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Saturday, June 16, 2018

Um pássaro azul

Um pássaro azul



O Jenuíno foi o primeiro. Foi ficando esquecido, esquecido, até não se lembrar de mais nada. A gente olhava para ele e ele ficava com aquela cara de interrogação. Não sabia do que a gente estava falando. Seu sorriso era distante, uma vaga impressão de que sabia do que se tratava. Quando o Alberto ficou exatamente do mesmo jeito, e ele era o melhor amigo do Jenuíno, muita gente pensou que era uma coisa que “pegava”. Existe gente que é ignorante, não entende como funcionam essas coisas de bactérias e vírus. Eu também não entendo muito, mas pelo menos sei que loucura não é contagiosa, não dá para pegar. O fato é que o doutor da cidade também descartou essa possibilidade. Disse que o único jeito de descobrir essas coisas era fazendo exames. Coisa sofisticada, em laboratório. Ele já estava providenciando. Essas coisas não podem ser feitas assim, no mais ou menos. Ciência é coisa séria, não é coisa de opinião, muito menos coisa de comadre conversando na rua.
De repente, a coisa pegou fogo. Você pode argumentar o que quiser, mas contra fatos não há argumentos. O doutor Euzébio não conseguiu mandar ninguém para fazer exame na cidade grande. O motivo foi bem simples e ao mesmo tempo assustador. Ele também “pegou” a estranha doença. Coisa de louco, sem querer fazer jogo de palavras com coisa tão séria. Não clinicava mais, só balbuciava umas palavras e tinha aquele mesmo olhar perdido dos outros dois. Agora estava claro. Não só aquilo era coisa que “pegava” como também era coisa do capeta. Imagina só, o próprio doutor. Um homem formado, que sabia das coisas, que conhecia higiene como nenhum outro, pegar uma coisa daquelas. Já pensou quanta cultura ali, desperdiçada?
 O fato é que os moradores começaram a ficar com medo. Tinha gente que fervia água, tinha gente que punha álcool em tudo. Que tolice. Como é que álcool vai impedir uma coisa dessas? Ignorância é uma coisa triste. É verdade que, às vezes, as coisas são tão complexas que até mesmo pessoas inteligentes não conseguem entender. Veja o caso do doutor. Nem ele sabia o que estava acontecendo. A ignorância é também uma coisa relativa. Até o mais sabido de todos pode ser um ignorante. Ele sabe um monte de coisas, porém não sabe outras que estão muito acima dele. O fato é que para entender o que estava acontecendo ali, tinha de ser alguém com uma sabedoria muito grande. Não era qualquer um que podia explicar. Com certeza, não.
A única coisa que se sabia era que aquilo era uma coisa esquisita. Primeiro, dois amigos. Depois o doutor que estava tentando descobrir uma solução. Pode ser coincidência, mas parecia que existia alguém por trás daquilo. Os dias foram passando e os três apareciam de vez em quando na rua, cumprimentavam as pessoas, mas não estavam melhorando. Falavam coisas sem sentido entre eles e com a gente também. Isso à parte, o resto era normal. Comiam, bebiam, andavam pela cidade. Devagarinho a gente foi se acostumando com a ideia. Acho que para isso não acontecer, o ente que estava provocando tudo isso, resolveu dar uma mostra de poder. Em uma só semana, atacou mais cinco. Um parente do doutor, dois tios de sua mulher, um primo do Jenuíno, outro conhecido do Alberto. Tinha lógica e não tinha. Eram parentes ou amigos. No entanto ali na cidade, quase todo mundo acabava sendo parente ou relacionado de alguma forma. Só podia ser doença ou uma coisa sobrenatural. Uns três jovens, todos de certa forma ligados aos “atacados” – como agora eram chamados – resolveram sair da cidade. Nunca se sabe, podia ser mesmo contagioso.
A nossa pequena comunidade era muito isolada do mundo e a gente tinha quase de tudo que precisava por ali. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual ninguém decidiu procurar ajuda, ver o que estava acontecendo. Eu tenho cá para mim que o verdadeiro motivo era o medo. Medo de descobrir o que realmente era. Se fosse uma doença curável, tudo bem A gente fazia o que tinha de fazer. E se não fosse? De repente era uma coisa do mal, e a gente ia ficar numa situação comprometedora. Com essas coisas não se brinca. Do jeito que estava, não estava bom, mas mexer naquilo podia ficar pior. Ninguém falava as coisas claramente, mas dava para saber o que todo mundo estava pensando. Como disse, não era nada bom, entretanto era melhor assim do que ficar pior.
Eles não atrapalhavam ninguém, a gente foi se acostumado de novo e cada vez mais, as coisas foram andando. Todo mundo sabia que não ia ficar por aí. Tem coisa que não tem uma lógica visível, mas dá para saber que é o óbvio. Mais algumas semanas se passaram e mais algumas pessoas ficaram “atacadas”. Depois de alguns meses eram centenas, as pessoas nem avisavam mais. A cidade era pequena, tinha pouco mais de mil habitantes e chegou-se a um ponto onde havia mais “atacados” do que gente normal. Tirando o caso do doutor que tinha uma função muito complexa, os outros todos continuavam a cumprir suas funções sem muitos problemas. Faziam as coisas mecanicamente, como autômatos. Entretanto, a gente sabia que eles não estavam pensando, que seus cérebros não funcionavam.
Éramos agora bem poucos, os “sadios”. E a “coisa” parou por um tempo. Achamos até que tudo tinha acabado. Aí outra coisa esquisita começou a acontecer. Uns pássaros grandes, do tamanho de urubus, começaram a descer na cidade. Mas não eram pretos, não. Eram de um azul escuro, muito bonito. Também não eram agressivos. Ficavam por ali, andando ao invés de voar. Vez ou outra eles voavam um pouco, mas voltavam. Havia centenas. Ninguém podia dizer do que se alimentavam. Ficavam bem à vontade, não pareciam ter medo da gente. Às vezes pousavam sobre nossos ombros, bem amigáveis. Vá se entender. Se não fosse o problema que a gente já tinha, ia ser uma confusão danada. Mas o que era aquilo perto do que nós estávamos passando?

