Sunday, December 4, 2011
Saturday, December 3, 2011
O DNA de Jack Brown
Jack Brown é um bom sujeito mas nunca gostou de trabalhar. Muito simpático, falante, inteligente, encanta a todos com sua conversa fácil e amiga. Às vezes ele para e decide que não tem mais jeito. “Preciso começar já!”, ele pensa. As coisas estão muito difíceis. No dia seguinte não começa, nem no outro, nem no outro. Então lava um carro ou dois, ganha uns trocados, compra o que precisa. Não tem compromissos, nem aluguel, nem prestações. Dorme aqui ou acolá, no mato, às vezes fica uma semana na casa de um amigo. Então, de novo, as coisas apertam muito, ele anota uns endereços, faz uma programação de visitas a possíveis locais de trabalho e fica pronto para o dia seguinte. Amanhã, no entanto, é outro dia, outras coisas vêm a sua mente, algo muda seu destino e Jack fica por ali mesmo. Ele não é propriamente um preguiçoso, embora esta hipótese passa o tempo todo pela minha cabeça. Este bloqueio mental contra um emprego é uma característica intrínseca de sua personalidade. Seria preguiça se ele pudesse optar, mas ele não pode. Já está programado em seu cérebro, simplesmente é alguma coisa muito interior, não depende de sua vontade. Eu sei, algumas pessoas não vão acreditar nisto e ainda vão achar que ele é um tremendo de um vagabundo. Se você conversar com ele, no entanto, tenho certeza de que vai mudar de ideia, mesmo porque Jack tem uma conversa e tanto e sabe contar histórias. Muitas histórias. Acho ainda que a coisa toda é muito mais profunda. Se fizermos um mapa genético desta alma errante – alma não tem DNA, tem? – vamos descobrir algo extraordinário.
Acho que em seus gens estão gravadas instruções claríssimas contra empregos. O que o pobre do Jack pode fazer contra isto? É uma luta injusta, toda essa codificação genética tramando contra o impulso para o trabalho. É a única explicação. Tenho certeza de que um dia quando a ciência estiver muito mais avançada e conseguirmos adentrar mais profundamente nas sub-subpartículas (eu sei que a palavra não existe, mas poderia) vai haver uma explicação científica , para este fenômeno e Jack, finalmente, vai ser redimido!
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Thursday, December 1, 2011
Os Porquês de Maria
Os Porquês de Maria
Maria veio para a América.
Veio para trabalhar.
Por que Maria está tão cansada?
Veio para trabalhar.
Por que Maria está tão cansada?
Por que Maria trabalha tanto e tudo está sempre igual?
Por que Maria trabalha, trabalha, e ainda assim as contas aumentam?
Por que Maria, mesmo quando algo bom acontece, está sempre triste?
Por que a vida passa tão rápido e Maria não vê?
Por que Maria não acha mais graça nas coisas?
Por que as coisas não têm mais graça para Maria?
Por que Maria não ri?
Por que Maria não consegue amar?
Nem chorar, por quê?
Por que Maria ficou insensível a tudo?
Por quê?
Por que há tantos “porquês” na vida de Maria?
Maria às vezes pensa... se tivesse feito tudo diferente!
Talvez alguém devesse perguntar:
Por que Maria veio para a América?
Manolo Otero - Maria No Mas
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Tuesday, November 29, 2011
Lilly, Henry, Marcelo e Renata
Lilly, Henry, Marcelo e Renata
Acabaram se encontrando outras vezes e se amando. Renata e Henry se sentiram traídos pelos dois, como pode? Acabaram ficando mais amigos ainda e fizeram uma frente contra os que, agora pareciam ser seus inimigos. Mas que diabos! Afinal de contas, os dois eram casados de documento e tudo, o melhor era mandá-los às favas, aqueles falsos e traidores. Foram para outra casa e Marcelo veio morar com Lilly. Acontece que Marcelo também não tinha documentos e Lilly acabou apressando o casamento entre os dois, pois, além de garantir o amor de Marcelo, bem, era melhor para todos.
Espero não ter feito nenhuma confusão e espero não ter deixado você confuso. Os quatro passaram a viver muito felizes, cada casal em sua casa, todos cidadãos desta grande nação, documentados e dentro da lei e tudo mais.
Estou me esquecendo de algo...Ah, sim! Lilly, Marcelo, Renata e Henry viveram felizes para sempre. Não, não era isso! O que eu estava me esquecendo era do Juan. Pois bem, eu sinto muito, mas o Juan ficou de fora.
