Thursday, September 15, 2016

O último raio de sol

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O último raio de sol

Estava fazendo um ano desde que as intempéries finalmente haviam cessado e a face da Terra se estabilizado. Era uma estranha era de sombras e cinzas. Vinha um calor do espaço, mas muito raramente se via a luz do sol. Três quartos das espécies vegetais e animais haviam sumido completamente. Havia o perigo de que alguns animais, depois de terem sobrevivido, tentassem atacar os humanos em busca de aliemento. Das espécies vegetais que tinham sobrado, muitas estavam imprestáveis e haviam se tornado tóxicas. Apenas um oitavo da espécie humana tinha resistido à brutal experiência e vagava em partes dispersas do mundo, tentando sobreviver. O perigo estava em toda a parte.
Doze grandes meteoros haviam atingido a Terra, causando um total desequilíbrio por toda a parte. Tsunamis de proporções inconcebíveis, chuvas tóxicas e poeira contaminada haviam devastado tudo. Incêndios bárbaros tinham consumido a maior parte das matas. Uma densa camada cinza, formando uma imensa nuvem escura, cobria toda a paisagem. Humanos, agora quase animais, moravam nos restos das poucas  moradias que haviam sobrado. Migravam o tempo todo em busca de alimentos e de um meio ambiente melhor.
O nascimento de Tales, quase 8 meses após o “apocalipse” foi praticamente um milagre. Os casos de mulheres grávidas que conseguiram manter seus filhos no ventre durante os primeiros meses após o “evento” eram raríssimos. Evandro e Raíssa, os pais, nem acreditavam quando ele nasceu praticamente perfeito, apenas desnutrido e mirrado. O leite da mãe foi fundamental para sua sobrevivência.
Tinham finalmente conseguido um bom lugar para ficar. Uma espécie de condomínio, não muito longe do mar. Na verdade, moravam no pouco que tinha restado. Era um lugar alto, não tinha sido atingido pela massiva invasão das águas do mar. As praias, que antes estavam a cerca de quarenta quilômetros, agora tinham desaparecido. A água estava ali perto, a menos de 700 metros, interrrompida apenas pelas colinas. Havia pouca gente que tinha descoberto aquela região para morar e a situação estava tranquila agora. Tinham conseguido  separar algumas mudas de planta para cultivar. Cada três ou quatro dias, um sol fraco e tímido ousava se espalhar sobre a paisagem. E, muito importante, havia água potável.
Os três, os pais e a criança, passavam muito tempo juntos. Havia muita conversa. Embora Tales fosse muito pequeno para entender, os pais contavam muitas histórias de antes do evento. Lá no fundo, repetiam as coisas mais para si mesmos, para não se esquecerem do tempo maravilhoso que tinha havido antes e para o qual, na época, não davam valor nenhum. Na verdade, quem mais falava era o Evandro. E do que mais falava era do pôr de sol  e das lindas alvoradas. Ele sempre gostara de olhar para o horizonte no nascer e no final do dia. Tinha saudades.  Agora quase só havia o cinza do dia e o escuro da noite.
Às vezes parecia até que ele estava sonhando ou delirando. Falava do tom laranja, rosa, cor de ouro, das nuvens banhadas pelo sol que se punha. Falava dos raios solares, rebeldes, escapando por entre as nuvens, rasgando o céu, reverberando no espaço. Era como se Deus pintasse um novo e maravilhoso quadro todos os dias. As manhãs eram parecidas, mas tinham cores mais fortes, mais brilhantes. Falava dos filamentos de ouro no céu, desenhados pelos aviões por causa da diferença de temperatura e do banho que tomavam da luz solar. Aquilo era um sonho, um brinde da natureza. Agora não havia mais nada, nem mesmo os aviões. Tudo estava, porém, em suas lembranças e dentro de suas almas.
Por algum motivo, Raíssa não gostava de quando ele se empolgava com a descrição. Talvez achasse que aquilo era dar falsa esperança para o pequeno Tales, de que um dia, aqueles lindos quadros, pintados por Deus, pudessem voltar. Talvez achasse que era mais sadio se conformar com a nova situação. Talvez achasse que aquilo fosse doentio, uma maneira insana de enfrentar este novo e triste mundo, esta nova realidade.
Evandro, entretanto, conhecia bem sua mulher. Sabia que ela nunca fora de perder tempo em olhar essas cores maravilhosas da natureza. Com certeza, ela nunca tinha notado essas mudanças no céu, que ficava salpicado de dourado e de tons róseos. Ela tinha passado a vida de antes do “evento” sempre ocupada com outras coisas, sem ligar para a natureza. Agora tinha raiva do que o marido sentia, das lembranças que ele podia ter.
Dentro de seu coração, Evandro sabia, ela tinha inveja das suas recordações. O seu cérebro era o único lugar onde agora havia o dourado e inesquecível equilíbrio de tons e brilhos do poente e do nascente. E Evandro estava determinado a jamais deixar um só raio, sequer, desaparecer de sua memória. Por isso contava e recontava cada espasmo de luz que tinha visto, através dos dias, das horas e dos minutos...


