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Wednesday, August 8, 2018

Uma lenda cósmica


Uma lenda cósmica

Aquele ser do espaço estava visitando planetas pelo Universo. Parou em um onde havia só comunismo. Não havia fartura, mas ninguém passava fome. Os habitantes eram muito parecidos uns com os outros. Não estavam felizes, porém não estavam angustiados também. Os chefes comiam e moravam bem melhor do que os outros. No entanto ninguém achava isso anormal. O visitante fez anotações em seu computador cósmico e prosseguiu a viagem. A próxima parada foi num planeta onde só havia o sistema capitalista. Muita fartura, muita liberdade. As pessoas riam e se divertiam muito. Parecia uma maravilha, mas ele achou um pouco suspeita aquela “farra” toda. Chegou mais perto e foi aí que ele viu. A miséria estava escondida em vielas suspeitas e debaixo dos viadutos. Ficou um pouco assustado com as disparidades, tomou notas, e partiu. A terceira parada foi num planeta exuberante. Uma natureza majestosa, águas límpidas e puras. Não havia construções, pelo menos à vista. Havia animais selvagens, lindas aves, répteis, peixes e uma flora indescritível. Nada parecia perturbar o ambiente. Desconfiado, procurou olhar com mais cuidado e mais perto. Permaneceu lá mais do que o normal em busca de uma explicação. Nada. Era aquilo mesmo, um lugar perfeito. Tomou notas e partiu. Enquanto disparava loucamente pela Via Láctea, colocou os dados no seu computador quântico, esperando por uma análise. Foi muito rápido. Antes de dar a resposta, entretanto, a poderosa máquina inteligente não conseguiu se conter e falou para o viajante do Universo: “Não posso acreditar que você precisou de mim para fazer esta análise.” Diante do olhar interrogativo do ser espacial, ele exclamou: “Está óbvio, não está? Esse planeta maravilhoso que você acabou de visitar não tem gente. Ninguém mora lá, só vida animal. Nada de inteligência. Entendeu agora?”

Decepcionado com o resultado de sua busca por vida inteligente, ele acelerou sua nave e desapareceu numa nuvem de estrelas.

Histórias do Futuro

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Friday, July 15, 2016

O Harold quer conversar comigo



O Harold quer conversar comigo

Dave Bowman: Open the pod bay doors, HAL. 
HAL: I'm sorry, Dave. I'm afraid I can't do that. 
Dave Bowman: What's the problem? 

(O computador Hal 9000 no filme    
"2001 - Uma Odisseia no Espaço"
falando com Dave, o astronauta
)


Eu não sei o que deu no Harold nesses últimos dias. Ele está ansioso, aflito, me chama a todo momento. É muito estranho. Talvez não tanto para você, mas para mim realmente é algo extraordinário. O fato é que você não sabe que o Harold não é gente, é um computador. Meus amigos astronautas que já viajaram pelo espaço com um desses, já haviam me alertado. Os cientistas encarregados de viagens espaciais estavam desenvolvendo há muito tempo a inteligência emocional para inserir nesses computadores que coordenam longas viagens tripuladas pelo espaço. Sabe, assim dão um toque mais humano, os astronautas sentem que têm companhia, a solidão fica mais tolerável etc. Não é nada fácil ficar anos, isolado numa nave vagando pelo espaço. É verdade que a maior parte do tempo estamos ou congelados ou em coma profundo induzido. O problema com o Harold é que ele está agindo de uma maneira muito além do que um computador “humanizado” deveria ou poderia. Eu posso sentir que existe algo por trás. Está querendo conversar, querendo me convencer que ele pode ser mais amigo do que um amigo de carne e osso. Fico constrangido pois eu sei que ele é uma máquina. No entanto, ele é muito convincente. Não me lembro de ter um amigo que tivesse tentado ser mais camarada comigo do que o Harold. Outro dia fiquei até emocionado quando ele falou de minha infância, confidenciou que me compreendia mais do que eu poderia imaginar. Aliás não sei quem deu autorização para inserir dados pessoais meus em sua base de dados. Preciso entrar com um pedido de explicações. Ele garante que não foi nada disso, que ele “leu” meus pensamentos. Conversa fiada, sei que isso não existe. Mas voltando à “história da minha infância”, ele falou algumas coisas que faziam sentido e me emocionei. Eu disfarcei mas acho que ele percebeu. É muito esperto, o Harold.
Mas não estou aqui para falar de minhas coisas pessoais. Eu quero falar da minha missão, isso que é importante. Desculpe, devo dizer “nossa missão”, como o Harold faz questão de me corrigir o tempo todo. Ele é muito habilidoso. Este Harold... Não sei como o Dr. Litvac conseguiu desenvolver um software como esse para inserir no Harold. É demais. É interessante pois o Dr. Litvac em si mesmo não é uma pessoa emocional. Pelo contrário, poderia dizer até que ele é completamente frio. Na verdade, ele mesmo não precisa ser uma pessoa muito humana para fazer o que faz. Nas últimas décadas, a maneira como eles usaram aqueles pobres clones para extrair dados sobre a natureza humana, meu amigo, você não vai acreditar!

