Sunday, December 4, 2011

V838 Monocerotis

Imagem do eco de luz da estrela V838 Monocerotis, de seis anos-luz de diâmetro. Desde 2002, a estrela é considerada a mais brilhante da Via Láctea


UOL Notícias


V838 Monocerotis    


Como é possível?
Como é possível olharmos para o infinito do Universo e
ainda sermos tão pequenos?
Pequenos em nossas atitudes, em nossa coragem...
Pequenos na nossa benevolência
Em nossa compaixão
Em nossa capacidade de amar?
Olhe para a beleza desta estrela...
Para sua grandeza...  Seis anos–luz... de diâmetro!
V838 Monocerotis
E ela é apenas um grão de areia no meio do céu!
Como podemos, nós humanos, ferirmos uns aos outros,
Fazermos guerra,
Matar
Poluir o planeta, devastar as florestas, exterminar espécies?
Como podemos ter pequenas rixas no dia a dia?
V838 Monocerotis...
Talvez porque não consigamos ver você a olho nu...
Talvez porque você seja inatingível...
Talvez porque, preocupados com as pequenas coisas do cotidiano,
Nem saibamos que você exista...
Devíamos olhar mais para o céu e...
Comparar nossos atos, como humanos, com esta estonteante beleza!
V838, pena que você esteja tão longe para nos inspirar!
Que inveja dos astrônomos que podem ver coisas assim,
todos os dias... 

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Histórias do futuro


Saturday, December 3, 2011

O DNA de Jack Brown

O DNA de Jack Brown

Jack Brown é um bom sujeito mas nunca gostou de trabalhar. Muito simpático, falante, inteligente, encanta a todos com sua conversa fácil e amiga. Às vezes ele para e decide que não tem mais jeito. “Preciso começar já!”, ele pensa. As coisas estão muito difíceis. No dia seguinte não começa, nem no outro, nem no outro. Então lava um carro ou dois, ganha uns trocados, compra o que precisa. Não tem compromissos, nem aluguel, nem prestações. Dorme aqui ou acolá, no mato,  às vezes fica uma semana na casa de um amigo. Então, de novo, as coisas apertam muito, ele anota uns endereços, faz uma programação de visitas  a possíveis locais de trabalho e fica pronto para o dia seguinte. Amanhã, no entanto, é outro dia, outras coisas vêm a  sua mente, algo muda seu destino e Jack fica por ali mesmo. Ele não é propriamente um preguiçoso, embora esta hipótese passa o tempo todo pela minha cabeça. Este bloqueio mental contra um emprego é  uma característica intrínseca de sua personalidade. Seria preguiça se ele pudesse optar, mas ele não pode. Já está programado em seu cérebro, simplesmente é alguma coisa muito interior, não depende de sua vontade. Eu sei, algumas pessoas não vão acreditar nisto e ainda vão achar que ele é um tremendo de um vagabundo. Se você conversar com ele, no entanto, tenho certeza de que vai mudar de ideia, mesmo porque Jack tem uma conversa e tanto e sabe contar histórias. Muitas histórias. Acho ainda que a coisa toda é muito mais profunda. Se fizermos um mapa genético desta alma errante – alma não tem DNA, tem? – vamos descobrir algo extraordinário.
 Acho que em seus gens estão gravadas instruções claríssimas contra empregos. O que o pobre do Jack pode fazer contra isto? É uma luta injusta, toda essa codificação genética tramando contra o impulso para o trabalho. É a única explicação. Tenho certeza de que um dia quando a ciência estiver muito mais avançada e conseguirmos adentrar mais profundamente nas sub-subpartículas (eu sei que a palavra não existe, mas poderia) vai haver uma explicação científica , para este fenômeno e Jack, finalmente, vai ser redimido!

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Thursday, December 1, 2011

Os Porquês de Maria

Os Porquês de  Maria

Maria veio para a América.
Veio  para trabalhar.
Por que Maria está tão cansada?
Por que Maria trabalha tanto e tudo está sempre igual?
Por que Maria trabalha, trabalha, e ainda assim as contas aumentam?
Por que Maria, mesmo quando algo bom acontece, está sempre triste?
Por que a vida passa tão rápido e Maria não vê?
Por que Maria não acha mais graça nas coisas?
Por que as coisas não têm mais graça para Maria?
Por que Maria não ri?
Por que Maria não consegue amar?
Nem chorar, por quê?
Por que Maria ficou insensível a tudo?
Por quê?
Por que há tantos “porquês” na vida de Maria?
Maria às vezes pensa... se tivesse feito tudo diferente!
Talvez alguém devesse perguntar:
Por que Maria veio para a América?




