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Saturday, June 16, 2018

Um pássaro azul

Um pássaro azul



O Jenuíno foi o primeiro. Foi ficando esquecido, esquecido, até não se lembrar de mais nada. A gente olhava para ele e ele ficava com aquela cara de interrogação. Não sabia do que a gente estava falando. Seu sorriso era distante, uma vaga impressão de que sabia do que se tratava. Quando o Alberto ficou exatamente do mesmo jeito, e ele era o melhor amigo do Jenuíno, muita gente pensou que era uma coisa que “pegava”. Existe gente que é ignorante, não entende como funcionam essas coisas de bactérias e vírus. Eu também não entendo muito, mas pelo menos sei que loucura não é contagiosa, não dá para pegar. O fato é que o doutor da cidade também descartou essa possibilidade. Disse que o único jeito de descobrir essas coisas era fazendo exames. Coisa sofisticada, em laboratório. Ele já estava providenciando. Essas coisas não podem ser feitas assim, no mais ou menos. Ciência é coisa séria, não é coisa de opinião, muito menos coisa de comadre conversando na rua.
De repente, a coisa pegou fogo. Você pode argumentar o que quiser, mas contra fatos não há argumentos. O doutor Euzébio não conseguiu mandar ninguém para fazer exame na cidade grande. O motivo foi bem simples e ao mesmo tempo assustador. Ele também “pegou” a estranha doença. Coisa de louco, sem querer fazer jogo de palavras com coisa tão séria. Não clinicava mais, só balbuciava umas palavras e tinha aquele mesmo olhar perdido dos outros dois. Agora estava claro. Não só aquilo era coisa que “pegava” como também era coisa do capeta. Imagina só, o próprio doutor. Um homem formado, que sabia das coisas, que conhecia higiene como nenhum outro, pegar uma coisa daquelas. Já pensou quanta cultura ali, desperdiçada?
 O fato é que os moradores começaram a ficar com medo. Tinha gente que fervia água, tinha gente que punha álcool em tudo. Que tolice. Como é que álcool vai impedir uma coisa dessas? Ignorância é uma coisa triste. É verdade que, às vezes, as coisas são tão complexas que até mesmo pessoas inteligentes não conseguem entender. Veja o caso do doutor. Nem ele sabia o que estava acontecendo. A ignorância é também uma coisa relativa. Até o mais sabido de todos pode ser um ignorante. Ele sabe um monte de coisas, porém não sabe outras que estão muito acima dele. O fato é que para entender o que estava acontecendo ali, tinha de ser alguém com uma sabedoria muito grande. Não era qualquer um que podia explicar. Com certeza, não.
A única coisa que se sabia era que aquilo era uma coisa esquisita. Primeiro, dois amigos. Depois o doutor que estava tentando descobrir uma solução. Pode ser coincidência, mas parecia que existia alguém por trás daquilo. Os dias foram passando e os três apareciam de vez em quando na rua, cumprimentavam as pessoas, mas não estavam melhorando. Falavam coisas sem sentido entre eles e com a gente também. Isso à parte, o resto era normal. Comiam, bebiam, andavam pela cidade. Devagarinho a gente foi se acostumando com a ideia. Acho que para isso não acontecer, o ente que estava provocando tudo isso, resolveu dar uma mostra de poder. Em uma só semana, atacou mais cinco. Um parente do doutor, dois tios de sua mulher, um primo do Jenuíno, outro conhecido do Alberto. Tinha lógica e não tinha. Eram parentes ou amigos. No entanto ali na cidade, quase todo mundo acabava sendo parente ou relacionado de alguma forma. Só podia ser doença ou uma coisa sobrenatural. Uns três jovens, todos de certa forma ligados aos “atacados” – como agora eram chamados – resolveram sair da cidade. Nunca se sabe, podia ser mesmo contagioso.
A nossa pequena comunidade era muito isolada do mundo e a gente tinha quase de tudo que precisava por ali. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual ninguém decidiu procurar ajuda, ver o que estava acontecendo. Eu tenho cá para mim que o verdadeiro motivo era o medo. Medo de descobrir o que realmente era. Se fosse uma doença curável, tudo bem A gente fazia o que tinha de fazer. E se não fosse? De repente era uma coisa do mal, e a gente ia ficar numa situação comprometedora. Com essas coisas não se brinca. Do jeito que estava, não estava bom, mas mexer naquilo podia ficar pior. Ninguém falava as coisas claramente, mas dava para saber o que todo mundo estava pensando. Como disse, não era nada bom, entretanto era melhor assim do que ficar pior.
Eles não atrapalhavam ninguém, a gente foi se acostumado de novo e cada vez mais, as coisas foram andando. Todo mundo sabia que não ia ficar por aí. Tem coisa que não tem uma lógica visível, mas dá para saber que é o óbvio. Mais algumas semanas se passaram e mais algumas pessoas ficaram “atacadas”. Depois de alguns meses eram centenas, as pessoas nem avisavam mais. A cidade era pequena, tinha pouco mais de mil habitantes e chegou-se a um ponto onde havia mais “atacados” do que gente normal. Tirando o caso do doutor que tinha uma função muito complexa, os outros todos continuavam a cumprir suas funções sem muitos problemas. Faziam as coisas mecanicamente, como autômatos. Entretanto, a gente sabia que eles não estavam pensando, que seus cérebros não funcionavam.
Éramos agora bem poucos, os “sadios”. E a “coisa” parou por um tempo. Achamos até que tudo tinha acabado. Aí outra coisa esquisita começou a acontecer. Uns pássaros grandes, do tamanho de urubus, começaram a descer na cidade. Mas não eram pretos, não. Eram de um azul escuro, muito bonito. Também não eram agressivos. Ficavam por ali, andando ao invés de voar. Vez ou outra eles voavam um pouco, mas voltavam. Havia centenas. Ninguém podia dizer do que se alimentavam. Ficavam bem à vontade, não pareciam ter medo da gente. Às vezes pousavam sobre nossos ombros, bem amigáveis. Vá se entender. Se não fosse o problema que a gente já tinha, ia ser uma confusão danada. Mas o que era aquilo perto do que nós estávamos passando?

