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Tuesday, May 22, 2018

Aperto, o do trem, e outros mais

Aperto, o do trem, e outros mais



Um braço cruzado segurando o fichário e um livro sobre o peito, para o curso noturno. Apertado como nunca. Nem os dedos dava para mexer. O outro braço, o esquerdo, abaixado, segurando uma sacola com o lanche para o almoço. Também não podia se mexer. Os pés igualmente, tinham de ficar quietinhos, movimento nenhum. A cabeça sim, essa podia virar um pouco, mas não muito.
Todo mundo empacotado, petrificado, paralisado, era o trem das seis e cinco, da manhã, é claro, saindo de Perus. Em Jaraguá piorou mais um pouquinho e em Pirituba mais um pouco ainda. O zíper do fichário quase machucava minha pele. A Lapa estava chegando, graças a Deus, muita gente ia sair lá. Ainda ia continuar  uma sardinha em lata, mas pelo menos os dedos eu iria poder movimentar. O subúrbio da Santos a Jundiaí foi diminuindo de velocidade, já dava para ver o nome da estação. Nem precisava me preocupar em dar passagem para quem ia sair. Levavam a gente para fora e depois a turma de fora levava a gente de volta para dentro. Se quisesse trocar a posição dos braços, essa era a hora.
Aquele dia porém, algo tinha acontecido. Havia muita gente naquela estação da Lapa também. Trem quebrado? Não sei, mas mal tinha conseguido ser empurrado para fora, já estava vindo de volta. O impossível aconteceu. Ficou mais apertado do que antes. Os dois braços estavam na mesma posição em que haviam entrado em Perus.
Quando chegou a Água Branca, finalmente  meu corpo e minhas coisas foram empurradas para fora. Respirei fundo, aquela sensação gostosa de ar, apesar da mistura de cheiro de freio do trem e de poluição das fábricas próximas. Podia, finalmente, esticar os membros inferiores e os superiores.
Agora era só correr até a Francisco Matarazzo e finalmente pegar o ônibus. Não conseguiria me sentar, mas pelo menos, poderia me estirar.
Era uma segunda-feira qualquer de agosto de 1966, faltavam 34 anos para o novo milênio, mas ninguém pensava nisso, tanta coisa havia para se fazer. Havia a ditadura e seus porões. Ela partiria mais tarde, mas muitos porões ficariam e outros se criariam. E o milênio chegou e mais 18 anos se passaram. O que mudou? Muito e nada. A condução, pelo menos, deve ter mudado, assim espero.

O aperto, entretanto,  pelo menos aquele dentro do peito, acho que continua forte e persistente na nossa querida pátria: a nossa pátria, amada, idolatrada, cheia de encantos mil, meu adorado Brasil.


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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Saturday, May 5, 2018

Um lugar chamado Perus


Um lugar chamado Perus

As lembranças voltam, às vezes, aos borbotões. Outras, vêm de uma em uma, lentamente.
Lembro-me de olhar para os dois lados, com muito cuidado, antes de atravessar a linha do trem. Estava voltando do Suzana de Campos. A porteira estava fechada, podia ser um risco. Quantas histórias de gente que perdeu um pé ou um braço. Antes de chegar ali, tinha sentido o cheiro gostoso que vinha da padaria perto da estação, na Avenida Sílvio de Campos. Do outro lado, bem perto da porteira, o bar do Jânio, onde eu comprava doces quando podia. Vejo-me  de repente, transportado ao Morro do Cartório, com um saco de compras. Eram da Dona Amélia. Ela me pagava para ir duas vezes por dia lá embaixo até a venda ou a quitanda. Meu primeiro emprego fixo, sem registro, é claro. Tinha apenas 8 anos. Noutro momento, estou lá em cima do abacateiro, colhendo alguns com uma vara, para depois vendê-los na quitanda da Mieko, lá na praça. Dali a pouco estou passando bem em frente à loja do “seu” Elias, com todos aqueles vidros e espelhos. Depois paro em frente ao cinema - meu ponto favorito - para, logo a seguir, beber água na bica. Pensando, ainda, nos cartazes dos filmes do póximo final de semana. Havia depois, na mesma rua, o velho Grupo Escolar e, no final, virando à direita, a venda do “seu”Machado, onde meu irmão Bonifácio trabalhou por muito tempo. Mas agora, estou misturando épocas. E o que importa? Está tudo lá, num grande redemoinho de memórias. E a estrada da Ponte Seca, onde bem mais tarde iria com meu fusquinha azul namorar em Caieiras? Como posso esquecer? E, em outra época, bem antes, eu estava a andar, de madrugada, pelos trilhos da Santos a Jundiaí, voltando dos bailinhos da Melhoramentos.