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Wednesday, September 14, 2016

As estações do amor



As estações do amor

(um poeminha de amor para quem tem cabelos brancos)

Passado o verão, o
outono vai chegar.
As folhas vão cair,
e o que era verde
outros tons vai assumir.
E nossas tristes almas,
juntas, vão se consolar.
Vamos nos aconchegar,
e com muito mais força,
tuas mãos vou segurar, 
E no duro inverno,
mais juntos ainda,
nós queremos ficar.
Como a vida passa,
também passam as estações.
Finalmente, a primavera,
sua beleza reitera,
e, feliz,  graciosa,
também quer voltar.
Então, nós dois, felizes,
velhinhos e sorridentes, 
em meio a muita flor,
com ímpeto e força,
uma vez mais, com ardor,
vamos nos apaixonar.


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Tuesday, September 13, 2016

A delação




A delação

Depois de “azular” por mais de oito horas, a Azul me levou até o desejado destino: Viracopos. Essa parte foi fácil. Difícil foi conseguir as malas de volta. Acho que elas são como nossas coisas na Internet. Depois de um voo desses, elas ficam na “cloud” e daí não querem mais voltar. A primeira chegou depois de uma hora e vinte minutos. A segunda levou ainda mais 37 minutos. Tudo bem. Tudo é festa quando você está visitando sua terra natal.
Coloquei as duas no carrinho e me coloquei na fila da alfândega. Antes disso, precisei me desviar de inúmeros garotos que corriam como doidos em volta das esteiras. Era como se ainda estivessem no Reino Mágico.
Estava chegando a minha vez. À minha frente estava um simpático casal de provavelmente 35 – 40 anos com seus filhos. Uma garota de uns quinze e um garoto de cerca de 9 anos. O respeitável senhor fiscal, com aquele poderoso distintivo da Polícia Federal, fazia perguntas e depois indicava para onde o indefeso viajante deveria ir.
Quando chegou a vez do casal, ele perguntou:
-Eletrônicos? Mais de 500 dólares?
Apesar da enorme quantidade de malas e pacotes – malas enormes – a dona da casa assumiu o controle da situação e falou:
-Não senhor. Apenas algumas roupas e uns presentinhos.
Ela ia continuar, mas o garoto, que depois fiquei sabendo que se chamava Rodolfo, interveio:
-Mamãe, a senhora se esqueceu do computador de 550 dólares que o papai comprou! E também do celular desbloqueado de 480 dólares.
A progenitora tentou desesperadamente conter a delação do filho amado, puxando-o para trás de si, mas o estrago já estava feito. O fiscal já apontava a sala de torturas. Aquele lugar onde eles esquartejam nossas malas, devassam nossas compras, entram na intimidade de nossas vidas.
Eu realmente não tinha nada para declarar, mas ele nem sequer perguntou. Mandou-me embora, livre de qualquer exame. Enquanto saía, a mãe, contrariada, arrastava o Rodolfo para a temida sala, mas ele continuava olhando para trás e gritando para o oficial o resto da lista:
-...o perfume de 85 dólares para o chefe do papai, o relógio Casio do tio Alfredo, o tablet da Marisa, etc. etc. Uma lista interminável que estava pela metade, quando finalmente eles desapareceram na sala do terror.

Como diz meu amigo Nino Belvicino, “criança é fogo!”...

