Wednesday, January 15, 2020

Regime Militar: Manual de sobrevivência (para quem torce a favor e para quem torce contra...)




Regime Militar: Manual de sobrevivência (para quem torce a favor e para quem torce contra...)



Há muitas pessoas pedindo a volta do Regime Militar: mal posso esperar! Como testemunha da primeira rodada, tenho algo a dizer. Precisamos mesmo acabar com esses políticos corruptos e fechar o Supremo. Não foi isso que o pessoal de 64 fez? Eles cassaram quase todos e ficaram só com “gente fina”, como Antonio Carlos Magalhães, Sarney e Maluf, todos de ilibada reputação.

Na época, também, nunca mais ouvimos falar de corrupção. Isso mesmo, não ouvimos falar, o que não quer dizer que não tenha existido. Casos como o do Contrabando na Polícia do Exército, do delegado Fleury do DOPS, que vendia proteção para criminosos comuns, Peres, o ‘ladrão de Maringá”, Lutfalla (Maluf), os 28 empregados na casa do Ministro das Minas e Energia, o uso massivo de aviões da Força Aérea pelos ministros (jamais usavam voos normais), Delfim Neto e a Camargo Correa, as comissões da General Electric, Capemi, Baumgarten, Coroa-Brastel, Grupo Delfin – nossa cansei, há muito mais – jamais podiam ser analisados pela imprensa. É por isso que a gente não ouvia falar (e muito menos ler...). Nada como um país sem corrupção. Por isso, eles fizeram a coisa certa: prenderam os jornalistas e deram um tratamento especial para eles na polícia. Regalos, como enfiar agulhas sob as unhas, pequenas queimadas com cigarros na pele e o pau-de-arara eram os mais usados. Esse último acho que não ficariam bem no novo regime que alguns estão aguardando... Precisamos evoluir e buscar algo mais moderno. Também devemos evitar que alguém como Herzog, seja “suicidado” na cadeia, mesmo se considerando que ele usava armas perigosas para o regime, como máquina de escrever e papel. Por falar nisso, precisaremos cortar o Facebook e o Whatsapp, pois eles vão trazer mentiras lá de fora. As ditaduras modernas nos mostram isso. Precisamos de redes nacionais, que possam ser controladas. Sugiro Nossacara.com.br para o Facebook e Qualéqueé.com.br para o Whatsapp. E não se preocupem mais com esses esquerdistas, pois com os regalos citados acima, duvido que eles ousem falar algo. O perigo vai ser que, com o tempo, os brasileiros de direita – sabe como eles são – fiquem cansados e comecem a falar mal do regime militar também. Aconteceu na primeira ditadura e nem vou dizer o que era feito com traidores como tais.

Enfim, existe outro aspecto importante desse paraíso que precisamos repetir. Precisamos criar um ambiente maravilhoso, cor-de-rosa e hoje em dia, só com dinheiro do exterior. Podemos criar empregos, manter a Previdência e assim por diante. Como diz o site moemafiuza.jusbrasil.com.br, “Ao final de 1984, último ano completo sob a ditadura, o Brasil devia a governos e bancos estrangeiros o equivalente a 53,8% de seu Produto Interno Bruto, ou seja, de toda a renda gerada no país.

Eram US$ 102,1 bilhões para um PIB -que indica a capacidade nacional de pagamento- de US$ 189,7 bilhões. Em proporções de hoje, seria como se o Brasil devesse US$ 1,2 trilhão, o quádruplo da dívida externa atual.” A dívida externa aumentou 32 vezes durante o governo militar.

Claro, depois a gente precisa pagar. Vou explicar como eles fizeram. Em 1984 (que ironia, você se lembra do livro?), quando a coisa estava ficando preta, devolveram o poder para os civis. Daí, eles precisariam se virar, Foi aí que aconteceram planos doidos tais como, Cruzado, Cruzado II, Bresser, Marcílio, Verão... Você não estava pensando o contrário, estava? Que tudo degringolou “porque” eles saíram?