E as imagens se atropelam, vivas ou esvaídas, na minha cabeça. Umas se vão para sempre, outras voltam fesquinhas. Sei, no entanto, que um dia, todas vão partir. Talvez se transformem em poesia. Poesia pura, pairando no ar. No ar de um lugar chamado Perus.

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Sunday, November 8, 2015

Beijos e abraços








Beijos e abraços

Dizem, não sei se é verdade, que os pais de antigamente não eram de beijar e abraçar seus filhos. O fato é que comecei a pensar no assunto e cheguei à conclusão de que havia verdade nessa afirmação. Não me lembro de meu pai e minha mãe me abraçarem efusivamente ou de me beijarem. Estranhamente, não fiquei triste ou confuso. Minha infância foi tão feliz, sabia que deveria haver alguma explicação. Pensei, pensei. Só via amor da parte deles. Dedicação, preocupação. Meu pai trabalhando duro, mesmo depois que saía da Fábrica de Cimento.
Trabalhando com madeira em sua oficina, consertando coisas, melhorando o que dava para melhorar. Minha mãe sempre se preocupando, vendo o que faltava. Dos abraços e beijos, eu não me lembro, não. Por que é, então, que eu me sentia e ainda me sinto tão amado?

Tentei trazer à mente as imagens da infância. Lembro-me de meu pai sempre sorrindo quando me via. Lembro-me de minha mãe, cuidando dos detalhes, sempre preocupada com meu bem estar. Abraçar e beijar não eram coisas de sua geração, também não receberam de seus pais.
Eu sei, entretanto, por que não sinto falta de nada. O abraço de meu pai era seu sorriso, era assim que ele me abraçava. Os beijos da minha mãe, agora eu sei onde eles estavam. Em sua alma. Ela me beijava com a sua própria alma, e esse era o beijo mais gostoso que pode haver. E ela continuou fazendo assim, por toda sua vida até falecer, aos 84 anos. Assim fez meu pai, também até partir, bem antes dela.

Agora, com a sabedoria da idade, é isso que vejo e sinto: beijos da alma e um grande sorriso me abraçando, para sempre, pela vida e pela eternidade sem fim...

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Saturday, June 20, 2015

O trem das onze

O trem das onze



O trem das onze

Em 1967, não era fácil arrumar uma vaga num curso de ensino médio, na época chamado de “científico” ou “clássico”. Na região de Perus, mais difícil ainda. A escola que eu arrumei foi no Bom Retiro e se chamava “Dr. Alarico Silveira”. Trabalhar durante o dia era óbvio, portanto tínhamos que estudar à noite.
O trabalho era na Avenida Celso Garcia. Saía às seis da tarde, pegava o ônibus Penha-Bom Retiro e chegava em cima da hora para as aulas noturnas. Os professores eram ótimos e a gente fazia o que podia para acompanhar, cansados que estávamos. Era, no entanto a melhor parte do dia.
O problema era depois. Após a quinta aula, tínhamos, eu e meu colega de Perus, o maior desafio do dia. Saíamos como corredores de 100 metros livres da Rua dos Italianos, passávamos pela Rua Júlio Conceição e “voávamos” pela José Paulino para chegar até a Estação da Luz. Ainda bem que não havia uma alma viva na rua para atrapalhar. Era o último trem, o trem das onze. Não sei se era exatamente às onze, onze e cinco ou onze e trinta. O que eu sei é que tínhamos no máximo 10 minutos para chegar. Gosto de falar o “trem das onze” por causa do Adoniran Barbosa.
Quando chegávamos na ponta da escadaria de madeira, suspirávamos aliviados de ver o subúrbio ainda lá. O maquinista era nosso amigo, embora apenas o víssemos de raspão ao correr para as portas automáticas. Ele sabia que a gente sempre chegava no sufoco. Muitas vezes, as portas estavam fechadas e quando ele nos via despencando pelas escadas, ele as abria novamente. Para ser sincero, acho até que, mesmo antes de nos ver, ele dava uma esperadinha. Dois anos mais tarde, ficamos sabendo que ele morreu naquele horrível acidente de 69 na Santos a Jundiaí. Nunca pude agradecer.
O pessoal do trem era sempre o mesmo, quase todos estudantes. Nossos assentos eram “marcados”, sempre sentávamos no mesmo lugar. Tentávamos conversar, pois se pegássemos no sono, corríamos o risco de ir parar em Francisco Morato. Já pensou? Tínha de me levantar no dia seguinte às cinco para pegar de novo o trem. Seria uma calamidade.
Juntávamos as últimas forças, subíamos o Morro do Cartório. Lá em cima eu virava para a direita na Rua Dona Rosina e ele ia para a esquerda.

