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Wednesday, February 21, 2018

Estranhos tempos



Estranhos tempos

Estamos vivendo uma época extraordinária. Nunca, em toda história da civilização, tantas e tão espetaculares coisas aconteceram ao mesmo tempo. Em questão de décadas, tudo mudou. Nesse relativamente curto período de tempo houve transformações que, nem mesmo centenas de milhares de anos, juntos, conseguiram igualar.
Estamos vendo o alvorecer de uma fase da humanidade que mal conseguimos vislumbrar, mas que, certamente, é a um tempo assustadora e maravilhosa. Paradoxalmente, estamos quase nos tornando deuses e, ao mesmo tempo, estamos extremamente vulneráveis. Com a Genética, manipulamos o segredo da vida, com a Astronomia desvendamos o segredo das estrelas, com a Informática fazemos operações que milhões de humanos jamais conseguiriam fazer nem mesmo num prazo prolongado. Ainda temos a robótica, a nanotecnologia... Vamos ao infinito do espaço do lado externo, e ao infinito interno, dentro das partículas que formam as coisas.
Nossa própria grandeza gerou nossa fraqueza. Agora dependemos da nossa própria criação. Se, de repente, ficarmos sem ela, sem nossa eletricidade, sem nossa ciência, sem nossos “brinquedos” podemos nos esvair em um curto prazo de tempo. Nós e nossos inventos.
Por outro lado, ainda temos os fantasmas do passado nos circundando. Temos monstros da Idade Média nos atormentado. Trocamos a escravidão do pretérito por uma outra  nova e sofisticada. Temos agora nossas próprias bruxas, modernas, novos magos, biotécnicos, os feiticeiros dos novos tempos. Temos os líderes que enganam, os profetas de ocasião, a pobreza e a miséria em boa parte do mundo.
Estranha civilização é essa, cheia de contrários, de absurdos, de extremos. Se um viajante do passado, de séculos atrás, aterrissasse, de repente, em algumas partes do mundo, ele iria achar que muito pouco mudou. Se ele caísse em outros, pensaria estar em algum planeta distante, muito diferente, talvez numa outra dimensão da realidade...

Estranhos tempos esses, estranhos esses nossos novos tempos...


