lençóis. Acordou, assustado, verificou se a mulher estava lá. A Jandira estava dormindo como um anjo.
Aí começou um terrível conflito na cabeça do Jonas. Ele não sabia dizer se Deus tinha feito o milagre do século, transformando a realidade num sonho e depois criando uma nova realidade para ele acordar nela, só para ele se livrar das serpentes ou... se ele estava mesmo tendo um pesadelo e simplesmente acordou.
Eus sei que você está pensando que isso é besteira e que é claro que o Jonas estava tendo um pesadelo. Mas não é bem assim, a coisa é bem mais complicada. Quem pode garantir? Esquisito? Não foi esquisito aparecerem duas cobras enormes na casa dele? É verdade que se fosse um pesadelo, elas seriam de mentira.
O bom mesmo seria que a fé do Jonas fosse tão forte que ele acreditasse que Deus transformou a realidade em sonho. O que vale é o que a gente acredita. Se ele acreditasse, seria verdade. Além disso, já pensou no futuro de Jonas, com aquela fé, com aquele poder que a fé garante, transformando em sonho toda realidade que fosse inconveniente? Realidade, sonho, realidade. Que complicação! Infelizmente a fé do Jonas não era tão grande assim...


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Wednesday, March 1, 2017

Palavra de cronista



Palavra de cronista

Jogo com as palavras ou elas jogam comigo? Brinco com elas ou elas brincam comigo? Às vezes, eu brigo com elas porque elas não querem brincar comigo. Vez ou outra, teimam, por um hábito antigo, em saírem erradas. Querem se desfazer dos acentos, outras vezes querem se enfeitar, erroneamente, com eles. Quem fez esta ditadura para elas? Elas querem mais é correr soltinhas, nuas, pelo texto afora.
E quando elas não querem soltar seus segredos? Aqueles significados recônditos que só elas sabem? E quando elas nos enganam, significando o que não devem significar? E quando, no contexto, se travestem, usando vestes que delas não são? E quando elas se invertem, procurando verter ilusão? E quando elas se metem onde não são chamadas, criando confusão? E quando elas saem na hora errada, colocando-nos em má situação? Se é no texto, eu as apago correndo, antes que alguém as veja. Mas, quando ditas, voam pelo ar, ligeiras, livres de qualquer correção.
Existem dias em que elas dão o que falar, me perdoem a expressão. Talvez devesse dizer “elas dão o que escrever”. Saem metafóricas, irônicas, pleonásticas, silépticas, anacolutas. Contorcem-se em hipérbatos perifrásticos, em redundantes  pleonasmos e em metonímias eufemísticas. Eu, hein! Como posso saber tudo isso?
No fim do dia, já me acostumei. Faço, por dentro, uma balada com elas. Durmo pensando nelas e, com elas, tenho meus sonhos. Que paixão! Mas, eu desconfio, elas não sonham comigo, não. Estão ocupadas  em passear pelas mentes dos grandes poetas, dos grandes escritores do presente e do passado. E isso, posso dizer, deve dar um trabalhão! Sinto um pouco de ciúmes, mas que seja! Elas estão em boa companhia e, podem, também, ter seu prazer e seu descanso.

Amanhã de manhã, porém, começa tudo outra vez. Vou falar com elas, e brincar, e usar, e abusar. Afinal de contas, para que servem as minhas amigas? Dou minha palavra, vou ter uma palavrinha com elas. Palavra de cronista!

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