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Tuesday, June 18, 2019

O Clarinete

O Clarinete



E olhou, e eis que o rei estava junto à coluna,
à entrada, e os príncipes e as trombetas junto ao rei;
e todo o povo da terra estava alegre e tocava as trombetas;
(2 Crônicas 23:13)



Adoro música, mas, infelizmente, Deus na sua infinita bondade, não me deu esse dom. Certamente Ele tem suas razões. Sou tão ruim em música que não acredito ter dado mais do que três notas corretas numa mesma sequência em toda minha vida.
No entanto, tínhamos uma banda no seminário e, coisa de jovem, achei que tinha de aprender a tocar um instrumento musical. Ousadia minha, mas achei que era muito importante, muito bonito, imprescindível.
Havia vaga para clarinete. O seminarista mais velho, encarregado me deu as instruções básicas, mostrou o livro, tudo fácil, como se obter cada nota. Disse que tinha de treinar, treinar cada nota, e depois tentar tocar uma pauta musical leve. Mas ele não ficou comigo, tinha outras coisas para fazer, tinha outras obrigações. Todo dia, na hora certa, lá ia eu treinar com meu clarinete, sozinho. Era muito difícil, eu não entendia nada. Era pior do que uma equação matemática.
Um dia o instrutor passa e deixa as folhas com a marcha que iríamos começar a treinar para a exibição do feriado religioso. Ele nem sabia se eu estava conseguindo dar as notas ou não. Nunca tinha me visto treinar sozinho. Não tive coragem de falar que meu progresso era zero.
Foi tudo muito rápido. Alguns dias depois, ensaio geral da banda. Havia outros clarinetes e eu lá junto com todo mundo, assustado. Começa o ensaio. Percebi que podia simplesmente mover meus dedos e fingir que estava tocando. Apesar de não sair nenhum som de meu instrumento, por alguns minutos me senti importante, ali, no meio da bandinha. Depois disso, achei que eu não iria conseguir ir avante na minha carreira e desisti oficialmente. O maestro não pediu explicações e, ainda bem, pois eu não tinha explicações para dar.


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Thursday, April 12, 2018

I-JUCA-PIRAMA




I-JUCA-PIRAMA
“Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.”
(I-JUCA-PIRAMA, Gonçalves Dias)



No seminário, meu apelido era Castor. Talvez por causa da situação, lá os meninos se tornavam agressivos e malvados. Sempre buscando humilhar os colegas. Eu sei que isso é normal nas crianças de uma certa idade. Mas ali era mais do que isso. O ambiente favorecia. Essa atitude não combinava com a “bondade”e “humildade” que nos ensinavam as palavras de Jesus repetidas tantas vezes nos sermões e nas aulas de religião.

Bom, eu tinha mesmo dois dentes grandes e proeminentes bem na frente e na parte de cima. É  verdade, acho que lembrava um castor. Daí meu apelido. Para mim foi tudo muito natural. Não resisti porque não podia e, obviamente, nas circunstâncias era o melhor a fazer.

De quando em quando tínhamos apresentações teatrais: material cuidadosamente escolhido pelos padres, é claro. Não sei como, fui escolhido para recitar o poema I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias. Estava apreensivo pois eu era extremamente tímido e avesso a exibições públicas. Mas tinha de fazer. Decorei com esmero o poema todo. Repetia-o, quando estava sozinho, a todo o momento e em todo lugar, em todas as suas partes. Até dormia recitando os versos em minha cabeça. Não podia falhar, era uma missão importantíssima, Não poderia dar vexame.

Dia da apresentação, dia importante. Todos presentes: alunos, empregados, padres e reitor. Era um grande momento. Havia outras apresentações, é claro, e a minha era apenas uma delas e certamente não a principal. Para mim, no entanto, era o dia de maior responsabilidade até aquele ponto de minha vida. Tinham me preparado nos bastidores. Roupa de índio, cocar e tudo mais. Puseram um tipo de tinta marrom sobre meu rosto, acho que era a cor do índio. Eu tinha decorado o poema de tal forma, que mesmo que me desse pânico, ainda assim eu o recitaria, pois ele sairia automaticamente de minha boca.

