Saturday, August 9, 2014

A horta de meu pai (Perus, começo dos anos 80)




A horta de meu pai (Perus, começo dos anos 80)

Eu passava a mão por cima do portão e abria a tramela. Vinha sem avisar. Caminho livre, meu dois filhos maiores, mas muito pequenos então, corriam em direção ao fundo quintal. O lugar era Perus, na casa de meus pais. Era o começo dos anos oitenta.
Num terreno de mais de 500 metros, meu pai tinha construído uma casa pequena, enconstada lá no fundo, do lado direito. Queria o máximo de espaço para sua horta, para suas plantas. E, sempre que chegava, lá estava ele, enxada na mão, cuidando dos alfaces, dos tomates, das batatas. Quando meus pequenos saíam correndo em sua direção, porém, tudo parava. Ele largava o que estava fazendo, levantava a cabeça, e dava um enorme sorriso. Com seu jeito simples, ficava, embevecido, repetindo o nome dos netinhos. Era só felicidade.
Tenho saudades daquela época feliz. Da casinha, da horta, de meus pais. Mas o que eu não consigo mesmo esquecer, é daquele sorriso largo, aberto, que ele dava ao ver os netinhos. Dá uma saudade no peito, uma saudade danada. Agora que tenho netos também, eu entendo sua felicidade. Não dá para voltar no tempo, mas está tudo na memória. Tudo, gravadinho, em 3D, com detalhes, no meu cérebro, no meu coração.




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Friday, August 8, 2014

Nestes termos pede deferimento


Nestes termos pede deferimento

Gumercindo era uma espécie de auxiliar de despachante. Quase todo dia vinha para a repartição resolver algum assunto. E era a melhor parte do dia, apesar do que possa parecer. Lá ele podia ver a linda moça do guichê. Aquela morena clara, cabelos curtos, sorriso de marfim, era de arrebentar seu coração. Aquela fila era para atender apenas aos diretamente interessados, nada de intermediários. Se assim não fosse, lá estaria ele todos os dias esperando para ser atendido.
Ela estava sempre muito ocupada. Sua vontade de falar com ela era tanto, porém, que ele botou sua imaginação para funcionar. Afinal de contas, ele entendia daquilo, sabia de que tipo de assunto o pessoal ia ali tratar. Fez um requerimento, só para poder ir falar com ela:

Ao Instituto de  Assistência a Pessoas Apaixonadas

Gumercindo Augusto dos Anjos, brasileiro, desesperado, residente à Rua da Carência s/n, vem, respeitosamente, diante de sua presença para pedir atenção. Seu coração, ultimamente, tem palpitado muito mais do que o normal. A causa é, sem dúvida, a  presença de uma formosa donzela neste recinto. Ao  ver seu rosto lindo, mal pode se conter. Espera que, diante deste seu pedido, a sua pessoa olhe para este coração ferido. Anexa, para sua apreciação, a cópia de uma alma despedaçada pela desesperança de não poder lhe falar.       

                                                             Nestes Termos,
                                                            Pede Deferimento
                                                                                                                                                                                                              Gum ercindo Augusto dos Anjos


No dia seguinte, lá estava ele, todo ansioso, requerimento na mão, esperando para ser atendido. A fila estava comprida, mas finalmente chegou sua vez. Olhou bem para o rosto dela, deu um suspiro e estendeu o papel. Ela leu rapidamente  o texto e respondeu, quase sem piscar:
- O senhor precisa reconhecer firma. E já que disse que está anexando um documento, ele precisa estar aqui, em anexo, como a própria palavra diz. E a cópia precisa ser autenticada, por favor. Próximo!
Gumercindo mal podia crer no que tinha acabado de ouvir. Ela nem tinha lido o seu lindo texto. Não se importou com a presença dele, ali, se consumindo em paixão. Abaixou a cabeça e murmurou para si mesmo:
-Burocrata fria, gélida. 
E completou: "Maldita a burocracia!"

E foi triste para casa, pensando em arrumar um novo amor.

