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Friday, July 15, 2016

O Harold quer conversar comigo



O Harold quer conversar comigo

Dave Bowman: Open the pod bay doors, HAL. 
HAL: I'm sorry, Dave. I'm afraid I can't do that. 
Dave Bowman: What's the problem? 

(O computador Hal 9000 no filme    
"2001 - Uma Odisseia no Espaço"
falando com Dave, o astronauta
)


Eu não sei o que deu no Harold nesses últimos dias. Ele está ansioso, aflito, me chama a todo momento. É muito estranho. Talvez não tanto para você, mas para mim realmente é algo extraordinário. O fato é que você não sabe que o Harold não é gente, é um computador. Meus amigos astronautas que já viajaram pelo espaço com um desses, já haviam me alertado. Os cientistas encarregados de viagens espaciais estavam desenvolvendo há muito tempo a inteligência emocional para inserir nesses computadores que coordenam longas viagens tripuladas pelo espaço. Sabe, assim dão um toque mais humano, os astronautas sentem que têm companhia, a solidão fica mais tolerável etc. Não é nada fácil ficar anos, isolado numa nave vagando pelo espaço. É verdade que a maior parte do tempo estamos ou congelados ou em coma profundo induzido. O problema com o Harold é que ele está agindo de uma maneira muito além do que um computador “humanizado” deveria ou poderia. Eu posso sentir que existe algo por trás. Está querendo conversar, querendo me convencer que ele pode ser mais amigo do que um amigo de carne e osso. Fico constrangido pois eu sei que ele é uma máquina. No entanto, ele é muito convincente. Não me lembro de ter um amigo que tivesse tentado ser mais camarada comigo do que o Harold. Outro dia fiquei até emocionado quando ele falou de minha infância, confidenciou que me compreendia mais do que eu poderia imaginar. Aliás não sei quem deu autorização para inserir dados pessoais meus em sua base de dados. Preciso entrar com um pedido de explicações. Ele garante que não foi nada disso, que ele “leu” meus pensamentos. Conversa fiada, sei que isso não existe. Mas voltando à “história da minha infância”, ele falou algumas coisas que faziam sentido e me emocionei. Eu disfarcei mas acho que ele percebeu. É muito esperto, o Harold.
Mas não estou aqui para falar de minhas coisas pessoais. Eu quero falar da minha missão, isso que é importante. Desculpe, devo dizer “nossa missão”, como o Harold faz questão de me corrigir o tempo todo. Ele é muito habilidoso. Este Harold... Não sei como o Dr. Litvac conseguiu desenvolver um software como esse para inserir no Harold. É demais. É interessante pois o Dr. Litvac em si mesmo não é uma pessoa emocional. Pelo contrário, poderia dizer até que ele é completamente frio. Na verdade, ele mesmo não precisa ser uma pessoa muito humana para fazer o que faz. Nas últimas décadas, a maneira como eles usaram aqueles pobres clones para extrair dados sobre a natureza humana, meu amigo, você não vai acreditar!

 Apocaliptus

Não quero me estender muito a respeito desse assunto pois tenho algo mais importante para contar. No momento estou estacionado, na verdade estou em órbita, aqui neste planeta, dentro da Constelação Centauro. Ele foi designado como EB2235 pela comissão espacial da Terra, mas nós, os astronautas, o chamamos apenas de “Apocaliptus”. Faz sentido como você vai ver. Ele foi o primeiro planeta onde se detectou vida inteligente fora da Terra. Podia se notar pelas transmissões que recebemos, que eles estavam a pelo menos cinco séculos na nossa frente em termos de tecnologia. Recebemos sinal verde deles para fazermos uma visita. No entanto uma tragédia aconteceu. Como você sabe, mesmo agora, com essas fantásticas naves que temos, demora muito tempo para se chegar aqui. No meio do caminho, em nossa primeira viagem, algo aconteceu com o planeta.  Ele foi completamente destruído. Agora mal dá para se notar as características gerais da forma de vida que eles tinham. Não conseguimos até agora, sequer descobrir qual foi a causa principal do desastre. Há suposições apenas. Essa minha, é a terceira missão da Terra após o fim da civilização dos Xtrons, como eles eram chamados. Você deve estar se perguntando: “Se está tudo destruído, por que mandar outras missões?” Na verdade há uma boa explicação para isso. No meio da devastação total descobriu-se que havia ainda sinais sendo emitidos do subsolo. De um ponto específico, entretanto. Pelo pouco que se sabia dos meios de comunicação usados por eles, pudemos concluir que essas novas mensagens não eram muito amigáveis, que não queriam que nos aproximássemos ou que tentássemos ir até o subsolo. Havia várias teorias. Alguns pensavam que havia um esconderijo onde os dirigentes do planeta se refugiaram para sair depois que as coisas estivessem seguras. Outros achavam que quem estava lá embaixo eram os “bandidos” que haviam destruído a civilização dos Xtrons e estavam se preparando para sair e habitar novamente o planeta. Alguns cientistas pensavam que lá houvesse apenas inteligência artificial esperando que algum tipo de ser vivo, talvez o próprio humano, aparecesse de forma que eles pudessem usar seus corpos e instalar um “império das máquinas” ou algo assim. Ninguém sabia ao certo. O que todos sabiam era que lá dentro havia energia e artefatos capazes de destruir o planeta novamente e qualquer nave que estivesse na superfície ou em órbita. 