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Monday, March 16, 2015

A Sra. Stevenson quer me levar para o céu


A Sra. Stevenson quer me levar para o céu

A Sra. Stevenson quer me levar para o céu
Era fabuloso o que estava acontecendo. Algumas pessoas conseguiam chegar a 250 anos de idade. A grande maioria atingia facilmente de 190 a 210. Praticamente não havia doenças ou acidentes. Quando aconteciam, tudo era facilmente acertado com “programas de recuperação genética”.
Há mais de 300 anos atrás o supermapa do genoma humano havia sido feito pela primeira vez. Desde esse evento cada vez mais a ciência genética evoluiu de forma surpreendente. Os únicos fatores que seguraram a ciência nas primeiras décadas a partir daí, eram a ignorância, a pobreza e a ganância humana. Mas isso também passou. Agora mesmo com essa idade avançada, se as pessoas quiserem, elas não morrem. Em quase todos os casos, entretanto, as pessoas decidem simplesmente “parar”. Algumas são congeladas, outras simplesmente usam o sistema de “autodeleção”, uma maneira suave e civilizada de morrer. O ser humano consegue tudo tão facilmente, não há desafios e por mais interessante que seja o mundo virtual, chega-se a um ponto em que as pessoas se cansam, ficam aborrecidas.
Outro problema, mais grave, estava surgindo:  a superpopulação. Nos últimos dois séculos os humanos criaram colônias habitáveis em Marte e na Lua. Adequaram o espaço na Terra da melhor forma possível usando incrível tecnologia. Limitaram os nascimentos a um nível mínimo. Cada grupo familiar, ou seja, cada grupo genético, tinha direito um número limitado de novos “filhos”. A gestação era em laboratórios e de acordo com sofisticadíssimos procedimentos genéticos. Era uma verdadeira fábrica de super-homens que, ao mesmo tempo, mantinha uma diversidade biológica ao distribuir os nascimentos por grupos. Ainda assim, devido à longevidade, a superpopulação voltava a ameaçar o nosso planeta. Diminuir os nascimentos não era uma opção. O nível já era baixíssimo e comprometeria toda a raça ao manter um nível tão alto de pessoas mais velhas.
Eu estou com 80 anos e portanto sou jovem ainda. Claro que me preocupo com o problema. Não quero ter limitação de espaço e nem quero ir morar numa nave ou plataforma que fica em órbita para resolver o problema de espaço. Alguém tem que fazer alguma coisa. E eu sei o que eles vão fazer. Na verdade já estão fazendo. Outro dia recebi uma ligação e apertei de leve o “nanochip” implantado no dorso de minha mão para receber a ligação. Era a Sra. Stevenson. Ela se identificou como do programa de “perpetuação virtual da vida”. Achei o nome interessante e ouvi. Era uma pessoa de verdade, não era uma máquina falando. Isso era um bom sinal. Ela me explicou a respeito desse novo programa da Administração Central. Décadas de pesquisa para proporcionar o máximo de bem-estar e de prazer para as pessoas. O corpo ficaria em repouso, o cérebro trabalharia em ondas baixíssimas e então, a grande maravilha. Todos os prazeres, todas as melhores sensações, a própria essência da vida, virtualmente inseridas em mim. Palavras da Sra. Stevenson. O programa exacerbava – foi essa a palavra que ela usou – todos os meus sentidos. Ela tinha certeza de que ser nenhum, até então, havia experimentado tal gama de prazeres e bem-estar.
Era bom demais. Quanto tempo durava? Havia perigo de não se conseguir voltar? A Sra. Setevenson explicou. No começo eles deixaram aberta a opção de voltar. No entanto, tudo era tão bom, que nunca, uma só única vez, alguém quis voltar. Diante disso, para que manter máquinas caríssimas só para a possibilidade de, em décadas, alguém querer voltar? Seria uma idiotice. Do jeito que ela falou tudo pareceu ter bastante lógica. Mas eu argumentei que aquilo era a mesma coisa que morrer. Primeiro ela contra-argumentou que quem optava por morrer não ficava tendo prazer indefinidamente como as pessoas participantes do programa. Daí ela me perguntou se eu acreditava em céu. Pergunta retórica. Há muito tempo ninguém mais acreditava em céu...” Pois é, isso é o paraíso”, ela falou. Boa de marketing a Sra. Stevenson. Muito boa. Fiz mais uma pergunta. Dá para se ter uma amostra antes de entrar no programa? Claro que sim. Marcamos para o dia seguinte, dez minutos de “céu”.
Lá estava eu no dia seguinte, na hora marcada. A Sra. Stvenson era linda, um capricho da engenharia genética. Podia se dizer, se fosse daqueles que gostam de coisas antigas, que ela mesmo era um pedaço de céu...
Entrei na cápsula. Relaxei. Colocaram uns instrumentos na minha cabeça, comecei a ficar sonolento. Quando percebi, lá estava eu no meio de uma ceia, daquelas que as pessoas faziam antigamente, comida de verdade, em pleno século 21. Quando experimentei a comida, senti um prazer que jamais sentira antes. Enquanto comia, não precisaria de mais nada, mas outros prazeres invadiram meu cérebro. Prazeres mil. Tive dias e dias de prazer, paz e felicidade. De repente tudo ficou branco. Fui acordando devagar e vi olhando para baixo, o rosto da Sra. Stevenson. Ela me disse “Não vou perguntar se você gostou porque já sei a resposta.” Na verdade perguntei para ela porque me deixou dias na cápsula se o combinado era apenas 10 minutos. Ela riu. “Você ficou só dez minutos”, ela me falou. Estava quase com raiva de eles terem me acordado. Queria voltar. A Sra. Stevenson me explicou que era impossível no momento. Explicou também que as minhas ondas cerebrais não tinham atingido o nível mais baixo, pois era perigoso fazer isso em apenas dez minutos. Se eu tivesse ido para as ondas mais baixas, meu prazer seria multiplicado por 7 ou 8!? Ela devia estar brincando, não é possível se ter mais prazer do que aquilo.
Cinco dias me foram dados para que eu desse a resposta. Aquilo era realmente um paraíso, não sei como eles conseguiram criar algo tão espetacular assim. No entanto, minha inteligência me mostrava o óbvio. Aquilo era a morte antecipada, claro, com um céu de recompensa. Certamente quem concordasse com aquilo estava decidido a deixar esta sociedade, este mundo. Talvez valesse a pena. Como disse, a Sra. Stevenson era um prodígio de marketing.
Pensei e pensei. Mas não sei se pensei direito, pois só pensava no prazer que senti, nas sensações inéditas que experimentei. Sete vezes mais prazer do que aquilo, ela estava brincando?
No quarto dia tomei a decisão e avisei a Sra. Stevenson que tinha concordado em participar do programa. Ela riu. Afinal de contas você não pode rejeitar um convite para ir ao paraíso. Claro que não. E é exatamente isso que a Sra. Stevenson quer, ela quer me levar para o céu... 