Finalmente todos ficaram “atacados”. A gente sabia que isso ia acabar acontecendo. Eu fui o último. Agora, aqui de cima, posso ver meu corpo, lá embaixo, andando pela cidade, fazendo as coisas que precisam ser feitas. Assim, sem saber o que está acontecendo. Mas sou eu mesmo que decido para onde meu corpo vai, o que vai fazer, o que vai comer. Não estou falando de meu corpo de pássaro. Estou falando do meu corpo de gente. Só não consigo falar, e estou me esquecendo de quase tudo. Mas agora, pelo menos, as coisas fazem sentido. Eu sou um belo pássaro azul, consigo controlar meu corpo. Só não dá para a gente conversar com os outros pássaros, quero dizer, com os outros habitantes da cidade. Mas a gente se entende. Voa um pouquinho, pousa lá na rua. A gente se vê por aí. Eu sou um belo pássaro azul. Bonito mesmo. Como disse, as coisas agora se encaixam. Claro, não têm explicação, a causa nós não sabemos. Mas quem sabe a causa de alguma coisa? A gente não sabe de nada, ninguém sabe como tudo começou. Claro, estou falando agora do mundo, do Universo. Como as coisas apareceram? Quem sabe? Nós não sabemos nada. Pelo menos, eu sei agora, que eu sou um pássaro azul. Bonito. Quando quero, posso voltar para o chão. Quando quero, posso voar. Isso é mais do que suficiente. Para que eu iria querer saber mais? Não precisa. Ser um pássaro, e ainda mais azul, é para mim, mais do que suficiente, pelo menos por enquanto...


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Thursday, June 6, 2013

Homens que desaparecem



Onde foi parar o Honório?

