Monday, November 17, 2014

Una questão de percepção

Percepção



Quem já não ouviu falar que não importam as coisas que acontecem? O que importa é como nós e as outras pessoas as veem. Em outras palavras, o que importa não é a realidade, mas sim a percepção que temos dela. Mais ainda, a percepção que cada um tem da realidade é diferente dos outros. É verdade também que os grandes líderes, na arte, na política, e em outras campos, às vezes têm tanta força que nos impõem a sua própria maneira de ver o mundo. Às vezes de um ângulo bom, às vezes de seu próprio e mesquinho ângulo de interesse. Por isso é que dizem também que a história é contada de acordo com os vencedores. Nesse caso, o que vale é a sua percepção e não a dos derrotados.
Isso significa que a percepção que temos de tudo não é a realidade. É a concepção, a criação que fizemos a partir da mesma, segundo nosso visão de mundo, segundo o que nós somos.
Mas agora fica a dúvida. E o que realmente aconteceu, para que serve? Uma dúvida maior ainda: será que a realidade mesmo, aquilo que aconteceu, será que aconteceu mesmo? Será que existe mesmo uma realidade? E se tudo que está à nossa volta não é uma grande obra de ficção? E, nesse caso, o autor dessa obra, será que está rindo desses personagens, desvairados, descuidados, perdidos entre a ficção, que para eles é a realidade e a percepção que eles têm dela?

Talvez esteja exagerando, mas que não temos controle dessa grande peça teatral, definitivamente não temos. Somos apenas personagens, fazendo nossos papéis previamente escolhidos, vagando, perdidos, nesse infinito palco cósmico.


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Paralelo 38 e outras histórias
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Friday, November 14, 2014

Uma tragédia mexicana


Uma tragédia mexicana

(Ou 43 motivos para pensarmos que não somos os mais violentos do mundo)

Nada menos do que 43 estudantes de uma faculdade rural de Isidro Burgos, no México, desapareceram. Tudo indica que a polícia local prendeu-os e os entregou a assassinos de um cartel de drogas. Aparentemente, o prefeito da cidade e a sua mulher estão envolvidos no caso. A polícia (espero que seja outra) ainda está investigando o caso. Embora o Brasil seja considerado um país violento, é difícil competir com um caso assim. De certa forma, tira a atenção de cima da gente. Ironia à parte, é difícil entender como podemos estar no século 21, termos essa incrível tecnologia, sermos tão avançados e, ainda assim, presenciarmos tais espetáculos.
Um outro aspecto deste assunto que nos assusta, é a cobertura modesta que o fato recebe. Uma notícia dessas deveria ser manchete no mundo, causar indignação sem precedentes. No entanto, o seio que a atriz deixou “sem querer” aparecer, uma frase ousada de algum idiota conhecido nas redes sociais, ou algo assim, são muito mais importantes. Têm 10 vezes mais cobertura. Claro, porque as pessoas se preocupam mais com esse tipo fútil de informação.
Como disse Cristo há 2000 anos atrás, “Pai, perdoai, pois eles não sabem o que fazem”.



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Estranhas Histórias
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Thursday, November 13, 2014

Marina Guimarães, a bailarina cega


Marina Guimarães, a bailarina cega

Eu vejo você e você não me vê. Você me encanta com seus encantos de bailarina. Suaves braços desenhando traços no ar. Suaves pés sustentando um corpo que, com graça, levita no palco. Um impossível bailado enche meus olhos incrédulos. É a impossível, improvável, dança mágica de uma alma especial. Tão especial que desafia a ordem do espaço, a ordem da lógica, com uma vontade quase insensata.
Marina, você é inspiração, e dá sentido para a vida.
Marina Guimarães, cega desde que nasceu, é a inusitada vitória da vontade sobre a razão.
Junto com outros bailarinos e bailarinas, forma o grupo Companhia de Ballet para Cegos. Obrigado, por nos mostrarem que a vida é muito mais do que aquilo que, nós, os verdadeiros cegos, conseguimos ver.




O grupo já se apresentou em várias cidades brasileiras e em outros países, como Argentina, Estados Unidos e Inglaterra. Na Paralimpíada de Londres, em 2012, quatro meninas dividiram palco com bailarinos do mundo todo. Entre elas estava Marina Guimarães, que é cega desde que nasceu. “Nunca imaginei que iria para uma Paralimpíada como bailarina. Foi sensacional. Fomos tratadas como artistas”, relembrou.