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Tuesday, August 5, 2014

A moça que gosta de voar, cheia de graça


A moça que gosta de voar, cheia de graça

Eu a conheço tão pouco e a conheço tão bem. Voa sem asas e como gosta de voar! Aprecia a terra lá de cima e adora ver o céu quando está lá embaixo a andar. Aprecia a vida como se fosse um manjar. Vê beleza em tudo. Talvez seja a sua própria imagem refletida em tudo que vê. Quem fala com ela, sente sua força bonita de ser. Quem a vê, vê uma graça que nem sabia existir. Gostar da vida é sua profissão. É por isso que ela voa, assim, gentil, graciosa, no imenso azul, como se fosse um lenço de cetim.
Essa moça está sempre a sorrir. Quando não é com os lábios, é com o rosto que sorri. Seu sorriso encanta a gente, deixa todos maravilhados, sem saber o que fazer. E as crianças, então? Quando fala com uma delas, parece que tudo ao redor para, tanta é a energia que solta no ar.
Não pensem que é exagero, que é irreal. Ela existe e é ainda mais do que minhas palavras possam falar. Esta crônica é meu presente para ela, pois o que mais posso lhe dar?

Seu nome verdadeiro? Não posso dizer. Com tantos amigos que já tem, quantos mais ainda vai arrumar? Mas posso lhe dizer o que seu nome significa: Alegria. E é isso o que ela é, o que ela faz, e a única coisa que pode significar...

Significado do nome Graziela. 
Graziela tem 8 caracteres. 
Origem do nome Graziela = Latim. 
Significado Graziela : alegria.



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Monday, August 4, 2014

O meu amigo e suas estranhas ideias


  
O meu amigo e suas estranhas ideias

O meu amigo Nino Belvicino, filosofo e pensador, tem, às vezes, umas ideias estranhas. Depois de ouvir as últimas sobre o Oriente Médio e a Ucrânia, veio com essa história de “Neocivilização”. Eu sei que é absurdo, mas vou contar o que se passa na cabeça dele. Ele acha que devemos separar uma área do mundo, de preferência uma grande floresta, com rios e tudo mais. Depois, pouco a pouco, ir selecionando crianças, bem pequenas ainda, de todas as raças e de todos os credos. Israelistas, palestinos, soviéticos, ucranianos. Americanos, africanos. Crianças de todas as cores e credos. Filhos de heterosexuais e homossexuais. Filhos de pessoal de esquerda e de direita, das duas extremas e do centro também. Filhos de racistas, humanistas, comunistas, fascistas, nazistas, liberais. Tudo que você possa imaginar. Todos de uma idade  bem tenra, ainda não contaminados pelo ódio e preconceito dos pais e da sociedade. Ficariam todos ali, começando do zero, juntos, formando a semente de uma nova raça, de uma nova civilização. Cheia de esplendor e bondade e, principalmente, de igualdade. Depois, quando o mundo estiver quase acabando, cheio de guerras e destruição, eles seriam colocados em ação.  Começariam uma nova civilização.
Simples, aparentemente. Não sei se funcionaria, mas quem sabe?

Eu acho que o Nino é meio exagerado. Mas, às vezes, fico pensando se ele não tem razão...

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Saturday, August 2, 2014

Aviões que sobem, aviões que caem



Aviões que sobem, aviões que caem

Eu sei que a aerodinâmica e a tecnologia explicam como um avião consegue voar. Ainda assim, cada vez que vejo um subir, fico admirado. Ele é um dos melhores símbolos da capacidade do homem de evoluir, de suplantar seus próprios limites. Quando eu fiquei, pela primeira vez, ao lado de um Jumbo 747, aquela máquina enorme, tive certeza de que deveria haver algum truque. Como podia?

