Saturday, December 16, 2017

O voo final


O voo final

Fernando sentia-se bem confortável naquele voo da empresa aérea Elama Air Lines. Era o voo EA 777 com destino a Ziel City, com origem em Toivo City. Lá embaixo, podia ver pela janela grandes retângulos verdes de plantações. Um rio, aparentemente largo, fazia curvas sinuosas em total desrespeito à geometria da paisagem. Fernando conjeturou se havia algum ser humano andando por ali. Se houvesse, não poderia ser visto. Insignificância humana, pensou.
Havia poucas pessoas no avião. A maior parte estava lendo, alguns dormiam, um ou outro conversava. As atendentes passavam sorrindo, provavelmente felizes por não haver muita gente. Na cabeça do Fernando veio aquela ideia idiota de que elas poderiam ser substituídas por robôs. Talvez por causa da maneira mecânica que elas andavam e viravam a cabeça.
A monotonia da paisagem deixou Fernando sonolento e depois de uns 20 minutos, ele estava cochilando. Sonhou que era um pássaro, mas que tinha um pequeno motor na barriga. Sonhos não parecem ter lógica. Já os pesadelos muitas vezes fazem sentido.
Quando o pequeno engenho de seu corpo onírico parou de funcionar e ele começou a cair em linha vertical rumo ao solo, acordou. Olhou a sua volta para ver se tinha falado ou gritado e consequentemente chamado a atenção de alguém. Ninguém, porém, estava por perto. Foi então que notou que havia muito menos passageiros agora. Onde estariam? Estranho. Não poderia estar todo mundo no banheiro. Esfregou os olhos para ver se enxergava melhor. Para sua surpresa, assim que baixou as mãos, verificou, estupefato, que a aeronave estava completamente vazia. Levantou-se assustado e caminhou até a cabine dos pilotos. Como desconfiava, não havia ninguém no comando e a porta estava escancarada. Quando se virou novamente, não havia mais poltronas, estava tudo branco e o formato do que antes tinha sido um avião, era o de um círculo branco cheio de luz. Teria morrido? A luminosidade seria a celestial? Sonhando não estava, pois tinha acabado de acordar.
FIM
Tive de parar a história por aí. Para ser honesto, não sabia como terminá-la. Deixar assim mesmo e chamar o conto de “realismo fantástico”? Coitado do Fernando, e a sua situação? Deixar para a interpretação do leitor? Eu odeio fazer isso como tal. Deixar o Fernando decidir? Pobre, ele não teria condições na sua situação. Fazer o nosso personagem ouvir um barulho para então acordar e ver o seu psiquiatra falando alguma coisa. Não, não vou enlouquecer o Fernando!
Por enquanto não decidi, mas vou fazer algumas considerações rápidas, pois o Fernando está lá em cima, desesperado, sem saber o que fazer e eu não posso deixá-lo neste estado. Na verdade, vou fazer algumas perguntas, ao invés de dar respostas.
Não é a vida exatamente isso? Quando somos jovens, não somos cheios de planos, não sabemos tudo? Depois, na velhice, não vamos ficando confusos? E aquela luz? Talvez a mesma da vida eterna, se é que ela existe? Não é a existência um total enigma, como o do Fernando, que nunca vamos decifrar? Não é nossa caminhada cheia de surpresas, do inesperado?

Agora, já estou divagando... Se eu conseguir um final melhor, eu aviso. Prometo que não vai ser como o do seriado “Lost”...

