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Thursday, December 14, 2017

Porque sim













Porque sim

Silvana era uma boa esposa. Nenhum defeito extra, nada que outras não tivessem também. Joaquim era um bom sujeito também. Para ser mais acurado, a Silvana tinha sim, algo um pouco diferente. Era um pouco exagerada, um pouco dramática. Tudo virava uma grande coisa, uma grande causa.  Tempestades em copo d’água eram sua especialidade, mas tormentas fazia sem copo e sem água também. Assim era a Silvana.
Um dia, sabe-se lá por quê, o Joaquim soltou uma bomba, quando chegou em casa. Disse, assim,  mais nem menos, que estava indo embora. Demorou um pouco para ela entender. Como assim? Embora, como? Joaquim foi curto e incisivo:
-Vou embora, quero divórcio. Não temos filhos, o pouco que temos, pode ficar para você.
E isso foi tudo, não explicou mais nada.
A Silvana soltou uma ladainha enorme de perguntas. Ela mesma dava as respostas e fazia novas perguntas:
-O que aconteceu? Alguma mulher? Isso mesmo, você conheceu alguma vagabunda por aí. Só pode ser isso.
O Joaquim continuava impassível. Parecia um marinheiro em alto mar, já acostumado com as tormentas. E a Silvana não parava. Ela não lhe agradava mais? Queria alguém mais jovem? Ela gastava muito? Coitada, tinha tanta coisa que ela queria e nunca teve. Isso não podia ser. Estava com problemas existenciais? Crise de meia idade? Só podia ser outra mulher. Ele não levava jeito de quem tivesse outra mulher, mas quem pode saber? Quem era, o que era? Alguma coisa com ela, com a sua Silvana? Alguma fofoca, alguma mentira?
E o Joaquim, sério e silencioso. Verdade é que, se ele quisesse responder, teria dificuldades, pois não havia intervalo para comercial, a Silvana não parava por mais de um segundo. E continuou, continuou, perguntando e respondendo ao mesmo tempo. Não se sabe se era o desespero, ou se ela tinha finalmente encontrado a tempestade perfeita.
O Joaquim sempre se perguntava, antes disso, o que a Silvana faria, se um dia houvesse realmente um problema, que drama ela criaria. Ali tinha ele a resposta.
Depois de mais uma série de perguntas, ela estava ficando finalmente cansada e desesperada e parecia realmente querer ouvir uma resposta. Terminou esta última sequência de perguntas com três dramáticos “por quês”.
-Por quê? Por quê? Por quê?
E parou. Olhou para o Joaquim e parou, aguardando uma resposta. Esse, depois de se certificar que ela havia parado e, efetivamente estava dando espaço para que ele pudesse responder, olhou bem para ela e falou:
-Porque sim.

Levantou-se, pegou suas coisas e partiu.oooOOOooo


 À  procura de Lucas


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Sunday, December 30, 2012

Uma questão de percepção



Uma questão de percepção

Serena estava cheia da vida. Justo ela que foi sempre cheia de vida. Nada dava certo. Ultimamente então...Um problema atrás do outro. Começou lá no trabalho. O chefe começou a dar em cima dela. Nada de sutileza. Afinal, ele era o chefe, e foi direto ao assunto. Ela precisava do emprego mas mesmo assim acabou com a graça do safado na hora e também foi direto ao assunto. Sem sutileza também, falou o que tinha de falar. Pediu as contas e foi para casa chorando. Tinha amigos no emprego, gostava do que fazia e aquele idiota tinha de estragar tudo. Daí para a frente foi só tristeza, as dívidas começaram a fazer fila. Desistiu do curso na faculdade e por tabela da “paquera” que ela tinha lá. De qualquer forma, tinha descoberto há pouco tempo que o fulano era noivo de uma moça do interior e as coisas certamente não terminariam bem. Nunca terminam. Na mesma época descobriu que tinha um pequeno tumor no seio. O médico disse que com quase certeza era benigno, mas do jeito que as coisas estavam indo...não sei não. Desgraça era o que não faltava e você sabe que elas nunca vêm sozinhas. O caso de Serena não era diferente. Em cima disso tudo vieram várias pequenas desgraças, que, de tão pequenas nem vale a pena falar. Quer dizer, para Serena, elas não eram nada pequenas. Você sabe como é o velho ditado “pimenta nos olhos dos outros é refresco”?
A partir de um certo momento ela começou a pensar em besteiras. Sabe, essa história de “não vale mais a pena”,  “que tipo de vida é essa? “ e assim por diante. Seria bom se acontecesse alguma coisa, quem sabe um acidente. Não queria sofrer, tinha de ser rápido. Talvez tomar uns 20 comprimidos de uma vez...Começaria dormindo, não sofreria nada. Deixaria um bilhetinho para as amigas e outro para a família. O pai tinha saído de casa quando ela ainda era pequena, não faria diferença nenhuma. A mãe, entretanto...Coitada, não iria ser fácil. No fim a dor passa, sempre passa. A angústia no seu peito aumentou muito naqueles dias. Não tinha vontade de comer, começou a tomar muito vinho. Ficava enfiada em casa, não falava com ninguém. As pessoas tinham até medo de falar com ela por telefone, tal era a aflição que ela carregava nas palavras. Ela era um poço de angústia.