oooooOOOOOooooo

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Thursday, March 7, 2013

A sinceridade do Stuart


A sinceridade do Stuart

Guzman, astronauta da Confederação das Américas,  estava viajando há 13 anos, mas só agora chegara a sua vez de assumir o comando. Até então estava “dormindo” na secção 7 da nave espacial. Durante o último século, conforme as viagens espaciais foram se tornando muito longas, adotou-se esse sistema de “sono profundo induzido”, que poderia ser mantido durante anos.
Demorou um pouco até Guzman tomar contato com a realidade. Agora já estava bem, sabia em que parte do cosmos estava, a missão que estava realizando. A primeira pessoa de quem se lembrou foi Lucy, sua esposa. Ela estava com 120 anos quando saíra, portanto agora estaria com 133 anos. Isso não era nada no ano 2289, uma vez que a expectativa de vida era de quase duzentos anos. Seria como ela ter 40 anos no século 20.
Apesar de praticamente não haver mais doenças, ironicamente uma delas havia começado a crescer nos últimos 20 anos. Não era bem uma enfermidade, era mais uma disfunção: a Síndrome de Hunt. O pesquisador Hunt descobriu por que algumas pessoas, perfeitamente saudáveis, de repente começavam a mostrar sintomas de diversas doenças ao mesmo tempo, até levá-las à morte. Num mundo quase perfeito, cientificamente falando, o nosso cérebro aparentemente tinha desenvolvido uma espécie de reação contra toda aquela manipulação genética que controlava a saúde humana. Era como um protesto da natureza contra o absoluto controle artificial do corpo. O mesmo Dr. Hunt  havia declarado, uns dias antes do início da viagem de Guzman, que ele praticamente já havia conseguido uma maneira de controlar a síndrome. Isso era especialmente importante para o nosso astronauta, pois sua querida companheira, Lucy, havia mostrado sintomas evidentes da nova “doença”.
Naquele primeiro dia “acordado”, Guzman mandou uma mensagem holográfica para sua querida mulher. O tempo para a mensagem ir até a Terra e uma resposta ser enviada de volta seria de cerca de 15 horas, tal era a distância em que estavam agora do nosso planeta. Isso sem contar o tempo que ela demoraria para responder.
Já fazia 19 horas e a resposta ainda não havia chegado. Guzman então falou com Stuart – nome carinhoso para o computador comandante da missão – sobre a sua ansiedade. Stuart explicou a ele que entre eles e a Terra havia uma densa constelação, que certamente atrasaria o tempo de “entrega” da mensagem. Isso consolou Guzman um pouco.
Passaram-se cerca de 70 minutos e o Stuart alertou Guzman para uma mensagem que havia acabado de chegar. Ele sentou-se numa confortável poltrona na sala de projeções holográficas e tocou de leve o controle para iniciar a mensagem. E lá estava a Lucy, linda como sempre. Não parecia estar abatida ou doente. Na continuação ficou sabendo que o Dr. Hunt cuidara do caso dela pessoalmente e que tudo tinha dado certo. Contou uma série de outras coisas, riu, mandou beijos.
Normalmente Guzman deveria estar cheio de felicidade. Entretanto, algo na transmissão o incomodava. Lucy não parecia a mesma, embora estivesse exuberante. Havia coisas, brincadeiras, palavras, que certamente ela teria usado na conversa, que não estavam lá.
Guzman estava cismado, ficou pensativo. Depois de algum tempo, resolveu falar com o Stuart. Ponderou com ele que sabia que ele havia sido programado com forte dose de “sentimentalidade e sensibilidade humanas”. Abriu-se dizendo  que estava desconfiado que algo não estava bem. Stuart retrucou que ele mesmo havia visto a mensagem e a própria Lucy confirmara estar bem.
Mais  30 horas se passaram, mas a cisma de Guzman não foi embora. Conversou novamente com seu amigo computador Stuart. Abriu seu coração. Sabia que ele tinha obrigações com a missão, tal como manter a tripulação feliz, equilibrada emocionalmente, etc... Disse que com ele não iria funcionar, estava desconfiado, a melhor coisa era falar a verdade. Ele conseguiria superar, sobreviver, mas precisava da verdade.
Stuart demorou um pouco para responder. Aparentemente estava processando as emoções do Guzman. Depois confessou. Lucy havia morrido há sete anos atrás, enquanto ele estava em sono profundo. O computador da Terra, encarregado da missão, juntou todos os dados que tinha e “falsificou” a mensagem holográfica de resposta. Aparentemente ele não tinha todos os detalhes para fazer uma mensagem perfeita. No final, Stuart disse que sentia muito.
Guzman agradeceu a sinceridade do Stuart e recolheu-se por algumas horas.
Mais tarde, um pouco mais tranquilo, Guzman falou em volz alta para Stuart:
-Stuart, você sabe como foi importante sua honestidade comigo? Isto muda completamente a maneira como vou me sentir daqui para a frente em relação à missão, em relação a você...
-Eu sei, eu sei...
Guzman já havia também participado de missões espaciais em naves da União Europeia, da Confederação Asiática e da Liga Independente. Nenhuma delas tinha inteligência artificial tão sintonizada com a personalidade como o Stuart da Confederação das Américas. Isso era bom...
Stuart interrompeu seus pensamentos:
-Guzman, por falar em sentimentos, acho que você deveria dar uma olhada na grande  escotilha do nosso lado direito. Há cinco estrelas super-gigantes, com luz e cores de arrepiar...
Guzman sabia que Stuart estava tentando alegrá-lo, mas foi assim mesmo. De qualquer forma ele gostava mesmo dessas paisagens cósmicas. Esse Stuart era mesmo uma coisa...
Na vastidão do espaço, a nave especial SS6574, ou a  “Splendid”, indiferente a sentimentos humanos ou de máquinas, continuava sua longa jornada em direção ao planeta Stallion. Suave, brilhante, esplêndida...



