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Wednesday, November 28, 2018

Virando a página



Virando a página

Não resisti. Não tinha nenhum livro para comprar, mas não aguento ver uma livraria dessas bonitas, modernas, e passar direto. É quase um vício. Não que não goste de sebos. Adoro esses também. Só passo direto se estiver atrasado para alguma coisa. Entrei na Fnac e já senti aquele cheiro gostoso de papel impresso. Ou pelo menos acho que senti. Logo perto da entrada, uma grande tela de TV. A Ivete Sangalo cantava uma música do Chico. No palco estavam também o Gil e o Caetano. Que turma! Uma senhora, provavelmente da minha idade, olhava, parada e em pé, como num transe hipnótico, para o aparelho. Não era para menos, um lindo show! Fiquei também um pouco me deliciando com o som, mas depois saí andando pelos dois andares. Dei uma folheada em alguns livros, cheguei a ler páginas inteiras de outros, vi novidades.
Perdi noção do tempo, mas ele não se perdeu e assim passou muito rápido. Acordei de meu pequeno devaneio e me dirigi para a saída. E não é que a minha desconhecida amiga continuava lá, sem sequer piscar? Eu até entendo, se pudesse, também ficaria. Fui embora pensando nela. Ela não queria virar aquela página da nossa história musical. Era uma prisioneira. Pensei comigo mesmo: eu virei a página e continuo pela vida tentando conhecer coisas novas.

Depois de andar uns blocos, entretanto, confessei para mim mesmo. Eu virei a página, mas a toda hora vou lá e dou mais uma olhadinha. Quem resiste?

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Wednesday, August 22, 2018

Essa língua de Camões, boa de se namorar


Essa língua de Camões, boa de se namorar

O Chico, em “Construção”, canta que o operário “dançou e gargalhou como se ouvisse música”, anunciando o trágico momento que ele iria viver. Uma imagem poderosa. Depois anuncia que ele “tropeçou no céu como se fosse um bêbado”, fazendo do topo do edifício um céu de onde se pudesse cair. E continua brincando drasticamente com a língua e suas imagens dizendo que ele “flutuou no ar como se fosse um pássaro”. Para compor assim, além de inteligente, precisa ter um dom de um Deus em quem nem sei se ele acredita.
E o Caetano que canta “Gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa, e sei que a poesia está para a prosa, assim como o amor está para a amizade”? Esse Caetano que joga com a essência e com a forma, invertendo e misturando seus conteúdos. Não é demais?
Já o Milton, junto com o Chico, diz que é preciso “afagar a terra, conhecer os desejos da terra”, pois estamos no momento do “cio da terra, propícia estação” e é preciso “fecundar o chão”.
Eles brincam com a nossa língua, enchem-na de atavios, para depois despi-la e mostrar sua bela nudez. Descobrem nela segredos que nem mesmo ela sabe que tem. Falam de sua intimidade de seus segredos, mostram seu reverso, seu “por dentro” e seu “por fora”. Fazem prosa de sua poesia e cometem atos poéticos com sua prosa. São seus amigos, seus namorados, seus amantes.

Também, essa nossa Língua Portuguesa, quem não quer “ficar” com ela? Ela é gostosa de se ouvir, de se falar, de se cantar. Ela é muito boa de se namorar. Acho que me apaixonei por ela...

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 À  procura de Lucas


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