Abrem-se as cortinas do palco. O cenário é uma mata densa, feita de papelão pintado. Eu entro, silencioso, e vou para o lado direito do palco como me tinha sido designado. Uma marcha solene – combinando com a majestade da floresta e a valentia do guerreiro, começa a ser tocada. Com o canto dos olhos, eu aguardo o sinal do instrutor para começar a recitar o poema. Até então ninguém sabia quem era o ator misterioso, pois a caracterização era  muito forte: pele pintada, penas coloridas, colar de ossos, etc. Obviamente ninguém conseguia ver os dentes do Castor, que até então mantivera sua boca fechada. Tinha certeza de que todos estavam curiosos para saber quem era o “artista”. O som abaixa, recebo o sinal para começar a recitar, encho os pulmões, e solto: “No meio das tabas de amenos verdores...” Gargalhada geral. Pensei por um segundo que havia feito algo errado. Não. Todos começaram a gritar “ É o Castor, é o Castor”. Não havia nada de errado, era apenas o fato de ser eu, o Castor. Pura gozação. Eu não sei se senti ódio, frustração, medo ou o quê... Depois de uma fração de segundos e o aviso de silêncio dado pelo padre “da disciplina”, pude continuar. Foi então que  senti o guerreiro dentro de mim. Estava com raiva. Queria lutar contra toda a audiência. Não sei onde achei tanta força.  Enchi os pulmões e falei, sílaba por sílaba, o poema todo, sem errar, sem parar... Eu me lembro ainda hoje da força que pus ao falar:

 “Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.”

Acho que Gonçalves Dias ficaria orgulhoso de mim, ali, enfrentando aquela plateia.  Acho que ele gostaria de estar lá a me ouvir. Acho mesmo que ele escutou meu canto forte e heroico lá do outro lado...


 ===(((()))===


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Monday, April 9, 2018

A hora triste da partida




A hora triste da partida
“Chegou  a hora da triste partida.
E tudo que eu amo na vida
Tenho que deixar...”
(Hora da Partida: Trio Nordestino)


A rua da minha casa, a casa onde passei minha infância, fazia uma curva após uns cem metros e era inicialmente uma pequena ladeira para depois se tornar uma rampa íngreme.
Lembro-me perfeitamente daquela manhã, há cinquenta e três anos atrás, quando meu pai me segurava por uma mão e na outra tinha uma daquelas pequenas malas antigas feitas de couro duro. A ladeira terminava numa praça que, do outro lado, abrigava a estação da Estrada de Ferro.
Um pouco antes de chegar à curva, virei minha cabeça para ver uma cena que eu já sabia que ia ver.  Minha mãe, na janela, como num quadro na parede, chorando. Não vi de fato as lágrimas, mas sabia que estava chorando. Se não queria que fosse, por que me deixava ir, eu me perguntava. Fui convencido, na época, de que eu tinha “vocação para padre”. Não me lembro como começou, mas sei que, de repente, quando percebi, todos falavam que eu ia ser padre, que “tinha vocação”. As beatas, o padre, todos sabiam. Sem sentir a tal da vocação e nem mesmo saber o que era, acabei acreditando nela e confirmando que a tinha.