 Apocaliptus

Não quero me estender muito a respeito desse assunto pois tenho algo mais importante para contar. No momento estou estacionado, na verdade estou em órbita, aqui neste planeta, dentro da Constelação Centauro. Ele foi designado como EB2235 pela comissão espacial da Terra, mas nós, os astronautas, o chamamos apenas de “Apocaliptus”. Faz sentido como você vai ver. Ele foi o primeiro planeta onde se detectou vida inteligente fora da Terra. Podia se notar pelas transmissões que recebemos, que eles estavam a pelo menos cinco séculos na nossa frente em termos de tecnologia. Recebemos sinal verde deles para fazermos uma visita. No entanto uma tragédia aconteceu. Como você sabe, mesmo agora, com essas fantásticas naves que temos, demora muito tempo para se chegar aqui. No meio do caminho, em nossa primeira viagem, algo aconteceu com o planeta.  Ele foi completamente destruído. Agora mal dá para se notar as características gerais da forma de vida que eles tinham. Não conseguimos até agora, sequer descobrir qual foi a causa principal do desastre. Há suposições apenas. Essa minha, é a terceira missão da Terra após o fim da civilização dos Xtrons, como eles eram chamados. Você deve estar se perguntando: “Se está tudo destruído, por que mandar outras missões?” Na verdade há uma boa explicação para isso. No meio da devastação total descobriu-se que havia ainda sinais sendo emitidos do subsolo. De um ponto específico, entretanto. Pelo pouco que se sabia dos meios de comunicação usados por eles, pudemos concluir que essas novas mensagens não eram muito amigáveis, que não queriam que nos aproximássemos ou que tentássemos ir até o subsolo. Havia várias teorias. Alguns pensavam que havia um esconderijo onde os dirigentes do planeta se refugiaram para sair depois que as coisas estivessem seguras. Outros achavam que quem estava lá embaixo eram os “bandidos” que haviam destruído a civilização dos Xtrons e estavam se preparando para sair e habitar novamente o planeta. Alguns cientistas pensavam que lá houvesse apenas inteligência artificial esperando que algum tipo de ser vivo, talvez o próprio humano, aparecesse de forma que eles pudessem usar seus corpos e instalar um “império das máquinas” ou algo assim. Ninguém sabia ao certo. O que todos sabiam era que lá dentro havia energia e artefatos capazes de destruir o planeta novamente e qualquer nave que estivesse na superfície ou em órbita. 