Por isso, quando cai uma aeronave, por erro humano ou falha mecânica, fico muito triste. É um revés contra a humanidade, além da óbvia desolação pela perda de vidas. Quando alguém derruba, de propósito, um avião, então, é muito mais que isso. É um crime contra a própria essência do que é ser humano, é um crime contra a própria civilização. É o bizarro encontro das duas distantes pontas da raça humana. A escória, o monstro, o desprezível, de um lado. De outro, o gênio da criação, da capacidade, da genialidade. É o lado em que está o próprio Deus recriando através de nós, através da evolução.

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Thursday, July 24, 2014

Os mortos e o respeito pela vida


Os mortos e o respeito pela vida

(o respeito pelos mortos só pode vir de quem respeita a vida)

Corpos caindo do céu não é uma cena que se vê todos os dias, graças a Deus. Aconteceu, entretanto. Consequência da barbárie humana, da incompreensão, do ódio. Por mais que alguém queira lutar por uma pátria, por uma causa, existem limites. Por um motivo muito simples. Como soldados que desejam construir uma nova ordem, uma nova nação, vão responder a uma  singela pergunta: que tipo de civilização vai ser construída por seres que são capazes de tal crime? Estou falando a respeito do avião da Malaysia Airlines abatido na Ucrânia.
Os corpos dos passageiros, todos sabem, foram recolhidos sem cuidado, sem respeito. Finalmente foram recebidos pelos holandeses. Aí, então, começou a demonstração do que é ser verdadeiramente civilizado. Dois aviões especialmente enviados para a tarefa,  levando 40 corpos de um um total de quase 300,  trouxeram as vítimas de volta para a Holanda. Já no aeroporto, foram retiradas, uma a uma, com uma verdadeira gala funeral, por homens vestidos especialmente para a ocasião. O rei estava lá para recebê-las. Uma marcha fúnebre quebrou o silêncio, enquanto os corpos em caixões, um  a um,  eram colocados cada um em seu carro  funerário. Solenidade, delicadeza e respeito. Inciaram a rota de mais de 60 milhas em direção a seu destino. Havia cientistas, especialistas em saúde, e outros profissionais da área entre eles. Antes de mais nada, porém, havia lá seres humanos. Ao longo da rota, a população foi se aglomerando em grupos. Uns choravam, outros acenavam, todos comovidos. Bandeiras a meio-pau balançando suavemente ao vento.  Dos viadutos, flores eram jogadas. Uma emoção difícil de se descrever. Um enorme respeito pelos mortos, que só pode vir de quem respeita muito a vida.

Foi um dos maiores contrastes entre bárbaros e civilizados de que já tive conhecimento em minha vida.

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 À procura de Lucas  (Flávio Cruz)

Tuesday, July 22, 2014

Retrato em branco e preto


Retrato em branco e preto

Eu não conheci pessoalmente minha avó Etelvina, pelo lado paterno. Tinha visto uma foto dela, no meio da família toda, quase sumida. Não dava para ver o rosto, não dava  para ver quase nada. Ainda assim, eu gostava de olhar. Aquela mulher valente, que teve quatorze filhos, só Deus sabe quantas lutas lutou.
Outro dia, porém, minha querida prima me passou uma foto só de rosto, bem nítida, da avó. Eu me emocionei imediatamente. Ver aquele rostinho suave, em branco e preto, o cabelinho arrumado, como se arrumava antigamente, foi muito bom. Um véu preto cobrindo a blusa branca fechada em cima. Um sorriso que não saiu, uma tristeza disfarçada? Tudo isto estava ali, esboçado, nos lábios  finos, fechados. Uma delicadeza sem par. Talvez ela quisesse dizer alguma coisa. Talvez estivesse apenas posando para a foto.

Gostaria tanto que ela pudesse ver os netos de seus netos e ver a beleza que eles são. Gostaria que ela terminasse o sorriso que começou. Gostaria que ela pudesse ver o bem que, talvez nem saiba, fez e espalhou. Gostaria de, por alguns segundos, trocar umas palavrinhas com ela. É possível amar em retrospecto? Eu não sei, mas é o que estou fazendo agora. Amando a avó, daquele retrato em branco e preto, que eu nunca conheci...

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