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Saturday, March 7, 2015

As cores da argila (Perus: memórias)



As cores da argila   (Perus: memórias)

Eu chegava da escola, sentava-me à mesa e, num instante, devorava o prato com feijão, arroz, e mistura. Depois de subir o Morro do Cartório, quem é que não fica com fome? Logo a seguir, se eu conseguisse escapar imune de alguma tarefa dada pela minha mãe, ia correndo para a rua. O objetivo era simples. Encontrar meus amigos e decidir qual seria a aventura do dia. Quando não havia missão especial, ficávamos por ali mesmo, jogando taco ou bolinha de gude. Muitas vezes, porém, íamos até a frente da Igreja de São Jorge, a cem metros de casa. O lugar ali era mais oficial, mesmo porque naquela época ainda não tinham deposto o santo de sua verdadeira hierarquia. Olhávamos Perus lá de cima. Uma sensação inigualável. Parecia tudo de brinquedo lá embaixo; a estrada de ferro, a ponte, o caminhão passando. Quando você não tem nada e olha lá do alto, parece que você é dono de tudo. Das nossas brincadeiras, certamente nós éramos.
Era muito comum ficarmos por ali. O pequeno terreno, em frente à igreja, terminava de repente e um quase penhasco se desenhava a nossos pés. A chuva tinha causado erosão e o ventre da terra ficava exposto. E sabe o que havia lá dentro? Um monte de cores. Isso mesmo, argila colorida. Havia verde, cor de rosa, amarela, vermelha. Nós, cirurgiões mirins, arrancávamos pedaços e os esculpíamos com pedaços de madeira. Era bonito de se ver. Aquele colorido todo. Parecia um caleidoscópio de argila. Como esquecer uma coisa dessas? Aquilo era nosso tesouro enterrado.
Mais tarde tínhamos de voltar para casa. Fazer a lição, escrever no caderno de caligrafia. Acho que eles, como tantas outras coisas, não existem mais. Quando começava a ficar escuro, minha mãe me chamava:
-Flávio, vem jantar!

Era a sopa de feijão, feita no fogo de lenha. O tempo antes de ir para cama era curto. Não havia televisão, a luz era fraca. Só restava dormir. Dormir e sonhar com as cores da argila.


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Saturday, July 19, 2014

Xixi nas calças (O longo caminho do Suzana de Campos até a casa)



Xixi nas calças
(O longo caminho do Suzana de Campos até a casa)

O garotinho saiu da escola apertado. Criança, não sei por  quê, não foi ao banheiro. Vontade de chegar logo em casa? Não se pode entender um pequenino desses, com certeza. A gente mal entende os adultos. E as mulheres, então? Quem consegue?
Foi aguentando firme, o garoto. Mas o fato é que, do Grupo Escolar Suzana de Campos em Perus até onde morava, era um bom chão, principalmente para alguém daquela idade.  Não deu outra:  ele não aguentou. Fez xixi. Não muito, mas era bem visível naquelas calças curtas, azuis, que ele usava. Aquele último trecho antes de chegar, foi um tormento. A cabecinha do garoto fervilhava. Iria levar uns tapas? A mãe, ocupada, teria de lavar suas roupas, ia dar um trabalhão. Vexame. Primeiro vexame de menino. Conjeturou mil desculpas. Um colega malvado espirrou água nele. Passou embaixo de um telhado? Mas não tinha chovido... Estava com fome, queria chegar, mas estava com medo e vergonha também.  Alcançou a tramela, abriu o portão e foi, como um condenado, até a cozinha, enfrentar a mãe. Esta, atarefada, virou-se para ele e logo percebeu o que tinha acontecido. Você sabe como são as mães. Ele ia começar a gaguejar algo, quando ela abaixou-se, deu-lhe um beijo que nunca tinha dado antes e falou: “Vai se trocar, que a comida está pronta”. Ele pôs roupas secas, deixou as molhadas na porta do quarto e, aliviado, foi se sentar à mesa.  O cheiro da comida estava uma delícia. Com o rabo dos olhos viu a mãe passar rapidamente com suas suspeitas calças em direção ao tanque.
Foi uma tarde feliz. Ele estava tranquilo, tinha superado o trauma. À noite, a mãe chegou perto dele, antes de se deitar. É  agora, ele pensou, vai falar alguma coisa. Que nada, deu mais um beijo, um abraço materno novo, que ele ainda não tinha experimentado. Dormiu um sono gostoso, infantil, quase de bebê.

Não é assim que Deus fez as mães?

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Novo lançamento no Clube dos Autores: Essa vida da 
gente