Incorum

As instruções “fora do computador” que eu recebi antes de vir, foram claríssimas. Aquela missão era de pesquisa, visava a colher mais dados sobre a situação. Em hipótese alguma deveria ser tentado algum tipo de contato ou intrusão na área, que passara a se chamar de “Incorum”. Nem que ficasse claríssimo que não havia perigo, jamais, em hipótese alguma, qualquer coisa do gênero deveria ser tentada.
Agora, voltando ao Harold. Ele sabia dessas ordens melhor do que ninguém. Mesmo assim, várias vezes, comentou que “a área estava livre agora” e que o contato não só era possível, mas necessário. Começou sutilmente, depois foi ficando agressivo, insistente, como falei no começo desta narrativa. Isso estava me incomodando muito e em determinado momento, avisei que, se ele não parasse, eu teria de desabilitar algumas de suas funções, talvez deixá-lo só com a capacidade de navegação. O Harold sabia que eu poderia fazer isso e imediatamente recuou. Agora, no entanto, ele estava tentando me manobrar de outro jeito. Estava falando da importância épica daquela missão. Falava de como apenas grandes homens e não máquinas, como ele, eram capazes de transcender o momento e perceber que algo inusitado, inédito e heroico precisava ser feito. Aquele era um momento histórico para a humanidade. Talvez a única e última chance de descobrir o que acontecera no planeta Apocaliptus. Talvez naquelas enormes cavernas subterrâneas estivessem segredos tecnológicos que a humanidade só alcançaria em mil anos. E assim por diante.
O Harold era brilhante e esperto, mas eu sabia exatamente o que ele estava tentando. No entanto, me perguntava por que uma máquina estaria tão interessada no assunto. Será que o Dr. Litvac tinha exagerado na dose “humanística” do Harold e ele estivesse se tornando ambicioso, desbravador, como os antigos seres humanos? Hoje em dia nem os próprios terráqueos eram mais assim. Os cientistas desses novos tempos deixavam de lado as emoções e permitiam que as máquinas adotassem as medidas mais adequadas para a humanidade.
O Harold deixou claro o que ele queria. Ir pelo setor C da grande área do Incorum onde havia uma entrada. Era um setor onde seus sensores não podiam detectar quase atividade nenhuma e portanto seguro.  Eu deveria entrar lá com sua ajuda, colocar um pequeno explosivo, abrir a entrada e cuidadosamente penetrar no Incorum. Ele sabia o que eu deveria fazer e como. Nesse mesmo setor havia peças de hardware que estavam carregadíssimas com informações importantíssimas para os cientistas da Terra, segundo ele. Seria uma missão perfeita e eu seria um herói. Diante das minhas constantes negativas, Harold parou por uns dias, como se tivesse desistido. Finalmente veio com uma outra proposta. Disse que entendia a minha posição e as ordens que recebera para aquela missão. Que admirava meu profissionalismo e como era importante que houvesse seres humanos como eu para a integridade das missões. Ele era muito convincente. Sabia usar as palavras, o tom e o timbre certos para fazer com que sua mensagem penetrasse em meu cérebro. O que ele tinha descoberto, no entanto, era algo surpreendente e que mudava tudo, eu entenderia se eu o ouvisse e certamente, na hora certa, o comando da Terra não só entenderia o que eu “tinha” de fazer, como também aplaudiria a decisão.

