Showing posts with label cérebro. Show all posts
Showing posts with label cérebro. Show all posts

Tuesday, January 14, 2020

Meu Cérebro Ainda Funciona...


Meu Cérebro Ainda Funciona...

http://www.bc.edu/


Não quero chocar você com a minha situação e é por isso que vou lhe dar as notícias bem devagar. Na verdade, eu também fiquei sabendo das coisas aos poucos. Se assim não fosse, acho que meu cérebro explodiria e ele é tudo o que eu tenho, se é que você me entende. Vamos devagar, não quero atropelar minha narração. Eu acordei e, pelo menos durante os primeiros segundos, achei que estava tudo normal. Logo a seguir, porém, percebi que estive dormindo há muito tempo. E esse foi o primeiro susto que tive. Não sabia por quanto tempo tinha estado “ausente”, ou onde estava e nem mesmo quem eu era, mas, positivamente, sabia que muito tempo tinha se passado. A gente, ou pelo menos eu, quando passa por uma situação muito difícil ou diferente, imediatamente muda as referências, muda o padrão de exigências, para que as coisas fiquem aceitáveis. Claro, que mais podemos fazer? Não é por isso que, quando alguém morre, dizemos que “foi melhor, estava sofrendo muito”? Ou se ele não estava sofrendo, dizemos “ainda bem que morreu em paz” ou ainda “não viveu muito, mas foi feliz enquanto estava vivo” ou qualquer coisa assim? Sempre achamos que poderia ter sido pior. No meu caso, entretanto, foi e está sendo difícil arrumar uma boa comparação, ou uma referência qualquer para me consolar. Você vai entender, vai ser difícil algo que possa ser pior ou pelo menos mais estranho. Logo, logo, você vai compreender o que eu quero dizer.

É difícil explicar o que estou sentindo. É como não ter corpo. Sinto que tive sempre uma vida cheia de coisas, de responsabilidades, de pessoas à minha volta, mas não me lembro de nada, de ninguém, nem de meu nome. Outra coisa interessante: não vejo nada, mas também não está escuro. Escutar coisas eu escuto, mas é de um jeito estranho. É como ouvir as palavras sem som. Como se elas estivessem entrando em forma pura no meu pensamento. Parece óbvio que eu estou sob o efeito de drogas, drogas fortíssimas. Justo eu que não gosto de tomar remédios, nem aspirina. Mas não tenho certeza disso também. Pode ser outra coisa. Por que estou aqui, como cheguei a esse ponto? Não tenho a menor ideia. Não posso reclamar de dor. Isso eu não sentia e não sinto agora. É como se eu estivesse existindo sem corpo. Não consigo parar de repetir isso, mas é bem o que estou sentindo.

O tempo passa rápido, mas não importa, pois não tenho a menor ideia da época em que estou, não tenho referência, você entende? Algumas coisas mudaram desde que tomei consciência dessa minha inconsciência. No começo eu ouvia conversas, mas não sabia o que estavam falando. Agora escuto frases e conversas inteiras. Mas não estão falando de mim, não. E, embora eu entenda o que eles estão falando, não adianta muito pois eu não sei qual é o contexto, qual é a referência. É como ler um pedaço de um livro ou assistir a um pedaço de um filme sem saber o começo nem o fim.

Algo muito importante está acontecendo agora. Estou tendo uma experiência fantástica. Estou andando numa estrada muito bonita, com casas luxuosas aqui e acolá, uma paz sem par, como nunca tinha experimentado antes. Interessante sou eu e não sou eu. Sei que sou eu quem está caminhando, mas não sinto que sou eu. Ou é ao contrário? Isto está gravado em minha cabeça, não vou esquecer. Parece que alguém colocou estas imagens lá. Outras vezes eu estou numa sala conversando com pessoas. Minha voz não sai, mas as pessoas assim mesmo respondem, conversam comigo. Todos estão felizes, riem muito. Acho que gostam de mim. Não devem estar sabendo do meu estado. Acho que conheço essas pessoas, mas não sei de onde. Também não sei o nome de ninguém. Mais estranho ainda, ao mesmo tempo em que eu participo da pequena reunião eu sou também um espectador. Quero dizer, estou observando a mim mesmo, que fala animado, conversa. Isso é bom.