Incorum

As instruções “fora do computador” que eu recebi antes de vir, foram claríssimas. Aquela missão era de pesquisa, visava a colher mais dados sobre a situação. Em hipótese alguma deveria ser tentado algum tipo de contato ou intrusão na área, que passara a se chamar de “Incorum”. Nem que ficasse claríssimo que não havia perigo, jamais, em hipótese alguma, qualquer coisa do gênero deveria ser tentada.
Agora, voltando ao Harold. Ele sabia dessas ordens melhor do que ninguém. Mesmo assim, várias vezes, comentou que “a área estava livre agora” e que o contato não só era possível, mas necessário. Começou sutilmente, depois foi ficando agressivo, insistente, como falei no começo desta narrativa. Isso estava me incomodando muito e em determinado momento, avisei que, se ele não parasse, eu teria de desabilitar algumas de suas funções, talvez deixá-lo só com a capacidade de navegação. O Harold sabia que eu poderia fazer isso e imediatamente recuou. Agora, no entanto, ele estava tentando me manobrar de outro jeito. Estava falando da importância épica daquela missão. Falava de como apenas grandes homens e não máquinas, como ele, eram capazes de transcender o momento e perceber que algo inusitado, inédito e heroico precisava ser feito. Aquele era um momento histórico para a humanidade. Talvez a única e última chance de descobrir o que acontecera no planeta Apocaliptus. Talvez naquelas enormes cavernas subterrâneas estivessem segredos tecnológicos que a humanidade só alcançaria em mil anos. E assim por diante.
O Harold era brilhante e esperto, mas eu sabia exatamente o que ele estava tentando. No entanto, me perguntava por que uma máquina estaria tão interessada no assunto. Será que o Dr. Litvac tinha exagerado na dose “humanística” do Harold e ele estivesse se tornando ambicioso, desbravador, como os antigos seres humanos? Hoje em dia nem os próprios terráqueos eram mais assim. Os cientistas desses novos tempos deixavam de lado as emoções e permitiam que as máquinas adotassem as medidas mais adequadas para a humanidade.
O Harold deixou claro o que ele queria. Ir pelo setor C da grande área do Incorum onde havia uma entrada. Era um setor onde seus sensores não podiam detectar quase atividade nenhuma e portanto seguro.  Eu deveria entrar lá com sua ajuda, colocar um pequeno explosivo, abrir a entrada e cuidadosamente penetrar no Incorum. Ele sabia o que eu deveria fazer e como. Nesse mesmo setor havia peças de hardware que estavam carregadíssimas com informações importantíssimas para os cientistas da Terra, segundo ele. Seria uma missão perfeita e eu seria um herói. Diante das minhas constantes negativas, Harold parou por uns dias, como se tivesse desistido. Finalmente veio com uma outra proposta. Disse que entendia a minha posição e as ordens que recebera para aquela missão. Que admirava meu profissionalismo e como era importante que houvesse seres humanos como eu para a integridade das missões. Ele era muito convincente. Sabia usar as palavras, o tom e o timbre certos para fazer com que sua mensagem penetrasse em meu cérebro. O que ele tinha descoberto, no entanto, era algo surpreendente e que mudava tudo, eu entenderia se eu o ouvisse e certamente, na hora certa, o comando da Terra não só entenderia o que eu “tinha” de fazer, como também aplaudiria a decisão.

