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Wednesday, February 22, 2017

E se a vida fosse assim



E se a vida fosse assim

E se a vida fosse assim,
cheia de amores sem fim,
sem nome para o ódio,
sem toda essa ganância,
o primeiro episódio
de uma longa infância,
o capítulo final
de uma obra magistral?
E se fosse só carinho,
só suspiros de amor,
só rosas em nosso caminho,
sem um nadinha de dor?
Eu sei que é impossível,
por isso fico impassível
no meu canto, a torcer,
para o sonho acontecer.

                                               ============

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Thursday, November 12, 2015

O dia em que aquele carro parou junto ao nosso portão


O dia em que aquele carro parou junto ao nosso portão

Era, até então, um dia como um outro qualquer de minha meninice. De repente, porém, alguém chegou com carro e tudo em frente à nossa casa. Naquela época, isso não era coisa de acontecer a toda hora e, muito menos, por pouco motivo. Se não fossem as lágrimas, aliás profundas e definitivas, de minha mãe, seria um momento de total curtição. Quem na rua poderia se gabar de tal façanha? Um carrão bonito, preto, daqueles que se vê apenas vez ou outra, pelo menos no nosso bairro? As lágrimas? Meu avô, Luigi, estava doente e ela precisava fazer urgente a viagem Perus – Santana do Parnaíba. Normalmente era um longo trecho, trem, outro trem, ônibus, outro ônibus até chegar à cidade onde nasci. Parecia que agora ia ser uma jornada mais curta. Direta, naquela “condução”. Normalmente me lembraria de quem mais estava lá, o que faziam, o que falaram. No entanto, o choro profundo, vindo das entranhas da alma da Dona Eleta deixaram tudo nublado. Seu lamento sentido era a única coisa que eu percebia, não me lembro de mais nada.
No trajeto, o meu espírito ficou dividido entre o inusitado daquela travessia, o maravilhoso passeio, e seus lamentos. Ela ficava conjeturando, chorando, suspirando. Parecia não acreditar na história da doença. Havia algo mais ali. Seu coração de filha, afinal, era como seu coração de mãe. Lia nas entrelinhas. Estavam ocultando algo dela. Pobrezinha, deve ter sido uma dolorida viagem.
E lá chegamos. Alguém lhe abriu a porta, ela saiu, eu saí. Não sei quem mais estava lá. Havia uma grande sala, logo na entrada do casarão. Ela entrou, vieram ampará-la. No centro, sobre uma grande mesa, estava o caixão com o corpo inerte, todo arrumado. Quatro castiçais com velas acesas.
Tentaram diminuir a sua dor, não contando toda a verdade. Não sei o que foi pior. Por outro lado, ela já sabia, no momento em que aquele veículo tinha encostado junto ao nosso portão. Corações maternos sabem das coisas, filhas sabem das coisas. Só me lembro disto. O depois, os detalhes, ficaram submersos: num dilúvio de lágrimas, e nuvens cinzentas, das quais me recordo vagamente.

Por que quem nos fez, nos fez assim? Sentimentais, sentidos, cheios de paixão pelos que nos cercam? Não sei qual foi o dia mais triste da vida dela, mas esse certamente está entre os mais...


 ===(((()))===


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Saturday, January 11, 2014

Infância em Perus

Infância em Perus



Oito anos, que idade é essa? Agora não sei, mas nos anos 50, era uma época de fantasia e de sonhos. Claro, havia as tragédias também. Vinham das bocas dos adultos falando de pessoas que ficaram soterrados nos poços de água que estavam cavando. Pessoas que foram atropeladas pelo trem ou que tiveram membros amputados nas linhas. Outras tristezas que eu não entendia, faladas à meia boca. Eu as podia sentir, entretanto.
Havia igualmente as tragédias coletivas. Aquela água lamacenta das enchentes cobrindo tudo, enterrando sonhos e o pouco que as pessoas tinham.
Eu via tudo lá de cima, do Morro São Jorge. Eu não tinha um reino, mas era um príncipe, vendo tudo do alto. Em dias normais, as pessoas pareciam formiguinhas andando na praça, nas ruas. Nos finais de semana, eu assistia, de camarote, aos jogos de futebol no campo do Portland.
De manhã, os trens vindo de Caieiras. Mais tarde, outros voltando da Luz. Pessoas tentando ganhar a vida, pessoas batalhando, se esforçando. Lá de cima, aquilo era meu playgorund, e eu me sentia importante. Mas logo cedo percebi que quem controlava tudo era o destino e não eu. As tragédias e a felicidade era ele quem determinava.
Mas o divertido,  mesmo, eram o circo e o parque, que, de vez em quando, apareciam por lá. As pessoas, alegres, rindo, comendo pipoca, comendo sanduíches...E as músicas, então? Agnaldo Rayol, Nelson Gonçalves e Noite Ilustrada, cantando amores que então eu desconhecia. Boleros, em espanhol, espalhando pelo ar tragédias de amor, e outros impossíveis amores que eu nem suspeitava que existissem.  A minha alma de criança nem desconfiava que aquilo era tudo um preâmbulo da existência. Eu só queria saber da diversão, mas, lá, bem no fundo, já tinha minhas dúvidas.
Minha alma de criança já desconfiava que, talvez, a vida, por mais bela que fosse, também escondesse seus medos, suas frustrações, seus momentos de dor. Mas o coração de criança é, e era, tão pequeno, tão pequeno, que mal podia conter toda aquela alegria. Não havia espaço suficiente para o mal, para a desconfiança e para a melancolia.