Recordo-me vagamente de entrar no trem, em silêncio, sabendo que estava indo para um lugar diferente, passar por uma experiência pela qual meus irmãos não tinham passado e eu tinha inveja deles por terem conseguido escapar da sina. Não sabia dizer “não”, por isso me sentia completamente derrotado. Não me lembro do momento em que meu pai se foi. De repente vi inúmeros garotos da minha idade, bem diferentes dos da minha rua. Uns, como eu, tímidos, outros, espertos, talvez porque não tinham consciência do que estava acontecendo. Padres, batinas, irmãs e  outras pessoas com roupas normais, todos organizando, arrumando, orientando a nova turma de seminaristas. Quando notei, já estava em outro trem, veloz indo para uma viagem mais distante. O trem era diferente, parecia mesmo trem de longa distância. Eu queria adiar a viagem, não chegar, não chegar nunca, mas a locomotiva, implacável, voava sobre os trilhos. Chegamos lá no final da tarde e um daqueles ônibus antigos nos esperava. Por uma estrada tortuosa de terra nos levou para a “prisão”, um edifício de três andares, em forma de U. Um longo dormitório com dezenas e dezenas de camas sobre as quais depositamos nossas malas, para em seguida irmos para a capela para ouvirmos o sermão de recepção. Ali terminava a infância. A juventude só começaria seis anos depois.



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Monday, December 21, 2015

A Sala dos Manjares Celestiais

A Sala dos Manjares Celestiais
(lembranças do seminário)


“... Se me ouvis, comereis excelentes manjares,
uma suculenta comida fará vossas delícias..”(Isaias 55,2)


Além das obrigações normais como seminarista, tínhamos de executar funções específicas que recebíamos a cada seis meses num sistema de rotatividade. Uma das funções que eu exerci requeria que passasse constantemente pelo refeitório dos padres. Normalmente estava fechado, mas às vezes, por algum motivo, a grande porta de duas folhas estava escancarada. Havia uma grande mesa coberta com uma toalha branca, toda trabalhada com bordados. Em cima da mesa, bem no centro, uma grande jarra. Cristaleiras e outros móveis finos ficavam juntos à parede. Era tudo muito refinado e elegante. Algumas vezes, eles tinham acabado de cear e eu podia ver ainda as bandejas e os pratos com os restos da refeição. Era um aroma delicioso; de carne assada, de outros pratos divinos que não conseguia definir. Tudo arrematado por um aroma de café fresco. Certamente era um local proibido para nós e eu nem ousava olhar com muita atenção. Com o tempo, criei coragem e dava uma parada para examinar melhor. Era majestoso. Parecia um manjar de deuses, pelo menos comparado com a nossa comida. Algum tempo depois, tendo olhado para todos os lados, ousei entrar... abri a jarra e agarrei alguns biscoitos. Saí rápido e fui comê-los no banheiro. Nunca havia saboreado algo tão delicioso! Sabia que aquilo era um pecado grave, mas não mortal. Achei que valia a pena. Duvidava que o Ser Supremo me mandasse para o inferno por aquilo. No máximo, um pouco de purgatório. Fiquei acostumado e sempre que possível, repetia a operação. Até hoje refiro-me àquele refeitório como  a “Sala dos Manjares Celestiais”... Os padres eram amantes de Deus mas certamente gostavam de comer bem.

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Friday, October 30, 2015

O Louro e o Seminário

O Louro e o Seminário

Antigamente havia os seminários: colégios particulares católicos para onde meninos que supostamente tinham “vocação” para padre, eram enviados para aprender latim, grego e tudo mais que era necessário para a missão. Normalmente eram enviados para as instituições com a idade de 10 anos, época em que se iniciava o antigo “curso ginasial”. Obviamente com essa idade a vocação, quando existia, não era dos meninos, era dos pais. Em muitos casos alguns garotos eram matriculados porque, afinal, os seminários eram excelentes escolas e, além do mais, quase sempre, grátis. Naqueles tempos difíceis para muitas famílias, talvez essa fosse a única esperança de se obter uma boa formação para os rebentos.
Foi o que aconteceu com o pequeno Fábio. Pais simples, mas desejosos de que o pimpolho fosse algo na vida, mandaram o mesmo para um seminário distante. Estava estabelecido que as visitas só poderiam ocorrer duas vezes por ano. Dureza. Fábio ainda era m muito criança para isso. Nessa época todo mundo ficava muito tempo junto. Mães em casa trabalhando e o pai voltando às 4 da tarde (eu sei o que você está pensando, mas ele saiu de casa às 4 da manhã...). Vida de família, refeições em conjunto sempre que possível. Um tempo que não volta mais (nem as coisas boas, nem as coisas más...).  O menino estivera sempre por ali, a mãe chamando para tomar o café, para almoçar, para ir até a padaria comprar o pão... Brincadeira de bola, de taco, bolinha de gude, pipa... Agora lá estava o pequeno Fábio confinado num prédio sombrio, distante...talvez esteja exagerando, mas que era triste, era. Estava me esquecendo do papagaio que eles tinham em casa e que eles chamavam pelo nome óbvio de “Louro”. O danado repetia tudo... E a mãe de Fábio falava as mesmas frases todos os dias. “Fábio, vem para casa!”, “Fábio, vem tomar banho!”, etc, etc.