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 À  procura de Lucas


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Thursday, December 14, 2017

Porque sim













Porque sim

Silvana era uma boa esposa. Nenhum defeito extra, nada que outras não tivessem também. Joaquim era um bom sujeito também. Para ser mais acurado, a Silvana tinha sim, algo um pouco diferente. Era um pouco exagerada, um pouco dramática. Tudo virava uma grande coisa, uma grande causa.  Tempestades em copo d’água eram sua especialidade, mas tormentas fazia sem copo e sem água também. Assim era a Silvana.
Um dia, sabe-se lá por quê, o Joaquim soltou uma bomba, quando chegou em casa. Disse, assim,  mais nem menos, que estava indo embora. Demorou um pouco para ela entender. Como assim? Embora, como? Joaquim foi curto e incisivo:
-Vou embora, quero divórcio. Não temos filhos, o pouco que temos, pode ficar para você.
E isso foi tudo, não explicou mais nada.
A Silvana soltou uma ladainha enorme de perguntas. Ela mesma dava as respostas e fazia novas perguntas:
-O que aconteceu? Alguma mulher? Isso mesmo, você conheceu alguma vagabunda por aí. Só pode ser isso.
O Joaquim continuava impassível. Parecia um marinheiro em alto mar, já acostumado com as tormentas. E a Silvana não parava. Ela não lhe agradava mais? Queria alguém mais jovem? Ela gastava muito? Coitada, tinha tanta coisa que ela queria e nunca teve. Isso não podia ser. Estava com problemas existenciais? Crise de meia idade? Só podia ser outra mulher. Ele não levava jeito de quem tivesse outra mulher, mas quem pode saber? Quem era, o que era? Alguma coisa com ela, com a sua Silvana? Alguma fofoca, alguma mentira?
E o Joaquim, sério e silencioso. Verdade é que, se ele quisesse responder, teria dificuldades, pois não havia intervalo para comercial, a Silvana não parava por mais de um segundo. E continuou, continuou, perguntando e respondendo ao mesmo tempo. Não se sabe se era o desespero, ou se ela tinha finalmente encontrado a tempestade perfeita.
O Joaquim sempre se perguntava, antes disso, o que a Silvana faria, se um dia houvesse realmente um problema, que drama ela criaria. Ali tinha ele a resposta.
Depois de mais uma série de perguntas, ela estava ficando finalmente cansada e desesperada e parecia realmente querer ouvir uma resposta. Terminou esta última sequência de perguntas com três dramáticos “por quês”.
-Por quê? Por quê? Por quê?
E parou. Olhou para o Joaquim e parou, aguardando uma resposta. Esse, depois de se certificar que ela havia parado e, efetivamente estava dando espaço para que ele pudesse responder, olhou bem para ela e falou:
-Porque sim.

Levantou-se, pegou suas coisas e partiu.oooOOOooo


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Tuesday, December 12, 2017

Roubando os versos teus

Roubando os versos teus





Tô com saudade de tu, meu desejo, tô com saudade do beijo e do mel, do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu... Não sei se saudade é uma coisa boa, pois disseram que ela  é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Mas, chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza.
Esses poetas falam coisas tão tristes perto de coisas tão alegres, que às vezes a gente se confunde. E para não ficar assim, a gente precisa se orientar.  Por isso, se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul. Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão. Cuidado, porém, que eu sei de alguns meninos que nem se lembram que existe um Brejo da Cruz, que eram crianças e que comiam luz.  Não tenho coragem de falar com você, por isso meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão apenas te seguindo, mas mesmo assim foges de mim. Covarde sei que me podem chamar, porque não calo no peito dessa dor. Atire a primeira pedra, ai, ai, ai, aquele que não sofreu por amor. E porque sofro e não quero mais sofrer, eu preciso de você, porque tudo que eu pensei, que pudesse desfrutar da vida, sem você, não sei!  Você pode, entretanto, negar. Diga que já não me quer, negue que me pertenceu, que eu mostro a boca molhada, ainda marcada pelo beijo seu. Beija eu! Então beba e receba meu corpo no seu, corpo eu, no meu corpo, deixa!
Estou cansado de roubar desses poetas todos. Deculpem-me, Nando, Jobim, Vinicius, Dominguinhos, Chico, Gilberto, João de Barro, Pixinguinha,  Ataulfo, Mário Lago,  Adelino e Arnaldo,  por roubar os versos teus.

Mas o que posso fazer? Essas canções, depois de tanto tempo, ainda continuam a martelar no meu cérebro. E tem tantas outras, que vão e vêm, suaves e fortes, maliciosas e amorosas, penetrantes, fazendo o que eu sou e desfazendo a monotonia dos dias meus...


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Essa vida da gente

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Thursday, December 7, 2017

Paixão teimosa


Paixão teimosa


Nós sempre nos amamos,
ora com doces palavras,
ora com um triste olhar,
e até mesmo com mágoa...
Misturamos nossas lágrimas
com sorrisos, duras frases,
com carinho, com ofensa,
mas sempre nos amamos...
Nossas almas são teimosas,
e sob qualquer circunstância,
continuam se apaixonando...