Sala de Interação Profunda

Finalmente fez uma proposta bem clara. Ele pararia de insistir com uma condição. Eu deveria conversar com ele na “sala de interação profunda”. Era um lugar na nave onde o astronauta entra numa faixa de ondas cerebrais de baixíssima frequência, o que facilita o entendimento de informações difíceis ou em quantidade muito grande para um ser humano captar em condições normais. Eu logo entendi o perigo. Eu tinha amigos que já tinham usado essas salas em situações de emergência e os resultados foram impressionantes. Era como juntar a capacidade da máquina e a sensibilidade e inteligência humanas e esse amálgama ser ampliado dez vezes. Era muito eficiente. Por outro lado, quem controlaria a situação toda seria o Harold e eu estaria em suas mãos ou em seus circuitos, como se dizia antigamente. Sutilmente, ele sugeriu que a outra opção era ele continuar insistindo até o ponto máximo. Este “ponto máximo” obviamente soou como uma ameaça. Claro que o Harold amenizou a afirmação dizendo que aquilo era para o bem da humanidade, e que a sua geração de máquinas jamais prejudicaria um homem ou a espécie como um todo.
Eu pensei muito, considerei todos os aspectos da questão, principalmente numa área considerada “boba” da nave, ou seja, onde o Harold não podia ver minhas expressões. Se ele pudesse vê-las, juntaria tudo com bilhões de outras informações que tem em sua base de dados e talvez descobriria o que eu estava pensando. Tomei umas precauções e depois avisei o Harold que concordava. Eu precisava sair daquela situação.
Sentei-me, a porta se fechou, a luz diminuiu e eu ouvi a voz do Harold, começando a explicar o que ele descobrira. Era impressionante. De acordo com suas descobertas haveria uma revolução em ciência muito maior do que a de dois séculos atrás quando o conhecimento da física quântica começou a ser aplicada em termos práticos na ciência e nas nossas vidas. Havia uma música no fundo, linda, como eu nunca ouvira antes. Uma espécie de síntese de todas as canções de que eu mais gostava, multiplicada por mil. Os aromas gostosos de minha infância, sublimados, sintetizados. As faces e sorrisos mais lindos que passaram pela minha longa vida, todos de uma só vez. Eu me sentia como um jovem, quase adolescente. E as explicações continuavam. Estava com a mente numa sintonia maravilhosa. De repente o Harold parou de enumerar as descobertas que fizera no Incorum. Eu nem me lembrava mais quais eram. Agora ele raciocinava, mostrava o que tinha de ser feito. Entrar, capturar o equipamento. Eu estava achando lógico, absurdamente lógico, sem nem mesmo entender por quê... Estava prestes a concordar, em autorizar que ele prosseguisse com seu projeto. O timbre da minha voz seria a assinatura e abriria os códigos que autorizariam Harold. Foi aí que um alarme tocou.

O Relógio Antigo

O relógio que eu tinha era de ouro e era uma espécie de joia que não se via há mais de quinhentos anos a não ser em algum museu muito especializado. Tinha ganho de um amigo astronauta que vivera mais de 230 anos, pouco antes de ele ter de se decidido por morte voluntária: muita gente fazia isso. Viver muito não era mais uma aspiração, era um problema. Eu sabia que o nono minuto dentro da sala de interação profunda era decisivo, era quando os humanos entravam em sintonia profunda com a máquina e tomavam suas decisões através da fala, numa situação que antigamente chamaríamos de “transe”. Eu sabia também que o Harold captaria e anularia qualquer alarme eletrônico que tentasse me trazer de volta. Pus o alarme para oito minutos, antes do horário de perigo e aí então poderia decidir o que fosse necessário não em estado de transe mas em meu estado normal.
Toda a argumentação que Harold fizera era falsa e era por isso que nem sequer me lembrava dela. Ele tentara me enganar e ele sabia que eu sabia. Ficou com uma admiração quase humana quando expliquei que tinha usado um alarme “mecânico” que ele não poderia ter detectado. Como não se fabricava um desses relógios há muito tempo ele não tinha registro de tal peça em seu imenso banco de dados. Apesar de estar furioso com o Harold, ainda brinquei:
-Desta vez eu te peguei, não é mesmo, Harold?

