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Saturday, December 1, 2018

Os “Ismos” do novo milênio



Os “Ismos” do novo milênio


Qualquer um percebe que o mundo político e tudo que vem com ele, mudou muito nos últimos tempos. O que era ruim, ficou pior. No entanto, o que preocupa não é a intensidade, é o próprio DNA de sua estrutura.
Antigamente quando alguma figura pública era pega no ato, ou renunciava e pedia desculpas, ou tentava negar, se explicar. Hoje em dia muitos reagem dizendo que o que fizeram é normal, ou que outros fizeram a mesma coisa, como se isso justificasse sua conduta. Um  vez em domínio público, os autores dos atos criminosos, começam a se defender, não com com argumentos morais ou outros, mas sim com estratégias legais, com a esperteza, tudo isso de maneira bem clara e aberta. Em vez de termos uma batalha do bem contra o mal, temos uma batalha de opinião pública, de convencimento. A essência não é discutida. E uma parte enorme do povo entra na dança, usando os mais absurdos argumentos para justificar os atos de seus “líderes” preferidos.
 O que quero dizer, na verdade, é que não existem mais socialismo, comunismo, capitalismo, e outros “ismos”. Tudo que restou foi apenas o Cinismo, a nova grande onda política do novo milênio. E para pessoas normais, isso é muito estranho.

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À procura de Lucas





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Wednesday, November 11, 2015

Nós, o centro de tudo

Nós, o centro de tudo


Como é difícil para nós, seres humanos, admitirmos que não somos o centro de tudo. Há muitos séculos atrás, Nicolau Copérnico provou categoricamente que a nossa linda Terra, por mais exuberante que fosse, não era o centro do Universo. Galileu, mais tarde, aperfeiçou sua teoria e foi perseguido pela Igreja por causa de suas convicções.
Em termos pessoais, estamos sempre fazendo o mesmo. As coisas que se referem a nossos amigos, a nossa comunidade, tudo, lá no fundo, achamos que gira ao nosso redor. Talvez tenhamos sido constituídos assim, em nosso DNA. Uma espécie de proteção, algum mecanismo de sobrevivência ou algo semelhante.
Alguns levam essa mania ao extremo. Acham dentro de si, bem lá no fundo, que realmente são o centro de tudo. Vemos esse tipo a todo momento na mídia, na sociedade, por todo lugar. Coitados deles, coitados de nós.
Por outro lado, é mesmo difícil, na prática, se livrar completamente da ideia. Muitas vezes, à tarde, quando o sol se põe, tento pensar como as coisas realmente são: A Terra é que está girando em volta de si mesma e ao redor do Sol e por isso ele está desaparecendo no horizonte. É quase impossível sentir o contrário, que ele é o centro. O que a gente realmente sente é que a nossa querida estrela, obediente, está girando à nossa volta. Some à noite, aparece de manhã, como se estivesse com saudades, como se tivesse sentido nossa falta, dependendo de nós.
 Pobres humanos, que não sabemos quem somos. O próprio sol, com toda sua turma de planetas, também gira em volta de alguma coisa, depende de outros corpos celestes, muito maiores, para se equilibrar no Universo. Ele, porém não tem essa nossa vaidade, apesar de toda luz que tem. Nós, nem a nossa própria luz temos, emprestamos a dele para podermos existir...

 ===(((()))===


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Friday, March 27, 2015

O Rei Ricardo III está aguardando no estacionamento




O Rei Ricardo III está aguardando no estacionamento

O mundo mudou. Há poucos reis agora e alguns nem mandam mais, só são figurativos. Outros são reis de quase nada. Reinados de pequenos domínios, muitas vezes menores que algumas cidades do interior. Mas antes não era assim. Rei era algo muito, muito especial. Sem querer abusar das palavras, era real, “majestoso”. Se fosse da Inglaterra, então, bota majestade aí. Esses monarcas tinham realmente jeitão para o que faziam. Promoviam guerras, lutavam, mandavam, executavam, enfim, reinavam. Só agora eu entendo porque minha mãe me falava, quando pequeno, “para não ficar reinando”. Houve um que até ousou enfrentar o papa porque ele não autorizou seu divórcio. Não teve dúvida, fez uma outra religião. Ele mesmo, o Henrique VIII. Havia tanto jeito para ele resolver o problema sem falar com o pontífice mas ele não quis saber. O rei de Portugal poderia simplesmente explicar para ele o que era o “jeitinho”, pois, afinal de contas, foi ele que explicou para nós. Mas rei que é rei, usa sua majestade. Mas o dito cujo de quem quero falar agora é o Ricardo III. Valente, lutou para defender sua coroa contra usurpadores. Ficou todo machucado, dizem até que ficou corcunda. Não deu sorte e acabou perdendo. Aí, você sabe, inventaram um monte de mentiras a seu respeito, sabe como é quando você é o derrotado... Posso garantir, entretanto, que ele era um verdadeiro nobre. Mas como você sabe, “rei morto, rei posto”, acho que é assim... Ele morreu em combate e foi enterrado em uma igreja. Esqueceram dele pois a nova linha de monarcas não tinha interesse nenhum em preservar sua memória. Tanto esqueceram, que um dia demoliram a igreja em que estava enterrado e nem se lembraram de exumar seu corpo. Eu acho isto um desrespeito, mas como a gente não pode se meter com essa gente, o que vai se fazer? E lá ficou o Ricardo III, enterrado, sem ninguém saber, debaixo do antigo piso. Naquela época não havia automóvel, afinal de contas são mais de 500 anos, mas séculos depois, fizeram lá um estacionamento. E é por isso que eu disse que o rei está aguardando no estacionamento. Claro que ele não está lá estacionado, está apenas parado, esperando. Quer dizer, estava. Agora, finalmente o descobriram. Ainda tem as costas tortas, coisa que a morte não curou. Tem também uns ossos machucados e tudo mais. Isso prova que ele lutou e foi um herói. Mesmo assim alguém poderia dizer que é tudo fabricação, estão querendo reviver o rei, que aquilo é simplesmente um cadáver plebeu.  Você sabe que inglês não faz coisa a olho, nem coisa para a gente ver, embora o contrário seja verdadeiro, e por isso eles fizeram um exame de DNA. Compararam com um descendente distante e lá estava: comprovado, cientificamente, que o rei era o rei. Embora estacionado, quero dizer, enterrado, não perdeu a majestade. Quem diria, hein, Ricardo – desculpe a intimidade – tanto séculos depois. Estão vendo como as coisas mudam? Eu garanto que se alguém, no seu reinado, ousasse falar que um dia existiria o DNA e daria para finalmente identificar Vossa Majestade mesmo sem RG ou passaporte, você seria capaz de condená-lo de heresia e mandá-lo para a fogueira.