Começo a sentir melhor o espaço. Quando nada está acontecendo, tenho a impressão de que estou numa sala. Não vejo nada, mas sinto a presença de pessoas circulando, falando. Acho que não falam de mim. Acho que não me veem, mas não tenho certeza. Sinto pela primeira vez o corpo, mas como tudo mais, não parece meu corpo. Talvez a lembrança de um corpo? Por pouco tempo. Agora a sensação está indo embora. Cada vez mais posso entender o que as pessoas estão conversando na sala. Estou pensando comigo mesmo – gozado falar isso, nunca tinha pensado nessa expressão - estou pensando “comigo mesmo”... Eu deveria estar preocupado com a situação. Com certeza o que está acontecendo comigo não é nada normal. Gozado, não consigo me preocupar. Estou curioso, porém. Estava falando “normal”, mas agora tenho dúvidas. Quero dizer, nem sei mais o que é normal.

A última vez que ouvi conversas na sala, tive certeza de que falavam de mim. Dessa vez era de mim que eles falavam. Duas pessoas estavam discutindo sobre minha pessoa, sim senhor. Falavam como se eu não pudesse ouvir. Um deles dizia que estava preocupado. Que, se pudesse, não teria participado de tudo aquilo. Podia sentir tristeza não na sua voz, não na voz, na sua...não sei dizer o quê. Porque o que eu ouvi não era som, era como se fosse um pensamento. O outro parecia menos procupado, parecia mais excitado com o que estava acontecendo, seja lá o que fosse.

Cada vez mais fico “próximo” dos dois. Interessante, pois posso sentir que os dois também me “sentem” mais. Acho que nunca vou conseguir explicar a sensação. Eles falam coisas estranhas, às vezes. Tão estranhas que eu acho que não pode ser verdade e eu me recuso a pensar nelas. Desta última vez, entretanto, a conversa foi tão direta, tão explícita, que fui obrigado a acreditar e enfrentar a realidade.

Um deles estava ficando irritado com o outro. Não estava mais aguentando a choradeira. Acho que o “outro” estava com pena de mim, estava comovido com a minha situação, que nem eu sei qual é. Mas além de comovido, acho que ele estava preocupado. Eu estou ficando bom nisso. Consigo cada vez mais “sentir” as pessoas por dentro, pelo menos aquelas duas, sem mesmo vê-las. No meio do bate-papo dos dois, o primeiro, aquele que estava irritado, falou algo que realmente mudou tudo. Interessante que ele tinha falado a mesma coisa antes mas eu não tinha percebido o verdadeiro significado. No meio da discussão, ele falou para o “outro” parar com aquela choradeira, pois “aquilo era apenas um cérebro”. Antes eu sempre achei que quando ele falava “cérebro” ele se referia a minha pessoa inteira. Sabe, como quando a gente fala que alguém é “uma cabeça”? Foi aí que senti a coisa toda. Eu era apenas um cérebro mesmo. E desta vez ele falou tudo. Eu era “um cérebro mergulhado num líquido especial e com centenas de microfios ligados, tudo dentro de um cilindro de vidro”. Acho que ele mencionou também que havia uma máquina. Eu só percebi que eu era “um cérebro” mesmo, quero dizer só um cérebro, sem corpo, porque ele usou a palavra “aquilo” junto. O “aquilo” era eu. Senti um choque mas logo me recuperei. Por pior que fosse a realidade, havia alguma coisa que eles tinham feito em mim que não me deixava ficar angustiado, humilhado ou triste. Também não sentia alegria. Como tudo havia acontecido? Não sei. Talvez um acidente? Ou será que foi tudo de propósito? Também não sei. Não me importo com isso. Sem problemas. O que vai acontecer? Não sei e não me importa. Eles devem saber o que estão fazendo. E se não souberem ou se for algo abominável? Não importa também. Eu sei que eu deveria estar desesperado, deveria estar angustiado e sentindo as piores sensações que uma mente pode sentir. Mas não...não sinto nada. Agora você entende porque eu disse no começo que queria explicar tudo devagarinho. Também agora você pode entender quando eu falei que “cérebro é tudo que eu tenho”...Definitivamente, cérebro é tudo que eu tenho.


Saturday, April 14, 2018

Friozinho na barriga





Friozinho na barriga

Não sei quem foi que falou
que o amor está no coração!
Está nada, pura invenção!
Está na mente, na nossa cabeça, 
doidinho, tão agitado,
que de neurônio em neurônio,
pula, doido, incessante,
pronto para nos enlouquecer!
Claro, na barriga também!
Ou você nunca sentiu,
aquele friozinho bom,
quando vê o seu amor,
lá na esquina aparecer?


ooo000ooo



Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:


Wednesday, July 20, 2016

Consciência



Consciência


Quero lhe contar coisas que você nunca ouviu, coisas de um mundo distante, coisas de além da vida. Não sei como fazer, não sei se você vai entender. É tudo tão diferente do que você está pensando, que nem sei como começar. Só para você ter uma ideia de todo o absurdo que vou lhe apresentar, preciso lhe confessar algo. Eu nem existo. Pelo menos não existo mais. Como explicar isso? Não dá com o pouco que você sabe. Precisaria haver mais referências para você poder se guiar. Talvez ficasse mais fácil se eu lhe disser que não existo mais para mim, mas existo para você. Ou talvez que é uma questão de tempo, de época. Existo num outro tempo, que nem é o futuro, nem o passado. Talvez se eu disser que é em outra dimensão, você vá compreender melhor, mas não é isso exatamente.
Eu sou a consciência de que você existe. Entendeu bem? Não a consciência sua ou a minha. A simples e pura consciência de existir. Por falar nisso, existir? Quem existe? Não fique alarmado com isso. Existe a hipótese de que você também nem exista. Pode ser que você seja apenas uma projeção da consciência, como eu. Seria eu me projetando em você e você se projetando em mim, nós dois não existindo. Coisa de louco? Eu avisei que seria difícil. Eu sei que você está pensando que sente a vida pulsar em suas veias. Pulsa mesmo? Sei que você está vendo cores, ouvindo sons, vendo as formas se combinarem em suave harmonia. É bonito, mas é real? Você não sabe, nem eu. Por que, então estaria eu a falar tudo isso? Será que estou falando mesmo, ou sou apenas imaginação? Mas as cores que você vê, os sons que você ouve e as formas que se formam em sua frente, elas existem? Existir, o que é existir? Talvez ninguém exista, talvez sejamos fragmentos de uma realidade maior, insignificantes em nós mesmos, apenas exercendo uma função secundária num outro ser maior, o verdadeiro.
Você ainda está aí?
Eu e você, apenas fragmentos, juntos com outros bilhões de outros fragmentos, formando uma minúscula partícula de um fragmento um pouco maior, parte insignificante e minúscula, e apenas acessória, de um outro ser maior ainda, uma consciência de verdade. Seremos apenas uma fração ridiculamente sem importância de uma sinapse se comunicando com outra? Num imaginário cérebro gigante, enorme, de um verdadeiro ser? E se esse outro ser também não tiver certeza de sua própria existência? Uma falsa impressão de uma consciência muito maior. Uma gigantesca, absurdamente inacreditável falha, multiplicada por milhões da pequena falhas que somos nós?
Eu disse que você não ia entender. Eu também não consigo. Na verdade, como você, nem certeza de que existo, eu tenho. Desculpe-me ter interferido em sua pretensa existência, se é que você existe realmente...
Eu sei, é melhor continuar assim, sem pensar em coisas maiores, complicadas.
Não que o que estou falando, seja verdadeiro. É melhor pensar do jeito que é mais fácil, isso é.

