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Tuesday, April 19, 2016

Esquartejando a pátria amada




Está chegando mais um feriado, aquele do nosso herói Tiradentes. Há um tempo atrás, alguns historiadores andaram pondo em dúvida os atributos do nosso querido Joaquim José da Silva Xavier para tão honroso título. Desconheço os argumentos e as provas que possam existir para tão grave afirmação. Espero que estejam enganados. Afinal de contas, precisamos muito de heróis. Melhor ficarmos com os mais antigos, que muitos dos modernos falharam na empreitada.

Quando estava na escola, fiquei impressionado com o fato de que seu corpo foi esquartejado e espalhado em diversos lugares. Fiquei também orgulhoso pelo fato de que assumiu  a culpa, tentando inocentar os outros. De qualquer jeito, faz tanto tempo, não vejo por que ficar tentando desmistificar o inconfidente. Além disso, quem pode garantir que outras grandes personalidades históricas foram exatamente como são agora descritos nos livros? Deixem nosso ídolo em paz. Além disso, existe um símbolo muito forte que vem junto com sua imagem. Como disse há pouco, ele foi esquartejado. E não é isso que aconteceu e continuou acontecendo com a nossa própria pátria através das décadas, dos séculos? O Brasil não foi sempre desmembrado, desarticulado por causa de interesses escusos? Só por nos trazer à tona essa imagem, essa consciência, vale a pena nos lembrarmos dele. 
Isso mesmo, deixem em paz nosso Tiradentes. Há tão poucos como ele na nossa história...

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Saturday, April 16, 2016

A diferença que um prego faz

A diferença que um prego faz




O garoto Marcelo, além de lindo, é muito inteligente, já dá para se notar, apesar de ter apenas três anos. Ele está, agora, brincando no tapete do quarto, em sua casa. Antes disso, porém, existe outra história, mas que, na verdade é a mesma...
O Felício colocou todo o entulho que sobrou da construção da rua Sumaré, em Manaus,  na caminhonete. Ela já estava partindo, quando ele viu um pedacinho de madeira, com um prego, que havia caído no chão. Abaixou-se rapidamente, pegou-o e atirou na caçamba novamente. Acertou por pouco. E lá vai o motorista para o outro lado da cidade. Quando chegou na Avenida Santos Dumont, no entanto, viu um resto de pneu e tentou desviar, dando uma guinada para a direita. Conseguiu evitar o pequeno obstáculo. O pedacinho de madeira com o prego, entretanto, caiu na pista. Uns dois minutos depois, passou o carro do Sr. Antunes, que estava indo para o aeroporto. Estava atrasado, em cima da hora. Ele ia pegar o voo da Tam às 6:50 da manhã. Passou em cima do prego e seu pneu furou, precisou parar. Foi uma dificuldade enorme acertar o macaco, pegar o estepe e trocar o pneu. Perdeu o voo, por pouco. Lá no aeroporto, o Beto era o primeiro e único na lista de espera. Ele estava marcado para o voo da tarde, às 16:30, mas estava tentando sair mais cedo. Ficou muito feliz com a infelicidade do Antunes que ele nem conhecia. Do aeroporto mesmo, ligou para a Regina e  combinou de encontrar a irmã. Normalmente ele iria vê-la só à noite, quando chegasse em seu voo normal. Como tinha pouco tempo para tudo que precisava fazer, achou ótimo poder vê-la antes, assim adiantava toda sua agenda. No dia seguinte, tinha uma entrevista final para um emprego ótimo que havia conseguido em São Paulo.
A irmã desceu do quarto andar onde trabalhava para encontrá-lo numa lanchonete ali perto. Ela estava vindo com uma amiga, a Márcia, que estava indo para casa, pois era seu último dia, tinha arrumado um emprego melhor. Na hora de se despedirem, a Regina lhe perguntou se não queria esperar um pouco, assim conheceria seu irmão de Manaus. Por que não? Entraram, ele já estava lá. Foram apresentados. Tiveram uma incrível atração, logo de primeira. A Regina ficou até sem graça, porém feliz, pois aquele era seu irmão e aquela era sua melhor amiga. Riram muito, ficaram ali mais do que podiam. Despediram-se trocaram cartões, aquela coisa toda.
Não deu outra, começaram a namorar. Além de tudo, o Beto se deu bem na nova firma. Depois de um ano se casaram, com festa e tudo mais. Depois de dois anos, tiveram o primeiro filho, o Marcelo.
Nimguém sabe ainda, mas o Marcelo vai ser uma pessoa muito importante, vai ter uma grande carreira e vai ajudar muita gente. É o garoto do começo da história, que agora tem três anos. Ele não existiria se o Felício errasse a pontaria e não conseguisse colocar a tabuinha com o prego dentro da caçamba. O prego não cairia na Avenida Santos Dumont, não furaria o pneu do Antunes, que pegaria o voo, deixando o Beto para o voo da tarde. Ele chegaria na casa da irmã só à noite, não veria a Márcia, etc. etc. etc...