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Wednesday, November 12, 2014

Aviõezinhos de papel



Aviõezinhos de papel (memórias do seminário)

“Aviõezinhos de papel enchem o céu,
levados pelo vento...”
(Kimi ni Todoke:Amor Não Correspondido)


Tínhamos um dia de “folga” durante a semana. Não, nada do que você está pensando. Era apenas um dia sem aulas. Rezávamos como sempre, até mais do que o normal. No lugar das aulas tínhamos “estudos”, ou seja, ficávamos horas estudando em nossas carteiras. Estudávamos o que todos estudavam e coisas que, aposto, nenhuma outra criança da época estudava: Grego, Latim, História Natural, etc. De qualquer jeito, era um dia diferente, a ponto de termos uma hora ( uma inteira hora!) de folga, em que podíamos ficar no pátio, nos arredores, brincando, falando. Claro, tínhamos de falar só com os de nossa turma, os  "menores”.
Antes de vir para o seminário, meu irmão tinha me ensinado a fazer uns aviões de papel. Eu sei que todo mundo fazia aviões de papel, mas aqueles eram especiais. Tinha umas asas arredondadas, o que se conseguia enrolando as mesmas em volta de um lápis. Eles ficavam muito tempo no ar. Davam voltas e mais voltas. Às vezes parecia que iam cair mas surpreendiam e subiam mais um pouco. Depois de muitas acrobacias, eles pousavam suavemente, para serem lançados mais uma vez, e outra e outra... Alguns não voltavam, iam além dos arbustos onde não podíamos ir buscá-los. Não me incomodava com os que desapareciam, no meu coração eu também fugia com eles.
Numa extremidade do grande pátio onde ficávamos espalhados, havia uma pequena ribanceira.  Depois estendia-se uma longa área, proibida, com mato, pequenas árvores e flores. Amarelas, vermelhas, róseas. Sempre achei que ali era o paraíso prometido pelos padres nos sermões, para aqueles que tinham só "bons pensamentos". Acho que eu não  queria esperar aquele céu divino prometido nos sermões e me contentava com aquele paraíso, ali, naquela hora. Era dali que lançava meus aviõezinhos, que então pairavam sobre a paisagem, lenta e soberanamente... E eles brincavam no firmamento, sobrevoando as flores, indo e voltando, subindo e descendo no espaço. Era bom vê-los voando...Foi o meu primeiro contato com o infinito. Era o meu céu...e é por isso que ainda acredito na eternidade...



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Tuesday, November 11, 2014

Vida depois da morte



Vida depois da morte

Meu amigo Faustino estava sempre de bem com a vida. Tanto assim que nem se preocupava com o pós-morte. Sempre dizia que havia só duas possibilidades. Que a vida continuava e, portanto, havia um Deus. E Deus, dizia ele, por definição, só podia ser bom. Com aqueles pecadinhos mixurucas que cometia, nem tinha como ser castigado. Desse lado, estava coberto. Se nada existisse depois, sendo a morte o fim de tudo, também estava coberto, pois não havia o que cobrir. Não ia ver nada, sentir nada, nada sofrer. Era o descanso absoluto de tudo. Ponderei que havia uma outra possibilidade. Deus existir, mas para nós a morte seria o fim de tudo. Por que não? Ele ria e dizia que dava na mesma. Não sofreria mais. Estava tudo bem.
Um dia me disse que poderia ficar tranquilo. Se ele morresse antes e existisse vida depois da morte, ele daria um jeito de me avisar. Daria um sinal, faria qualquer coisa. E não é que um dia ele morreu? Foi antes de mim, o safado.

Pois bem, até hoje não me mandou sinal nenhum. Mas isso não quer dizer nada. Ele pode ter ficado tão entretido com as novidades, que se esqueceu. Pode ser também que ele tenha mandado um aviso e eu não tenha percebido. Eu ando tão distraído ultimamente...