E foi assim que consegui continuar vivendo, lembrando-me sempre, de que um dia fui criança, e que isso era muito bom...



Estranhas Histórias

Monday, January 7, 2013

De volta para a infância


De volta para a infância

O “ seu” Anastácio nem parecia ter 78 anos. Era cheio de vida. Sorria para todos, brincava, contava piadas. Se você perguntasse a idade ele, iria responder com orgulho: “quase oitenta”. Nunca estava parado. Tinha tarefas todos os dias, cada hora inventava uma coisa nova para fazer. Algo que ele nunca deixava de lado era a caminhada da tarde. Colocava seu chapéu, saía pela porta da frente, abria o portão, virava à direita e partia. Fazia quase sempre o mesmo roteiro. Com pequenos intervalos, tinha vivido ali praticamente toda sua vida, e portanto, como ele mesmo se gabava, “conhecia aquilo ali como a palma de sua mão”. Naquela tarde de outono não foi diferente, começou a percorrer os dez blocos de seu bairro. Na volta costumava  fazer um roteiro diferente “porque era bom variar”.
O  “seu” Anastácio ia cumprimentando todos pelas ruas, acenando, às vezes tirando o chapéu. Era tão assíduo que servia de referência para muita gente: antes e depois de “seu” Anastácio passar. Depois de andar uns cinco minutos, no entanto, sentiu uma pequena tontura. Achou estranho pois até aquele momento seu dia tinha sido até melhor do que o normal. Estendeu um dos braços e com ele apoiou o corpo contra um poste. Após alguns segundos sentiu-se melhor, e como – tinha me esquecido de dizer – ele era um pouco teimoso, continuou a caminhar. Logo a seguir, começou a se lembrar de uma cena de infância. Para ser mais exato, quando viu a sorveteria da esquina. Era a mesma, com pequenas modificações, de muitas décadas atrás.Veio à sua mente uma cena muito comum. Eles e seus amigos comprando sorvete, depois virando à esquerda numa rua estreita que dava para uma praça, onde agora é o prédio da prefeitura. Ali ficavam horas, às vezes, fazendo todo tipo de brincadeira, principalmente nas férias escolares. Esqueciam-se do tempo. Era muito comum uma das mães, às vezes o pai ou um irmão mais velho, aparecer lá, furioso, porque a hora de estar em casa tinha passado.
Não sei o que deu na cabeça do “seu” Anastácio, que ele resolveu fazer o roteiro da infância. Ficou assustado quando viu o edifício municipal à sua frente. Atrapalhado, tentou achar a praça que não mais existia. Depois desistiu e começou a andar a esmo pelas ruas. Ele não via o que as outras pessoas viam, ele via tudo como era no passado. Não pense que ele estava desesperado ou coisa assim. Estava feliz em voltar àquela época. Viu rostos conhecidos, acenava para todos, até para quem já havia morrido, pois muitas das pessoas que via, já não existiam mais.

Lá em casa, todo mundo preocupado. O “seu” Anastácio nunca fazia isso. Desaparecer não era coisa dele. Depois que passou uma hora além do normal, sua esposa junto com seu filho mais velho, saíram de carro à sua procura. Reviraram o roteiro que ele fazia umas cinco vezes, pararam em diversos lugares, perguntaram e...nada. Pensando no pior, voltaram para casa. Começaram os telefonemas, esperançosos, pois a cidade era pequena, alguém teria de dar uma notícia. Após algumas chamadas já obtiveram algum resultado. Na Santa Casa de Misericórdia, estava um senhor que a polícia havia achado deitado num banco. Não conseguiam identificá-lo pois falava coisas incoerentes e aparentemente não se lembrava de nada. Com o coração em sobressalto voaram até o local. Após falar com as enfermeiras foram até o quarto onde estava o “seu” Anastácio. Ele recebeu a todos com um grande sorriso. Entretanto, como já haviam informado, ele só falava coisas incoerentes.
Levaram o “seu” Anastácio para diversos médicos, inclusive em outras cidades. Ele não tinha nada no coração ou em outros órgãos. O que estava acontecendo era que ele não estava mais se lembrando de coisas recentes. Melhor dizendo, só se lembrava de um passado distante, mais precisamente de sua infância. As coisas incoerentes que ele falava eram isso: fatos de sua meninice. Aparentemente não havia cura.
Foi uma tristeza daquelas. Todo mundo chorando nos cantos. O “seu” Anastácio já estava de volta em casa e, como os especialistas haviam dito, ele não se lembrava de nada e seu estado era o mesmo. Todas as pessoas intímas sentiam como se ele tivesse partido.
O sorriso continuava, agora até mais frequente. Era um pouco diferente, no entanto. Era um sorriso infantil. Podia se ver claramente que sua mente estava cheia de lembranças e atividade. Todos sabiam que ele tinha tido uma infância feliz. Às vezes seu rosto se iluminava, outras vezes se enchia de surpresa e satisfação. Todos o queriam “de volta”. Por outro lado, bem lá no fundo, sabiam que ele estava cheio de alegria. Não é isso que importa? Afinal o que realmente conta é o que a gente sente por dentro. Por um truque do destino, o “seu” Anastácio estava preso, para o resto da vida, dentro da criança que estava dentro dele.

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Essa vida da gente

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