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 À  procura de Lucas


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Wednesday, December 6, 2017

A cama do Pires


A cama do Pires

(Reflexões sobre a leitura de “A Capital da Solidão” de Roberto Pompeu de Toledo)

A leitura de “A Capital da Solidão” é um gostoso exercício cultural. O livro nos pinta um interessante e delicioso quadro de como se formou a cidade de São Paulo, dentro do contexto do nosso país. Muita coisa pode se aprender desta leitura. Um dos episódios que me chamou bastante a atenção foi a história da cama de Gonçalo Pires, um carpinteiro e construtor. Segundo o relato do jornalista e autor do livro, Roberto Pompeu de Toledo, ele era o único dono de uma cama em toda região de São Paulo. Nossa cidade, agora colossal e de fazer inveja pela sua modernidade e riqueza, era por volta do ano 1620 – quando ocorreu esse episódio – bastante atrasada em relação às outras do Brasil. As litorâneas, como o Rio, tentavam imitar o estilo europeu e gozavam de um conforto relativo que se assemelhava às capitais europeias. Já a nossa estava muito mais próxima da categoria de uma aldeia indígena do que de uma metrópole. E isso era em tudo. Comíamos o que comiam os índios, falávamos mais a língua indígena do que o português e até as “esposas” eram indígenas: nada de mulher europeia por aqui. Não que elas fossem melhores do que as nossas índias. Dormia-se no chão, em catres e em “redes de carijós”, como se falava na época. E não pense que isso foi só então, que faz muito tempo. A cama só substituiu a rede no século XIX, ainda segundo o autor do livro. Pois bem, isso explicado, podemos entender melhor o que aconteceu a seguir. Amâncio Rebelo Coelho, “ouvidor-geral” da Repartição do Sul (Rio, Espírito Santo e São Paulo), uma espécie de enviado do governador-geral, e portanto autoridade oficial diretamente ligada à coroa portuguesa, precisava vir para a cidade para fazer sua ronda, ou sua fiscalização. Tão importante figura, com seus ossos moídos pela subida da serra do Mar – naquela época não havia nossas maravilhosas rodovias (e você ainda reclama do pedágio) – precisava de um móvel digno para descansar. Imediatamente pensaram na cama do Gonçalo Pires, proprietário exclusivo de tão importante bem. Mas o “empresário” não queria saber de conversa. Nem pensar em ceder a dita cuja. A Câmara não teve dúvidas, tomou a óbvia decisão: o móvel iria ser apreendido a bem do serviço público, entendendo-se por isso, o conforto do ilustre visitante. Uma força-tarefa foi enviada à casa do teimoso proprietário e não só a cama, como também o travesseiro e o seu lençol foram levados.
Depois da inspeção, o “ouvidor-geral” voltou para seus reais deveres e deixou para trás a provinciana São Paulo. A Câmara tratou de devolver o precioso móvel para seu legítimo dono. Este, ofendido e teimoso, recusou-se a receber de volta o item confiscado alegando estar danificado. Obviamente queria tirar alguma vantagem da situação. Onde se viu tal ato de vandalismo e abuso de poder por parte do governo? As autoridades decidiram chamar peritos que decidiram que a cama estava em bom estado e que a única impropriedade era a sujeira no lençol, que, então, foi lavado. Decidiram também pagar um aluguel pelo uso do bem para ver se o cidadão se acalmava e aceitava receber a mercadoria de volta. Que nada. Ele estava pensando em uma quantia muito, muito maior, de dinheiro, pelo precioso empréstimo forçado que tinha feito. A disputa demorou pelo menos mais sete anos e, infelizmente, os historiadores não descobriram o que aconteceu depois.
Temos aí, porém, um bom preâmbulo do que viria a ser nossa vida política e administrativa. O governo tentando tirar tudo à força do indivíduo e esse tentando tirar tudo do estado. E é óbvio, a burocracia. Perícia, discussões que não levam a nada, disputas que se prolongam e o ridículo sendo o tópico principal de tudo, ficando as coisas importantes completamente de lado.
Uma premonição.

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Tuesday, December 5, 2017

Mais um dia



Mais um dia


De manhã nós acordamos,
vemos o sol brilhando,
lembramos das alegrias,
de algumas tristezas...
Apostamos nas certezas,
duvidamos dos perigos,
acenamos para os sonhos,
fazemos os novos planos...
Colocamos tudo nas costas,  
vamos viver mais um dia,
como se ele fosse único...
mesmo sabendo, por dentro,
que é apenas mais um dia...

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Sunday, December 3, 2017

Nada para dizer


Nada para dizer


O sol declinava no horizonte...
Essa é do José de Alencar.
Mas que seja infinito enquanto dure.
Foi o Poetinha quem falou.
E o Drummond falou que no meio do caminho tinha uma pedra.
Ou foi, “tinha uma pedra no meio do caminho”?
Mas quem falou que “Viver é perigoso” foi o Guimarães Rosa e,  meu Deus, como ele tinha razão.
Estava pensando em dizer algo também. Mas quem sou eu para dizer alguma coisa? Além disso, se eu disser, não vai ter a menor importância...



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Paralelo 38 e outras histórias
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