Foi uma tristeza nos primeiros dias e, para dizer a verdade, nos dias e semanas e meses a seguir, também. Uma tristeza e uma saudade que, ao invés de diminuir, aumentavam. Mas os primeiros dias foram mais agudos, mais dolorosos, por causa do Louro. Ninguém esperava que ele fosse fazer aquilo. Era inteligente, sabia que o Fabinho tinha saído. Como é então que, sem mais nem menos, durante o dia, começava a gritar: “Fábio, vai buscar o pão!”  Dali a pouco: “Fábio, vem almoçar!”. Se a Dona Amélia não estava chamando, por que o danado estava tomando a iniciativa de gritar daquele jeito. A obrigação dele era só repetir, não tomar a iniciativa. E o danado berrava: “Fábio, vem tomar banho!” Ele não queria nem saber se o Fabinho estava no seminário. O menino tinha de cumprir suas tarefas e ele a sua, de chamar, chamar. Isto não seria tão triste assim se não fosse o estado emocional de Dona Amélia e do pai de Fabinho. Não era fácil, aquela dor de saudade no peito e o malandrinho do papagaio gritando, gritando... lembrando o tempo gostoso em que a família toda estava junta. Dona Amélia não conseguia segurar as lágrimas que vinham aos borbotões toda vez que o Louro abria a boca, quero dizer, o bico. Não disfarçava e podia se ouvir o choro de longe. O marido era mais durão. Nunca ninguém vira uma lágrima em seus olhos. Quando o papagaio gritava, ele disfarçava, ia até a sua oficina de carpinteiro – eu me esqueci de dizer, ele era um marceneiro igual a José, pai de Jesus – e ficava lá com uma ferramenta qualquer, disfarçando.Se você pudesse entrar lá sem ele ver, você iria notar que o pai de Fabinho, estava chorando lágrimas ainda mais grossas do que as de Dona Amélia, se é que isso é possível. Mas, você sabe, naquela época, os homens não podiam chorar. Coitado do Sr. Benevides... Que tristeza!