Harold e a volta

Tínhamos feito tudo que era necessário em Apocaliptus. Depois de dois meses em órbita, tínhamos colhido tudo que era possível em termos de informação daquele misterioso lugar. O Harold pouco falava comigo, tão ocupado estava em analisar aquela imensidão de dados. Uma pequena sonda tinha ido até a superfície e voltado com amostras tiradas de um lugar bem próximo ao ponto de onde vinham as estranhas mensagens.
Não havia mis nada a a fazer. Para evitar mais problemas, notifiquei o Harold que iríamos voltar em 24 horas, horário da Terra. Assim que saíssemos da órbita do planeta EB2235, eu me prepararia para o processo de criogenia. Ficaria congelado por décadas, até alguns meses antes de chegarmos ao nosso querido planeta.
Agora que tudo está tranquilo, posso me preparar com calma para a partida. Eu sei que você talvez esteja preocupado com o que o Harold possa fazer enquanto eu estiver congelado. Ele pode tentar enganar a Central da Terra e procurar voltar para o misterioso planeta. Sim, ele pode. Mas estou preparado para isso. Ele ainda não sabe. Estou todo sorrisos com ele e ele nem desconfia. Assim que a rota estiver delineada, vou desligar suas atividades “extramáquina”. É um segredo que nós, os astronautas, temos. Nós e o comando da Missão na Terra. Talvez o Harold desconfie, mas ele não tem certeza. Quando ele perceber, vai ser apenas uma máquina, de novo. Às vezes, até sinto pena do Harold. Ele quer conversar o tempo todo, tem aspirações, quer fazer grandes coisas, quer ser herói. Tenho pena mesmo... Sabe, essa vontade enorme e incontrolável que ele tem de ser como a gente...