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Tuesday, November 4, 2014

Americanos, do Sul e do Norte




Americanos, do Sul e do Norte

Há mais de 500 anos atrás, portugueses e espanhóis atravessaram os mares atrás de riquezas e aventuras. Queriam mercadorias, produtos, e glória para seus monarcas e seus reinados. Chegaram, desbravaram, exploraram.  Usavam tudo que podiam, inclusive seus habitantes. Ficaram também com a terra, mas não como sua nova pátria, apenas como mais uma possessão. Só mais tarde elas se libertariam. Nossas terras eram um lugar onde tudo se podia, desde que voltassem riquezas para os reis, na Europa. Não eram famílias seus habitantes, eram homens aventureiros e exploradores.
Os Ingleses começaram a vir para a parte Norte. Eles vieram, porém, para ficar, não para explorar. Lá estabeleceram sua nova morada, com suas famílias. Não queriam o caos para seus filhos e filhas e esposas. Firmaram regras de convívio, normas que todos se comprometiam a cumprir. Cresceram de forma organizada e coesa. Mais tarde foram comprando ou assimilando terras que pertenciam a outros Europeus; Flórida, Luisiana, Texas, etc.  Tornaram-se os Estados Unidos da América.
Nós, através de lutas, guerras e jogos de interessantes, nos tornamos as inúmeras nações da América do Sul.
Somos o que somos, os povos do Sul. Temos nossos próprios demônios, criados pelo caos, pelo interesse, pela luta da sobrevivência. No norte, eles tem uma forma mais organizada de viver, de interagir. Têm, também seus demônios, demônios da civilização, da vontade pelo poder.

Nós todos, americanos do Sul e do Norte, caminhamos agora para o novo milênio. É uma época em que há cada vez menos espaço para o caos e cada vez mais espaço para o poder. Infelizmente, para nós.

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Paralelo 38 e outras histórias
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Sunday, November 2, 2014