Monday, November 26, 2012

O Leilão


O Leilão

Sanz sempre se interessou pelas coisas dos séculos 20 e 21. Achava interessante como as pessoas viveram nessa época, como pensavam. Como eram suas músicas, seus costumes. Ele tinha especial curiosidade sobre o conceito de “família”. A ideia havia desaparecido completamente no início do século 22. A necessidade de controlar a densidade demográfica mais o avanço enorme da ciência genética acabaram entregando o controle dos nascimentos ao Estado, mais precisamente à Administração Central. Não havia mulheres grávidas desde cerca do ano 2110 A.D. As pessoas viviam muito mais e a existência com um certo conforto só era possível com um controle rígido dos nascimentos. Além disso as concepções via laboratório eram extremamente seguras e garantiam um corpo extremamente saudável e eficiente. A ideia de família foi substituída pelo conceito de grupos genéticos. Cada grupo “tinha direito” a um certo número de concepções, o que, além de ser justo, garantia uma diversidade importante para o ser humano.  Os novos seres recebiam um código, ao invés de um nome, que ao mesmo tempo era um indicador da “família genética”  a qual pertenciam. Mais tarde Sanz consultara dados da época e descobrira que esse nome significava “sagrado”. Achou que a ideia combinava com seu interesse por essa fase da civilização humana. Tinha interesse principalmente por tudo que se referia ao final do século 20 e começo do século 21. Para ele, esta época é que deu o “click”para tudo que ele via agora, 300 anos depois. Sempre  que podia, adquiria objetos antigos desse período, que eram raríssimos. Os leilões eram obviamente eletrônicos, exceto por um que se chamava “Newdoyle”. Esses faziam questão de fazer tudo à moda antiga, de verdade. Era um lugar físico, não virtual, onde as pessoas se sentavam e o leiloeiro batia o martelo e tudo mais. Era uma coisa incrível. A decoração era uma réplica exata da época.
Nesse dia, lá estava Sanz para participar de um leilão que iria colocar à disposição dos participantes o que antigamente se chamava de “celulares”,  “laptops”, muito dos quais ainda funcionavam. Claro, eram necessárias certas adaptações, pois o sistema de energia era absolutamente diferente então. Nesse dia havia também um objeto muito especial: uma unidade de DVR. Sanz havia pesquisado muito sobre o assunto. Esse aparelho “gravava” imagens e sons em uns discos especialmente designados para isso e depois tinha a capacidade de tocá-los novamente. Seria possível fazer funcioná-lo, de acordo com as instruções do leilão, mas seria extremamente custoso e, além disso, haveria necessidade de se obter um disco da época, o que talvez não fosse tão difícil assim em locais especiais.

