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Monday, December 21, 2015

A Sala dos Manjares Celestiais

A Sala dos Manjares Celestiais
(lembranças do seminário)


“... Se me ouvis, comereis excelentes manjares,
uma suculenta comida fará vossas delícias..”(Isaias 55,2)


Além das obrigações normais como seminarista, tínhamos de executar funções específicas que recebíamos a cada seis meses num sistema de rotatividade. Uma das funções que eu exerci requeria que passasse constantemente pelo refeitório dos padres. Normalmente estava fechado, mas às vezes, por algum motivo, a grande porta de duas folhas estava escancarada. Havia uma grande mesa coberta com uma toalha branca, toda trabalhada com bordados. Em cima da mesa, bem no centro, uma grande jarra. Cristaleiras e outros móveis finos ficavam juntos à parede. Era tudo muito refinado e elegante. Algumas vezes, eles tinham acabado de cear e eu podia ver ainda as bandejas e os pratos com os restos da refeição. Era um aroma delicioso; de carne assada, de outros pratos divinos que não conseguia definir. Tudo arrematado por um aroma de café fresco. Certamente era um local proibido para nós e eu nem ousava olhar com muita atenção. Com o tempo, criei coragem e dava uma parada para examinar melhor. Era majestoso. Parecia um manjar de deuses, pelo menos comparado com a nossa comida. Algum tempo depois, tendo olhado para todos os lados, ousei entrar... abri a jarra e agarrei alguns biscoitos. Saí rápido e fui comê-los no banheiro. Nunca havia saboreado algo tão delicioso! Sabia que aquilo era um pecado grave, mas não mortal. Achei que valia a pena. Duvidava que o Ser Supremo me mandasse para o inferno por aquilo. No máximo, um pouco de purgatório. Fiquei acostumado e sempre que possível, repetia a operação. Até hoje refiro-me àquele refeitório como  a “Sala dos Manjares Celestiais”... Os padres eram amantes de Deus mas certamente gostavam de comer bem.

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Monday, February 11, 2013

A litorina


A litorina

“Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...”
( Raul Seixas: Mosca Na Sopa)

Eu fiquei conhecendo a palavra “litorina” no seminário.O dicionário diz que é um veículo ferroviário com motor próprio e que ao mesmo tempo carrega passageiros. Para nós era uma coisa completamente diferente.
Nosso refeitório era enorme e nos sentávamos em grupos de 8  ou 10 garotos. Não precisa ser um gênio para saber que não tínhamos a mais fina cozinha da região. Claro que eu, criança que era, não era muito exigente. Só queria um feijãozinho com arroz, batata e carne com molho, parecidos talvez, com o que minha mãe fazia. Não me lembro direito do maravilhoso cardápio, mas  tenho certeza de que, se me lembrar, não vou ter saudade. No entanto, me lembro da litorina. Ao contrário do que você possa pensar, a litorina não era uma especiaria do nosso menu. Ou, de certa forma, era. Tínhamos uma sopa de fubá, que por algum motivo técnico, ou logístico, ou mais provavelmente econômico, era um dos nossos pratos mais constantes. Sopa quente enchia o estômago, era eficiente. Voltando à litorina, toda vez a grande panela de sopa vinha com três ou quatro delas: um verme amarelo, anelado, com um comprimento de mais ou menos um centímetro. Era nojento mas no final acabávamos nos acostumando. Tínhamos um “chefe” para cada mesa e ele era o encarregado de pescá-las e colocá-las de lado  antes de passarmos a grande panela  pela mesa. A remoção da litorina, como todo o resto, fazia parte de um ritual.
A litorina ficou para trás, não tenho mais nojo ou raiva dela. Existem coisas mais perigosas do que as litorinas hoje em dia...

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