Manolo Otero - Maria No Mas






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Tuesday, November 29, 2011

Lilly, Henry, Marcelo e Renata



Lilly, Henry, Marcelo e Renata

Lilly amava Henry e morava com ela mas não eram casados. Por quê? Porque Henry havia se casado com Renata, que na verdade amava Juan que não queria se casar. Henry e Renata eram casados, porque eram amigos, e foi por Renata precisar de documentos aqui na América, que ele com ela se casou. Henry apresentou Lilly para Renata, porque, afinal de contas, não tinha nada de mais, não eram rivais. Estava tudo claro, Lilly sabia que o casamento era “de mentirinha” e Renata sabia que Lilly amava Henry. Henry pensou que  então não havia nada de mais todos morarem juntos, pois afinal de contas, todos sabiam de tudo. Por conveniência ou por sei lá o quê, todos concordaram. Tudo ia bem. Daí então Lilly cismou que o que Renata sentia por Henry era mais que amizade e Renata cismou que Lilly não gostava dela e que ela não era uma coisa boa para Henry, que era uma pessoa bacana e além de tudo, era seu amigo. Nada disso era verdade e tudo tinha um pouquinho de verdade também. Essas coisas são difíceis de medir. Além disso, havia o problema de culturas diferentes, barreiras linguísticas e muitas outras coisas mais. No meio dessa confusão toda,  Renata conheceu um tal de Marcelo e se apaixonou por ele. Henry que, apesar de ser só amigo de Renata (embora, repito, fosse casado de papel) , começou a sentir um pouco de ciúmes, pois afinal ele era o marido. Marcelo foi apresentado a todos e ficou a par da situação. Marcelo, embora soubesse de tudo, achou que Henry não tinha o direito de ficar casado com Renata porque era ele quem a amava e esta história de documentos era besteira. Ele queria voltar para o Brasil e levar Renata consigo, deixar tudo isso para trás. Henry, agora, começou a gostar mesmo de Renata, primeiro por causa do desafio, segundo porque, agora percebia, Renata era mesmo uma mulher e tanto. Fizeram uma reunião pois a situação estava confusa. Foi uma boa briga, em parte porque o que queriam eram coisas diferentes e em parte porque havia uma tremenda confusão linguística. Passaram-se uns dias e, por acaso,  Marcelo estava na rua e encontrou  Lilly. Resolveram tomar um café e aproveitaram para se desculpar pela confusão do outro dia, afinal eram todos civilizados e não havia motivo para brigar. Marcelo então percebeu que Lilly na verdade era uma boa pessoa e uma gracinha de mulher. Lilly, agora que estavam a sós, também achou que Marcelo  era uma boa pessoa e só não entendia como podia gostar de alguém do tipo de Renata.
 Acabaram se encontrando outras vezes e se amando. Renata e Henry se sentiram traídos pelos dois, como pode? Acabaram ficando mais amigos ainda e fizeram uma frente contra os que, agora pareciam ser seus inimigos. Mas que diabos! Afinal de contas, os dois eram casados de documento e tudo, o melhor era mandá-los às favas, aqueles falsos e traidores. Foram para outra casa e Marcelo veio morar com Lilly. Acontece que Marcelo também não tinha documentos e Lilly acabou apressando o casamento entre os dois, pois, além de garantir o amor de Marcelo, bem, era melhor para todos.
Espero não ter feito nenhuma confusão e espero não ter deixado você confuso. Os quatro passaram a viver muito felizes, cada casal em sua casa, todos cidadãos desta grande nação, documentados e dentro da lei e tudo mais.
Estou me  esquecendo de algo...Ah, sim! Lilly, Marcelo, Renata e Henry viveram felizes para sempre. Não, não era isso! O que eu estava me esquecendo era do Juan. Pois bem, eu sinto muito, mas o Juan ficou de fora.

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Quadrilha -   Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
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"Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha"...