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Sunday, May 6, 2012

O Protocolo


O Protocolo

A estação estava calma como sempre e o funcionário KS23-6788 realizava as inspeções  de rotina. Há um bom tempo os humanos haviam parado de usar nomes para identificação. No entanto o KS23-6788 gostava do apelido que seu avô lhe dera quando ele era bem pequeno ainda: Nick. Era uma coisa de família, pessoal. Quase todos achavam uma infantilidade usar esses nomes da época em que os humanos mal conseguiam navegar pelo espaço. Na verdade neste ano fazia 3 séculos que o homem pela primeira vez havia conseguido voar para fora de seu planeta e posar na Lua. O que na época foi algo espetacular, agora era considerado uma navegação grosseira, rudimentar e arriscada.
Nem os grandes escritores de ficção científica conseguiram antecipar os rumos que a exploração do espaço iria tomar. Na verdade foi a combinação de avanço científico e tecnologia com o imprevisível, o acaso. 
As pessoas agora viviam muito mais, pelo menos 200 anos. Poderia ser mais, mas havia uma combinação de fatores sociais,  científicos e econômicos, que fizeram o homem “optar” por cerca de 200 anos. Na verdade os indivíduos não morriam mais: eram “preservados” através do  incrível e avançadíssimo sistema de criogenia  administrado por computadores quânticos. Ninguém sabia ao certo os crítérios de descogelamento, mesmo porque esses novos computadores eram programados mas depois se auto-reprogramavam. Tomavam então  decisões  por conta  própria. Uma pessoa seria “descongelada” quando e  se fosse necessário, de acordo com eles. Trariam de volta à vida número suficiente de humanos no caso de uma catástrofe ou de uma ameça de extinção vinda do próprio planeta ou de fora.
Através do novo sistema de navegação espacial a espécie humana espalhou-se por inúmeros planetas. Basicamente instalavam algumas estações em cada um e essas continham alguns poucos humanos e inúmeros robôs, além de máquinas, que lentamente iam tornando o planeta habitável. Era um novo sistema de colonização. Agora os humanos eram “elaborados geneticamente” para sobreviver mais especificamente no local  para onde foram designados. Seria, pois, quase impossível Nick voltar para a Terra pois teria de ser “reelaborado” em sua configuração. Mesmo assim Nick às vezes sonhava com isso. Seu avô conseguira lhe transmitir algumas ideias saudosistas ( por muitos consideradas perigosas) dos primórdios da colonização espacial empreendida pela raça humana.  Cada vida durando dois séculos não foi difícil as imagens e ideias do bisavô de Nick chegarem até ele.
O Planeta GP3467A não era dos piores. Até que lembrava de longe o nosso planeta. Em uma série de 8, a colônia estava na fase 3 de colonização completa. Fora da grande base inúmeros robôs trabalhavam enquanto  Nick ficava a maior parte do tempo no interior. A atmosfera ainda era tênue e ele precisava sair com o equipamento apropriado. As grandes explosões que criariam uma atmosfera razoável só viriam na fase 6 e durariam quase um ano pelo tempo da Terra. Durante a última semana Nick havia trabalhado  intensamente com os computadores de comunicação para restabelecer a mesma. Não havia conseguido nada e ele estava preocupado, pois precisava de aprovação urgente para algumas alterações no programa. Era muito raro o corte completo de contato e por isso Nick havia tentado  se comunicar, em caráter de emergência, com outras colônias. Isso normalmente não era  permitido e a administração central da Terra normalmente era severa contra esse tipo de tentativa. Nick, no entanto, não estava preocupado com isso. O que o aborrecera tremendamente é que as mensagens recebidas do Planeta G9878B estavam truncadas e o pouco que se podia entender delas era profundamente preocupante. Havia a menção de que eles também não estavam conseguindo contatar a Terra e, pior que  isso, haviam recebido uma mensagem gerada por computador de que havia emergência 3B segundo a classificação de emergências do  centro geral de comunicação do sistema de colônias da Terra. Era profundamente perturbador para Nick que tanto a mensagem original do nosso planeta como a retransmissão através do Planeta G9878B não tinham chancela humana, ou seja, ficava a pergunta, havia humanos para validar a mensagem? Além disso emergência 3B estava a apenas dois passos da emergência L que era o ultimo grau e que consistia numa autorização implicita de seguir seus próprios passos por falta de comando central. Quando a emergência atingisse o nível L, as colônias deveriam usar o Protocolo. O Protocolo certamente daria as instruções mas ninguém o havia usado antes e obviamente havia algo fatalístico sobre o conceito.  O que mais assustava a respeito do assunto é que todos sabiam como funcionava o mecanismo.   O Protocolo na verdade era um computador separado de todo o sistema e que só poderia ser acionado pelas colônias, se no Planeta Terra, o comandante chefe de comunicações ou alguém autorizado por ele não o reativasse por mais de uma hora. O fato de ninguém estar lá para acionar o Protocolo por esse tempo era obviamente estarrecedor e significava uma tragédia de inusitada proporção. Nick tinha esperança de que brevemente as comunicações seriam restabelecidas.