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Saturday, March 14, 2015

O padre francês

O padre francês



No seminário havia duas capelas. Uma, onde os seminaristas assistiam às missas, ouviam sermões, rezavam, rezavam e... rezavam. Às vezes me sinto no direito de não mais precisar fazê-lo, minha contabilidade ainda deve estar positiva nessa área. Havia, entretanto, outra capela. Era do outro lado da propriedade. Exceto pelo domingo, não havia fiéis frequentando. Ela tinha pelo menos uns 10 altares laterais, com uma função bem específica. Havia muitos padres no seminário, e eles – cada um deles – tinha de rezar sua missa.
Havia sempre um sacristão encarregado de preparar os altares para os padres. Houve um ano em que essa era a minha função. Cuidadosamente, eu abria uma caixa de metal, retirava uma hóstia e a colocava sobre um pires – acho que era de prata – que, por sua vez ia sobre o cálice. As galhetas, uma eu enchia com água e outra com vinho. O vinho, nunca vou me esquecer, era o “Pindorama” e tinha um cheiro delicioso. Preparava todos os altares e eles começavam a descer de seus aposentos. Uns faziam missas mais longas, outros missas mais curtas. Eu os ajudava durante a cerimônia até a hora em que tinha de subir para o refeitório, onde iria tomar o café da manhã.
Se você conhece alguma coisa sobre a igreja católica, deve saber que a parte mais importante da missa é a consagração, a parte onde, pelo poder divino do sacerdote, o vinho se torna o sangue de Cristo, e o pão – no caso, a hóstia – se torna o corpo. Isso é uma coisa básica. Por isso é que havia algo que acontecia ali, que era, no mínimo, bizarra. Havia um padre, francês, que mal falava Português, que tinha muito sono de manhã. Seus olhos vinham pesados para o altar.  Muitas vezes eu o ajudava na cerimônia. E não é que, vez ou outra, ele se esquecia da parte da consagração? Como pode? É como fazer um jogo de futebol sem a bola, mal comparando. Para mim, era um sacrilégio e certamente seria para seus colegas. Mas aquilo era um segredo. Para ele, porque estava quase dormindo e nem percebia. Para mim, porque eu jamais falaria isso para alguém.
Confesso, porém, que eu também tinha meus segredos. Sabe o vinho “Pindorama” aquele que tinha um cheiro delicioso? Não é que o gosto também era divino?  Desculpe a ousadia de minhas palavras. Quase todo dia eu experimentava um pouquinho, às vezes mais do que um pouquinho. Precisava, vez ou outra, comer algumas hóstias para aliviar o efeito do álcool. Claro, não eram consagradas. Eu não era um pecador como o padre Jacques Lafévre. Deus me livre, missa sem consagração! O Lafévre, nem tenho certeza do nome, certamente ainda estava com sono quando ia para o seu delicioso café da manhã, depois da missa. Ou diria, quase missa?  Talvez por causa do clima dos trópicos? E eu ia, alegre, muitas vezes, bem alegre, para o meu café da manhã, também. Uma café bem mais simples do que o dele. Meu pecado, também, era bem mais simples que o dele e eu era apenas um garoto...Imaginem, esquecer da consagração...

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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Wednesday, November 12, 2014

Aviõezinhos de papel



Aviõezinhos de papel (memórias do seminário)

“Aviõezinhos de papel enchem o céu,
levados pelo vento...”
(Kimi ni Todoke:Amor Não Correspondido)


Tínhamos um dia de “folga” durante a semana. Não, nada do que você está pensando. Era apenas um dia sem aulas. Rezávamos como sempre, até mais do que o normal. No lugar das aulas tínhamos “estudos”, ou seja, ficávamos horas estudando em nossas carteiras. Estudávamos o que todos estudavam e coisas que, aposto, nenhuma outra criança da época estudava: Grego, Latim, História Natural, etc. De qualquer jeito, era um dia diferente, a ponto de termos uma hora ( uma inteira hora!) de folga, em que podíamos ficar no pátio, nos arredores, brincando, falando. Claro, tínhamos de falar só com os de nossa turma, os  "menores”.
Antes de vir para o seminário, meu irmão tinha me ensinado a fazer uns aviões de papel. Eu sei que todo mundo fazia aviões de papel, mas aqueles eram especiais. Tinha umas asas arredondadas, o que se conseguia enrolando as mesmas em volta de um lápis. Eles ficavam muito tempo no ar. Davam voltas e mais voltas. Às vezes parecia que iam cair mas surpreendiam e subiam mais um pouco. Depois de muitas acrobacias, eles pousavam suavemente, para serem lançados mais uma vez, e outra e outra... Alguns não voltavam, iam além dos arbustos onde não podíamos ir buscá-los. Não me incomodava com os que desapareciam, no meu coração eu também fugia com eles.
Numa extremidade do grande pátio onde ficávamos espalhados, havia uma pequena ribanceira.  Depois estendia-se uma longa área, proibida, com mato, pequenas árvores e flores. Amarelas, vermelhas, róseas. Sempre achei que ali era o paraíso prometido pelos padres nos sermões, para aqueles que tinham só "bons pensamentos". Acho que eu não  queria esperar aquele céu divino prometido nos sermões e me contentava com aquele paraíso, ali, naquela hora. Era dali que lançava meus aviõezinhos, que então pairavam sobre a paisagem, lenta e soberanamente... E eles brincavam no firmamento, sobrevoando as flores, indo e voltando, subindo e descendo no espaço. Era bom vê-los voando...Foi o meu primeiro contato com o infinito. Era o meu céu...e é por isso que ainda acredito na eternidade...