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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)







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Saturday, November 26, 2011

A Palhacinha da Nicarágua

A Palhacinha da Nicarágua
















Dessa vez minha passageira era da Nicarágua. Entrou afoita no carro, já falando, já gesticulando. Para ser sincero, os gestos não eram tantos pois um dos seus braços estava imobilizado. Muito pequena, quase uma menina, franzina, magra. Por isso, talvez, seu falar era ainda mais notório, quero dizer por causa do contraste. Normalmente nós, brasileiros, temos muita facilidade em entender bem o espanhol de onde quer que ele seja. No caso daquela menina, quero dizer mulher, era diferente. Não se entendia uma palavra sequer. Talvez falasse muito rápido, talvez seu espanhol estivesse misturado com algum dialeto de seu país, talvez ela tivesse algum problema de fala, não sei. A cena toda parecia uma cena de gibi. Da história toda, até então, só sabia que trabalhava na lanchonete da rede de fast food e que havia se machucado – o braço – durante o trabalho. O que começava a saber de novo, era que ela estava muito, muito brava, estava uma fúria. Cheguei a pensar nos famosos guerrilheiros de seu país, quem sabe ela era parente de um deles. Não, não. Devia ser uma garota pobre dos arredores de Manágua que tinha vindo parar neste grande país para melhorar a vida. Agora ela estava furiosa com alguma coisa, algo tinha dado errado. Estamos quase chegando ao destino quando ao longe vejo uma outra unidade da mesma cadeia de fast food onde a nossa amiga trabalhava. Quando nos aproximamos mais, vejo uma palhacinha pulando, gesticulando, segurando um cartaz da lanchonete . Provavelmente o movimento estava fraco e o gerente botou uma de sua funcionárias, vestida de palhaça, para, com sua movimentação,  atrair a atenção dos motoristas que passavam. Já tinha ouvido falar que alguns negócios que dependem de transeuntes, fazem isto. Minha passageira então aponta para a palhacinha, fazendo uma expressão de quem pergunta: “Agora você entende? Foi isto que aconteceu!” Mas eu ainda não tinha entendido. Chego ao consultório do ortopedista onde ela tinha consulta, entro com ela e quando ela é atendida,  comento com a recepcionista sobre a atitude da menina da Nicarágua.”Pois é, a pobrezinha se machucou enquanto trabalhava na lanchonete. Quebrou o braço.Ela é muito esforçada.” Faço cara de quem não estava entendendo e ela continua. “O patrão mandou ela colocar a roupa de palhacinha e ir agitar na frente da lanchonete para atrair clientes.” Peço para ela continuar... “O gerente falou para ela que tinha de se agitar muito, pular, balançar os braços, erguer o cartaz, pois só assim as pessoas prestam atenção.” Aí ela continua... A garota seguiu tudo ao pé da letra e se agitou tanto que, num dos movimentos, quebrou o braço. Por isso estava revoltada com o gerente. Ela não ligava de ser palhacinha, nem nada, mas precisava falar para ela se agitar tanto? Precisava do emprego, agitou-se toda. Agora sim que ia ganhar menos pois não podia trabalhar, fazer hora extra nem nada, com essas leis trabalhistas daqui, que nem leis são. Agora eu entendia a revolta dela.Se fosse no Brasil, aquele gerente ia ver o que era bom fazer os outros de palhaço. Mas aqui, fizeram da pobre menina, que já era mulher, uma  palhaça. Por isso que a chamei de a “Palhacinha da Nicarágua”, não por desrespeito, ao contrário, por solidariedade e por que acho que as pessoas devem protestar contra o que está errado...Deixa esse gerente ir a Nicarágua para ver o que é bom para tosse, lá ele vai ver quem é  palhaço...