Finalmente todos ficaram “atacados”. A gente sabia que isso ia acabar acontecendo. Eu fui o último. Agora, aqui de cima, posso ver meu corpo, lá embaixo, andando pela cidade, fazendo as coisas que precisam ser feitas. Assim, sem saber o que está acontecendo. Mas sou eu mesmo que decido para onde meu corpo vai, o que vai fazer, o que vai comer. Não estou falando de meu corpo de pássaro. Estou falando do meu corpo de gente. Só não consigo falar, e estou me esquecendo de quase tudo. Mas agora, pelo menos, as coisas fazem sentido. Eu sou um belo pássaro azul, consigo controlar meu corpo. Só não dá para a gente conversar com os outros pássaros, quero dizer, com os outros habitantes da cidade. Mas a gente se entende. Voa um pouquinho, pousa lá na rua. A gente se vê por aí. Eu sou um belo pássaro azul. Bonito mesmo. Como disse, as coisas agora se encaixam. Claro, não têm explicação, a causa nós não sabemos. Mas quem sabe a causa de alguma coisa? A gente não sabe de nada, ninguém sabe como tudo começou. Claro, estou falando agora do mundo, do Universo. Como as coisas apareceram? Quem sabe? Nós não sabemos nada. Pelo menos, eu sei agora, que eu sou um pássaro azul. Bonito. Quando quero, posso voltar para o chão. Quando quero, posso voar. Isso é mais do que suficiente. Para que eu iria querer saber mais? Não precisa. Ser um pássaro, e ainda mais azul, é para mim, mais do que suficiente, pelo menos por enquanto...