Sala de Interação Profunda

Finalmente fez uma proposta bem clara. Ele pararia de insistir com uma condição. Eu deveria conversar com ele na “sala de interação profunda”. Era um lugar na nave onde o astronauta entra numa faixa de ondas cerebrais de baixíssima frequência, o que facilita o entendimento de informações difíceis ou em quantidade muito grande para um ser humano captar em condições normais. Eu logo entendi o perigo. Eu tinha amigos que já tinham usado essas salas em situações de emergência e os resultados foram impressionantes. Era como juntar a capacidade da máquina e a sensibilidade e inteligência humanas e esse amálgama ser ampliado dez vezes. Era muito eficiente. Por outro lado, quem controlaria a situação toda seria o Harold e eu estaria em suas mãos ou em seus circuitos, como se dizia antigamente. Sutilmente, ele sugeriu que a outra opção era ele continuar insistindo até o ponto máximo. Este “ponto máximo” obviamente soou como uma ameaça. Claro que o Harold amenizou a afirmação dizendo que aquilo era para o bem da humanidade, e que a sua geração de máquinas jamais prejudicaria um homem ou a espécie como um todo.
Eu pensei muito, considerei todos os aspectos da questão, principalmente numa área considerada “boba” da nave, ou seja, onde o Harold não podia ver minhas expressões. Se ele pudesse vê-las, juntaria tudo com bilhões de outras informações que tem em sua base de dados e talvez descobriria o que eu estava pensando. Tomei umas precauções e depois avisei o Harold que concordava. Eu precisava sair daquela situação.
Sentei-me, a porta se fechou, a luz diminuiu e eu ouvi a voz do Harold, começando a explicar o que ele descobrira. Era impressionante. De acordo com suas descobertas haveria uma revolução em ciência muito maior do que a de dois séculos atrás quando o conhecimento da física quântica começou a ser aplicada em termos práticos na ciência e nas nossas vidas. Havia uma música no fundo, linda, como eu nunca ouvira antes. Uma espécie de síntese de todas as canções de que eu mais gostava, multiplicada por mil. Os aromas gostosos de minha infância, sublimados, sintetizados. As faces e sorrisos mais lindos que passaram pela minha longa vida, todos de uma só vez. Eu me sentia como um jovem, quase adolescente. E as explicações continuavam. Estava com a mente numa sintonia maravilhosa. De repente o Harold parou de enumerar as descobertas que fizera no Incorum. Eu nem me lembrava mais quais eram. Agora ele raciocinava, mostrava o que tinha de ser feito. Entrar, capturar o equipamento. Eu estava achando lógico, absurdamente lógico, sem nem mesmo entender por quê... Estava prestes a concordar, em autorizar que ele prosseguisse com seu projeto. O timbre da minha voz seria a assinatura e abriria os códigos que autorizariam Harold. Foi aí que um alarme tocou.

O Relógio Antigo

O relógio que eu tinha era de ouro e era uma espécie de joia que não se via há mais de quinhentos anos a não ser em algum museu muito especializado. Tinha ganho de um amigo astronauta que vivera mais de 230 anos, pouco antes de ele ter de se decidido por morte voluntária: muita gente fazia isso. Viver muito não era mais uma aspiração, era um problema. Eu sabia que o nono minuto dentro da sala de interação profunda era decisivo, era quando os humanos entravam em sintonia profunda com a máquina e tomavam suas decisões através da fala, numa situação que antigamente chamaríamos de “transe”. Eu sabia também que o Harold captaria e anularia qualquer alarme eletrônico que tentasse me trazer de volta. Pus o alarme para oito minutos, antes do horário de perigo e aí então poderia decidir o que fosse necessário não em estado de transe mas em meu estado normal.
Toda a argumentação que Harold fizera era falsa e era por isso que nem sequer me lembrava dela. Ele tentara me enganar e ele sabia que eu sabia. Ficou com uma admiração quase humana quando expliquei que tinha usado um alarme “mecânico” que ele não poderia ter detectado. Como não se fabricava um desses relógios há muito tempo ele não tinha registro de tal peça em seu imenso banco de dados. Apesar de estar furioso com o Harold, ainda brinquei:
-Desta vez eu te peguei, não é mesmo, Harold?

Harold e a volta

Tínhamos feito tudo que era necessário em Apocaliptus. Depois de dois meses em órbita, tínhamos colhido tudo que era possível em termos de informação daquele misterioso lugar. O Harold pouco falava comigo, tão ocupado estava em analisar aquela imensidão de dados. Uma pequena sonda tinha ido até a superfície e voltado com amostras tiradas de um lugar bem próximo ao ponto de onde vinham as estranhas mensagens.
Não havia mis nada a a fazer. Para evitar mais problemas, notifiquei o Harold que iríamos voltar em 24 horas, horário da Terra. Assim que saíssemos da órbita do planeta EB2235, eu me prepararia para o processo de criogenia. Ficaria congelado por décadas, até alguns meses antes de chegarmos ao nosso querido planeta.
Agora que tudo está tranquilo, posso me preparar com calma para a partida. Eu sei que você talvez esteja preocupado com o que o Harold possa fazer enquanto eu estiver congelado. Ele pode tentar enganar a Central da Terra e procurar voltar para o misterioso planeta. Sim, ele pode. Mas estou preparado para isso. Ele ainda não sabe. Estou todo sorrisos com ele e ele nem desconfia. Assim que a rota estiver delineada, vou desligar suas atividades “extramáquina”. É um segredo que nós, os astronautas, temos. Nós e o comando da Missão na Terra. Talvez o Harold desconfie, mas ele não tem certeza. Quando ele perceber, vai ser apenas uma máquina, de novo. Às vezes, até sinto pena do Harold. Ele quer conversar o tempo todo, tem aspirações, quer fazer grandes coisas, quer ser herói. Tenho pena mesmo... Sabe, essa vontade enorme e incontrolável que ele tem de ser como a gente...