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Friday, September 9, 2016

A alegria de um barco voltando



A alegria de um barco voltando

Do que você se lembra quando ouve Dolores Duran cantando “A Noite Do Meu Bem”? Provavelmente, nada. Não é de sua época, não é mesmo? Mas algumas pessoas, como eu, lembram-se  de muitas coisas e cada um se lembra das suas.
Eu me lembro, primeiramente, da velha casa no Morro do Cartório e minha mãe limpando os cômodos. Uma panela, no fogão, cozinhando o feijão. Eu me lembro do velho rádio de caixa de madeira, ligado, e alegrando, paradoxalmente, aquela manhã triste e perdida no passado. Eu me lembro da minha rua, dos meus amigos, garotos, e dos vizinhos. Sei que havia casas se espalhando, raras, pelo morro acima. Das árvores com frutas, da mata onde brincávamos – insuspeita e sem perigos – que se estendia até Caieiras. Da igreja São Jorge, com suas quermesses. Da Dona Josefina, do “seu” Nélson, do maestro Pedro Salgado, da Dona Celeste: a casa na curva da nossa rua...
Eu não conhecia, entretanto, o amor e poesia que havia na canção. Não entendia, ainda, a tristeza de um amor que “demorou a voltar”. Muito menos sabia, ainda, que, mais tarde, ali perto, um pouco mais acima, muita história iria ser contada. A história dos mortos do Cemitério Dom Bosco. Dos corpos, indefinidos e desconhecidos, assassinados pelo ódio de carrascos. Lá jogados como se nada fossem. Não sabia, que se andasse mais um pouco e atravessasse a fronteira da cidade, poderia conhecer, com antecedência, a mulher que um dia eu iria amar.
Existiam coisas que seria bom ter sabido, outras não. Por isso é que, ouvindo na música, o verso “a alegria de um barco voltando”, fico pensando... Às vezes é bom voltar, outras vezes é melhor só olhar para trás e suspirar...



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Wednesday, September 7, 2016

Terror: antes e agora



Terror: antes e agora

Quem não está preocupado com o terror hoje em dia? No entanto, violência brutal sem sentido (existe violência “com” sentido?) é algo que existe há muito tempo.  Segundo o dicionário, a definição “técnica” de terrorismo é: “Sistema governamental que se impõe por meio do terror, sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos.”  No nosso mundo atual não há muita necessidade de explicação. Os exemplos estão no noticiário todos os dias.
Para não nos perdermos, voltemos no tempo apenas para o século XI, quando começaram as Cruzadas. Foi um movimento cristão com o objetivo de “reconquistar” Jerusalém iniciado pelo papa Urbano II. Para se ter uma ideia do que os valentes guerreiros faziam, reproduzo aqui um trecho da Super Interessante sobre o assunto: “Em 15 de julho de 1099, milhares de guerreiros loiros entraram em Jerusalém matando adultos, velhos e crianças, estuprando as mulheres e saqueando mesquitas e casas.” Mais adiante, sobre os judeus na mesma região: “Mas, quando os cavaleiros invadiram as ruas, os judeus entraram em pânico. A comunidade inteira, repetindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga para orar. Os invasores bloquearam as saídas, jogaram lenha e atearam fogo à sinagoga. Os judeus que não morreram queimados, foram assassinados na rua.”
Ironicamente, na época, as cruzadas eram conhecidas por outro nome: nada mais, nada menos, que “Guerra Santa”, o mesmo que os fanáticos radicais muçulmanos de hoje usam para os chamados “infiéis” que ousam não seguir sua religião.
E assim foi pela história. Veio a escravidão. Africanos tratados como animais, torturados, mortos. A seguir, o Nazismo, aniquilando milhões de judeus da maneira mais cruel possível. Os grupos de esquerda e de direita apareceram na  segunda metade do século XX: Baader-Meinhof, Sendero Luminoso, o ETA e, mais recentemente, Al Qaeda, Boko Haram e outros tantos. E finalmente vamos chegar ao amaldiçoado Estado Islâmico. E esse parece diferente. Enquanto os anteriores tinham uma motivação clara, embora sinistra, para este último, “a guerra aos infiéis” nem é tão importante assim. Pelo menos é o que parece, uma vez que eles matam muitos muçulmanos, companheiros de fé. Aparentemente, sua motivação principal é a maldade em si mesma. Não estão pedindo nada: libertação de um povo, conversão para sua fé ou qualquer outra coisa. Simplesmente pegam tudo que podem e matam todos que conseguem.
Alguns religiosos chegam a dizer que a diferença é que este grupo é dirigido ou manipulado pelo próprio diabo.