Para longas viagens no espaço ou para longos períodos de tempo sem atividade numa colônia era usada a técnica do “adormecimento”. Isto permitia que um longo período se passasse com um consumo mínimo de energia e principalmente, sem danos psicológicos para o astronauta ou colonizador. Além do mais, o nível de ”adormecimento” era tão profundo que praticamente não contava como “tempo vivido” e se uma pessoa ficasse neste estado por um periodo longo, esse tempo estaria sendo acrescido a sua vida. No entanto, esta técnica só poderia ser usada por cerca de 10 anos. Mais do que isso seria necessário recorrer-se à criogenia, obviamente algo muito mais sério e definivo. Todos sabiam que o uso do Protocolo estava ligado a uma  dessas duas técnicas ou às duas. Foi por isso que, quando  ele recebeu de um planeta próximo a retransmissão de “condição L”, ou seja a emergência maxima, Nick realmente se assustou por mais preparado que estivesse psicologicamente. Até então ele havia ficado bem mesmo quando,  nas últimas semanas,  toda a sua equipe, de 14 pessoas,  havia sido removida para uma missão especial. Deixaram-no  sozinho e nem por isso se abalou. Na época, como era praxe, não questionou nem consigo mesmo nem através das mensagens a proridade ou não daquela retirada. Agora, no entanto, começou a relacionar os dois fatos, “ a condição L” e a remoção de seu pessoal e começou a achar, quase ter certeza,  de que as coisas estavam interligadas.
Em duas horas , se não chegasse nova mensagem, ele deveria tentar abrir o Protocolo. Além de ser um sistema de segurança, o Protocolo eram também, um lugar físico com o grande computador independente e as máquinas de adormecimento e criogenia. Havia também quatro  robôs que operariam o sistema em caso de necessidade. Até então ninguém havia entrado  na sala do Protocolo.
Nick acabava de estar em contato com essa nova realidade, quando para sua surpresa, o sistema de Protocolo respondeu a sua tentativa de acesso.Isso era a confirmação da condição "L " ou seja, emergência máxima. Por mais treino que ele tivesse tido para este momento – você nunca acredita que é possível  acontecer -  ele estava estarrecido.  Acomodou-se no confortável assento e começou a seguir o  “prompt” com as instruções. O Protocolo informava inicialmente que o “incidente” havia ocorrido no Planeta  Terra e era localizado. A possibilidade de sobrevivência  local era de apenas 10%.  A seguir o Protocolo calculou de 3 a 10 anos o tempo de restabelecimento no caso de haver o mínimo de vida reminiscente na Terra para operar o processo de resgate e recuperação.  O Protocolo então explicava que as colônias que tinham passado da fase 6 de colonização estavam autorizadas a tomar medidas de sobrevivência em sistema de autonomia da Terra. As outras, segundo o próprio Protocolo estariam diante de um dilema. Se a Terra sobrevivesse – e as chances eram de apenas 10% - o adormecimento era a melhor alternativa, pois em menos de 10 anos haveria  socorro, instruções. Outros planetas mais próximos poderiam mandar  ajuda, o que não fariam no caso de o dano na Terra ser permanente, pois teriam  de cuidar da prória sobrevivência.  No caso de a administração central e sua população ficar reduzida a zero ou a condições de pré-civilização espacial, o congelamento seria a melhor indicação por ser quase perene. Milhares de anos poderiam se passar até que novas tecnologias voltassem e viabilizassem o descongelamento. Depois de séculos de tirania , autonomia e arrogância, pensou Nick, os computadores estavam confessando que não tinham condições de tomar uma decisão. Ironicamente, na hora mais importante  de sua existência, Nick teria de confiar em seu próprio senso de análise. O Protocolo, o “Grande Protocolo” estava ali, a sua frente, confessando que não tinha a capacidade de decidir. O Nick, que era um funcionário de quinta linha no “ranking” tecnológico, estava ali, a uma distância assustadora da terra , sozinho, com a decisão de sua própria vida em suas mãos, pela primeira vez.
O computador dizia que ele tinha  cerca de 300 horas decidir e iniciar ou os procedimentos de “adomercimento “ ou “congelamento.”  Cinco ou dez anos de sono super profundo seriam como nada e tudo estaria resolvido. E se o problema na Terra fosse muito mais grave? Dali a alguns anos ele estaria de volta, ali, sozinho, acordado mas sem qualquer perspectiva e provavelmente teria de induzir a própria morte para não ficar louco. A outra alternativa, a da criogenia, era a um tempo garantida e assustadora. Assustadora porque nada  mais dependeria dele. Se as coisas voltassem ao normal, milhares de anos depois, alguma civilização que dominasse tanto a tecnologia de viagens espaciais e a criogenia talvez chegasse até ele e o  ressuscitasse. O Protocolo estaria mandando sinais indefinidamente pelo espaço.Ou então…ele poderia ficar congelado para sempre.
Embora não fosse momento para isso, Nick resolveu dormir por algumas horas. Induziu em si mesmo um sono leve em que pudesse sonhar. E sonhou. Sonhou com a Terra. Com seus rios, seus oceanos, suas árvores, sua aves. Com o sorriso das pessoas, com o som dos ventos, com o aroma das flores. Sonhou que uma nave o estava transportando de volta, que seus gens estavam sendo modificados para novamente habitar o Planeta. Sonhou que a civilização estava voltando devagar…
Nick acordou aliviado  e feliz. Tinha decidido. Era melhor esperar mais de mil anos e ter pelo menos a esperança sólida de uma vida mais parecida com a que seu avô descrevera. Entrou na sala de criogenia e deitou-se na cápsula que se fechou automaticamente. Apertou o botão de “iniciar”. Segundos depois notou que dois robôs, um de cada lado se aproximaram dele. Dali a pouco começou a se sentir sonolento,   a primeira fase do congelamento …Nick então dormiu profundamente enquanto as máquinas programavam o evento e armazenavam a fabulosa energia para manter a sua cápsula isolada e fria, muito fria por muito tempo..…Mas ele não estava sentindo nada.  A última coisa que sentiu foi o vento quente do mar da Terra em seu rosto, em seu sonho…