Estava me esquecendo do plano Collor, muito criativo. Não do plano, do Collor. Ele, também, filho legítimo e querido da época militar. Não é um exemplo de honestidade, integridade? Precisamos voltar a ter pessoas assim, protegidas pelo regime. Então, como estava falando, quando precisarmos mesmo pagar a dívida externa, a gente devolve tudo para os civis. A essa altura nossos netos e bisnetos já estarão na idade correta para pagar a dívida externa. Como daí o Facebook vai estar de volta, eles podem discutir uma maneira criativa de fazê-lo, como nós fizemos na nossa época.

Caramba, não vejo a hora. Estava me lembrando do STF. Realmente eles fazem cada uma... Esse problema não teremos mais, não existirá mais recursos, habeas-corpus, etc.  Se você tiver um processo contra alguém é só telefonar para um amigo de alta patente e pronto: ele liga para o juiz e você está salvo. Agora, se for a outra parte que tem alguém no poder, aí é você que está ferrado!

Só por precaução, vou assinar apenas FC. De repente tudo isso acontece de novo e daí posso falar que quem escreveu isso foi um tal de Fernando Cardoso. Não gosto muito de regalos do Regime Militar, mas, isso, é apenas uma preferência pessoal...

Nota: os dados acima não foram tirados de blogs de porão. Eles constam de documentos oficiais e são públicos.

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Tuesday, January 14, 2020

Meu Cérebro Ainda Funciona...


Meu Cérebro Ainda Funciona...

http://www.bc.edu/


Não quero chocar você com a minha situação e é por isso que vou lhe dar as notícias bem devagar. Na verdade, eu também fiquei sabendo das coisas aos poucos. Se assim não fosse, acho que meu cérebro explodiria e ele é tudo o que eu tenho, se é que você me entende. Vamos devagar, não quero atropelar minha narração. Eu acordei e, pelo menos durante os primeiros segundos, achei que estava tudo normal. Logo a seguir, porém, percebi que estive dormindo há muito tempo. E esse foi o primeiro susto que tive. Não sabia por quanto tempo tinha estado “ausente”, ou onde estava e nem mesmo quem eu era, mas, positivamente, sabia que muito tempo tinha se passado. A gente, ou pelo menos eu, quando passa por uma situação muito difícil ou diferente, imediatamente muda as referências, muda o padrão de exigências, para que as coisas fiquem aceitáveis. Claro, que mais podemos fazer? Não é por isso que, quando alguém morre, dizemos que “foi melhor, estava sofrendo muito”? Ou se ele não estava sofrendo, dizemos “ainda bem que morreu em paz” ou ainda “não viveu muito, mas foi feliz enquanto estava vivo” ou qualquer coisa assim? Sempre achamos que poderia ter sido pior. No meu caso, entretanto, foi e está sendo difícil arrumar uma boa comparação, ou uma referência qualquer para me consolar. Você vai entender, vai ser difícil algo que possa ser pior ou pelo menos mais estranho. Logo, logo, você vai compreender o que eu quero dizer.

É difícil explicar o que estou sentindo. É como não ter corpo. Sinto que tive sempre uma vida cheia de coisas, de responsabilidades, de pessoas à minha volta, mas não me lembro de nada, de ninguém, nem de meu nome. Outra coisa interessante: não vejo nada, mas também não está escuro. Escutar coisas eu escuto, mas é de um jeito estranho. É como ouvir as palavras sem som. Como se elas estivessem entrando em forma pura no meu pensamento. Parece óbvio que eu estou sob o efeito de drogas, drogas fortíssimas. Justo eu que não gosto de tomar remédios, nem aspirina. Mas não tenho certeza disso também. Pode ser outra coisa. Por que estou aqui, como cheguei a esse ponto? Não tenho a menor ideia. Não posso reclamar de dor. Isso eu não sentia e não sinto agora. É como se eu estivesse existindo sem corpo. Não consigo parar de repetir isso, mas é bem o que estou sentindo.