No princípio não dei muita atenção ao Hilário. Bom sujeito, mas sempre foi meio estranho. Mas devia, como você mesmo vai deduzir. Mas ainda não está na hora de se fazer consideração a respeito. Primeiro vamos aos fatos. Só uma última coisa antes deles, porém. O Hilário é esquisito sim, mas às vezes as coisas do mundo também são. Mais do que imaginamos.
Aposentado que era, fui morar em um sítio longe da cidade. Um lugar especial. Era um grande pedaço de terra que foi dividido em sete chácaras. Talvez por causa da topografia do terreno, talvez porque o dono anterior gostava do número bíblico. Enfim, comprei o meu quinhão. O terreno era ligeiramente inclinado, de forma que podiam ser vistas do meu lado as três propriedades e, do outro as outras quatro. Cada um construiu sua casa, alguns de nós construímos um pequeno celeiro e começamos a nova vida de vizinhos. Além de outras, uma curiosidade sobre a nossa pequena comunidade era que todos éramos casais e morávamos sós. A maior parte tinha filhos, porém já eram crescidos e andavam pela vida.
Embora ao longe, dava para se ver a atividade diária dos habitantes. Todo mundo plantava um pouco, criava alguns animais, enfim cuidava de sua vida. Vez ou outra íamos uns até a casa dos outros para conversar um pouco, perguntar alguma coisa, pedir algo emprestado, enfim, fazer coisas que vizinhos fazem.
O Hilário porém gostava de conversar mais do que qualquer outro. Não sei se era por causa da quietude da sua mulher, ou se ele era assim mesmo, coisa de nascença, só sei que ele não podia passar muito tempo sem trocar uma palavrinha. Já vinha, já sentava na velha cadeira de balanço que eu tinha na minha varanda. Eu não me incomodava, até que era bom. Aí ele começava seus “causos”. Um mais estranho que o outro. Uma pena que ele não fosse um homem de letras, um escritor, pois seria um bom contador de histórias. Fantásticas, é claro.
O tempo foi passando e nós todos, amadurecendo e branqueando os cabelos para não contrariar a mãe natureza, fomos seguindo em nossas vidas. Depois de quase dois anos que estávamos lá, a loucura do Hilário parece que estava chegando a um ponto crítico. Um dia ele chegou em casa, agitado e contou uma história estranha sobre um de nossos vizinhos, o Honório. Eu não entendi quase nada do que ele falou e, quando pedi para ele repetir com calma o ocorrido, ele disse que estava com pressa e saiu quase correndo de minha casa.
Três dias depois, já mais calmo, ele sentou-se nos degraus da escada de madeira que levava até minha varanda e começou a falar comigo, que estava em pé, em frente à casa:
-O Honório sumiu de casa. A Dona Inácia está um desespero só. Ela estava no quarto, costurando e o marido estava no jardim. Depois de uma meia hora que não o via, começou a chamar pelo seu nome. Nada. Saiu preocupada para o quintal, já pensando o pior. Afinal o Honório é freguês de carteirinha da clínica de coração lá da cidade. Felizmente ou infelizmente, não era isso. O Honório, simplesmente tinha evaporado. Ela andou pela estrada, foi até aquela vendinha a uns três quilômetros daqui, vissitou algumas casas e , nada.
-Quando foi isso, Hilário?
-Faz três dias hoje. Hoje às três e quarenta da tarde vai fazer três dias que o Honório sumiu.
-Três dias!
 -A Dona Inácia já foi à polícia?
-Você sabe, ela não dirige, não tem jeito para essas coisas e, além disso, a gente sabe que eles não vão fazer nada.
-Mesmo assim é preciso. Essas coisas precisam ser documentadas.
-E o pior é que agora, tem uma tal de raposa que aparece lá na casa dela a toda hora e quer entrar. Parece que a danada, ou o danado, sabe que o dono não está em casa. Ela morre de medo. Em todo caso, ela falou que parece que o bichinho não é agressivo. De qualquer jeito, é esquisito. Eu nunca vi raposas por essas bandas.
Fiquei cismado. De qualquer forma, por mais lunático que o Hilário fosse, não poderia ter inventado uma coisa dessas. Resolovi dar uma passada lá. Encontrei a Dona Inácia soluçando. Ela confirmou a história toda, tim-tim por tim-tim. Fiquei um pouco envergonhado de achar que o Hilário estava exagerando. Levei, meio à foça, a pobre mulher até a cidade para registrar o desaparecimento do Honório. Na saída, o policial falou qualquer coisa a respeito da antiga propriedade, antes de nós comprarmos. Qualquer coisa de maldição ou coisa assim. Acho que ele tinha um disfarçado ar de escárnio quando falou. Nem eu nem Dona Inácia demos importância para o homem. Na volta, perguntei a ela se queria que eu pusesse uma armadilha para pegar a raposa. Ela disse que não, que já tinha se acostumado, ela era até simpática e fazia companhia.
Passaram-se três semanas e nada. Por solidariedade, quase todo dia eu passava pela casa da Dona Inácia. Ela já estava mais conformada. A raposa, agora estava confirmado, era um macho, tinha se instalado lá definitivamente. Dormia dentro de casa e tudo. Comecei a rarear minhas visitas mas coloquei-me à disposição para qualquer coisa.