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Thursday, April 9, 2015

Uma cidade chamada “Céu Estrelado”


Uma cidade chamada “Céu Estrelado”




Estavam todos dormindo na pequena vila quando se ouviu um som surdo, grave. Demorou uns dois ou três minutos. Ninguém sabia o que era, mas todo mundo acordou e ouviu. Entretanto ninguém se preocupou em levantar e verificar o ocorrido. Quase todas as pessoas tiveram a mesma ideia: se é algum problema, alguém vai lá ajudar. Sempre alguém ajuda. Só de manhã que todos ficaram sabendo da coisa ruim. O “seu” Valério foi o primeiro, depois a “dona” Saméria. Os outros, praticamente todo mundo, vieram logo a seguir, quando esses dois primeiros saíram correndo para dar a notícia.
Um grande, profundo e assustador buraco, havia aparecido bem no meio da praça. Engoliu, sem cerimônia, o coreto, os bancos ao redor, a estátua do fundador da cidade, as árvores, tudo. Só parou na frente da igreja. Foi assim que pela frente não dava para entrar. O padre conseguiu fazê-lo pelos fundos, numa porta que era um acesso para a sacristia.
Diante de tão grande tragédia, o sacerdote esperava que os fiéis viessem para a missa, de tal forma que pudessem iniciar a negociação com Deus para resolver aquela profundidade de problema. A fé não era tanta assim e todo mundo ficou com medo do resto desmoronar e levar a igreja junto, com eles lá dentro. Nem as beatas mais fervorosas arriscaram. É nessa hora que a gente vê a fé verdadeira. Mas quem sou eu para criticar? Não sei o que eu mesmo faria numa situação dessas.
Começaram as especulações. Coisa da geografia, movimentação de terra, lençóis de água e tudo mais... Muitas teorias, além daquelas que não são tão científicas, como uma maldição antiga, coisa do demo. O Vigário, com certeza, sabia que aquilo estava relacionado com a degradação dos costumes, o adultério que se alastrava como erva daninha pela cidade. Mas não era coisa de Deus, não. Aquilo era coisa do maligno, explicou. Todo mundo podia perceber que o danado parou bem em frente do edifício sagrado. Ali o chefe das trevas não tinha chance, precisou parar. Alguém tinha dúvida? Estava escrito com todas as letras, era só ler a mensagem. O “seu” Isidoro não entendeu direito pois não conseguia ver nada escrito em lugar nenhum.  A única coisa que ele via era aquela cratera enorme. Quando explicaram para ele que aquilo era uma metáfora, daí ele se perdeu de vez. Existe gente que é mesmo exibida, como você vai querer que alguém que não entendeu algo tão simples, vá saber o que significa “metáfora”? É explicar uma coisa difícil com outra mais difícil ainda.
O prefeito, ao contrário do que se esperava, não quis enumerar as prováveis  causas. Disse que teria de haver um estudo. Mas o que o preocupava mesmo era que aquilo era uma chateação. Aquela coisa grotesca bem no meio da paisagem urbana. Se fosse na periferia, numa vila qualquer, tudo bem. Talvez fosse até bom. Podia dar emprego, movimentava a administração. Ele poderia dar uma de eficiente, de pai de todos, aquele que ajuda quem precisa. Mas ali, no coração de tudo, a um bloco da sede da prefeitura, aquilo era uma indignação. E o pior que o maldito era profundo e de tal forma construído – melhor dizer, “desconstruído” – que não se via onde terminava. Parecia mesmo uma coisa de outro mundo, em todos os sentidos que esta expressão tem. Alguém sugeriu jogar todo o lixo da cidade ali, até encher o danado. Mas depois, e com razão, alguém argumentou que não ficaria bem ter um lixão bem ali na praça, e ainda mais, na frente da igreja. Encher aquilo tudo com terra e pedras, ia dar um trabalho monstruoso, além de custar um dinheirão. Coisa que a cidade não tinha e que certamente o governo estadual não iria dar, tal era a crise econômica em toda a nação.