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Thursday, January 9, 2014

Bota aqui o seu pezinho...

Bota aqui o seu pezinho...
(lembranças do seminário)

“OI BOTA AQUI , OI BOTA AQUI
O SEU PEZINHO
OI BOTA AQUI, OI BOTA AQUI 
JUNTINHO AO MEU 
E DEPOIS NÃO VAI DIZER
QUE VOCÊ JÁ SE ESQUECEU”
(canção infantil)


Até onde pode ir a idiotice humana? O fanatismo? Acho que não tem limite. Basta você deixar correr... que vai correr indefinidamente. No seminário tínhamos um serviço de alto-falantes que funcionava num dos intervalos, no grande pátio onde podíamos nos “divertir” por alguns momentos. Enquanto jogávamos, um de nossos colegas era encarregado de colocar discos (de vinil, é claro) numa velha vitrola numa sala específica para isso. Geralmente eram hinos, música instrumental, música clássica. Perdido no meio dos “LPs” havia um de músicas infantis, Nada mais apropriado para nós, meninos com vocação. Afinal éramos “meninos de Deus...”  Entre as músicas do LP existia uma que dizia “Bota aqui o seu pezinho... juntinho ao meu” . Ninguém tinha prestado muita atenção na letra, pois era apenas mais uma canção infantil.  Numa bela tarde corre a notícia. Nosso colega, encarregado da sala do som, havia sido severamente advertido. Aquela canção aparentemente era muito “erótica”.  Lógico, ninguém usou essa palavra, pois certamente era uma palavra também proibida. O LP foi banido para sempre, e, pela primeira vez, aprendi que havia malícia no mundo... Obrigado, mais uma lição de vida.


Monday, February 11, 2013

A litorina


A litorina

“Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...”
( Raul Seixas: Mosca Na Sopa)

Eu fiquei conhecendo a palavra “litorina” no seminário.O dicionário diz que é um veículo ferroviário com motor próprio e que ao mesmo tempo carrega passageiros. Para nós era uma coisa completamente diferente.
Nosso refeitório era enorme e nos sentávamos em grupos de 8  ou 10 garotos. Não precisa ser um gênio para saber que não tínhamos a mais fina cozinha da região. Claro que eu, criança que era, não era muito exigente. Só queria um feijãozinho com arroz, batata e carne com molho, parecidos talvez, com o que minha mãe fazia. Não me lembro direito do maravilhoso cardápio, mas  tenho certeza de que, se me lembrar, não vou ter saudade. No entanto, me lembro da litorina. Ao contrário do que você possa pensar, a litorina não era uma especiaria do nosso menu. Ou, de certa forma, era. Tínhamos uma sopa de fubá, que por algum motivo técnico, ou logístico, ou mais provavelmente econômico, era um dos nossos pratos mais constantes. Sopa quente enchia o estômago, era eficiente. Voltando à litorina, toda vez a grande panela de sopa vinha com três ou quatro delas: um verme amarelo, anelado, com um comprimento de mais ou menos um centímetro. Era nojento mas no final acabávamos nos acostumando. Tínhamos um “chefe” para cada mesa e ele era o encarregado de pescá-las e colocá-las de lado  antes de passarmos a grande panela  pela mesa. A remoção da litorina, como todo o resto, fazia parte de um ritual.
A litorina ficou para trás, não tenho mais nojo ou raiva dela. Existem coisas mais perigosas do que as litorinas hoje em dia...

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