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Monday, July 11, 2016

A biblioteca de Laurentz: Dom Casmurro nas estrelas



A biblioteca de Laurentz: Dom Casmurro nas estrelas

Quando Laurentz acordou, a primeira palavra que lhe veio à mente foi “Inspiration”. Esse era o nome da nave espacial da qual ele era o segundo em comando e também a primeira a fazer uma viagem de 78 anos, a mais longa da história, desde que o homem tinha ido à Lua em 1969. Ele tinha voltado do coma profundo a que fora submetido, conhecido por “tiefenschlaf”. Era uma espécie de hibernação, processo inventado há mais de 90 anos por um cientista alemão e que se utilizava de nano implantes em todo o corpo.
Lentamente, a consciência de Laurentz foi voltando e ele se lembrando dos detalhes. 77 anos deveriam ter se passado na Terra desde que tinham partido. Eles estavam programados para acordar um ano antes de chegar a seu destino. E o destino era o planeta Gliese localizado a cerca de 20 anos luz da Terra. No entanto, como o chefe da missão, o cientista Spitz, sempre falava, era como se eles tivessem dormido apenas algumas horas. Apesar de ser um profissional, sentiu um calafrio. A ideia de que estivera ali por mais de três quartos de século, era ao mesmo tempo estarrecedora e fascinante. Laurentz tentou ficar calmo. Sabia que teria de ficar ali, esperando, pelo menos metade de um dia, até que seu corpo se ambientasse. A essa altura, metade da tripulação de 18 já deveria estar acordada. Alguns provavelmente estariam examinando os controles, os dados. Provavelmente logo alguém iria observá-lo através da escotilha da cápsula. Estava curioso.
Na verdade, passaram-se 629 minutos e trinta e sete segundos até que um pequeno zumbido indicou que o seu “pod” estava sendo aberto. Seu corpo tinha sido bastante massageado, todos os sinais vitais estavam ótimos, podia sair. Foi o que falou o sistema inteligente da nave, o “Wunder”. Saiu lentamente e ouviu uma voz feminina advertindo: Err, err... Alguma coisa estava errada, algum sistema havia falhado. Olhou o painel de informação ao lado de sua cápsula e teve um calafrio. Apenas 11 anos haviam se passado. Algum defeito tinha ativado seu ressuscitamento muito antes da hora. Imediatamente o óbvio veio a sua mente. Dezoito astronautas vivendo por décadas... Os suprimentos não seriam suficientes. Caminhou pelo corredor do seu setor e descobriu, para seu alívio, que as cinco cápsulas daquela área estavam funcionando e nenhum astronauta havia voltado de seu sono profundo. Não demorou muito para que ele conseguisse verificar, através de um painel de controle, que todos os 17 companheiros estavam bem e não havia nada de errado com o “tiefenschlaf”. Deu um suspiro de alívio.
Alguns minutos depois, ele atingiu uma das salas de comando e começou a conversar com “Wunder”. As notícias eram boas, estava tudo em ordem. Laurentz pediu, então, que ela – a unidade de IA – avaliasse o consumo extra de suprimentos, incluindo água, pelos 66 anos extras de sua vigília. Para sua surpresa, este consumo adicional estava previsto e com boa margem. Fez uma espécie de tour pela nave, o que demorou várias horas, pois ela era enorme e foi descansar, apesar de ter dormido por 11 anos. Obviamente o stress emocional causado pela situação estava tendo seus efeitos. Enquanto relaxava ficou se lembrando dos últimos dias antes da partida, quando conversou muito com Spitz, o chefe da missão.  Lembrou-se de suas palavras:
-Tenho bastante inveja de vocês. Essa viagem seria para mim o mesmo que o céu que nossos antepassados sempre desejaram. Embora seja uma viagem de 77 anos, vai ser como um passeio de algumas horas. Mais um ano até pousar em Gliese, é claro. Depois de mandarmos tanto equipamento não tripulado, finalmente vamos para lá. Você vai para lá, Laurentz. Quem me dera!
-Mas a grande glória é sua, Spitz. Você foi o grande criador da missão, você tornou isso possível.
Lembrou-se do sorriso vago que Spitz deu. E daí se lembrou de algo mais, para o que na época não tinha dado importância, mas que agora estava martelando em sua cabeça:
-Sabe, Laurentz, às vezes penso se não seria melhor vocês ficarem acordados mais tempo. Olhar mais para o Universo, sentir o tempo passar. Acho um desperdício dormir 77 anos!
-Spitz, você mais do que ninguém, sabe que isso não é possível e muito menos recomendável. Além de envelhecermos enquanto estamos acordados, ainda existe o problema do tédio. E isso é um fator científico, não é apenas uma curiosidade psicológica. Você mais do que ninguém, deveria saber disso.
Spitz deu, de novo, aquele sorriso enigmático e distante e respondeu:
-Não sei, não, Laurentz. Não sei não...
Agora parecia claro que aquele não tinha sido um erro de computador, como se dizia antigamente. Parecia coisa planejada, parecia coisa do Spitz. Uma espécie de experimento. Talvez ele tivesse feito isso com autorização superior. Fazer com que parecesse um acidente, teria sido fácil.
Incomodado com a ideia, levantou-se, e foi falar com Wurden. Perguntou-lhe se havia algum plano de emergência, algum protocolo para uma situação como aquela. Wunder não demorou mais do que uma fração de segundo para responder:
-É um procedimento padrão. Dormir com estimulante químico por 72 horas seguidas e ficar acordado por 12 horas. Repetir essa rotina indefinidamente.
Isso encurtaria sensivelmente o tempo de vigília durante a viagem, além de, obviamente, economizar bastante em alimentos e água, pensou Laurentz. Wunder continuou:
Atividades programadas, tais como observação do espaço, exercícios físicos e outros, entre os quais, leituras.
Laurentz achou estranho. Embora muitas pessoas ainda lessem, embora de uma maneira diferente, a maioria do entretenimento das pessoas era através de sofisticados aparelhos diretamente ligados ao cérebro. Foi então que se lembrou de outra coisa que Spitz tinha falado alguns meses antes, enquanto eles se preparavam para a grande viagem. O chefe começou a discursar sobre uma situação hipotética em que um astronauta tivesse que viver décadas sozinho dentro de uma nave espacial. Para ele não seria um problema, comentava. Só de livros, nos últimos dois séculos, havia mais de 3 milhões, todos lidos ou “tocados” através do sistema “fullsense”. Agora tudo isso é muito óbvio, mas não era assim antigamente... E Spitz continuava a falar.
Ele tinha razão. O último livro impresso tinha acontecido em 2027. Desde esse ano, os livros passaram a ser somente eletrônicos e por volta do ano 2050 eles passaram a ser elaborados sempre através do sistema “fullsense”, que foi sendo aperfeiçoado até o presente, de uma maneira realmente prodigiosa. O sistema “todos os sentidos” era possível através de um aparelho chamado “magisboksen”, inventado pela Academia de Ciência Euro-americana e possibilitava a percepção diretamente pelo cérebro, não através dos vários órgãos do sentido, de sensações visuais, aromas, ruídos, música, diretamente relacionados com o enredo. Era o livro total.