Hildebrando e o cavalo malhado

O Hilário continuou a me visistar regularmente. Cada vez vinha com uma interpretação a respeito do sumiço de nosso vizinho. Tudo que se possa imaginar.Um dia ele até sugeriu que o raposo, agora devidamente qualificado quanto ao gênero, havia engolido o “seu” Honório para ficar mais perto da Dona Inácia. Minha esposa, Linda, nunca se incomodou com a presença do Hilário. Nesse dia, porém, ela ouviu um pedaço desta história e achou melhor que eu diminuísse meus contatos com ele. Ele precisava consultar um especialista, disse ela. “Esse homem não está bem da cabeça”, ela me confidenciou.  Naquele mesmo dia, por algum motivo, a Linda resolveu visitar a Dona Inácia comigo. Teve pena dela, mas achou que ela estava bem. Estranhou, entretanto, a presença do raposo, ali, como se fosse um cachorro, dentro de casa.

A gente acaba se acostumando com a desgraça, mesmo uma desgraça estranha como essa. Mas a gente sabe também, que uma desgraça nunca vem só. Vem em dupla e, às vezes, Deus me livre, vem até em cachos. E não é que na tarde seguinte à nossa visita para a senhora Inácia, me chega o Hilário com mais uma história? Ninguém sabia onde o Hildebrando tinha se metido. A esposa, Dona Carolina, estava desesperada, principalmente por causa dos eventos recentes. Todos os vizinhos estavam ajudando, olhando pela redondeza, procurando ao longo da estrada. No dia seguinte, fomos até a polícia e registramos o fato. Pensei que o detetive fosse achar estranho, fosse perguntar alguma coisa, mas nada disso aconteceu. Simplesmente registrou a ocorrência. Algo dentro de mim dizia que tudo iria ficar por isso mesmo, como aconteceu com o “seu” Honório. E não deu outra. Pior que isso, aconteceu ainda algo mais estranho. Apareceu lá um cavalo malhado, bonito, e não havia jeito de o bicho ir embora. Fizemos um mutirão nas redondezas para descobrir quem era o dono, mas nada. Nunca ninguém tinha visto aquele animal antes. Obviamente a Dona Carolina não permitiu que ele entrasse em casa, mas que ele queria, queria. Dessa forma, ficava lá pelo quintal, dia e noite. Quando tinha uma chance, enfiava a cabeça pela janela para espiar o que a Dona Carolina estava fazendo.
Desta vez tive que aguentar o Hilário com toda a força. “Você não consegue ver?”,  dizia ele. Os fatos estão relacionados: antes um raposo, agora um cavalo! E as hipóteses para explicar os fatos jorravam aos borbotões da boca de Hilário.Os outros vizinhos estavam preocupados mas ninguém nunca mencionou o aspecto do aparecimento dos animais.
Eu pensei que a cota de acontecimentos estranhos em minha vida e em minha comunidade tinha se esgotado. Estava enganado. Num belo dia, cinquenta dias depois do último desaparecimento, numa mesma manhã, nada menos do que três homens desapareceram. Na mesma noite, dois gatos e um galo repetiram o ritual. Cada um em cada casa, apareceram e queriam se instalar nas mesmas. O absurdo era óbvio e ainda assim eu não queria acreditar que fosse algo sobrenatural ou semelhante. Não conseguia disfarçar, porém, e o Hilário já tinha percebido. Agora ele não queria mais explicar nada. Estava preocupado consigo mesmo e, segundo ele, comigo também. Estava óbvio, segundo ele,  nós éramos os próximos depois do Hélio, do Hermes e do Homero. Pela primeira vez cheguei a me preocupar e achar que aquilo podia chegar até mim. Procurava, em minha mente, alguma explicação lógica. Desconfiei, de certa maneira dos policiais. Aquela frieza, aquela naturalidade, diante de coisas tão extraordinárias. Por quê?
No dia seguinte, o Hilário confirmou: os dois gatos e o galo haviam se instalado nas casas. Nesse mesmo dia, as mulheres, novas vítimas da tragédia, foram até a minha casa. Falaram comigo e eu não conseguia arrumar palavras para acalmá-las. Minha esposa levou-as para dentro e conversou com elas. Escutei parte do que falavam. Ela disse que tinha de haver alguma explicação. Obviamente havia algo por trás daquilo, talvez alguém interessado em que vendêssemos as terras. Linda sempre fora bastante racional e eu tentava acompanhá-la, mas desta vez, a coisa era comigo. As mulheres não estavam desaparecendo, eram os homens que estavam.
Ficou resolvido. No dia seguinte, todos nós, os dois casais que haviam sobrado e as outras cinco mulheres, iríamos para o centro da cidade falar com a polícia, com o prefeito, com quem quer que fosse. Aquilo precisava de uma explicação, de uma solução.