Assim foi que a solução do problema, se é que ela existia, foi adiada por tempo indeterminado. O prefeito tinha esperança de que, pelo menos, alguns turistas aparecessem e trouxessem alguma ajuda econômica para o seu governo. Que nada, ninguém estava interessado em buracos.
Claro, a mando da prefeitura, foi colocada uma cerca ao redor, para evitar um mal maior, se é que é possível um mal ser maior ainda. Mesmo sem poder mais ver claramente o fundo do buraco – assustador – ninguém conseguia deixar de pensar nele. Os habitantes não só pensavam, sonhavam também com o dito cujo. Cada um com seu sonho, um mais esquisito do que o outro. Depois de algum tempo, alguns sonhos começaram a se repetir, e as pessoas começaram a sonhar sonhos parecidos e até iguais. Aquilo parecia uma comoção coletiva. Um dos mais comuns – e até dá para entender – era de que máquinas e caminhões trabalhavam intensamente para encher a cratera. Alguns já sonhavam com a coisa pronta. Uma praça novinha em folha, com uma bandinha tocando no coreto.
Sonhar é bom.
Eles foram ficando cada vez mais intensos e cada vez mais parecidos. Deve haver alguma explicação. Tenho certeza de que os psicólogos e os psiquiatras sabem exatamente o porquê disso tudo.
Finalmente, numa noite de sábado, houve um grande sonho. Todos, sem exceção, sonharam exatamente a mesma coisa. Foi um sonho coletivo, de fato. E era assim: no domingo de manhã, escutaram uma linda marchinha sendo tocada por uma banda, impecável, vestida de branco e usando dragonas cor de ouro. A música era irresistível. Todos se levantaram, puseram a melhor roupa que tinham e se dirigiram para a praça. O padre insistia que todos deveriam primeiro ir à missa – nunca mais ninguém tinha ido à missa – e depois assistir a banda. Mas, como foi explicado, a música era irresistível e mesmo o pároco acabou indo para lá, na esperança de todos depois irem para a cerimônia eclesiástica, assim que a apresentação musical terminasse. E era uma coisa linda. As notas penetravam nos ouvidos, na alma. As pessoas quase se sentiam culpadas de se sentirem tão felizes. Neste sonho, o buraco não estava mais lá. Uma praça elegante, cheia de árvores e bancos. Os músicos, sublimes, como se fossem anjos, tocavam, tocavam...
Mas veja você, o que de fato aconteceu. Por isso que alguns dizem que sonhar é perigoso. Daquele, ninguém nunca mais acordou. O que aconteceu, na verdade, é que, sonâmbulos, levantaram-se de suas camas e, enganados por aquela música fatal, que não era real, dirigiram –se para o grande buraco, pensando que era a nova praça. Foram todos, sem exceção, caindo, caindo. Acho que a sensação de êxtase veio de quando eles estavam pairando no ar, antes de chegar ao fundo. Digo isto porque sempre há uma relação entre o que a gente sonha e o mundo exterior, verdadeiro, aquele que nos cerca. Aquela sensação divina que eles sentiam, com aquela banda tocando como se fossem anjos... Não sei, talvez eles estivessem indo para o céu e tivessem confundido a banda com os anjos. Mas aí já estamos entrando numa área complicada, de filosofia, de metafísica.
O fato é que todo mundo morreu com a queda, pois a altura era realmente muito grande. Uma coisa que não dá nem para pensar, a cidade toda, sonâmbula, se jogando naquele abismo, pensando numa onírica e festiva banda. Não sobrou ninguém para contar o que aconteceu para as autoridades estaduais e federais quando eles chegaram para examinar a tragédia. Nenhum corpo foi recuperado, devido à profundidade.
Não sei o que aconteceu depois. Parece que o buraco foi se enchendo de água com o tempo, até virar um lago. Ninguém vai lá porque é perigoso e profundo. Está cercado e é tudo proibido.