Tudo bem, eu entendo seu ponto de vista. Se alguém me disser que daqui a 500 anos vai ser possível viajar no tempo, eu também não vou acreditar!

A Notícia

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Essa vida da gente

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Sunday, January 12, 2014

No céu azul, o gene da idiotice

No céu azul, o gene da idiotice

(nossos queridos e heroicos amigos que fazem parte de tripulações nos céus do Brasil, têm que passar por cada uma...)



Quando a gente pensa que viu quase de tudo, aparece mais uma. O voo Azul 5195 saiu bonito, dentro de um outro azul, o do céu. Dentro da aeronave, porém, negras nuvens começaram a se formar. Quem poderia imaginar que de uma cidade tão linda e cheia de praias, Natal, poderia sair um passageiro tão...? Vou ver se arrumo um adjetivo depois, no momento não me ocorre nenhum. No final desta narrativa, quem sabe o leitor amado poderá me ajudar com o vocabulário. Alguém poderia dizer que ele não é de lá, é de São Paulo. Ainda assim, como alguém, que passou uns dias neste lugar tão belo, pode fazer algo tão... Estou de novo sem palavras. Não fique nervoso, vou contar o que aconteceu, se você ainda não leu a notícia.O fulano, não deram seu nome e não quero saber, começou a discutir com a esposa. Nessas brigas, você sabe, os dois pensam que têm razão, mas nenhum dos dois tem. Isso não importa, o que importa é que o “cara” não parou por aí. Levantou -se, tirou a camisa e começou a xingar os integrantes da tripulação. Não disseram se era do tipo que faz ginástica, mas isso não importa, porque o que importa aqui é o cérebro do indivíduo e não corpo. Finalmente recebeu ordem de prisão e foi dominado com o auxílio dos passageiros. O comandante precisou fazer uma parada não planejada em Salvador. Daí, uma série de inconvenientes para todos, depoimentos, Polícia Federal, etc. Então, se alguém perguntar se está tudo azul, não, não está!
Fico pensando no diagnóstico. Drogas, bebedeira? Ou talvez um problema mais sério? Um desvio de elevado grau no DNA? Gene da idiotice?

Antes de terminar, porém, queria dizer que ainda não achei o adjetivo que estava procurando lá em cima. Aceito sugestões...


Sunday, June 16, 2013

Um planeta sem cores

Um planeta sem cores

Flicka tinha grandes olhos verde-escuros, um corpo esguio, cabeça lisa e um tom de pele róseo, quase branco. Era considerada bonita no meio em que vivia. Estava ali, na frente do comandante geral, Ragnar, explicando os problemas que estava tendo. Ele já os conhecia, mas queria sentir pessoalmente como ela estava sendo afetada por toda a situação. Além disso, queria submetê-la ao “leitor mental”, uma máquina consideravelmente grande, onde era possível ver-se, numa enorme tela, o que se passava na mente do “paciente”. Flicka, vestida com uma túnica sintética de cor cinza, bem clara, estava agora deitada e com conectores muito pequenos ligados à sua cabeça. Com um simples agitar de mão, Ragnar ligou o aparelho e imagens começaram a aparecer na tela. Vales, montanhas nevadas, campos, rios, o oceano. Uma visão magnífica de cima, de paisagens da Terra. Era como se um pássaro ligeiro, com uma câmera sofisticada, estivesse filmando tudo do alto. Isso era o que estava no cérebro de Flicka. Por alguns momentos, Ragnar transformou as imagens em holografia, mas depois voltou à tela normal. Após alguns minutos, desligou o aparelho. Já tinha tudo que precisava saber.
Seria normal se Flicka, pelo menos uma vez na sua vida, tivesse visto qualquer coisa da Terra. Ela era quase uma criança para quem vive quase duzentos anos. Tinha apenas 22. Seu embrião foi obtido com material humano que também nunca tinha tido contato com a Terra.
Jern havia sido colonizado pelos humanos há mais de dois mil anos. Era um planeta cinzento, feito basicamente de rochas. Havia oásis e água, certos tipos de vegetação, grandes oceanos, mas,  por vários motivos, nem de longe, nada do que havia lá, lembrava as cores exuberantes de nosso planeta. Propositadamente, desde que os primeiros colonizadores chegaram, evitava-se a todo custo, qualquer coisa que lembrasse a exuberância terrestre. Não se queria distúrbio algum nas mentes dos Jernianos. Se você só conhece o cinza e outras tonalidades semelhantes, esse tom vai ser bonito para você.
Ragnar sabia que, em arquivos secretos, havia quantidade enorme de filmes, projeções holográficas e outras imagens do planeta de origem. Entretanto, ninguém tinha acesso a ele. Ragnar que tinha quase 200 anos de idade, fizera uma única e longa  viagem à Terra, há mais de 60 anos. Ele, entretanto era treinado e jamais seria afetado pela beleza das cores, da paisagem.
Como Flicka estava tendo essas visões quando dormia ou mesmo acordada? Ragnar e suas “máquinas pensantes” estavam analisando o cérebro de Flicka e não encontravam resposta. Nenhuma explicação, nem de longe, conseguia trazer um pouco de luz para o fato. Algo escondido no DNA, que depois mais de 30 gerações, estaria agora se manifestando? Lógico, que, em última análise, os primeiros materiais genéticos tinham vindo da Terra.