O tempo passa rápido, mas não importa, pois não tenho a menor ideia da época em que estou, não tenho referência, você entende? Algumas coisas mudaram desde que tomei consciência dessa minha inconsciência. No começo eu ouvia conversas, mas não sabia o que estavam falando. Agora escuto frases e conversas inteiras. Mas não estão falando de mim, não. E, embora eu entenda o que eles estão falando, não adianta muito pois eu não sei qual é o contexto, qual é a referência. É como ler um pedaço de um livro ou assistir a um pedaço de um filme sem saber o começo nem o fim.

Algo muito importante está acontecendo agora. Estou tendo uma experiência fantástica. Estou andando numa estrada muito bonita, com casas luxuosas aqui e acolá, uma paz sem par, como nunca tinha experimentado antes. Interessante sou eu e não sou eu. Sei que sou eu quem está caminhando, mas não sinto que sou eu. Ou é ao contrário? Isto está gravado em minha cabeça, não vou esquecer. Parece que alguém colocou estas imagens lá. Outras vezes eu estou numa sala conversando com pessoas. Minha voz não sai, mas as pessoas assim mesmo respondem, conversam comigo. Todos estão felizes, riem muito. Acho que gostam de mim. Não devem estar sabendo do meu estado. Acho que conheço essas pessoas, mas não sei de onde. Também não sei o nome de ninguém. Mais estranho ainda, ao mesmo tempo em que eu participo da pequena reunião eu sou também um espectador. Quero dizer, estou observando a mim mesmo, que fala animado, conversa. Isso é bom.

Começo a sentir melhor o espaço. Quando nada está acontecendo, tenho a impressão de que estou numa sala. Não vejo nada, mas sinto a presença de pessoas circulando, falando. Acho que não falam de mim. Acho que não me veem, mas não tenho certeza. Sinto pela primeira vez o corpo, mas como tudo mais, não parece meu corpo. Talvez a lembrança de um corpo? Por pouco tempo. Agora a sensação está indo embora. Cada vez mais posso entender o que as pessoas estão conversando na sala. Estou pensando comigo mesmo – gozado falar isso, nunca tinha pensado nessa expressão - estou pensando “comigo mesmo”... Eu deveria estar preocupado com a situação. Com certeza o que está acontecendo comigo não é nada normal. Gozado, não consigo me preocupar. Estou curioso, porém. Estava falando “normal”, mas agora tenho dúvidas. Quero dizer, nem sei mais o que é normal.

A última vez que ouvi conversas na sala, tive certeza de que falavam de mim. Dessa vez era de mim que eles falavam. Duas pessoas estavam discutindo sobre minha pessoa, sim senhor. Falavam como se eu não pudesse ouvir. Um deles dizia que estava preocupado. Que, se pudesse, não teria participado de tudo aquilo. Podia sentir tristeza não na sua voz, não na voz, na sua...não sei dizer o quê. Porque o que eu ouvi não era som, era como se fosse um pensamento. O outro parecia menos procupado, parecia mais excitado com o que estava acontecendo, seja lá o que fosse.

Cada vez mais fico “próximo” dos dois. Interessante, pois posso sentir que os dois também me “sentem” mais. Acho que nunca vou conseguir explicar a sensação. Eles falam coisas estranhas, às vezes. Tão estranhas que eu acho que não pode ser verdade e eu me recuso a pensar nelas. Desta última vez, entretanto, a conversa foi tão direta, tão explícita, que fui obrigado a acreditar e enfrentar a realidade.

