Saturday, October 25, 2014

Coração de menino



Coração de menino

 (ou por que os habitantes da Finlândia não morrem congelados)

O pai estava  explicando para o Fabinho que nem todos os países eram como o Brasil. Alguns lugares eram muito, muito frios. Mostrou como se media a temperatura. O Fabinho fez várias perguntas e o paizão explicava. Zero. Essa era a temperatura em que a água congelava. Isso mesmo, gelo, duro. E ele viu todas aquelas fotos de lagos congelados, carros cobertos. Até rios congelavam. Fabinho estava impressionado. Depois de mais algumas explicações, fez uma pergunta para o pai:
-O senhor falou outro dia que existe muita água no corpo da gente. Como é que a água dentro dessas pessoas que moram nos países que o senhor falou não fica congelada?
O pai pensou um pouquinho e depois falou:
-O que acontece, filhão, é que nós temos um coração e ele está batendo o tempo inteiro. Bate, bate e empurra o sangue pelas artérias, pelas veias. Com isso ele faz o corpo da gente ficar quente. Daí, o frio de fora  não vem para dentro.
Diante da carinha meio interrogativa de Fabinho, ele insistiu:
-Entendeu?
Um pouco hesitante, ele confirmou:
-Acho que sim.
Na verdade, de vez em quando, ele se lembrava da explicação e tentava entender melhor. Ele ainda tinha algumas dúvidas.
O tempo passou e o Fabinho tinha quase se esquecido da história. Sabe, depois chegou aquela fase em que eles estão mais preocupados com as  menininhas do que com países que ficam congelados a maior parte do ano. E naquele começo de ano as coisas estavam ainda mais interessantes. Havia chegado uma menina de uma outra cidade que havia se matriculado na sua escola. Melhor ainda, na sua classe. A Lícia era uma gracinha, tinha um jeitinho que todo mundo notava. O Fabinho, então, notava mais do que todo mundo. Ficava sempre de olho nela.
A Lícia, infelizmente, ainda não o tinha notado. Nem por isso ele desistia, ficava sempre olhando. Um dia, o professor de Ciências fez uma pergunta sobre temperatura. Exatamente uma das  coisas que o pai tinha explicado. Ele levantou a mão e acertou em cima a resposta. Recebeu elogio do professor e tudo mais. Mas tudo isso não foi nada perto do olhar que a Lícia deu para ele na primeira vez que ele foi “conferir” com ela, o que ele sempre fazia. E não foi só um olhar. Foram pelo menos mais três e ainda mais um, de que ele não tinha certeza. Mais do que isso, ela olhava, dava uma risadinha e fazia um comentário com a amiga. O coração do Fabinho começou a acelerar e foi acelerando até o final da aula, quando ela acenou para ele e saiu correndo para casa. Não foi usado termômetro, mas dá para garantir que a temperatura do rosto do garoto tinha alcançado uma altura jamais antes registrada. E o coração, aos pinotes. Foi para casa, pensou nela o dia inteiro.
À noite, quando o pai chegou e veio lhe dar um abraço, ele comentou:
-Sabe pai, quando o senhor explicou por que as pessoas não ficam congeladas nos países frios?
O pai não se lembrava exatamente  pois já explicara tanta coisa para o Fabinho, mas respondeu:
-Sim, meu filho, o que tem? Você se esqueceu? Posso explicar de novo.
-Não, não. Era isso que eu queria falar. Eu entendi tudo. Tudinho.
O pai fez uma cara de satisfação mas na vedade não entendeu bem o que o Fabinho queria dizer. Também, não importava, o Fabinho estava tão feliz! Era isso que importava. 


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Essa vida da gente

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