O planeta Jern era muito importante para o sistema de colônias terráqueas. Lá havia materiais raríssimos e eles eram importantes para sofisticadíssimas máquinas de inteligência artificial e robôs de última geração. Todas as colonias e estações a uma distância espacial razoável se utilizavam desse material. Ragnar era muito precavido e não queria nem pensar em uma “onda saudosista” da Mãe Terra, depois de quase dois milênios de trabalho e avanço teconológico naquela parte inóspita do espaço. Seria demais ter “saudades” de um planeta que você nunca viu. Mais do que tudo, seria muito perigoso.
Ragnar ainda não tinha comunicado nenhuma decisão a seus subordinados. Todos sabiam, entretanto, quais seriam suas determinações. Com certeza, deletaria todas as imagens da mente de Flicka, por precaução. Poderia haver outros casos.
A única coisa que adiantara para as pessoas imediatamente sob seu comando foi:
- Essas “cores” podem ser muito perigosas. Não precisamos delas, pelo menos por aqui...
Na Terra, as mesmas cores exuberantes dos últimos milhares de anos, continuavam a causar admiração para qualquer nave que estivesse chegando ou voltando. Nessa nova fase da civilização, em que o homem tinha espalhado colônias para além do sistema solar, os únicos tons que sutilmente imaculavam - ou talvez acentuassem - a fabulosa e colorida paisagem, cheia de mil nuances naturais de nosso planeta, era um prateado, quase mágico – de um material muito especial -  que se via cá e lá, incrustado nas incríveis instalações, maquinários e equipamentos que eram características daquela admirável era pela qual passava a humanidade: o ano de 5.347 DC.

Ironicamente, quase todo esse material precioso tinha vindo de Jern, através de longas e demoradas viagens, feitas  por cargueiros espaciais, aos longos dos últimos 2000 anos.

Saturday, March 23, 2013

A mensagem perdida: o Fator “Alien”


A mensagem perdida: o Fator “Alien”


O projeto Morfeus já estava em andamento há mais de duas décadas. Baseado nas descobertas, feitas no final do século 21, de algumas novas propriedades das subartículas e em outros avanços da Física Quântica, seu objetivo era receber mensagens extraterrestres. Era uma gigantesca plataforma com equipamentos sofisticadíssimos e que orbitava o sol. Já tinha recebido mensagens matemáticas cujo significado básico era possível de se captar. Entretanto vinham de culturas tão diferentes da nossa que era difícil penetrar-se mais profundamente no seu significado. Além disso vinham de planetas que estavam a  uma distância tão absurda que nos próximos milênios não haveria possibilidade de contato por mais que a tecnologia avançasse.
Naquele dia, porém, Tito, que estava de plantão na sede do projeto na Terra, notou algo diferente. Ele atendeu o chamado do computador alertando para uma mensagem especial. Ela havia sido transmitida em linguagem humana. Para ser mais preciso, estava escrita em 25 diferentes línguas humanas. Tito conhecia bem pelo menos três  delas, por isso notou algo estranho logo de início. Alguma coisa não soava bem nas palavras e nas construções das frases. Não demorou quase nada e o próprio computador avisou que aquilo era Inglês do século XVI. O mesmo  acontecia com as outras línguas.
Pallas, o encarregado geral do projeto, não demorou muito a chegar até a sede do projeto. Recebera o recado a respeito das mensagens e veio correndo. O texto básico dizia que eles eram uma civilização que estava a 57.5 anos luz da Terra e que seu planeta estava entrando em colapso. A órbita em volta de seu sol estava ficando cada vez mais curta e o calor estava tornando a sobrevivência  impossível. Eles tinham apenas mais cem anos de vida e pretendiam nos próximos 50 mandar “sementes” para que a sua raça se integrasse com a nossa. Que não devíamos temer, pois eles só acrescentariam à nossa civilização. Que nós nem perceberíamos sua vinda e em cerca de 300 a 400 anos impulsionariam a humanidade para um desenvolvimento fora do comum. O que demoraríamos normalmente para conseguir em mil anos, faríamos em 100 anos com a integração das duas espécies.
Tito comentou com certo tom de ironia que, aparentemente, nós havíamos conseguido progredir até mais que isso sem as “sementes”.  Parece que elas , as sementes, se perderam no caminho e deu uma risada, apesar de saber que aquela mensagem era importante.
Foi aí que Pallas ficou muito sério e perguntou a Tito:
-Você já ouviu falar no Fator “Alien”, Tito?
Tito respondeu meio desconfiado:
-A ideia não me é estranha.  Esta não é a tal da teoria do professor Harrison que diz que muitos de nós temos nosso DNA impregnado com elementos extraterrestres? Ele descobriu isso  depois que aplicou um nova técnica que permite obter informações que estão escondidas nas subpartículas que estão em nosso corpo. Estou certo? Mas ele não foi levado a sério, foi?
- Mais do que isso, a sua teoria é atualmente mais do que uma teoria. Tornou-se um fato científico. E agora temos a prova final.
-Como assim?
- Você ainda não percebeu? Está tudo tão óbvio. Eles definitivamente  mandaram as “sementes”. Chegaram aqui nos meados do século XVII. Fomos implantados com elas. Muitos de nós. Como, ainda não sabemos. As datas batem. Outra coisa que está clara é o fantástico desenvolvimento que começou na segunda metade do século vinte e tomou proporções geométricas depois disso: nossa ida para a Lua, a conquista espacial, a informática, a Física Quântica...Você não consegue enxergar? 300, 400 anos depois?
Tito estava mudo. Tudo era tão óbvio, de repente...Ainda assim, quase balbuciando, perguntou:
- Mas e essa mensagem, só agora? Ela deveria ter chegado antes...
-Você tem razão. Deveria. E pelo formato  da línguagem, do séulo XVI, você sabe que ela foi mandada naquela época. Por algum motivo, ela ficou ricocheteando nas galáxias do Universo, antes de chegar até nós, com seis séculos de atraso. As sementes, entretanto, chegaram na data certa. Você, eu e muitos outros somos prova disso, pois temos o Fator “Alien” em nossos  DNAs. Quase 30% da população tem. “Coincidentemente” os 30% com muito mais inteligência do que todo o resto.
Depois de uma pausa e um suspiro, finalmente Tito falou:
-É verdade, a mensagem ficou perdida por aí mas as sementes chegaram e ...germinaram!
-É, meu caro Tito, nós somos as sementes germinadas...somos parentes de um povo distante, muito distante, novamente reunidos!