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Thursday, November 17, 2011

Frank Duran e o escritório de advocacia

Frank Duran e o escritório de advocacia

Minha próxima corrida era recolher o Sr Frank Duran num escritório de advocacia em Lakeland, Florida. Muito cedo, 8 horas da manhã, que diabos ele estaria fazendo lá?  Que raios de escritório de advocacia  começa a trabalhar a esta hora? Eu não tenho nada a ver com isto, minha obrigação é levá-lo do ponto A para o ponto B, sendo o ponto A o tal do escritório. O ponto B era um laboratório em Orlando que, como você sabe, é a terra e também a casa de Mickey Mouse, que, por sinal, nada tem a ver com esta história. 
O Sr. Duran me explica que não fora visitar o advogado, embora ele o conhecesse e tomasse conta do seu caso. Ali também não era sua casa, apenas ali marcara por ser mais perto para todo mundo. Pensei comigo, preferia que fosse mais longe pois receberia mais pela corrida. Enfim o Sr. Duran continua a conversa contando sua história, ou seja, uma longa batalha judicial sobre um  problema médico que tivera. O governo, ou a companhia de seguro, dizia que o que ele tinha tido não era um acidente de trabalho, era na verdade um “acidente da vida”, ou seja era uma doença que ele teria trabalhando ou não. Explica os detalhes jurídicos e eu me perco completamente na explicação. Está indo para o laboratório justamente para fazer mais um teste, que, com certeza, iria  dar ainda mais consistência para  seu caso na justiça. Estava já torcendo por ele. Demorou-se um pouco mais do que o normal pois o laboratório estava lotado, mas finalmente estávamos voltando para o escritório de advocacia em Lakeland, ou melhor, para o estacionamento do mesmo. Chegamos e o Senhor Duran desce. Pergunto apenas por perguntar se sua casa está perto, se vai ter de dirigir muito. “Não, senhor, não vai demorar, não. Na verdade,  já cheguei.” Olho para ele com olhar de quem não entendeu e então ele me mostra uma velha van vermelha. Pela janela podem se vistos cabides com roupas penduradas. Ele era um “homeless”. Era uma daquelas pessoas que “moram” no carro. Sem querer brincar  com a desgraça, tenho de declarar que , tecnicamente ele não era sem-teto, pois teto ele tinha, embora fosse muito baixo.
Frank não estava nem envergonhado nem constrangido. Eu estava constrangido por ele. Mister  Frank Duran era o segundo sem-teto que eu conhecia pessoalmente em apenas uma semana. Pela segunda vez meu coração se encheu de tristeza. Uma terra tão grande, tão bonita, tão cheia de riquezas e, em pouco tempo, eu já conhecera dois sem-teto...América, América...



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Saturday, November 5, 2011

Pausa: Boas Notícias

Pausa: Boas Notícias








Todos os dias temos notícias horríveis no jornal. Assassinatos, sequestros, traição, ataques...Coisas inimagináveis, mas que, no entanto, acontecem...Acontecem nos altos níveis da política, entre governos, na classe média, na classe alta e na baixa...Velhos, jovens, crianças e bebês são vítimas. Animaizinhos e até inteiras espécies sofrendo por causa de abuso, agressividade, impunidade...também o são. Todos os dias, em qualquer jornal, você tem a certeza de que vai ver algo ruim. Mas não desanime. Nem tudo é tão mau assim. Coisas boas acontecem também. Almas especiais que salvam, resgatam, sobrevivem e ajudam outras a sobreviver. O acaso, também,  muitas vezes livra muitas pessoas de coisas horríveis. Não é tão comum ver isso no noticiário, mas acontece, e volta e meia podemos saborear, sentir aquela emoção gostosa  de ter algo bom anunciado. É verdade que há muito mais notícias más do que boas. Talvez seja a natureza do jornalismo, baseado, é claro, no comportamento humano que parece se alimentar da tragédia. Não significa que há mais maldade acontecendo do que coisas boas. Há milhões de pequenas ações, todos os dias, em todos os cantos,  que nos lembram que somos humanos e temos alma. Pequenas  gentilezas, sorrisos sem malícia, pequenos favores...Favores que não pedem retorno, ajuda para alguém que você nunca mais vai ver...Outro dia perdi minha carteira com tudo dentro. Apareceu dias depois no Departamento de Polícia com tudo de volta. Daí olhei a lista das coisas achadas no quadro da parede. Pode imaginar que havia várias carteiras com dinheiro dentro, devolvidas, aguardando pelos seus donos? Muita gente ajuda muita gente que nunca mais vai ver...Nós só ficamos sabendo de alguns casos mais fantásticos que vão para os jornais...É verdade, amigo, há muita gente boa, pode estar certo. Se você prestar atenção, vai começar a notá-las, elas estão sim,  por aí, e não são tão raras assim. Elas fazem o equilíbrio do mundo, impedem que um prato da balança afunde muito do outro lado. Obrigado, para todos vocês que fazem o bem, sem saber a quem..Obrigado!

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