O nome da cidade era “Céu Estrelado”.  Pena que não tenha sobrado ninguém, pois iria perguntar a origem desse nome. Como é que escolheram essas palavras, etc. Isso é interessante, gosto de saber. A origem dos nomes é simbólica, pode trazer luz para os fatos. Às vezes é só um nome, nada mais. Mas, como dizem, não sobrou ninguém para contar a história, assim não se sabe o porquê de “Céu Estrelado”.

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Friday, June 7, 2013

A hora dos lobos


A hora dos lobos

Lobos famintos e ferozes atacariam a vila no  meio da noite. Era preciso vigiar. Eles eram enormes. Do tamanho de um boi. Não adiantava atirar, não adiantava se defender. Queriam carne, queriam sangue de gente. Era a sina.
O Dino repetia isso o tempo todo, mas com as palavras dele, com a voz dele, com o jeito dele. E não era fácil de entender, não. Eram praticamente uns grunhidos. Era tudo que ele conseguia fazer com todos os problemas que tinha. Ele, coitado, era retardado, doente mental. Muito poucas pessoas entendiam o que ele falava, mesmo assim, prestando muita atenção. Uma delas era o Sandro. Além de ter pena do coitado, ele achava também que havia algo de bondade nele, alguma coisa espirirtual, sei lá. Provavelmente era besteira, mas era o que ele sentia.
O Dino morava com a mãe, muito velhinha. Tinha coisas que ela não conseguia mais  fazer na sua velhice, tinha coisas que ele não podia fazer no seu atraso mental. Juntavam, então, o pouquinho que cada um podia e tocavam a vida. Às vezes precisavam de uma ajudazinha aqui e acolá e acabam sempre tendo uma mão amiga. Viviam da pensão que o pai, falecido, tinha deixado.
Toda noite, por volta das dez, o Dino saía de casa e entrava no bosque que havia perto de sua casa. Era grande e se estendia até perder de vista. Escuro como  breu. Não se sabe como o Dino conseguia andar por lá . Ficava umas três horas lá dentro e depois voltava. Toda vez que o Sandro perguntava, ele dizia que ia lá acalmar os lobos, dizer para eles não virem. Tinha de conversar, cantar baixinho para eles se acalmarem. Era o único jeito. Não podia falhar uma só noite, pois, do contrário, eles viriam para vila e matariam pessoas até ficarem saciados. Tudo isso o Dino dizia, do jeito dele, com a voz dele. O Sandro era o único que acreditava. Quase acreditava.
Era uma missão importante, essa do Dino. Tinha gente cuja vida dependia dele. Ele não gostava de deixar a mãe sozinha à noite, mas aquilo era uma coisa sagrada que só ele podia fazer.  Acalmar os bichos, conversar  com eles, era seu destino e só seu.
O Dino, durante o dia, andava para lá e para cá, com aquele jeito desajeitado que ele tinha. Meio desengonçado, ia atravessando as ruas, sem muito olhar. Não havia muito perigo, pois havia poucos carros e todo mundo já o conhecia na redondeza. Viam aquela figura manquitolante, lá de longe, e já diminuíam a marcha.
Naquele dia, porém, havia alguém de fora chegando na cidade. Quando percebeu, o Dino estava bem na frente do carro, não teve como desviar. A velocidade não era muita, mas pegou o coitado de jeito. Foi levado para a  Santa Casa, em estado nada bom. A  cabeça que já não era muito certa, levou uma pancada também.