Talvez eles tenham razão...

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Sunday, September 4, 2016

Gênesis e o descobrimento da América

                

Gênesis e o descobrimento da América

No princípio criou Deus o céu e a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E os homens e as mulheres da América eram os índios. E eles viviam em paz. Viviam das plantas maravilhosas e das ervas miraculosas que Deus havia criado. Caçavam e pescavam só para comer. Viviam alegres e felizes pelas florestas. Era para ser sempre assim.
Era para cada um ficar em seu lugar: o homem da Europa na Europa, o homem da América na América. Deus, porém, tinha dado livre arbítrio ao homem. E o homem da Europa resolveu usá-lo, vindo para cá. E veio. E fez todas as coisas que fez, coitados dos índios. E a América nunca mais foi a mesma.
Os índios sumiram quase todos. E o homem branco, além disso, trouxe políticos e fez um Congresso Nacional.
Aí sim, foi o princípio do fim.

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Friday, September 2, 2016

O corcunda de Harmonia e as onze grávidas



O corcunda de Harmonia e as onze grávidas

O Tonhão, coitado, era muito feio. Era corcunda, mas não era baixinho, não.  Desajeitado, cabelos emaranhados, barba comprida, e além de tudo, mancava. Quando ele chegou na cidade, chamou muito a atenção. Depois de algum tempo o povo se acostumou - sempre se acostuma com tudo – e ele fazia parte da paisagem. Não falava nada, resmungava algumas cosias só, não incomodava ninguém. O ”seu” Hilário tinha alugado para ele um cubículo no fundo do quintal. Bom inquilino, pagava sempre adiantado, em dinheiro. Às vezes o “seu” Hilário ficava tentando imaginar como ele conseguia. Pelo que sabia, ele ficava o dia inteiro pela cidade, não trabalhava. À noite ia para seu quarto e ficava em silêncio. No final das contas, o que importava, é que todo o mês ele cumpria com suas obrigações.
A vinda do Tonhão, há seis anos atrás, foi a única novidade que aconteceu na cidade. Depois mais nada. Foi por isso que seu Hilário ficou meio surpreso quando, há um mês atrás, ele lhe entregou um bilhete dizendo que iria ficar fora uns seis meses, mas ia deixar tudo pago pois queria seu quartinho quando voltasse. Ia ver uns parentes numa cidade longe dali. Na verdade, ele ficou mais surpreso ainda pelos seis meses adiantados do que pela partida. Enfim, o que importava era que ele tinha ali um bom inquilino.
Nos dias seguintes algumas pessoas perguntaram sobre o Tonhão para seu Hilário. Onde andava, tinha morrido, estava doente? Pacientemente o “seu” Hilário explicava a história e sempre repetia que ele era um bom sujeito. Mas o povo não teve muito tempo de explorar a novidade, pois alguns dias depois outra novidade aconteceu. Apareceu na cidade um rapaz novo, rico e bonitão. Que contraste, a cidade de Harmonia estava melhorando. O fulano se instalou no melhor, para ser honesto, o único, hotel da cidade. Fez reserva para dois meses, a notícia se espalhou. Parece que era um investidor, queria comprar umas terras, fazer um condomínio moderno. Devagarinho foi se intrometendo nos eventos sociais, fazia amizade com os rapazes, com os políticos e, com as mulheres, o maior sucesso.
Seu nome era Toni e num instante começou a “paquerar” diversas garotas. Algumas até romperam com seus antigos namorados e esses rapidamente se constituíram nos únicos e ferozes inimigos do recém-chegado. Toni, como ele fazia questão de afirmar, era com “i” e não com ípsilon. Só vestia roupas de bom gosto, estava sempre perfumado e tinha um carro alugado bem “da hora”. Depois de algumas semanas, começaram a aparecer as primeiras histórias. O Toni havia dormido não sei com quem, mais não sei quem, até mulher casada começou a aparecer na história. Quando a coisa começou a ficar muito quente, com marido desconfiado, namorada com ciúmes da outra namorada, o Toni se mandou. Acertou as contas no hotel e saiu de madrugada, quinze dias antes de completar os dois meses de sua reserva. Gastou bastante, mas não comprou nenhuma propriedade. Foi um escândalo na cidade. Alguns casamentos desfeitos, pais desesperados com a “desgraça” das filhas, um vexame.