Wednesday, December 19, 2012

O Resgate


O Resgate

A missão era clara e objetiva: alcançar o planeta devastado, fazer um levantamento da destruição, juntar dados e possivelmente amostras e voltar. A partir daí, seria feito um plano. Se houvesse sobreviventes, quem sabe até ajudar na reconstrução da civilização, fornecer tecnologia...
As sete naves haviam chegado há uma semana com um pequeno intervalo entre uma e outra. Espalharam-se pelas diferentes regiões, fazendo buscas e avaliação. As coisas não pareciam boas. Obviamente havia sido um conflito nuclear de proporções davastadoras. Havia radiação fortíssima por toda a parte.
Os sinais de problemas com o distante planeta tinham começado há 15 anos. Logo foi possível verificar que as condições estavam se deteriorando a passos rápidos, fora de controle. Em dois meses as transmissões pararam de chegar. Através de uma nave não tripulada, que estava há alguns meses luz dali, foi possível orbitar o planeta. Se havia sobreviventes, não era possível verificar sem descer. Por motivos técnicos essa espaçonave não poderia exercer a tarefa. Por isso, só 4 anos depois foi possível a chegada da “frota dos sete”. 

A destruição era muito maior do que se havia pensado.  Não havia sinal de vida, pelo menos inteligente. Certamente algumas formas microscópicas tinham resistido. Os astronautas do projeto eram experientes, tinham já passado por experiências como essa. Ali, entretanto , estava algo com que nunca tinham se deparado antes. O nível de desolação era inimaginável. Não se sabe quem era o agressor e quem era o agredido, todos foram “varridos” completamente do mapa. O que se passava na mente dos membros da equipe de resgate era muito semelhante. Como uma civilização naquele estado de progresso tecnológico e científico tinha se envolvido num conflito quase infantil?  O nível de tecnologia era óbvio. Duas enormes estações orbitais, que ainda resistiam, eram prova disso. O pouco que restara indicava claramente que não só eles haviam alcançado o que poderia ser considerado “nível elevado” de avanço, mas também que estavam entrando na fase em que poderiam se beneficiar de aspectos práticos da física quântica. O comandante da missão havia estudado esse tipo de civilização. Ao mesmo tempo em que a teconologia e a ciência avançam, crenças e líderes maníacos entram em conflito com essa evolução. É um momento delicado de toda espécie: quase entrando naquela fase em que as crenças “primitivas”e ideologias malucas ficam obviamente deslocadas diante da grandeza da ciência e ao mesmo tempo tentam sobreviver, lançando mão, porém, de recursos extremos. Eles sabem que sua “visão do mundo” está ameaçada e fazem tentativas desesperadas de deter o conhecimento. Muitas civilizações conseguem passar essa fase, outras entram num processo absurdo de aniquilação.
Depois de duas semanas, a primeira nave estava se preparando para voltar. Levava amostras de vida microbiológica e fragmentos de seres inteligentes para um estudo profundo de DNA e, quem sabe, uma tentativa de “recriação da espécie” local.
A frota que tentava o resgate era do planeta Raddar, situado na constelação de Centauro e o que estava destruído era a antes maravilhosa e exuberante Terra. A civilização terrestre conseguira sobreviver, com suas glórias e seus pecados, com suas conquistas e seus fracassos, com sua obsessão e arrogância, até o ano 2093. Infelizmente não conseguiu virar a página do novo século.