Naquela tarde de domingo, o desespero começou a aumentar. Aquela ideia de a segunda estar chegando e você saber que vai ficar em casa sem fazer nada, sem trabalhar, era algo insuportável. E o destino, você sabe, não tem dó. Imagina o que mais aconteceu.  Ela não tinha olhado as cartas que recebera na sexta. Na verdade há duas semanas não olhava mais nada. Não sei por que razão de repente bateu os olhos na carta de um advogado. Leu por cima, uma história de devolver o carro, processo, etc...Resolveu então que seria  aquela noite. Com algumas taças de vinho ela tomaria coragem. Separou os comprimidos, um montão, tinha de funcionar. Começou a beber. E bebeu, bebeu...Não sei se pegou no sono ou desmaiou, o que foi bom, pois assim não engoliu o remédio suicida.
Eram nove horas da manhã quando  acordou com o celular tocando. Não ia atender, mas por um impulso que não se pode explicar, falou um “alô” quase sumido. Do outro lado era um tal de Arnaldo. Era o novo chefe que estava substituindo o anterior. Entendeu vagamente que a firma estava pedindo desculpas pelo comportamento do funcionário. Se ela quisesse voltar seria bem vinda, e além disso iriam pagar o tempo que ela ficou afastada. Se quisesse, poderia começar no dia seguinte. Iria ter um aumento e tudo mais.
Foi assim que a Serena recuperou sua serenidade. Assim, sem mais nem menos. Os outros problemas, grandes e pequenos, fáceis e difíceis, foram indo embora do jeito que vieram: um atrás do outro, em fila. Assim é a vida, não dê muito valor paras as desgraças. Também não se entusiasme demais com as coisas boas: elas vêm e vão. Tudo que acontece tem importância relativa. O que realmente vale é a percepção que você tem dos fatos e não eles em si mesmos. Resumindo, tente ser mais otimista. Quem precisa de pessimismo? Afinal com ou sem ele, qualquer dia desses podemos ser atropelados. Brincadeira. Quer dizer, tudo é possível...


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Estranhas Histórias
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Saturday, August 20, 2011

Peter, Paul and Mary e o Bicho Papão

Peter, Paul and Mary e o Bicho Papão


Lá estou eu pesquisando para meu blog e me deparo com a encantadora música “500 Miles”. Vou direto para Peter, Paul and Mary, gravação dos anos 60. Assisto ao video no Youtube em branco e preto e me emociono com recordações  dos anos 60. Enquanto ouço, passo meus olhos pela tela e vejo um comentário, recente, que me chama a  atenção. Alguém, provavelmente uma mulher, e pelo seu comentário bem mais jovem do que eu (ela diz “They're b4 my time.”, referindo-se ao conjunto). Quando li pela primeira vez  não vislumbrei o alcance do que significava. Não, não pela profundidade, muito pelo contrário. A internauta, muito excitada diz que adora a música deles (“I love their music!”). Que bom, eu também, por inúmeros motivos, assim como mais de meio milhão de pessoas que viram o vídeo. A seguir uma pergunta estonteante: “Será que eles eram comunistas em seus ideais?”Talvez fosse uma brincadeira, uma gozação...Mas não, a seguir, ela confirma sua dúvida angustiante: “I sincerely would like to know. Thank you.” O muro de Berlin caiu, a União Soviética ruiu mas a sua pergunta angustiante continua no ar...Será que até agora ela ainda recebe influências do Macartismo? Talvez tenha pesadelos onde monstros comunistas horríveis, com as máscaras de Peter, Paul and Mary venham torturá-la, colocando agulhas debaixo de suas unhas...Sua mente, confusa, tenta colocar juntos a beleza da canção e o terror da ameaça deste regime nefasto e abominável...mas agora em 2011? Tenho certeza de que ela é uma pessoa boa, cheia de bons princípios e que se preocupa com os outros, mas, sinceramente...O que faz um ser humano ter medo de uma coisa assim, agora, nestas circunstâncias? Já foi, já passou. Talvez parte do que está ali se explique pelo seu apelido: “ wonderwoman10”.
Comentário seguinte, as nuvens se dissipam. Não sei quanto tempo levou a mulher maravilha em seu pânico antes que “cschoon1213” viesse em seu socorro e dissesse “I have never heard of any reports or rumors that they were communists in any way.” Que alívio, que sensação de paz! A mulher maravilha pode respirar novamente pela explicação do outro inernauta. De qualquer forma, o poder do trio “comunista”  foi seriamente ameaçado pelo falecimento da Mary em 2009. Ainda assim, você já pensou que estrago um dueto comunista pode fazer para as instituições em pleno 2011? A única explicação que eu consigo encontrar para o fenômeno é que a mulher maravilha nasceu, foi para a escola, e então alguém lhe explicou o que era comunismo. Por um certo tempo ela foi “curtindo” este medo e quando ele estava bem maduro e inserido em seu cérebro, por uma mágica, ela parou de ler jornais, assistir a tv, conversar, viver...Até que ela ouviu “500 Miles”...
“Poor child”, durma tranquila à noite, o bicho papão não vai te pegar e a ninguém mais. Ele está foragido ou preso para nunca mais voltar. Pode viver em paz...

Estados Unidos, uma tarde de agosto de 2011.