Um pedaço do céu, um ateu e a Dona Zulmira



Um pedaço do céu, um ateu e a Dona Zulmira

Quem colocaria numa cidade o nome de “Pedaço do Céu”? Pois bem, entre tantos nomes estranhos, pelo menos esse era auspicioso. Diria, até, apropriado.  Por ser pequena, muito pequena, talvez devesse ser “pedacinho”, mas aí entrou um pouquinho de vaidade e o diminutivo ficou de lado.  Não sei se por causa do destino, ou de fatores sociológicos, ou até mesmo antropológicos, o fato é que o nome tinha tudo a ver. Não havia em toda a cidade, uma só pessoa que não frequentasse a igreja. Além do Centro Espírita, que certamente deve ser contado, havia pelo menos mais quatro igrejas com sede e tudo mais. O Centro ainda não tinha um templo, tudo era feito na casa do “seu” Joseval. O homem tinha mesmo aquele olhar distante e calmo, de quem sabe o que há no porvir. De quem conhece o outro lado da existência.
 Embora não houvesse grandes contendas metafísicas, vez ou outra, uma contenda filosófica ou teológica, aumentava um pouco a tensão. Fora isso, era uma harmonia só. Até o horário oficial dos cultos, da missa e da sessão espírita, era sincronizado. Ninguém, acho, queria ser pego de surpresa  por um concorrente de fé.
Foi por isso que, quando o professor Carlos chegou, a população ficou meio desconfiada. Aquele homem calmo, cheio de paz, e certamente  muita sabedoria, seria uma aquisição e tanto para qualquer rebanho. Para frustração de todos, logo ficou-se sabendo – o que não se sabe em um lugar tão pequeno? – que o professor não tinha religião nenhuma. Era ateu.  O vigário – não se sabe por quê – achou melhor chamá-lo de agnóstico. Não deu muitas explicações para o palavreado estranho. Espero que eu não seja excomungado por isso dizer, mas acho que ele estava com segundas intenções. Aquela palavra parecia mais pesada e certamente os seus fiéis ficariam com mais medo.
O fato é que o homem era muito inteligente e culto.  Certamente ninguém queria entrar em um debate com ele, embora sua simplicidade e modéstia fossem  óbvias. Passado algum tempo, as pessoas foram se acostumando com o fato de que um “agnóstico” não é um bicho-papão. Quase todos. A Dona Zulmira e suas comadres, que ficaram muito impressionadas com a inusitada alcunha, resolveram continuar sua campanha. Aquela era uma pessoa perigosa, ainda mais ensinando nossas crianças. O que se pode esperar de alguém que não acredita em Deus? Pior mesmo foi quando ela começou a falar que o demônio tem muitos truques. Às vezes veste uma máscara de bondade, de fraternidade, de paz e até de sabedoria. E aí é que estava o perigo. A maior parte das pessoas não levava isso a sério, mas, lá no fundo, muitos, inclusive seus alunos, passaram a olhar para o rosto do professor de um jeito diferente. Começaram a ver, escondido atrás daquela face sadia e honesta, o rosto do tinhoso. É uma coisa do inconsciente. Claro, ninguém tinha certeza. Alguns, porém, até tinham medo.  Essas coisas são assim, pessoas fanáticas podem destruir o mundo.
O professor Carlos, com muito jeito e paciência, foi levando sua vida. Era até bom não ter muita interação com algumas pessoas. Podia ter seu “retiro”, podia observar a natureza. Ele gostava muito disso. Dava passeios longos, às vezes a pé, às vezes de bicicleta. O lugar para o qual ele mais gostava de ir, era, ironicamente, o “Monte do Santo”. Uma pequena elevação, de onde se podia ver a pequena cidade, o “pedaço de céu” , se espalhando pela paisagem. Ao redor, três estradas que ligavam aquela pequena população com o resto do mundo. O pôr de sol e o amanhecer eram, desculpem o jogo de palavras, divinos, vistos dali.
Era um domingo ao anoitecer. O professor tinha acabado de subir o pequeno monte, que, aliás, era praticamente na beira da cidade. Admirava o final do dia. O sol ainda podia ser visto lá do outro lado, mas sombras já se espalhavam pelas casas, pelos pequenos prédios. A cidade não era muito iluminada e, por isso, cinco lugares se destacavam por ter um pouco mais de luz. Havia a luz da igreja católica, a luz de uma igreja protestante tradicional, a luz de duas igrejas avivadas e, finalmente, a luz do Centro Espírita. Se Carlos resolvesse se converter, não seria pela força da luz que vinha das congregações. Ali, do alto do morro, todas pareciam fracas e iguais. Era, no entanto, uma paisagem bonita. Ele estava satisfeito. De repente, porém, viu uma luz nova, diferente, que, depois de começar pequena, começou a aumentar. Se ele tivesse um só pouquinho de fé, poderia ver aí um milagre, um sinal divino. Mais uma nova religião, dessa vez, a certa. Mas aquele seu pensamento científico não deixava margem para imaginação. Em poucos minutos tirou uma conclusão lógica. Um incêndio estava começando. Ele sabia que ninguém viria socorrer, ajudar. Estavam todos bem no meio das orações, dos pedidos. Sabia que estava sozinho na empreitada. Pegou a bicicleta, desceu como um raio pela ladeira, aproveitou o impulso e “voou” pela rua deserta. Era uma casa de esquina, e, pasmem vocês, era a casa da Dona Zulmira. O mestre sabia que ele não conseguiria combater o incêndio, pois não havia mangueiras, nem água suficiente, nem nada. Raciocinou, porém, que, embora fosse improvável, poderia haver alguém lá dentro. Deu um pontapé na porta e entrou correndo, gritando. Foi aí que ouviu o choro de um garoto. Era o  Mindinho, neto da Dona Zulmira, de oito anos. Não tinha se sentido bem, a avó o havia deixado em casa, na cama. Carlos pegou o menino nos braços e correu para fora. Foi até o vizinho, abriu a torneira do jardim e umedeceu o corpo do garoto, Ele estava com algumas pequenas queimaduras, mas estava salvo. Ficou com o garoto no colo, olhando para o fogo que punha um vermelho sinistro nas faces dos dois. Dali a pouco escutou carros buzinando. Vários. Começaram a estacionar. Várias pessoas correram em direção à casa. Mas daí todos paravam, duas paredes já tinham caído e o telhado pendia quase até chão na direção delas. Era uma  fogueira só. Foi aí que ele ouviu os gritos desesperados da Dona Zulmira. Ela havia acabado de chegar e estava enlouquecida, gritando com todos os pulmões:
Meu netinho, meu netinho! Alguém socorre meu Mindinho!
Alguém veio junto a ela e segurou-a pelo braço. Era óbvio, nada podia ser feito.
Enquanto isso, o professor ateu foi andando apressadamente, no meio das pessoas, em direção a ela. Bateu em seu ombro, dizendo:
 -Dona Zulmira, seu neto está aqui. Ele está bem, só tem umas queimadurinhas.

O alívio que aquela mulher sentiu não está em lugar nenhum da Bíblia e em nenhum outro livro qualquer. Com o neto em seus braços, olhou então para o rosto vermelho – pelo reflexo do fogo – do professor. Em circunstâncias normais, seria um sinistro rosto do diabo, ardendo com o fogo do inferno. Mas o que ela viu, foi outra coisa. Um anjo, bonito, cheio de luz, uma luz branca que alumiava toda a cidade. Foi o único anjo de verdade que ela viu em toda a sua vida. E daí ela entendeu porque o professor não tinha religião. Ele não precisava, ele tinha vindo direto do céu. Tinha vindo para salvar o seu netinho.

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Estranhas Histórias
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