Como diz a música, “minha mãe não dormia enquanto eu não chegava”. Além disso, ela invariavelmente tinha um prato de sopa de feijão me esperando. A Dona Eleta, sempre preocupada comigo. A aquela minha vida era muita correria. Mas nós éramos jovens e aguentávamos. Dia seguinte, cinco da manhã, morro abaixo, trem cheio desta vez, Brás, Celso Garcia... Começava tudo de novo. Perus mesmo, de dia, só no final de semana. Em compensação, a gente dormia até a hora do almoço...

Essa vida da gente

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Essa vida da gente

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Thursday, May 7, 2015

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Era uma vez um lugar… Lá moravam nossas famílias, ganhávamos nosso pão, vivíamos nossos sonhos. Quase todos trabalhavam no mesmo lugar, uma grande fábrica de cimento. Era enorme, dominava a paisagem,dominava a comunidade. Na hora do almoço, nós, os filhos dos trabalhadores, fazíamos um longo roteiro para levar as “marmitas” para que nossos valorosos pais pudessem se alimentar e continuar trabalhando pelo resto da tarde. A comida, embora simples, era cuidadosamente  preparada e separada, item por item por nossas mães. Passávamos por um túnel sob a estrada de ferro e ao longo de um pequeno riacho, até chegarmos ao grande refeitório. Talvez o roteiro fosse considerado perigoso hoje em dia para crianças de nossa idade. Entretanto naquela época ainda havia anjos que cuidavam de nós. Não era obrigação, gostávamos de fazer isso, era parte do grande sonho que é a infância.
O que nós não sabíamos na época, era que a fábrica, ao produzir o cimento, jogava o resto do pó sobre nossas casas, nossas ruas, nossas plantas. Era como se tudo fosse cinza-esverdeado. Os arames das cercas tornaram-se três  vezes mais grossos do que  eram originalmente. As ruas eram cimentadas ou se tornaram, não porque quiséssemos, mas simplesmente porque o pó não parava de cair. As folhas das plantas eram todas da mesma cor, a cor do cimento. Flores só as que estavam dentro de casa. Todos passaram a reclamar, exigir uma solução. Esse tipo de consciência não era tão forte naquela época mas algumas pessoas eram valentes, lutavam e sabiam que era tudo um problema de ganância: a fábrica não queria gastar dinheiro com os grandes filtros industriais. O cimento era tanto que começou a entrar em nossos pulmões, nos pulmões de nossas crianças, em nossos olhos, em nossa pele.  E ainda assim, precisávamos da fábrica, do trabalho.
Um dia, porém, o cimento entrou em nossas almas. Por várias razões, os empregados resolveram entrar em greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma longa e interminável greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que mudou a nossa cidade. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que nos transformou por dentro e por fora. Foi aí que o cimento endureceu em nosso interior tanto quanto endurecera em nossos pulmões.As pessoas se dividiram. Umas achavam que a greve deveria ir até o fim, outros achavam que os trabalhadores deveriam retornar ao trabalho que “trabalhar era preciso”.  Dividiram-se  as pessoas entre “pelegos” e “queixadas”, os que queriam voltar a trabalhar e os que queriam continuar a paralisação até o fim. Foi triste. Amigos se tornaram inimigos, parentes e amigos se separaram, passaram a “olhar torto”, a falar coisas... Cada um, de cada lado, tinha suas razões. Foi aí que, mais do que nunca, sentimos a dureza do cimento. Passamos a ter almas de concreto. O cimento, definitivamente, tinha invadido tudo: o corpo e a alma.
Muito tempo se passou e, claro, de uma forma ou outra, tudo se resolveu. Não sei quantas pessoas ainda se lembram dessas coisas tristes, não sei se ainda há gente com rancor em Perus, onde tudo aconteceu. Eu sei que o cimento das ruas, das plantas e das casas, embora com dificuldade, um dia você pode limpar. Quanto ao cimento das almas, não sei. Não sei se passa de pai para filho, se amolece com o tempo. Eu só sei que esse cimento prejudicou nossa gente mais do que os acidentes de trem, do que a política, do que tudo... Claro, estou falando do cimento da alma... Espero que os filhos e netos de Perus - os filhos da terra - tenham se esquecido desse capítulo triste de nossas vidas, para sempre.