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Histórias do Futuro

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Monday, November 26, 2012

O Leilão


O Leilão

Sanz sempre se interessou pelas coisas dos séculos 20 e 21. Achava interessante como as pessoas viveram nessa época, como pensavam. Como eram suas músicas, seus costumes. Ele tinha especial curiosidade sobre o conceito de “família”. A ideia havia desaparecido completamente no início do século 22. A necessidade de controlar a densidade demográfica mais o avanço enorme da ciência genética acabaram entregando o controle dos nascimentos ao Estado, mais precisamente à Administração Central. Não havia mulheres grávidas desde cerca do ano 2110 A.D. As pessoas viviam muito mais e a existência com um certo conforto só era possível com um controle rígido dos nascimentos. Além disso as concepções via laboratório eram extremamente seguras e garantiam um corpo extremamente saudável e eficiente. A ideia de família foi substituída pelo conceito de grupos genéticos. Cada grupo “tinha direito” a um certo número de concepções, o que, além de ser justo, garantia uma diversidade importante para o ser humano.  Os novos seres recebiam um código, ao invés de um nome, que ao mesmo tempo era um indicador da “família genética”  a qual pertenciam. Mais tarde Sanz consultara dados da época e descobrira que esse nome significava “sagrado”. Achou que a ideia combinava com seu interesse por essa fase da civilização humana. Tinha interesse principalmente por tudo que se referia ao final do século 20 e começo do século 21. Para ele, esta época é que deu o “click”para tudo que ele via agora, 300 anos depois. Sempre  que podia, adquiria objetos antigos desse período, que eram raríssimos. Os leilões eram obviamente eletrônicos, exceto por um que se chamava “Newdoyle”. Esses faziam questão de fazer tudo à moda antiga, de verdade. Era um lugar físico, não virtual, onde as pessoas se sentavam e o leiloeiro batia o martelo e tudo mais. Era uma coisa incrível. A decoração era uma réplica exata da época.
Nesse dia, lá estava Sanz para participar de um leilão que iria colocar à disposição dos participantes o que antigamente se chamava de “celulares”,  “laptops”, muito dos quais ainda funcionavam. Claro, eram necessárias certas adaptações, pois o sistema de energia era absolutamente diferente então. Nesse dia havia também um objeto muito especial: uma unidade de DVR. Sanz havia pesquisado muito sobre o assunto. Esse aparelho “gravava” imagens e sons em uns discos especialmente designados para isso e depois tinha a capacidade de tocá-los novamente. Seria possível fazer funcioná-lo, de acordo com as instruções do leilão, mas seria extremamente custoso e, além disso, haveria necessidade de se obter um disco da época, o que talvez não fosse tão difícil assim em locais especiais.

Sanz estava bastante excitado com o evento e foi um dos primeiros a chegar. Conversou um pouco com os outros participantes. Ficou sabendo de um dos participantes, que havia um local, relativamente grande, onde antigamente era a Europa, em que se fazia uma simulação de toda a tecnologia antiga e onde – pasmem – poderia se usar os tais dos “celulares” e outros aparelhos da época do mesmo jeito que antigamente. Era uma novidade para todos os colecionadores. Todo mundo estava falando da novidade. Sanz achou interessante mas estava  interessado era mesmo no DVR. As pessoas não usavam mais dinheiro. Cada pessoa tinha “pontos” e o valor dos mesmos , ou seja, sua “cotação” dependia muito do papel do indivíduo na comunidade. Para os mais “uteis”, os pontos valiam mais. A cotação de Sanz era muito boa.
Não foi muito difícil para ele, pois quase não havia concorrência para o item. Ainda assim quando o leiloeiro bateu o velho e estranho martelo de madeira no balcão, Sanz sentiu um alívio e uma excitação que poucas vezes sentira antes. Ele era o proprietário do objeto.
Em casa, começou a examinar o seu “troféu”.  Colocou-o no simulador de energia da época e, para sua surpresa, um disco foi ejetado.Os organizadores do leilão não perceberam que ele estava ali. Sanz cuidadodamente colocou–o no DVR. E aí vieram as imagens, Uma família com duas crianças, junto a um lago. As carinhas iam e vinham, faziam caretas. O pai segura as duas pelas mãos e depois ameaçava, brincando, jogá-las na água. A esposa sorri, se aproxima e dá-lhe um beijo na face. Em outra cena estão sentados à mesa, comendo. Passam a comida de um para outro. Em outro momento a mãe estende o garfo para a filha.
Sanz havia estudado como funcionavam as “famílias” mas aquilo era uma amostra real, viva. Não é possível se descrever o que ele sentia. Uma coisa, porém, é certa. Ele havia criado, de repente, uma ligação com aquela família, apesar dos 300 anos que os separavam. De repente criou uma esperança no coração. Mandou o disco e o DVR para os especialistas  em recuperação e identificação de DNA.

Alguns dias depois vieram os resultados. Após recuperação de fragmentos de DNA do disco e do DVR, eles conseguiram levantar dados nos grupos genéticos pelos últimos trezentos anos. E aí a surpesa: as pessoas daquela fmília eram tataravós de seus bisavós, geneticamente falando. Ele mal podia acreditar. Será que foi por isso que ele sentiu aquela ligação?
Ninguém mais acreditava em milagres ou em sobrenatural. Restou a explicação da coincidência. Mas Sanz não se importava com isso. Sentia uma felicidade grande, enorme. Poderíamos dizer que ela se alastrava por – 300 anos ou mais. Quanto à “coincidência”, poderíamos dizer – já que ninguém mais acreditava em milagre – que era um problema da ciência de estatísticas.De qualquer forma, uma coincidência milagrosa!