Logo chegou o Sandro, comovido com a notícia. O atropelado estava dormindo, mas assim que percebeu a chegada do amigo, acordou e ficou agitado. Queria falar alguma coisa. Sandro encostou os ouvidos na boca do enfermo. Mal dava para perceber o que ele falava, mas o Sandro já tinha prática e entendeu tudo. Era para ele ir embora da cidade por uns dias. Não tinha como evitar, os lobos iam atacar. Não dava para ele ir conversar com eles naquela noite, para acalmar, para cantar. Ninguém podia evitar, ele tinha de sair.
Sandro, apesar de assustado, não conseguia acreditar naquilo que o Dino falava. Ainda assim, como tinha uma visita pendente para um irmão na cidade vizinha, usou esta desculpa para si mesmo e viajou.
Três dias depois, voltou.  O Dino, pobre, tinha falecido e jazia no pequeno cemitério da vila. Na rua de sua casa, que era bem perto da rua do Sandro, uma grande desgraça. Na noite anterior, houve assassinatos em cinco casas. Treze pessoas, no total, haviam morrido e pouco tinha sobrado delas. Quem – ou o que - quer que tenha atacado, ou jogou a maior parte dos pedaços dos corpos fora, ou os tinha comido. Tinha sobrado pouca coisa. Sangue nas paredes, sangue no chão, sangue na porta. Nas casas ninguém restou para contar como foi que tudo aconteceu. Uma tragédia.
Ninguém conseguiu relacionar  o que o Dino costumava falar com o que tinha acontecido. Ou porque num evento de tal magnitude, simplesmemente ninguém se lembrou da pobre figura, ou talvez porque nunca ninguém tinha entendido direito o que ele estava dizendo. Só o Sandro sabia.
O Sandro sabia também que os lobos não voltariam mais. Acho que o Dino tinha explicado para ele uma vez que, se eles atacassem, iam atacar só uma vez.
Sandro morou na pequena localidade pelo resto de sua vida. Sempre houve muita paz depois disso. Muitas vezes ele ficava pensando  que aquilo era uma pena que a cidade tinha de pagar, às vezes pensava que era coincidência e tudo tinha sido feito por um assassino maníaco que passava casualmente por ali. Nunca a polícia descobriu o que realmente tinha acontecido.

 O fato é que aconteceu tudo do jeito que o Dino falou. Acho que às vezes Deus fala através dos tolos e o diabo através dos lobos. Quem quiser acreditar, que acredite. Todos são filhos de Deus e Ele escolhe quem ele quiser para ser seu mensageiro. Pode ser também que o Dino tivesse premonição.  E, por que não? Ou ainda podia ser que na loucura dele, ele tinha capacidade de criar monstros na vida real, na forma de lobos ou não. Acho, porém, que isso é improvável.  A única coisa certa, é que tudo aquilo aconteceu. E tudo aconteceu do jeito que o Dino falou. Ele mesmo, o Dino, louco, débil mental, retardado...Pelo menos para o resto de nós, ele era.