Perus: um pouco de história











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Monday, May 4, 2015

Um lugar chamado Perus




Um lugar chamado Perus

As lembranças voltam, às vezes, aos borbotões. Outras, vêm de uma em uma, lentamente.
Lembro-me de olhar para os dois lados, com muito cuidado, antes de atravessar a linha do trem. Estava voltando do Suzana de Campos. A porteira estava fechada, podia ser um risco. Quantas histórias de gente que perdeu um pé ou um braço. Antes de chegar ali, tinha sentido o cheiro gostoso que vinha da padaria perto da estação, na Avenida Sílvio de Campos. Do outro lado, bem perto da porteira, o bar do Jânio, onde eu comprava doces quando podia. Vejo-me  de repente, transportado ao Morro do Cartório, com um saco de compras. Eram da Dona Amélia. Ela me pagava para ir duas vezes por dia lá embaixo até a venda ou a quitanda. Meu primeiro emprego fixo, sem registro, é claro. Tinha apenas 8 anos. Noutro momento, estou lá em cima do abacateiro, colhendo alguns com uma vara, para depois vendê-los na quitanda da Mieko, lá na praça. Dali a pouco estou passando bem em frente à loja do “seu” Elias, com todos aqueles vidros e espelhos. Depois paro em frente ao cinema - meu ponto favorito - para, logo a seguir, beber água na bica. Pensando, ainda, nos cartazes dos filmes do póximo final de semana. Havia depois, na mesma rua, o velho Grupo Escolar e, no final, virando à direita, a venda do “seu”Machado, onde meu irmão Bonifácio trabalhou por muito tempo. Mas agora, estou misturando épocas. E o que importa? Está tudo lá, num grande redemoinho de memórias. E a estrada da Ponte Seca, onde bem mais tarde iria com meu fusquinha azul namorar em Caieiras? Como posso esquecer? E, em outra época, bem antes, eu estava a andar, de madrugada, pelos trilhos da Santos a Jundiaí, voltando dos bailinhos da Melhoramentos.

E as imagens se atropelam, vivas ou esvaídas, na minha cabeça. Umas se vão para sempre, outras voltam fresquinhas. Sei, no entanto, que um dia, todas vão partir. Talvez se transformem em poesia. Poesia pura, pairando no ar. No ar de um lugar chamado Perus.