Tuesday, November 20, 2012

O Quarto Controle


O Quarto Controle

-Matt, eu acho que você é completamente ingênuo. O Sistema é o sistema, ele não se interessa por você. Ele apenas quer que você pense que ele se interessa por você.
-O que eu acho é que você perdeu completamente o senso de social, de coletivo. O que seria de nós sem o Sistema? Seria o caos. Todos nós precisamos de um elemento de controle, é para o bem de todos.
-Matt, Matt...que inocência. O Sistema, para nos ajudar, não precisaria nem de 10% do controle que atualmente exerce sobre nós.Os 90% restantes são intrusão indevida, desnecessária, e obviamente desonesta. Eu não consigo entender como um cérebro de primeira linha, como o seu, não consegue chegar a uma conclusão tão simples como esta.
-Você, Louis, realmente é diferente e você sabe por quê...Você teve pais naturais, viveu com eles até os cinco anos, foi  influenciado por eles. Você sabe muito bem que eles eram saudosistas com ideias sociais que eram comuns há mais de cem anos atrás. Felizmente eu, como a maioria, fui feito com engenharia genética perfeita, não  sou influenciado por esses sentimentos simples. Eu já falei para você recorrer ao Sistema e fazer uma reengenharia genética. Você teria uma vida muito melhor. Você só usa o Controle número um e só porque é obrigatório. É inacreditável que você abra mão dos Controles dois e três.
-O próprio nome já está dizendo, Matt, “controle” . Que tipo de ser humano pode achar que “controle” é bom? Talvez seja bom para o Sistema, não para o indivíduo. Por falar em pais naturais, essa é a coisa preciosa que eu tenho. Não sei como você pode lamentar uma coisa dessas e achar que é bom ter sido feito em laboratório. Realmente, Matt, você perdeu toda a individualidade...E ainda por cima você ainda vem me falar desta história do “Quarto Controle” . Eu acho que isso é definitivamente o fim do ser humano.
Os dois estavam um pouco tensos, principalmente o Louis. Reclinaram em suas poltronas especiais com sensores eletrônicos especiais para relaxamento e se calaram por algum tempo.
O  “Primeiro Controle” do qual Matt estava falando era o equivalente  ao sistema de GPS de 150 anos atrás. Era um controle central representado por dois nano-implantes que todas as pessoas tinham, eram obrigatórios. Eram dois extremamente minúsculos aparelhos  inseridos um na corrente sanguínea e outro em algum ponto aleatório, porém profundo, do corpo. Havia várias hipóteses para explicar o fato de o Sistema colocar dois implantes, todas elas vindas de pessoas leigas. Ninguém sabia ao certo. A mais comum era de que o que ia na corrente sanguínea era mais difícil de se anular pois o sangue está sempre circulando e junto com ele o implante. O fato é que era uma maravilha da engenharia de informação. O Primeiro Controle não fazia só o óbvio: saber com extrema precisão onde você estava. Ia muito mais além. Sabia quem estava com você, que tipo de interação você estava tendo e com quem, sabia o que você estava vendo e em que ângulo, tudo com um detalhamento assustador. Além disso continha o registro histórico de tudo que se passara com você, desde foi colocado em seu corpo, ou seja, em seu primeiro dia de vida.