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Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
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"Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha"...
Essa vida da gente
(crônicas e contos sobre o cotidiano)
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Saturday, November 26, 2011
A Palhacinha da Nicarágua
A Palhacinha da Nicarágua

Dessa vez minha passageira era da Nicarágua. Entrou afoita no carro, já falando, já gesticulando. Para ser sincero, os gestos não eram tantos pois um dos seus braços estava imobilizado. Muito pequena, quase uma menina, franzina, magra. Por isso, talvez, seu falar era ainda mais notório, quero dizer por causa do contraste. Normalmente nós, brasileiros, temos muita facilidade em entender bem o espanhol de onde quer que ele seja. No caso daquela menina, quero dizer mulher, era diferente. Não se entendia uma palavra sequer. Talvez falasse muito rápido, talvez seu espanhol estivesse misturado com algum dialeto de seu país, talvez ela tivesse algum problema de fala, não sei. A cena toda parecia uma cena de gibi. Da história toda, até então, só sabia que trabalhava na lanchonete da rede de fast food e que havia se machucado – o braço – durante o trabalho. O que começava a saber de novo, era que ela estava muito, muito brava, estava uma fúria. Cheguei a pensar nos famosos guerrilheiros de seu país, quem sabe ela era parente de um deles. Não, não. Devia ser uma garota pobre dos arredores de Manágua que tinha vindo parar neste grande país para melhorar a vida. Agora ela estava furiosa com alguma coisa, algo tinha dado errado. Estamos quase chegando ao destino quando ao longe vejo uma outra unidade da mesma cadeia de fast food onde a nossa amiga trabalhava. Quando nos aproximamos mais, vejo uma palhacinha pulando, gesticulando, segurando um cartaz da lanchonete . Provavelmente o movimento estava fraco e o gerente botou uma de sua funcionárias, vestida de palhaça, para, com sua movimentação, atrair a atenção dos motoristas que passavam. Já tinha ouvido falar que alguns negócios que dependem de transeuntes, fazem isto. Minha passageira então aponta para a palhacinha, fazendo uma expressão de quem pergunta: “Agora você entende? Foi isto que aconteceu!” Mas eu ainda não tinha entendido. Chego ao consultório do ortopedista onde ela tinha consulta, entro com ela e quando ela é atendida, comento com a recepcionista sobre a atitude da menina da Nicarágua.”Pois é, a pobrezinha se machucou enquanto trabalhava na lanchonete. Quebrou o braço.Ela é muito esforçada.” Faço cara de quem não estava entendendo e ela continua. “O patrão mandou ela colocar a roupa de palhacinha e ir agitar na frente da lanchonete para atrair clientes.” Peço para ela continuar... “O gerente falou para ela que tinha de se agitar muito, pular, balançar os braços, erguer o cartaz, pois só assim as pessoas prestam atenção.” Aí ela continua... A garota seguiu tudo ao pé da letra e se agitou tanto que, num dos movimentos, quebrou o braço. Por isso estava revoltada com o gerente. Ela não ligava de ser palhacinha, nem nada, mas precisava falar para ela se agitar tanto? Precisava do emprego, agitou-se toda. Agora sim que ia ganhar menos pois não podia trabalhar, fazer hora extra nem nada, com essas leis trabalhistas daqui, que nem leis são. Agora eu entendia a revolta dela.Se fosse no Brasil, aquele gerente ia ver o que era bom fazer os outros de palhaço. Mas aqui, fizeram da pobre menina, que já era mulher, uma palhaça. Por isso que a chamei de a “Palhacinha da Nicarágua”, não por desrespeito, ao contrário, por solidariedade e por que acho que as pessoas devem protestar contra o que está errado...Deixa esse gerente ir a Nicarágua para ver o que é bom para tosse, lá ele vai ver quem é palhaço...
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Thursday, November 17, 2011
Frank Duran e o escritório de advocacia
Frank Duran e o escritório de advocacia
Minha próxima corrida era recolher o Sr Frank Duran num escritório de advocacia em Lakeland, Florida. Muito cedo, 8 horas da manhã, que diabos ele estaria fazendo lá? Que raios de escritório de advocacia começa a trabalhar a esta hora? Eu não tenho nada a ver com isto, minha obrigação é levá-lo do ponto A para o ponto B, sendo o ponto A o tal do escritório. O ponto B era um laboratório em Orlando que, como você sabe, é a terra e também a casa de Mickey Mouse, que, por sinal, nada tem a ver com esta história.