O pároco, alguns líderes da comunidade e mais alguns políticos estavam furiosos com o que acontecera. Um fulano vem de fora e balança toda a pacata comunidade de Harmonia. Que safado, alguém tinha de fazer alguma coisa, ir atrás do fulano. Claro, ninguém falava na culpa das próprias “donzelas”, que imediatamente se entregaram ao “galã”, que nunca teve que fazer nenhum esforço. Aliás, desculpem-me, o único esforço que ele tinha de fazer era organizar a sua agitada agenda. Todas as mulheres da cidade queriam sair com ele.
Dois meses depois da partida, Toni ainda era o assunto da cidade. O assunto estava tão quente que ninguém sequer reparou quando o Tonhão saltou da carroceria de um caminhão, na rua principal e, mancando mais do que antes, foi se arrastando com sua corcunda até a os fundos da casa do “seu” Hilário, onde estava seu quartinho. Resmungou alguma coisa para o “seu” Hilário, que entendeu com isso que ele queria a chave, e se instalou novamente.
No dia seguinte, lá estava o corcunda outra vez perambulando pelo centro. É gozado como a figura grotesca do pobre Tonhão era uma espécie de consolo para a cidadezinha. É como se as coisas estivessem voltando ao normal. Aquela figura triste, patética, lembrava a todos o que era real, em contraste com um “bacaninha” safado que tinha vindo ali sabotar a paz e a boa vontade das pessoas. Interessante, as pessoas começaram a tratá-lo de uma forma mais amável, ele ficou até mais popular. Algumas pessoas até lhe dirigiam a palavra e, além disso, até ele ficou um pouco mais social e até “resmungava” algumas frases com sua voz gutural. Impressionante como duas pessoas que nada tinham a ver uma com a outra podiam se influenciar dessa forma. Bom para o Tonhão que o Toni tinha sumido do mapa.
Normalmente esse assunto - o Toni - deveria sumir depois de alguns meses. O problema é que ficaram “consequências”, se é que você me entende. Foi por isso que a história não morria. Para ser mais específico, havia onze “consequências” da passagem de Toni por Harmonia. Onze mulheres grávidas, três das quais eram casadas. Claro as casadas poderiam estar no estado por causa dos maridos, mas parece que ninguém estava sequer considerando a possibilidade. Falaram tanto no número onze, que até o Tonhão, de vez em quando, ouvia a contabilidade “gravitacional” – desculpem a impropriedade linguística. Apesar de o assunto ser trágico, vamos ser sinceros, que existe algo meio cômico sobre o assunto, isso existe. É a velha história:  o drama e a comédia muitas vezes se tocam. Talvez seja por isso que o Tonhão esboçava – só esboçava -um sorriso quando ele ouvia o fatídico número onze. Não tinha medo de ser pego dando um sorriso no meio de tanta humilhação e tristeza porque ninguém tinha coragem de olhar direto para sua cara: aquela barba nojenta, aquela cara esquisita. O que ele pensava – bom ou mal – não importava.
Algum estranho passava naquela noite perto do quarto do Tonhão, na rua dos fundos. Era alguém de fora da cidade, perdido, tentando achar um endereço. Era tarde, mas ele precisava da informação e, como viu luz acesa, resolveu se aproximar. Ao chegar perto ouviu alguém assobiar “My Way” do Frank Sinatra, lá dentro. Antes de chamar, resolveu espiar por uma fresta da janela, de onde saía um facho de luz. O que ele viu não o assustou porque ele não era dali e, na verdade, não havia teoricamente nada para se assustar. Mas por um motivo que não se sabe explicar, achou melhor se afastar. Lá dentro, estava um jovem, alto, se penteando em frente ao espelho. Em cima do criado-mudo havia uma barba postiça e, no chão, uns trapos.
Estava assim revelada a verdadeira identidade do Toni. Ele era o Tonhão, ereto, sem corcunda e sem barbas. Bonitão, bem arrumado, com um pijama fino e tudo mais, pronto para se deitar.

O segredo de Tonhão estava garantido. O estranho andarilho era de um lugar distante, não sabia das onze mulheres grávidas, não sabia do Toni, não sabia do Tonhão. Bendita ignorância e bendita a sorte do corcunda!


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Estranhas Histórias
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