Um deles estava ficando irritado com o outro. Não estava mais aguentando a choradeira. Acho que o “outro” estava com pena de mim, estava comovido com a minha situação, que nem eu sei qual é. Mas além de comovido, acho que ele estava preocupado. Eu estou ficando bom nisso. Consigo cada vez mais “sentir” as pessoas por dentro, pelo menos aquelas duas, sem mesmo vê-las. No meio do bate-papo dos dois, o primeiro, aquele que estava irritado, falou algo que realmente mudou tudo. Interessante que ele tinha falado a mesma coisa antes mas eu não tinha percebido o verdadeiro significado. No meio da discussão, ele falou para o “outro” parar com aquela choradeira, pois “aquilo era apenas um cérebro”. Antes eu sempre achei que quando ele falava “cérebro” ele se referia a minha pessoa inteira. Sabe, como quando a gente fala que alguém é “uma cabeça”? Foi aí que senti a coisa toda. Eu era apenas um cérebro mesmo. E desta vez ele falou tudo. Eu era “um cérebro mergulhado num líquido especial e com centenas de microfios ligados, tudo dentro de um cilindro de vidro”. Acho que ele mencionou também que havia uma máquina. Eu só percebi que eu era “um cérebro” mesmo, quero dizer só um cérebro, sem corpo, porque ele usou a palavra “aquilo” junto. O “aquilo” era eu. Senti um choque mas logo me recuperei. Por pior que fosse a realidade, havia alguma coisa que eles tinham feito em mim que não me deixava ficar angustiado, humilhado ou triste. Também não sentia alegria. Como tudo havia acontecido? Não sei. Talvez um acidente? Ou será que foi tudo de propósito? Também não sei. Não me importo com isso. Sem problemas. O que vai acontecer? Não sei e não me importa. Eles devem saber o que estão fazendo. E se não souberem ou se for algo abominável? Não importa também. Eu sei que eu deveria estar desesperado, deveria estar angustiado e sentindo as piores sensações que uma mente pode sentir. Mas não...não sinto nada. Agora você entende porque eu disse no começo que queria explicar tudo devagarinho. Também agora você pode entender quando eu falei que “cérebro é tudo que eu tenho”...Definitivamente, cérebro é tudo que eu tenho.


Exercício de história: Aqui está a solução de todos os nossos problemas




Exercício de história: Aqui está a solução de todos os nossos problemas



Fazer exercício é bom, a gente melhora o que está fazendo ou a maneira de pensar. Pensei em fazermos um de História. Este cronista, que não é especialista na matéria, pode aprender junto com o leitor. A minha proposta é simples. Pense num país imaginário, onde está tudo às avessas, só existe corrupção, onde os valores cívicos e sociais estão falidos e... bom, deu para se ter uma ideia. Acho até que você pensou num país específico. Não há solução. Eleições não funcionam, o povo continua votando nos candidatos errados e deixando os melhores de lado, se é que eles existem.

Precisamos usar nossa criatividade. Vamos montar um laboratório virtual, onde podemos ter ideias, imaginar soluções, etc. Para sermos radicais, vamos estabelecer que você, meu querido leitor, pessoa que certamente tem excelentes intenções, seja o encarregado desse grande experimento.

Para isso, eu, cronista que sou, com poderes absolutos de ficção, vou lhe atribuir poderes especiais. Não só isso, vou, com minha imaginação, criar as condições perfeitas para você estabelecer uma nova nação.

De repente, você tem poder total. Pode tirar do exercício qualquer político que desejar: desde o prefeito de Quixeramobim até o de Porto Alegre. Pode expulsar todos os deputados, estaduais e federais, senadores, ministros, todo mundo. Começar do zero. Problemas, revolta? Nada disso, lembre-se, estou dando total poder a você, amado leitor. Ninguém vai reclamar, e se o fizer, será preso. Ordem minha, neste fabuloso universo virtual que estamos criando. Daí, com calma, você escolherá um por um, todos aqueles que vão trabalhar com você: governadores, prefeitos, deputados, senadores, ministros, todos do poder executivo, do poder legislativo e até do judicial. Pessoal bom, que faz as coisas certas, que julga com honestidade, que não tem ambições políticas, que amam seu país: talvez, com esse paraíso político, nem haja o que julgar. Claro, existe a imprensa! Mas essa também estará controlada. Só vai falar coisas boas de seu novo líder – você, certo? – e nada de conversa mole. Ah, estava me esquecendo... Você tem 20 anos para mudar tudo! Convoque as pessoas mais sábias e justas que você conhece, traga todas para Brasília -oops, acabei de revelar o lugar – e peça para elas escreverem todas as leis de novo. Fazer uma nova Constituição, com calma, bela e perfeita, com diretrizes e salvaguardas mara manter um paraíso político, puro e justo por, pelo menos, 50 anos. Somos criativos, vamos conseguir!