O Sr. Duran me explica que não fora visitar o advogado, embora ele o conhecesse e tomasse conta do seu caso. Ali também não era sua casa, apenas ali marcara por ser mais perto para todo mundo. Pensei comigo, preferia que fosse mais longe pois receberia mais pela corrida. Enfim o Sr. Duran continua a conversa contando sua história, ou seja, uma longa batalha judicial sobre um problema médico que tivera. O governo, ou a companhia de seguro, dizia que o que ele tinha tido não era um acidente de trabalho, era na verdade um “acidente da vida”, ou seja era uma doença que ele teria trabalhando ou não. Explica os detalhes jurídicos e eu me perco completamente na explicação. Está indo para o laboratório justamente para fazer mais um teste, que, com certeza, iria dar ainda mais consistência para seu caso na justiça. Estava já torcendo por ele. Demorou-se um pouco mais do que o normal pois o laboratório estava lotado, mas finalmente estávamos voltando para o escritório de advocacia em Lakeland, ou melhor, para o estacionamento do mesmo. Chegamos e o Senhor Duran desce. Pergunto apenas por perguntar se sua casa está perto, se vai ter de dirigir muito. “Não, senhor, não vai demorar, não. Na verdade, já cheguei.” Olho para ele com olhar de quem não entendeu e então ele me mostra uma velha van vermelha. Pela janela podem se vistos cabides com roupas penduradas. Ele era um “homeless”. Era uma daquelas pessoas que “moram” no carro. Sem querer brincar com a desgraça, tenho de declarar que , tecnicamente ele não era sem-teto, pois teto ele tinha, embora fosse muito baixo.
Frank não estava nem envergonhado nem constrangido. Eu estava constrangido por ele. Mister Frank Duran era o segundo sem-teto que eu conhecia pessoalmente em apenas uma semana. Pela segunda vez meu coração se encheu de tristeza. Uma terra tão grande, tão bonita, tão cheia de riquezas e, em pouco tempo, eu já conhecera dois sem-teto...América, América...
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Saturday, November 5, 2011
Pausa: Boas Notícias
Pausa: Boas Notícias
Todos os dias temos notícias horríveis no jornal. Assassinatos, sequestros, traição, ataques...Coisas inimagináveis, mas que, no entanto, acontecem...Acontecem nos altos níveis da política, entre governos, na classe média, na classe alta e na baixa...Velhos, jovens, crianças e bebês são vítimas. Animaizinhos e até inteiras espécies sofrendo por causa de abuso, agressividade, impunidade...também o são. Todos os dias, em qualquer jornal, você tem a certeza de que vai ver algo ruim. Mas não desanime. Nem tudo é tão mau assim. Coisas boas acontecem também. Almas especiais que salvam, resgatam, sobrevivem e ajudam outras a sobreviver. O acaso, também, muitas vezes livra muitas pessoas de coisas horríveis. Não é tão comum ver isso no noticiário, mas acontece, e volta e meia podemos saborear, sentir aquela emoção gostosa de ter algo bom anunciado. É verdade que há muito mais notícias más do que boas. Talvez seja a natureza do jornalismo, baseado, é claro, no comportamento humano que parece se alimentar da tragédia. Não significa que há mais maldade acontecendo do que coisas boas. Há milhões de pequenas ações, todos os dias, em todos os cantos, que nos lembram que somos humanos e temos alma. Pequenas gentilezas, sorrisos sem malícia, pequenos favores...Favores que não pedem retorno, ajuda para alguém que você nunca mais vai ver...Outro dia perdi minha carteira com tudo dentro. Apareceu dias depois no Departamento de Polícia com tudo de volta. Daí olhei a lista das coisas achadas no quadro da parede. Pode imaginar que havia várias carteiras com dinheiro dentro, devolvidas, aguardando pelos seus donos? Muita gente ajuda muita gente que nunca mais vai ver...Nós só ficamos sabendo de alguns casos mais fantásticos que vão para os jornais...É verdade, amigo, há muita gente boa, pode estar certo. Se você prestar atenção, vai começar a notá-las, elas estão sim, por aí, e não são tão raras assim. Elas fazem o equilíbrio do mundo, impedem que um prato da balança afunde muito do outro lado. Obrigado, para todos vocês que fazem o bem, sem saber a quem..Obrigado!
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