Havia ainda outras coisas incríveis que o Primeiro Controle poderia fazer, mas ainda assim, o Sistema acabou instituindo mais dois. O Segundo Controle e o Terceiro Controle não eram obrigatórios. Mas eram oferecidos de tal forma que praticamente se tornavam irresistíveis. O Segundo era um controle que oferecia total segurança em termos de bem-estar e saúde. Além de um transmissor central no corpo, ele tinha outros micro-implantes que poderiam emitir tanto quimíca quanto eletrônicamente “socorro” para o corpo. Todos os dados  biológicos, seu estado de saúde e até a solução de um problema, antes de acontecer, estavam ali à disposição do Sistema, que em troca, garantia assistência total. De uma grande central, o Sistema tomava conhecimento detalhado de todos os mínimos detalhes de saúde do participante do programa.Num caso mais grave, o implante acionava uma unidade externa que chegaria até você em segundos, para resolver o problema. Quem se recusaria a ter uma assistência dessas? Privacidade? Que diferença fazia? O Sistema já sabia de tudo.
Havia incríveis formas de se comunicar, do jeito que o cidadão quisesse, o tempo todo. No entanto, o Sistema oferecia um Terceiro Controle: o de comunicações. Através do implante de comunicações você poderia pensar e se comunicar com quem quisesse. O pensamento teria de ser em palavras. A sua conversa precisava ser em palavras mas elas não precisavam ser faladas, só pensadas.
-Matt, você ainda não entendeu? O Segundo e o Terceiro Controles parecem dádivas do sistema, tudo de graça, uma maravilha, porém são exatamente o contrário. Você não percebe que isso é controle total sobre você, você não existe mais como indivíduo? E o Sistema, Matt, quem é o Sistema? Há 30 anos atrás eu poderia te dizer quem era o Sistema. Havia nomes, havia rostos. Podiam ser intocáveis, inatingíveis, mas eles existiam. Agora não existem mais pessoas, só o Sistema. Você não sabe, eu não sei, ninguém sabe quem é o Sistema...
-E o que importa? Não está tudo bem com você? Mesmo sem aderir ao Segundo e ao Terceiro Controles, você tem assistência total, não tem de se preocupar com nada. Você deveria ter um pouco mais de gratidão pelo Sistema. Há duzentos anos atrás as pessoas sabiam quem as comandava. E de que adiantava isso? Havia miséria, pobreza, injustiça, desigualdade. De que adiantava conhecer os líderes?
-Está bem, Matt, eu desisto, eu sei que seu problema não é entender. Você não “sente” o que eu estou falando. Agora, essa história do Quarto Controle, meu amigo, foi muito além da conta. Como você pode sequer considerar uma coisa como essa?
-Louis, isso não é uma coisa que eu vou considerar, já é uma coisa certa. Estou só aguardando minha inclusão no programa e vou me submeter aos implantes.
-É mesmo. Como é mesmo? O Quarto Controle é uma questão de consciência coletiva, é isso que você estava explicando? Explica mais, Matt, eu acho interessante.
Louis usou toda a ironia que podia nas palavras, mas Matt não se importou:
-Você deve tudo ao Sistema e o Sistema somos nós. Você se entrega ao Sistema, deixa que ele tome conta das decisões, mesmo as mais importantes. Afinal de contas, ele têm muito mais capacidade de tomar as decisões do que nós. Ele conhece todos os ângulos, ele conhece todos os interesses coletivos, ele sabe o que é melhor para todos. É muito simples. Como eles dizem, a nossa única preocupação é ser feliz. O resto deixamos para eles.
-Por que, Matt, eles fariam uma coisa dessas? Só por amor aos cidadãos? Ele já têm o controle total e ainda querem mais. Não de mim, Matt. De mim eles só tem o Primeiro Controle, pois sem ele eu seria uma pessoa morta. Fora isso, nem segundo, nem terceiro. O Quarto Controle? Eles vão precisar me matar para fazer esse implante.
Louis deu então uma grande gargalhada. Matt, um pouco ofendido, disse que o Sistema não matava, tudo que eles faziam era em favor da vida. No Sistema não havia morte, só vida.
Alguns dias se passaram e Matt foi chamado para fazer o implante. Deu o consentimento formal através de reconhecimento de retina, e deitou-se na confortável cama. Não demorou nem sequer 30 minutos, ele não viu nada, não sentiu nada. Saiu muito feliz, muito disposto, preparado para aproveitar melhor a vida. Contou ao Louis, que fez uma cara de desaprovação. Agora não tinha mais jeito. Estava feito, pobre do Matt, pensou Louis.
Na semana seguinte, Matt contou para Louis, as grande vantagens do Quarto Controle. Em poucos dias, tinha se livrado completamente de qualquer problema financeiro. Tudo que precisasse, mesmo que fosse uma extravagância, ele teria a segurança de poder adquirir. Tinha acesso a inúmeras informações sobre o sistema, se quisesse. Mas não tinha interesse nisso. Havia sido convidado para participar, na semana seguinte de um programa de conscientização de grupo. O Sistema levantava uma quantidade astronômica de dados e por outro lado fazia um levantamento das maiores necessidades da comunidade. Cada um cederia no que fosse necessário para o grupo e em troca receberia ainda mais vantagens, que viriam de concessões que outros haviam feito. O Sistema fazia uma espécie de balanço de todos os elementos positivos e negativos dentro de um grande grupo e redistribuía tudo. Como a sociedade estava tremendamente adiantada, havia muito mais elementos positivos para serem distribuídos do que coisas negativas para serem delegadas, Era uma situação em que só se ganhava, brincou ele com Louis.
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Na semana seguinte, Louis não viu Matt. Provavelmente ele estava muito envolvido na tal semana de equilíbrio do Quarto Controle e não teve tempo de se socializar com Louis. Quando dez dias haviam se passado e não houve notícia de Matt, Louis resolveu investigar. Teve uma certa dificuldade com o Sistema pois ele não era participante do Segundo e Terceiro Controles. Afinal conseguiu informação através de um amigo que tinha acesso a dados dentro do Sistema, pois ele participava dos três controles.
Ron era seu nome.Quando ele explicou o que havia acontecido para  o Louis, ele mal podia acreditar, embora ele soubesse que o Sistema era capaz de tudo. Matt era extremamente otimista e confiante no Sistema. Assim sendo, na escala de prioridades que ele apresentou para benefício próprio dentro da “redistribuição de vantagens”, como eles chamavam, as suas pretensões eram muito baixas. Ele confiava tanto no Sistema que ele sabia que seria compensado. Pois bem, disse Ron, uma das coisas negativas apresentadas no grupo de Matt era excesso de pessoas com a mesma carcterística e função na sociedade. Era o caso de Matt.  O Sistema precisava de algumas “desistências” dentro desse grupo específico. Matt, pertencendo ao grupo, e tendo colocado requisições tão baixas, foi considerado ideal como indivíduo que pudesse ser “deletado”. Tudo de de acordo com as normas. Matt havia concordado e tudo mais. Matt foi eliminado para que houvesse mais harmonia e balanço dentro de seu grupo. Havia muitos “Matts”.  Lá estava o registro. Há cinco dias atrás ele havia se apresentado a um escritório de controle demográfico e cumpriu seu “dever” como cidadão que respeita as regras, nesse caso as regras do Quarto Controle. Claro que não sofreu, ninguém mais sofria para morrer.
Se ele pudesse falar, pensou Louis, provavelmente iria achar tudo normal. “O sistema sabe o que faz”, ele diria, como disse tantas vezes. Louis olhou de sua janela a incrível paisagem urbana que o “Sistema” havia construído. Agora, no entanto, ele já tinha uma ideia de quanto custava viver na incrível sociedade do futuro. Lembrou-se do olhar quase infantil de Matt e foi dormir. 