Friday, March 22, 2013

Rua das Morangas, 629


Rua das Morangas, 629

Maurício gostava de correr logo cedo. Naquela manhã o ar parecia mais gostoso, parecia mais volumoso. Ia passar agora por aquela sequência de casas antigas, todas com frondosas árvores na frente.
Notou de repente  que, numa delas, logo adiante,  havia uma senhora de idade na porta. Parecia fazer um sinal para ele.  Não tinha certeza de que era com ele.  Sem saber como agir, continuou a andar. Havia alguma coisa de diferente nela, mas não sabia dizer o quê.
No dia seguinte, excepcionalmente, não fez os exercícios de costume. Precisou ir ao trabalho de manhã. Um dia depois, no entanto, lá estava ela novamente, como se o estivesse esperando. Dessa vez estava quase na calçada. Não houve jeito, Maurício teve de parar.
Disse que precisava de ajuda, se poderia entrar. Ela  parecia estar sendo sincera e, além do mais, era certamente inofensiva. Entrou. Ela fez sinal para que ele sentasse. Foi até o quarto e trouxe na mão a foto de uma mulher. Mostrou-a para o Maurício explicando que era sua filha. Tinha 22 anos, morava perto dali e seu nome era Valdívia Monteiro de Albuquerque. Quase chorando, disse que ela estava em apuros e que seu namorado, Leno, era o culpado. Precisava ajudá-la, era sua filha. Pediu, pelo amor de Deus, que ele passasse lá para dar uma olhada. Passou-lhe um bilhetinho com o endereço. Beijou a mão de Maurício e repetiu: “Me ajuda, pelo amor de Deus!”
Maurício estava perplexo e impressionado. Ao sair, ela ainda falou: “Obrigado. Meu nome é Anastácia.” Ele virou-se,  fez um sinal com as mãos e viu o número da casa: 629. Ali era a Rua das Morangas, 629.
Naquele mesmo dia não havia nada que ele pudesse fazer. O endereço que a mulher lhe dera era distante uns 18 quilômetros dali e já estava na hora de ir para o trabalho.
No dia seguinte, ao invés de sair para andar, pegou o carro e se dirigiu para o endereço dado pela velha senhora. Conhecia um pouco a região mas não se lembrava especificamente daquela rua.
Depois de meia hora e um pouco de trânsito, finalmente dobrou à esquerda e em segundos estaria na casa da Valdívia. Para sua surpresa, logo a frente, havia um aglomerado de pessoas e um carro de polícia com as luzes de cima acesas, piscando. Estacionou na calçada e já foi perguntando...
-O senhor não sabe? A moça que estava desaparecida...? Acharam seu corpo, todo desfigurado. Já sabem quem é o assassino, um tal de Leno, acho que é seu namorado.
Maurício quase teve um enfarte com o susto. Atormentado, foi trabalhar, sentindo uma culpa enorme no peito. Durante o dia, tentou se consolar dizendo que não havia como ele prever uma coisa daquelas. No intervalo, mais tarde, assistiu ao noticiário na TV. Estava em todos os canais. Valdívia morava sozinha, não tinha família. Uma colega reparou que ela estava faltando no trabalho e na faculdade há mais de dez dias. Sabia também da personalidade violenta do Leno. Foi até a polícia. Interrogaram duro o Leno e ele acabou confessando tudo, inclusive onde estava o corpo.
Não tinha família? Será que ela não sabia que a mãe era viva e morava na mesma cidade? Resolveu visitar a dona Anastácia no dia seguinte. Ia ser duro, mas precisava.
Chegou bem cedo, a casa estava toda fechada, Tocou a campainha, bateu na porta, nada. Andou até a porta de trás, nada. Quando estava voltando para a frente encontrou uma senhora que vinha em sua direção. “O senhor deseja alguma coisa?”,  perguntou. Ele explicou a situação.
A vizinha, que na verdade cuidava da casa para a família, ficou bem surpresa. Da filha Valdívia, ela ficou sabendo, viu nos jornais. Entretanto estava desconfiada da história que o Maurício contou sobre a dona Anastácia. Ela perguntou se ele era algum repórter que estava usando uma desculpa para entrar na casa. Diante da negativa do Maurício, a vizinha explicou: “O senhor deve ter visitado outra casa. Esta aqui está fechada há mais de dez anos. Além disso, a dona Anastácia, mãe da Valdívia,  também  morreu há mais de dez anos.”



Maurício estava muito confuso com a história. Foi até a prefeitura e pesquisou a casa da Rua das Morangas 629, pesquisou a história da dona Anastácia. Era verdade o que a vizinha estava dizendo. A casa estava fechada  há mais de dez anos e a dona Anastácia havia falecido na mesma época. Foi até o cemitério e aí teve mais uma confirmação: lá estava o túmulo da da senhora Anastácia Monteiro de Albuquerque. Com fotografia e tudo. E aí seu coração gelou de novo. A foto mostrava exatamente a mesma mulher com quem falara há dias atrás.
Com o tempo, Maurício foi conseguindo por a história para trás. Dizia para si mesmo que foi uma alucinação, um sonho. Qualquer coisa assim. Mas esquecer, ele nunca esqueceu, não...