Essa do coelho eu não esperava

Acordei cedo e logo percebi que algo muito estranho estava acontecendo. Senti um cheiro forte de grama e percebi que estivera dormindo sobre algo úmido. Eu estava fora de casa, no quintal. Escutei uns latidos de cachorro e olhei para trás. Um cão médio, de cor marrom clara, olhava para mim, com cara de bonachão. Ninguém precisou falar, ninguém precisou explicar. Eu sabia que aquele era o Hilário e ele sabia que eu sabia também. Ele olhou para mim meio esquisito mas nós dois evitamos comentar o ocorrido. Aconteceu o que tinha de acontecer. Como dizem, estava escrito nas estrelas. Não sei por quê, achei bem lá dentro de mim, que o Hilário, involuntariamente, era quem estava causando aquilo. Dizem que tem gente que pensa tão forte nas coisas, que elas acabam acontecendo. E pensar em estranhezas, ele pensava. Não que ele quisesse, era uma coisa de seu espírito. No fundo, isso é uma bobagem, mas eu ficava pensando...
Andei com ele pela vizinhança. Embora não conseguíssemos conversar, por motivos óbvios, ou seja, sendo ele um cachorro, nós nos entendíamos muito bem. Passamos pela casa dos vizinhos, demos uma olhada geral, parecia tudo normal. Quero dizer, normal dentro da nova ordem.
Bem mais tarde, voltei para casa. Um carro de polícia estava em frente ao portão. No quintal, minha esposa e três policiais conversavam. Linda gesticulava, mostrava, falava. Os homens  da lei tomavam notas. Um deles parecia ter um pequeno sorriso de gozação, mas podia ser que fosse pura imaginação minha.
A Linda nem percebeu que eu estava chegando. Fui me encostando, queria tomar parte da conversa. Foi aí que percebi que minha voz não saía. Pior que isso, foi aí que percebi que eu era um coelho. Ainda pior, minha mulher quase pisou em mim.
Como disse anteriormente, a gente acaba se acostumando com tudo. Mesmo com as coisas mais estranhas. Agora vivo por aqui, na minha própria casa. Depois de eu muito insistir, não com palavras, mas com atitudes, a Linda me deixou dormir dentro. Imagina só. Eu, um coelho dentro de minha própria casa.
Eu desconfio que ela desconfia que o coelho sou eu. Ela tem certeza de que o cachorro é o Hilário, pois eu ouvi quando ela falou isso com a Dona Inácia. Pelo jeito que ela acaricia minha cabeça, ela só pode achar que sou eu. Ela acabou se acostumando, eu também. Acho que a gente se acostuma com tudo, como já disse antes.
Por falar nisso, meu nome é Honofre. Isso mesmp com H. Acho que o escrivão não sabia disso quando me registrou. Como você deve ter notado, todos os homens que desapareceram têm seu nome começado por H. Claro que é coincidência. Ou não. Nesta minha situação, na verdade, não faz diferença. Agora que tenho mais tempo e já me habituei com meu novo “status”, fico às vezes pensando...Será que se o meu pai tivesse me registrado corretamente, Onofre com “o”, será que meu destino seria diferente? Difícil dizer...Existem coisas que não tem explicação. Não, não têm...