Sanz estava bastante excitado com o evento e foi um dos primeiros a chegar. Conversou um pouco com os outros participantes. Ficou sabendo de um dos participantes, que havia um local, relativamente grande, onde antigamente era a Europa, em que se fazia uma simulação de toda a tecnologia antiga e onde – pasmem – poderia se usar os tais dos “celulares” e outros aparelhos da época do mesmo jeito que antigamente. Era uma novidade para todos os colecionadores. Todo mundo estava falando da novidade. Sanz achou interessante mas estava  interessado era mesmo no DVR. As pessoas não usavam mais dinheiro. Cada pessoa tinha “pontos” e o valor dos mesmos , ou seja, sua “cotação” dependia muito do papel do indivíduo na comunidade. Para os mais “uteis”, os pontos valiam mais. A cotação de Sanz era muito boa.
Não foi muito difícil para ele, pois quase não havia concorrência para o item. Ainda assim quando o leiloeiro bateu o velho e estranho martelo de madeira no balcão, Sanz sentiu um alívio e uma excitação que poucas vezes sentira antes. Ele era o proprietário do objeto.
Em casa, começou a examinar o seu “troféu”.  Colocou-o no simulador de energia da época e, para sua surpresa, um disco foi ejetado.Os organizadores do leilão não perceberam que ele estava ali. Sanz cuidadodamente colocou–o no DVR. E aí vieram as imagens, Uma família com duas crianças, junto a um lago. As carinhas iam e vinham, faziam caretas. O pai segura as duas pelas mãos e depois ameaçava, brincando, jogá-las na água. A esposa sorri, se aproxima e dá-lhe um beijo na face. Em outra cena estão sentados à mesa, comendo. Passam a comida de um para outro. Em outro momento a mãe estende o garfo para a filha.
Sanz havia estudado como funcionavam as “famílias” mas aquilo era uma amostra real, viva. Não é possível se descrever o que ele sentia. Uma coisa, porém, é certa. Ele havia criado, de repente, uma ligação com aquela família, apesar dos 300 anos que os separavam. De repente criou uma esperança no coração. Mandou o disco e o DVR para os especialistas  em recuperação e identificação de DNA.

Alguns dias depois vieram os resultados. Após recuperação de fragmentos de DNA do disco e do DVR, eles conseguiram levantar dados nos grupos genéticos pelos últimos trezentos anos. E aí a surpesa: as pessoas daquela fmília eram tataravós de seus bisavós, geneticamente falando. Ele mal podia acreditar. Será que foi por isso que ele sentiu aquela ligação?
Ninguém mais acreditava em milagres ou em sobrenatural. Restou a explicação da coincidência. Mas Sanz não se importava com isso. Sentia uma felicidade grande, enorme. Poderíamos dizer que ela se alastrava por – 300 anos ou mais. Quanto à “coincidência”, poderíamos dizer – já que ninguém mais acreditava em milagre – que era um problema da ciência de estatísticas.De qualquer forma, uma coincidência milagrosa!