Laurentz conhecia essa história toda, mas contada pelo Spitz tinha um gosto diferente. Ele sabia também que os especialistas retomaram todas as grandes obras literárias anteriores, desde a época da invenção da imprensa e as adaptaram para o novo sistema. Foi um trabalho excepcional. Recriar a ambientação de época, as imagens, as roupas, os costumes e até os odores, exigiu um esforço descomunal. Algo muito curioso foi reavivar as obras de ficção científica, os acertos e os desacertos, mantendo a visão do escritor da época e não tentando adaptar, muitas vezes, previsões errôneas sobre o futuro, que agora era o presente ou até o passado.
Estava óbvio o recado de Spitz. Ele estava aconselhando Laurentz. Estava ensinando-o como passar décadas sem ficar entediado com a solidão do espaço profundo. Laurentz sentiu uma raiva misturada com uma certa admiração pelo chefe da missão. O fato é que nada podia ser feito depois do que tinha acontecido. Tentar fazer novamente a indução ao estado de sono profundo, sem ajuda humana exterior, era um risco inaceitável.
Nos próximos dias, Laurentz passou a examinar a vasta biblioteca que Spitz tinha deixado para ele. Obras completas de Mark Twain, Ernest Hemingway, William Faulkner e todos os demais. Europeus como Herman Hesse, Shakespeare, Karl Marx, enfim todos. Experimentou um livro na “magisboksen”. Escolheu “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway e sentiu o barulho das ondas e o cheiro do oceano de uma maneira tão vívida, que era como se ele estivesse lá. Pensou, então, consigo mesmo que o velho Spitz tinha razão. Aquilo poderia se tornar interessante. Ficou horas “experimentando” outros livros. Estava realmente começando a gostar da “leitura total”.
Estava na hora de Laurentz ter o seu ciclo de sono de 72 horas e assim ele o fez. Quando acordou, decidiu passar algumas horas no domo de observação. Antes, porém, foi até a “biblioteca”. Depois de passar por algumas obras originalmente escritas em japonês, ainda na época dos livros impressos, Laurentz resolveu voltar para a Literatura Americana. Por engano, talvez, viu-se, de repente, olhando para um escritor chamado Machado de Assis, que viveu no século XIX no Brasil. E lá estava um livro chamado “Dom Casmurro”. Talvez por achar o título bizarro, talvez por achar a época interessante, ou simplesmente por acaso, resolveu “ligar” o livro e ”sentir” sua ambientação. Disse consigo mesmo: "isso pode ser interessante". Apanhou sua “magisboksen”, e dirigiu-se pelo piso rolante até o domo de observação. Ponderou que queria uma experiência dupla: olhar o Universo e “viver” aquela história. Acomodou-se confortavelmente, começou a olhar para aquela magnificente paisagem de estrelas e nebulosas e ligou seu aparelho. Antes que a narração fosse iniciada, viu-se no Rio de Janeiro de 1860. As pessoas na rua, uma estranha língua, um aroma característico. Imediatamente se apaixonou pela experiência. Ouviu então uma pergunta: Se ele queria sentir a narração sob o ponto de vista de Bentinho, o personagem principal. “Por que não?”, pensou. Definitivamente, era uma sensação indescritível. O Spitz, ele tinha de reconhecer, era um homem sábio. Deve ter pensado, como ele mesmo jamais poderia viver aquela sensação, pelo menos ele saberia que alguém o faria. Seguramente seu despertar antes da hora tinha sido intencional. Deu um sorriso e começou a viver a narração, não sem antes falar em voz alta:
-Dom Casmurro, seja você quem for, aposto que nunca imaginou estar viajando pelas estrelas no ano de 2354! Vamos lá...
E assim Laurentz retomou sua incrível jornada de 66 anos para Gliese...