Às  vezes um prego, mesmo enferrujado, é extremamente importante. É tudo relativo.



 oOOOOOo


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Friday, April 15, 2016

Calota polar

Calota polar



O casal, já idoso, arrumou suas malas e saiu de Umatilla, na Flórida. Três dias inteiros para passear. Podia ser mais, mas para que abusar? Depois de mais de uma hora, ela fala:
-Meu bem, estamos indo para o norte?
-Claro que não, querida, estamos indo para o sul.
-Não sei não, eu acho que você deveria ter trazido o tal de GPS.
-Não tem serventia, aquilo só atrapalha.
Mais uma hora se passa e ela pergunta:
-Não deveríamos já ter chegado a algum lugar? Eu falei que você deveria ter trazido o tal de GPS.
-Que besteira, já vamos chegar.
Mais meia hora, eles chegam. Estão numa praia, nem norte, nem sul. Vieram para o leste, onde acaba  a terra e começa o mar.
Entram num hotel, e se preparam para descansar. A velhinha, preocupada, resolve perguntar:
-Você vai saber voltar sem o tal de GPS?
-Claro, meu amor, é só voltar pelo mesmo lugar. Além disso, é tudo muito simples...
-É mesmo, meu amor, você pode me explicar por quê?
-Porque estamos na Flórida. Se formos para o sul, acabamos no mar. Se formos para o leste e para o oeste, também acabamos no mar. O único perigo é o norte. A gente vai rodando, rodando e parece nunca mais ter fim. De repente a gente sente um frio danado. Daí já se sabe, ou estamos em New York ou em cima da calota polar...

A velhinha ficou apavorada, mas no fim conseguiu dormir...



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Sunday, February 23, 2014

A vidente


A vidente


Aquele pobre homem estava na pior. Cheio de dívidas, cheio de problemas. O destino não estava dando folga, nem um pouquinho.Tinha chegado ao ponto de não ter nada o que comer, ele que já tinha tido uma vida até boa. 
Achou, por acaso, alguns reais no bolso de um paletó que tinha resolvido vender, já que era de fina costura e podia render alguns trocados. Ele até se lembrou de quando pôs aquele dinheiro lá. Nem valia a pena relembrar, eram  bons tempos, não queria ficar se chateando ainda mais com  essas coisas. Enfiou a grana no bolso e resolveu que ia fazer um almoço decente. Coisa simples, mas boa, pois fazia um bom tempo que não via nome de restaurante nem em lista telefônica.
Lá vai ele pela rua, quase se esquecendo de como era preta a sua situação. Olha de um lado,olha de outro, saboreando, pelo menos por alguns minutos, a paisagem. De repente vê a placa de uma vidente. Lá dizia que você precisa “conhecer seu passado para determinar seu futuro”. Passou pela sua cabeça, “quem sabe?”. Aquilo poderia ser uma reviravolta em sua vida, agora que tanto precisava.
Claro que não, além de ser uma besteira, estava com uma fome desgraçada. E continuou andando. “Pessoas de sucesso vestem Lemans”, dizia um outdoor logo na frente. E não era que aquele paletó, onde tinha acabado de achar o dinheiro era dessa marca, que ele até pensou não mais existir? Parecia um sinal. Dinheiro no bolso do paletó Lemans, vidente, pessoa de sucesso, Lemans...Voltou e decidiu falar com a vidente. Entrou, sentou-se. Lá de dentro, através de uma parede de vidro daquelas que só se vê de um lado, a mulher examinou seu novo, primeiro e único cliente do dia. Ela tinha muita prática em saber o que as pessoas estavam passando por dentro. Deu um tempo para fazer charme, depois foi até a recepção e mandou-o entrar.
A primeira coisa foi cobrar a consulta. Depois colocou o dinheiro numa caixinha de madeira. Pediu, então, que o cliente colocasse as mãos sobre a pequena mesa redonda. Tocou-as  ligeiramente com suas próprias mãos, como se precisasse desse contacto para ler seu passado e seu destino. Fechou os olhos e começou a sessão. Emitiu uns ruídos estranhos, fez algumas caretas, esboçou uns sorrisos, virou ligeiramente a cabeça para os lados e começou a falar:
-Vejo, em um passado distante...
E começou a enumerar todas as vidas passadas do pobre homem. Um samurai que foi punido por falta de lealdade, há muitos séculos atrás. Duas ou três vidas obscuras que ela não conseguia enxergar. Uma prostituta na França no começo do século dezenove, um escravo que foi executado porque tentou fugir três vezes, um servo num país islâmico que roubou e teve suas mãos amputadas pelo patrão. Essas eram algumas de suas vidas passadas. Ele queria, desesperadamente, que ela parasse. Aquilo era uma indignidade, ele não acreditava. Mas sabe como é o espírito humano, ele ficou impressionado. No final, ela explicou que tudo que havia acontecido nos últimos séculos era uma espécie de preparação, que agora sua vida estava para mudar, que o que estava passando tinha sido uma preparação, ele iria ganhar uma grande fortuna, abrir um grande negócio, tornar-se o homem mais rico da cidade. Ou por não acreditar nela, ou por estar muito deprimido, levantou-se e saiu. Na rua, pôs a mão no bolso e viu que tinha sobrado muito pouco dinheiro. Mal dava para um cachorro quente. Foi o que fez, comprou um. Sentou-se num banco da praça e comeu a seco pois o dinheiro não tinha sido suficiente para o refrigerante.
Enquanto comia – até que estava gostoso – não conseguia ver as lindas flores do canteiro, nem o sorriso das crianças que brincavam, nem o gingado da garota que passou. Na sua mente as imagens se confundiam. Uma prostituta com as mãos cortadas e  vestida de samurai  por exigência de algum cliente pervertido, jogada num canto escuro de uma rua de Paris. Certamente não acreditava naquele passado, muito menos num futuro milionário. Imagens, mesmo mentais, falam mais do que mil palavras, por isso elas ficavam dançando em sua mente. 
Por fim, terminou seu cachorro quente, pensou na vidente e falou um palavrão. Olhou bem para suas mãos, ficou feliz por elas ainda estarem no lugar e por ele ser apenas um desempregado do século vinte  e  um. Depois foi, resignado, curtir sua miséria na solidão do lar.