Monday, December 26, 2011

Mais um script do Herrera

Mais um script do Herrera

O meu amigo Herrera não para de “bolar” scripts para filmes, mesmo sabendo que jamais vai conseguir um “bico” sequer na indústria cinematográfica. Ele tem pouquíssimas pessoas para quem pode contar suas histórias, além disso, ele sabe que eu adoro cinema...Daí vai, que eu sou sempre o primeiro a ouvir os enredos. A nova trama se desenvolve num tempo, muito, muito distante no futuro. Estamos falando de uma sociedade avançadíssima com tecnologia que mal podemos imaginar. Muito tempo antes disso, todas as doenças haviam desaparecido, as pessoas só morriam por envelhecimento, e a expectativa de vida era enorme...Não falo qual era pois o Herrera não me contou. Pois bem, voltando ao tempo da história, a  única possibilidade de morte era um acidente horrível, porque um simples com inúmeras fraturas, dano cerebral, etc., etc., era fácil de arrumar. Acidente horrível seria aquele em que o corpo do indivíduo ficasse completamente triturado. Algo assim seria difícil de acontecer mas havia a turma da maldade, os famosos “bandidos” do futuro – sinto muito, eles ainda vão existir –que eram especializados em destruir completamente um corpo, além do ponto que fosse recuperável  a não ser que fosse clonado. No entanto eles escondiam os restos para que as células não fossem usadas com esta intenção. O próprio Herrera não gostava desta parte, mas ele me falou que o público sempre gosta de “bandidos”, pois sem eles, como poderia haver os “mocinhos”? Assim sendo, nossos sucessores neste amanhã distante criaram algo fascinante para resolver de vez o problema. Todos as pessoas – quero dizer, seus corpos -  ficariam depositados em um lugar extremamente seguro em estado de coma profundo, ou profundíssimo, segundo Herrera. No entanto, eles estariam ligados a robôs sofisticadíssimos (controlados por outros robôs) que teriam uma vida normal, cheio de beleza,  emoção, aventura. Se algo acontecesse, era só substituir o robô. Emoção à vontade, sem perigos ou riscos. Os seres em coma, nossos bis, bis, (não sei quantos bis) bisnetos desfrutariam de uma vida comparável àquela que se vive no paraíso, absolutamente seguros  vivendo praticamente para sempre. Bom, ele ainda não tinha um final para a história, mas queria saber de mim, se a essência do enredo era bom. Lembrei-me imediatamente do filme “Surrogates” que tem uma linha até certo ponto semelhante a do nosso amigo Herrera. Tinha de ser honesto com o Herrera e falei para ele: “Acho que passaram a sua frente, pois eles já fizeram um filme assim, com final e tudo e já está nas telas. Para ser franco, até ja saiu das telas.” Herrera ficou ao mesmo tempo frustado e furioso com a notícia. Quase senti pena dele...E completou: “Esse pessoal de Hollywood está sempre roubando minhas  ideias...
Veja o trailer do filme que 'roubaram" do Herrera...



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Lançamento (contos de ficção científica):

Histórias do futuro    ($ 3.99- e book)

Brasil


Wednesday, December 14, 2011

O Cachorro do Sr. Pikett

Mr. Pikett feliz com a "perfomance" de seus cães
O Cachorro do Sr. Pikett

O Sr. Pikett tem alguns cachorros, mas não são animais comuns não, são muito especiais. Depois de cheirar as roupas ou pertences da vítima de um crime, eles são capazes de identificar a pessoa que tem o mesmo cheiro, dentre algumas apresentadas a eles. Com certeza você já viu em algum fime aquela fila  de ilustres desconhecidos e um suspeito no meio deles na delegacia de polícia. Normalmente a vítima, se for uma alma viva, aponta ou reconhece o autor do crime. Se foi um assassinato, outra pessoa, uma testemunha, pode fazê-lo, pois o defunto, por motivos óbvios, não vai poder. É a mesma coisa ou quase. Ao invés de olhar, cheira-se, ao invés de ser uma vítima ou uma testemunha, é um cão. Muitas pessoas dizem que isto não é confiável, que pode levar a erros. Outros, principalmente os donos dos cães, acham que o método é infalível. Um deles é  o Sr. Pikett. No mundo forense quase todos os profissionais honestos acham que essas pessoas são charlatães. Uma mulher (Sandra Anderson) até foi presa porque “plantava” restos dos defuntos na cena do crime para “facilitar” o trabalho canino. O Sr. Picket é bastante conhecido no Texas, pois, sendo também policial, colabora com outros colegas de outros condados nesta “luta contra o crime”. Ele vai para todo lado, com seus cães, identificando criminosos. Obviamente ele tem suas compensações.  O problema é que o Sr. Pikett obteve um estranho “record”. Até o momento ele e seu exército canino identificaram pelo menos 15 “criminosos” que foram inocentados após prova indiscutível de que não haviam cometido o crime. Houve casos em que o verdadeiro assassino confessou mais tarde, outros casos em que provas de DNA apontaram para outro suspeito, enfim pelo menos 15 erros crassos. Deve chegar a 20 em breve, com as investgações em andamento O pior é que houve casos em que outras evidências inocentavam o suspeito e a única evidência que incriminava o infeliz era o tal do cheiro. Aparentemente, aquela história, que para se condenar alguém precisamos estar certos “além de qualquer dúvida razoável”,  funciona ao contrário em alguns lugares ( lembra, “beyond a reasonable doubt”? ). Os acusados, que agora se transformaram em vítimas,  estão processando o Sr. Pikett mas até então nada aconteceu com ele. Também não tem  como um cão “cheirar” o dito cujo (Mr. Pikett) e apontá-lo como culpado. O que leva uma pessoa a cometer um abuso, uma monstruosidade dessas? Com certeza todos esses acusados eram pessoas que não podiam pagar um bom advogado.  Será que a motivação é dinheiro? Será? Colocar pessoas inocentes na cadeia por recompensa financeira? Recuso-me a acreditar. Claro, o leitor pode tirar suas próprias conclusões...Aliás, o título desta crônica, “O Cachorro do Sr. Pickett” tem duplo sentido. Fique à vontade, escolha o que achar melhor.

New York Times: Uma história que não "cheira bem"

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