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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)







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Saturday, March 21, 2015

O depósito da Antárctica

O depósito da Antárctica


Foi um de meus primeiros empregos. Eu me sentia muito importante. Além do mais, uma moleza, era pertinho de casa. Eu fazia os “mapas” de entrada e saída de bebidas do depósito da Antárctica. Caixas de Pilsen Extra, caixas de Malzbier, de Guaraná, de Soda Limonada e até de Club Soda. Só mais tarde eu aprendi para que esta última servia.
Era uma folha enorme, pegava a mesa inteira. Chegava o caminhão da fábrica, eu registrava as caixas, saíam os caminhões para os bares e vendas, eu registrava a saída. Tudo no lápis e na borracha. A soma das colunas de saída e entrada era na calculadora. Era daquelas antigas, mecânicas, com uma manivelinha do lado. Quando alguém a estava usando, ia no lápis e papel mesmo, e era aí que eu me tornava realmente importante. Excel e outros programas, nem nas excelentes cabeças dos autores de ficção científica. Computadores? Nem aqueles de  cartões perfurados. Bons tempos, hein? Quer dizer, em alguns aspectos, sim. Era ou não uma coisa essencial  o que eu fazia? O meu patrão e dono do negócio era o “seu” Garcia. Havia vários motoristas, um deles era o Idabir, dele eu me lembro.
Nessa época, tive minha primeira lição de “marketing”. Para ter direito ao “Guaraná Antárctica”, o comerciante precisava comprar as cervejas. Represália contra a concorrente que só vendia a sua famosa cerveja se o estabelecimento também comprasse o não tão famoso Guaraná da Brahma. Não havia moleza e o “seu” Garcia não estava lá para brincar, não. Eu era muito novo ainda e nem sei se fazia meus mapas direito. Por outro lado, desconfio que ele tinha tudo na cabeça, caixa por caixa. Mais tarde, o depósito foi para um lugar muito maior.
Para vir trabalhar era fácil. Andava um pouco pela Dona Rosina, rua da minha casa, lá em cima, e depois”rolava” morro abaixo até chegar na “Fiorelli Peccicacco”. Na verdade eu vinha quase “caindo”, tão íngreme era o percurso. A ladeira, na época, era uma mistura de pequenas escadas, rampas e curvas. Quando chovia, virava um pequeno rio, cheio de buracos. O duro mesmo era subir de volta. Mas que encurtava o caminho, encurtava. Se viesse pelo Morro do Cartório e pela Praça, era quatro vezes mais longe. Até olhei no Google Mapas, nem sequer nome para a ladeira puseram lá.
Minha “carreira”, como “mapista da Antárctica”, foi curta, mas foi muito boa, nunca esqueci. Muito tempo passou e vejam só o que aconteceu: a Antárctica e a Brahma acabaram ficando  juntinhas, “de mãos dadas”. Uma pena que nem tudo é assim. Muita gente e muitas coisas acabaram de distanciando para sempre, como essas mesmas lembranças que acabo de narrar. É a vida, não é?


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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Thursday, March 19, 2015

A Dona Aninha

A Dona Aninha



Da minha casa, eu e meu irmão do meio, tínhamos bronquite. Não sei se a culpa era do tal do DNA ou se era o pó do cimento. Dava um aperto no peito, ficava tudo fechado, a gente não conseguia respirar. E o chiado? Todo mundo achava que havia um monte de gatos lá dentro. Era duro, um sofrimento. Naquela época ainda não havia aquelas “bombinhas” miraculosas, que abriam os pulmões na hora. Ou, pelo menos, nós não tínhamos acesso a elas.
O meu irmão, coitado, ficava pior do que eu. Acho que, às vezes, ele ficava até roxo. Dava um medão na gente, pois aquilo era um mistério, não dava para entender. Às vezes, quando a situação ficava muito grave, alguém levava a gente até a enfermaria da Fábrica de Cimento.
Entretanto, na maioria das vezes, a gente tinha socorro ali perto mesmo, umas duas ruas para trás. A Dona Aninha. Era um milagre.  Era só chegar, ela já estava lá, fervendo as agulhas e as seringas numa latinha de alumínio. Aquela injeção era tão boa que a gente nem ligava para a agulhada. Vinha aquele cheiro gostoso de eucalipto na boca e depois, como  num milagre, tudo se abria. Entrava aquele monte de ar para dentro, como se fosse um tufão. Eu não sei onde ela aprendeu a dar injeção, nem como. Para nós, entretanto, ela era a melhor e maior especialista em vias respiratórias e pronto!
Às vezes, meu irmão ficava tão atacado, que nem conseguia andar. O outro meu irmão, ou meu pai, então, colocava o paciente num carrinho de madeira, daqueles de uma roda só na frente, e ele era “transportado” até a casa da Dona Aninha. Tudo mudou. Quem leva, agora, um doente num carrinho de madeira?
A imagem, entretanto, fica sendo projetada, vez ou outra, na minha cabeça. Existem coisas que a gente nunca esquece...