Com tanto poder, com tanta força, com todo o apoio das pessoas mais inteligentes e honestas da nação, vai dar tudo certo. Daí, então, você sai do poder, e deixa esse magnífico grupo controlar tudo, estabelecer eleições, viver a democracia. Com toda a maravilha que viu, o povo só vai eleger gente do mesmo tipo que você escolheu: sincera e honesta.

Muito sonho, não é mesmo? Isso é impossível! Só na minha crônica alguém teria tanto poder assim!

Pois bem, eu lhes digo, os militares tiveram todo esse poder, talvez até mais, por incrível que possa parecer. E o que aconteceu? Foi bom, quanto tempo durou?

Na verdade, nada durou. Durante os 20 anos mesmo, já havia gente corrupta por eles escolhida. Paulo Maluf, José Sarney, você os escolheria para fazer parte do seu grupo especial? Lembra-se de que falei que você poderia acabar com todos os casos de corrupção, usando seu poder de demitir, de escolher seus próprios juízes? Nesse período, pelo menos uma dezena de grandes casos de corrupção ocorreram (o caso Luftalla, Delfim e a Camargo Correa, comissões da General Electric, Capemi, Coroa-Brastel e aí vai...): ninguém sabia, o silêncio de imprensa que eu dei para você, eles usaram para escondê-los. Lembra-se de que você poderia ter acabado com todas as “mamatas”, toda a gastança, verbas de gabinetes, remuneração de representantes  que aparecem uma vez por semana, salários altíssimos, aposentadorias para quem trabalhou apenas 8 anos, etc.? Tudo isso  na SUA Constituição, que, você teria determinado que só poderia ser alterada por uma imensa maioria popular. Pois bem, repito, eles tiveram esse poder! E o que foi feito? Acabaram com algum privilégio?

E o que aconteceu? Olha só a sequência, logo depois dos poderosos 20 anos: Sarney, Collor, Itamar Franco...

Confessa, quando começamos o exercício, você primeiro achou que era um exagero o poder que eu estava lhe dando, que só aconteceria num conto de fadas. Segundo, achou que, se alguém tivesse esse poder, teria garantido um país justo e honesto, pelos próximos 50 anos, ou talvez, para sempre...

Que coisa, hein? Como é bom fazer exercício de vez em quando... E fica a pergunta: a tomada do poder foi mesmo para consertar tudo?

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Monday, January 13, 2020

Escolha bem seu herói





Escolha bem seu herói


Todos nós temos heróis, ídolos. Quem é da minha idade, certamente tem os Beatles como tais, tenho certeza. E entre eles, um que se destaca, John Lennon. Não é só o que ele escreveu e cantou, é todo um conjunto, todo o clima de uma época e, confesso, bastante publicidade. Tenho certeza de que há talentos maravilhosos que nunca ficamos conhecendo e nunca vão ser nossos heróis.