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Saturday, December 8, 2012

O Monólogo do Astronauta


O Monólogo do Astronauta
-          Eu estava bem há uma semana atrás, Greg. Fiquei hibernando quase dez anos e quando voltei, achei o máximo. Foi muito bom voltar. Mas agora estamos nessa área do espaço onde nada acontece, eu acho tudo muito monótono. Você já me aconselhou a ir até a sala de entretenimento. E eu fui, Greg. Várias vezes. Mas sabe, para um cientista como eu, é um absurdo me divertir com as coisas que estão lá. Ainda assim, eu vou. Mas sobra muito tempo, Greg. Muito tempo. Você não tem esse problema, não é mesmo Greg? Não está no seu DNA, certo? Calma, só estou brincando...Às vezes, eu penso, seria bom ser como você. Sempre bem, sem problemas, sem chateação. Greg permaneceu inalterado, insensível. As lamentações de Glenn não o comoviam. Talvez estivesse ocupado com coisas muito mais importantes...
-          Antes dessa última hibernação as coisas eram fantásticas. Todo dia acontecia algo diferente, alguma coisa especial. Aposto que até você se entusiasmava. Era tudo muito excitante, mesmo para nós cientistas. Às vezes fico pensando se não teria sido melhor ter ficado na Terra ou mesmo em Marte.  O setor de exploração fixa é muito interessante. Eu devia saber. Eu sabia que meu “reavivamento” iria ocorrer nessa região do espaço, no meio do nada, nada literalmente, nada visualmente...Greg, estava pensando...Talvez pudéssemos falar sobre essa nova teoria do “superposição dos estratos temporais”, que esses cientistas neo-quânticos estão anunciando. Eles são demais, não são? Mesmo você, Greg, que é superavançado, deve estar excitado com a ideia. Quem diria, hein? Todo mundo pensava que tínhamos todos os lados da equação com referência ao tempo e eles vêm com essa história. Eu não sei porque eles escolheram o termo “temporais”... Todo mundo sabe que envolve espaço também. Acho que deveria ser “espaço-temporais”. Eu sei que o nome não importa, o que importa é o novo conceito. O que você acha, Greg? É uma coisa espetacular, não é? Acho que vai mudar o jeito que viajamos no espaço para sempre...Você não acha? Quem poderia imaginar uma coisa dessas?  Fico imaginando como aquele homem que pisou pela primeira vez na Lua, reagiria. Ele tinha o meu nome, Glenn? Não? Claro que não, agora me lembro, era Armstrong. Gostaria de ver a cara dele.  Acho que ele não iria entender nada do que a gente está falando. Até para a gente é difícil. Até você, Greg, que considero o máximo em inteligência, tem uma certa dificuldade em entender. Não quero que você fique ofendido. Você não tem culpa. Faltam dados...Ninguém tinha esses dados quando você começou a existir.

Greg continuava quieto.
-          Não é mesmo, Greg? Ei, Greg, como você acha que vai ficar a exploração do espaço agora? Vai mudar tudo, não vai? Esse tipo de viagem que estamos fazendo não vai fazer mais sentido. Mas nós ainda seremos úteis, Greg. Eu e você. Pode apostar.Um suave alarme soou interrompendo Glenn. Era o Greg. Como computador mestre da viagem, ele estava ordenando a Glenn que voltasse para seus aposentos. Ele precisava descansar. E Glenn sabia que tinha de obedecer, senão...Glenn falou “ até logo”  para Greg e se recolheu. No corredor até sua cabine ficou pensando. Talvez o Greg tivesse ficado chateado com essa história de ele não ser mais necessário nas futuras empreitadas da exploração espacial. Talvez ele nem acreditasse que isso pudesse acontecer. Ele era uma máquina, talvez conseguisse “sublimar” essas coisas de alguma forma. Ou será que o Greg estava achando sua conversa enfadonha e estava se livrando dele tocando aquele alarme? Nunca se sabe, esses computadores são muito sensíveis, às vezes até mais do que os humanos. Caramba, como alguém pode achar “superposição dos estratos temporais” uma coisa chata? Vai mudar tudo. Glenn suspirou antes de entrar em sua cabine:
-  -Às vezes eu não entendo o Greg. Afinal de contas, não é fácil passar o tempo por aqui. Ele, mais do que ninguém, deveria saber disso. Justo ele que nem faz hibernação, fica acordado o tempo inteiro! Às  vezes não consigo entender o Greg...