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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

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Saturday, March 7, 2015

As cores da argila (Perus: memórias)



As cores da argila   (Perus: memórias)

Eu chegava da escola, sentava-me à mesa e, num instante, devorava o prato com feijão, arroz, e mistura. Depois de subir o Morro do Cartório, quem é que não fica com fome? Logo a seguir, se eu conseguisse escapar imune de alguma tarefa dada pela minha mãe, ia correndo para a rua. O objetivo era simples. Encontrar meus amigos e decidir qual seria a aventura do dia. Quando não havia missão especial, ficávamos por ali mesmo, jogando taco ou bolinha de gude. Muitas vezes, porém, íamos até a frente da Igreja de São Jorge, a cem metros de casa. O lugar ali era mais oficial, mesmo porque naquela época ainda não tinham deposto o santo de sua verdadeira hierarquia. Olhávamos Perus lá de cima. Uma sensação inigualável. Parecia tudo de brinquedo lá embaixo; a estrada de ferro, a ponte, o caminhão passando. Quando você não tem nada e olha lá do alto, parece que você é dono de tudo. Das nossas brincadeiras, certamente nós éramos.
Era muito comum ficarmos por ali. O pequeno terreno, em frente à igreja, terminava de repente e um quase penhasco se desenhava a nossos pés. A chuva tinha causado erosão e o ventre da terra ficava exposto. E sabe o que havia lá dentro? Um monte de cores. Isso mesmo, argila colorida. Havia verde, cor de rosa, amarela, vermelha. Nós, cirurgiões mirins, arrancávamos pedaços e os esculpíamos com pedaços de madeira. Era bonito de se ver. Aquele colorido todo. Parecia um caleidoscópio de argila. Como esquecer uma coisa dessas? Aquilo era nosso tesouro enterrado.
Mais tarde tínhamos de voltar para casa. Fazer a lição, escrever no caderno de caligrafia. Acho que eles, como tantas outras coisas, não existem mais. Quando começava a ficar escuro, minha mãe me chamava:
-Flávio, vem jantar!

Era a sopa de feijão, feita no fogo de lenha. O tempo antes de ir para cama era curto. Não havia televisão, a luz era fraca. Só restava dormir. Dormir e sonhar com as cores da argila.


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Saturday, January 10, 2015

Você se lembra da bola de capotão?



Você se lembra da bola de capotão?

Quando eu era criança acho que a palavra mesada nem existia. Para comprar o que a gente queria, tinha de se virar. Ainda bem que não havia muita ambição. Os nossos sonhos eram simples. Umas figurinhas, bolas de gude, papel para balão e papagaio e – isso era importante – doces da venda. Para quem era bom em “bater bafo”, era fácil colecionar as figurinhas sem precisar comprar aquelas balas em que elas vinham enroladas. E quem era bom na pontaria, juntar um monte de bolinhas de gude era moleza, mas para conseguir material para fazer balão e comprar doce, não havia outro jeito. Era necessário trabalho duro. Um deles era costurar bola de capotão. Algum adulto pegava os gomos de couro na fábrica e distribuía para a molecada. A gente colocava duas do lado avesso, segurava com os joelhos, ensebava bem o barbante e, com duas agulhas enormes passando em direção contrária pelo mesmo buraco, ia montando a bichinha. O duro mesmo era no final, os dois últimos gomos. Num deles estava a câmara de borracha. A gente tinha de desvirar tudo, deixar a válvula do lado de dentro e dar os últimos pontos. Trabalho de artista.
Eu tinha até me esquecido disso tudo. O dinheiro era uma miséria. Mas as figurinhas, os doces e tudo mais, eram também uma miséria.

Tempo bom. Não volta mais.

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Essa vida da gente

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