A gente cresce, amadurece, fica velho. Os ídolos antigos ficam, é claro, novos aparecem, mas alguns sempre são os preferidos. Comigo, porém, aconteceu algo diferente. Um dos meus heróis, um dia caiu. Vi um documentário sobre a vida do John Lennon. Uma vida admirável, sem dúvida. Algumas partes, entretanto, me chocaram. Quando o filho de seu primeiro casamento apareceu de volta em sua vida, ele o ignorou. Mais tarde foi necessário um processo na justiça para ele poder ter um pouco da fortuna do pai. John tinha deixado apenas 100.000 euros (para ser dividido com m outro irmão). Julian mais tarde conseguiu 20 milhões através de seu advogado. Ele tinha muita mágoa do pai e chegou a chamá-lo de hipócrita numa entrevista. Como alguém com tantas ideias maravilhosas, tantos ideais inspiradores, pode, simplesmente, ignorar um filho? Eu me m lembrei do Pelé, numa situação semelhante.

Ele caiu do pedestal imediatamente. As canções têm vida própria. Continuo gostando delas, quero ouvi-las sempre.

A lição é simples. Agora tomo mais cuidado em escolhê-los.  Ídolos políticos? Nem pensar...

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Sunday, November 3, 2019

Useiro e vezeiro

Useiro e vezeiro



Era uma verdadeira tortura. Sentado, suando,  preparava-me para enfrentar a indômita e temível máquina de escrever. Daquelas bem antigas. Isso eu digo agora, porque então, até que ela era moderna. A seguir, pegava duas folhas brancas, colocava um papel  carbono no meio  e as passava pelo rolo. Acertava as margens e começava a torcer para não errar. A meu lado, em pé, preparando-se para ditar, o respeitável advogado Dr. Mesquita.
Culpa minha. Quando me candidatei para o cargo, disse que sabia datilografar. Antigamente isso era até profissão. Vai ver que até tinha sindicato próprio! Ocultei o detalhe que exercia a nobre profissão com apenas dois dedos. Nessa categoria, até que eu era rápido. A verdade é que eu tinha sido aceito por outras qualidades. Estava fazendo colegial, tinha estudado em colégio de padres e certamente conhecia um pouco de Latim. O Dr. Mesquita, obviamente, deduziu que, pelo menos, eu não ia estranhar seus “latinismos” nas petições judiciais.
Voltando ao assunto da tortura, a parte realmente complicada era errar ao bater uma tecla. Uma vez cometido um erro, você tinha de voltar no texto, colocar um papelzinho especial com tinta branca na frente da letra criminosa e bater de novo, a letra errada. Essa  “desaparecia”, você voltava o “carro” da máquina e batia a letra correta. E, então, você rezava para não acontecer de novo. Era um suplício.
O local de trabalho era um colégio. Era também imobiliária e, certamente, um escritório de advocacia. Enquanto o advogado e dono da escola não estava lá, eu fazia um pouco de tudo. Aquela hora, porém, era sagrada. Ele cuidava de causas criminais, divórcios e outras disputas em geral. O que mais havia, porém, eram os casos de despejo. Depois de descrever o autor da ação (brasileiro, casado, RG número tal, residente, etc, etc...), vinha a descrição do coitado do réu. Aliás, eu achava um desaforo chamarem aquelas pessoas de “autores”. Onde se viu? Para mim “autores” eram Machado de Assis, José de Alencar e outros. O réu, inescrupulosamente, era adjetivado de “useiro e vezeiro” em atrasos. Demorei um tempão para entender que o “useiro” era porque o coitado do inquilino “usava” muito o ato de atrasar, não se sabe por quê. Provavelmente porque não tinha dinheiro. O “vezeiro” era porque ele fazia isso muitas “vezes”.
O que eu lamento daquela época é que o Dr. Mesquita nunca me colocou para dar aulas no seu colégio. Claro, eu não podia, ainda nem estava na faculdade, mas ele poderia ter achado alguma função que não fosse aquela de ficar “errando” na terrível Remington.
Nem dá para acreditar que hoje existem computadores e esse maravilhoso “Word” para o qual não há limite de erros. Ele corrige todos, sem remorso, sem exceção, impunemente. É fantástico, não é?  Outros erros da vida, entretanto, devo advertir que não são tão fáceis assim de serem apagados. Esse software ainda não foi inventado.

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