<><><><><><><><>





 
 À venda


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 



Para comprar nos Estados Unidos clique




Wednesday, December 31, 2014

Os dados de Chíntia



Os dados de Chíntia

Cínthia sabia que alguma coisa estava errada. Estava preocupada mas não a ponto de tomar uma atitude radical. Na verdade, ela nem podia fazer algo a respeito. Melhor ficar quieta e não ir atrás do que realmente acontecia. Descobrir algo que não tem solução?  Muito melhor nem ficar sabendo. Era o que seu avô sempre dizia e contra o que sua avó sempre se rebelava. Mas eles, quando eram vivos, tinham tanta idade e pertenciam a uma geração tão diferente que não serviriam como referência.
Vamos considerar os dados, ela sempre pensava. O que ela sabia e o que ela não sabia. Tinha consciência de que tinha uma doença muito grave, um câncer no cérebro. Nem por isso era questão para se desesperar. A ciência estava avançadíssima e isso não seria fatal. Não havia mais câncer incurável. Entretanto, em seu caso, havia agravantes. O primeiro era que, mesmo sabendo do problema, não procurou assistência médica até o “sistema” por si mesmo detectar o caso e obrigá-la a se submeter a um tratamento. Como lhe dissera a cientista do Departamento de Medicina Pública, ela estava num estágio tão avançado, tão avançado, que teria de se submeter a um tratamento completamente diferente. E não era só isso. Os exames mostravam que ela tinha algo mais do que  essa doença. Havia alguma outra coisa em seu cérebro que, até para eles, cientistas, era uma novidade. Tinha a ver com partículas subatômicas que compunham os átomos de suas moléculas ou algo assim. Ela nunca fora boa em ciência. Sabia também que o “sistema” não cuidava de casos assim, pois era um tratamento experimental e eles não queriam assumir responsabilidade. Com certeza isso era “conversa fiada”. Recomendaram que fosse cuidar de sua cabeça num instituto particular. Não teria de se preocupar com custos ou nada assim pois o “sistema” pagaria tudo. O lugar se chamava “Alexandria” e não era apenas um prédio. Era como se fosse um grande parque de diversões, só que as atrações ou os “brinquedos”, eram na verdade unidades de tratamento, mais precisamente, “unidades alternativas de tratamento”. Assim que entrou pelo portão principal e procurava pelo escritório de atendimento, pôde ver uma placa: “Unidade de Reconstrução Total”. Mas havia outras placas, quase todas com nomes estranhos.
Não se intimidou e procurou a sala onde deveria fazer a inscrição para o programa. Além de dizer o próprio nome, não precisou dizer mais nada. Extraíram tudo do seu chip de identificação. Daí foi para outra sala onde deitou-se numa cama. As duas atendentes falaram para ela ficar relaxada. A luz diminuiu e então elas saíram.
Foi aí que  começaram as coisas que ela não sabia. Quando acordou, não sabia onde estava. Tinha uma vaga noção de quem era. Não sabia se estava curada. Apareceu em outro lugar mas não sabia onde. Não sabia quem eram as pessoas também. Às vezes parecia que elas a entendiam, que elas a podiam ver. Outras vezes parecia que ela era um fantasma, ninguém notava sua presença. Realmente havia muita coisa que ela precisaria saber. No geral, porém, sentia um grande bem-estar. Não havia dores. Podia se dizer que havia até um princípio de felicidade.
Desconfiou que talvez estivesse em coma. Talvez estivesse sob efeito de drogas fortíssimas. Alguma coisa estava errada. Queria voltar.
Embora ela não soubesse,  havia uma chance de voltar à realidade. Alguns meses haviam se passado e finalmente seu irmão estava conversando com uma técnica na recepção do instituto. A senhorita Robin, cabelos loiros e curtos, jovem e sorridente, explicava para o irmão de Chíntia o que havia ocorrido:
-Infelizmente o corpo estava irrecuperável. Ela deixou a doença danificar seus neurônios de tal forma que, mesmo com os recursos moderníssimos que existem, é impossível recuperá-los.
Sorriu e continuou:
-Entretanto, agora que você está por aqui, há uma solução. Como a sua carga genética é bastante semelhante à dela, podemos criar um “clone” com material extraído de você e posteriormente fazer nele o “input”.
Diante do ar interrogativo de Samuel, Robin explicou melhor:
-Temos tudo dela salvo num “hardware”.Qualquer dado genético ou psicológico imaginável. Desde a “careta” que ela vai fazer quando chupar um gomo de limão até seus mais secretos desejos. Temos guardada a informação de como ela gosta de dormir, de lado ou de bruços, temos a exata sensação que passa pelo seu corpo quando ela vê um pássaro cantar. Tudo.

Samuel já tinha lido sobre essas coisas. Ele pensava, entretanto, que era tudo experimental, que ainda não estavam fazendo no dia a dia, com pessoas normais, muito menos com sua irmã. Enquanto sua mente divagava ainda um pouco confusa com as novidades, Robin entregou-lhe uma pequena caixa metálica.
-Pode abrir, disse Robin.
Samuel apertou um botão preto e a tampa abriu-se automaticamente. Dentro podia ver um pequeno cilindro de 1 centímetro de diâmetro por 8 de comprimento. Parecia cristal e dentro dele havia minúsculos circuitos feitos com fios de ouro, minúsculas esferas cor de bronze e outros pontos minúsculos que não podia identificar.
-Está tudo aí, Samuel. Pode levar, guardar em temperatura ambiente e, quando você estiver pronto, volte aqui para colhermos seu material. Demora no máximo uma hora.
Samuel agradeceu, colocou a preciosa caixa no bolso de sua túnica e despediu-se da senhorita Robin. Saiu pela porta central e dirigiu-se para seu veículo “carregando” sua irmã no bolso.
Tinha de pensar muito, não sabia se seria capaz de fazer isso. No fundo ele sabia que acabaria fazendo. Ele sentiu muita falta da irmã todo esse tempo e, de certa forma, estava se sentindo poderoso. Era como se pudesse ser Deus, como se pudesse devolver a vida para um ser usando sua própria carne. Por alguns segundos lembrou-se de uma passagem daquele livro antigo onde o Criador fez a mulher da costela do homem. Sorriu. Ele sabia que iria concordar. Estava só “dando um tempo” para se acostumar com a ideia.
A temperatura era maravilhosa e uma brisa suave acariciava o ar. Era a primavera do ano 2365.


o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o

Histórias do Futuro

Cover_front_mediumPara adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)