Thursday, March 7, 2013

A sinceridade do Stuart


A sinceridade do Stuart

Guzman, astronauta da Confederação das Américas,  estava viajando há 13 anos, mas só agora chegara a sua vez de assumir o comando. Até então estava “dormindo” na secção 7 da nave espacial. Durante o último século, conforme as viagens espaciais foram se tornando muito longas, adotou-se esse sistema de “sono profundo induzido”, que poderia ser mantido durante anos.
Demorou um pouco até Guzman tomar contato com a realidade. Agora já estava bem, sabia em que parte do cosmos estava, a missão que estava realizando. A primeira pessoa de quem se lembrou foi Lucy, sua esposa. Ela estava com 120 anos quando saíra, portanto agora estaria com 133 anos. Isso não era nada no ano 2289, uma vez que a expectativa de vida era de quase duzentos anos. Seria como ela ter 40 anos no século 20.
Apesar de praticamente não haver mais doenças, ironicamente uma delas havia começado a crescer nos últimos 20 anos. Não era bem uma enfermidade, era mais uma disfunção: a Síndrome de Hunt. O pesquisador Hunt descobriu por que algumas pessoas, perfeitamente saudáveis, de repente começavam a mostrar sintomas de diversas doenças ao mesmo tempo, até levá-las à morte. Num mundo quase perfeito, cientificamente falando, o nosso cérebro aparentemente tinha desenvolvido uma espécie de reação contra toda aquela manipulação genética que controlava a saúde humana. Era como um protesto da natureza contra o absoluto controle artificial do corpo. O mesmo Dr. Hunt  havia declarado, uns dias antes do início da viagem de Guzman, que ele praticamente já havia conseguido uma maneira de controlar a síndrome. Isso era especialmente importante para o nosso astronauta, pois sua querida companheira, Lucy, havia mostrado sintomas evidentes da nova “doença”.
Naquele primeiro dia “acordado”, Guzman mandou uma mensagem holográfica para sua querida mulher. O tempo para a mensagem ir até a Terra e uma resposta ser enviada de volta seria de cerca de 15 horas, tal era a distância em que estavam agora do nosso planeta. Isso sem contar o tempo que ela demoraria para responder.
Já fazia 19 horas e a resposta ainda não havia chegado. Guzman então falou com Stuart – nome carinhoso para o computador comandante da missão – sobre a sua ansiedade. Stuart explicou a ele que entre eles e a Terra havia uma densa constelação, que certamente atrasaria o tempo de “entrega” da mensagem. Isso consolou Guzman um pouco.
Passaram-se cerca de 70 minutos e o Stuart alertou Guzman para uma mensagem que havia acabado de chegar. Ele sentou-se numa confortável poltrona na sala de projeções holográficas e tocou de leve o controle para iniciar a mensagem. E lá estava a Lucy, linda como sempre. Não parecia estar abatida ou doente. Na continuação ficou sabendo que o Dr. Hunt cuidara do caso dela pessoalmente e que tudo tinha dado certo. Contou uma série de outras coisas, riu, mandou beijos.
Normalmente Guzman deveria estar cheio de felicidade. Entretanto, algo na transmissão o incomodava. Lucy não parecia a mesma, embora estivesse exuberante. Havia coisas, brincadeiras, palavras, que certamente ela teria usado na conversa, que não estavam lá.
Guzman estava cismado, ficou pensativo. Depois de algum tempo, resolveu falar com o Stuart. Ponderou com ele que sabia que ele havia sido programado com forte dose de “sentimentalidade e sensibilidade humanas”. Abriu-se dizendo  que estava desconfiado que algo não estava bem. Stuart retrucou que ele mesmo havia visto a mensagem e a própria Lucy confirmara estar bem.
Mais  30 horas se passaram, mas a cisma de Guzman não foi embora. Conversou novamente com seu amigo computador Stuart. Abriu seu coração. Sabia que ele tinha obrigações com a missão, tal como manter a tripulação feliz, equilibrada emocionalmente, etc... Disse que com ele não iria funcionar, estava desconfiado, a melhor coisa era falar a verdade. Ele conseguiria superar, sobreviver, mas precisava da verdade.
Stuart demorou um pouco para responder. Aparentemente estava processando as emoções do Guzman. Depois confessou. Lucy havia morrido há sete anos atrás, enquanto ele estava em sono profundo. O computador da Terra, encarregado da missão, juntou todos os dados que tinha e “falsificou” a mensagem holográfica de resposta. Aparentemente ele não tinha todos os detalhes para fazer uma mensagem perfeita. No final, Stuart disse que sentia muito.
Guzman agradeceu a sinceridade do Stuart e recolheu-se por algumas horas.
Mais tarde, um pouco mais tranquilo, Guzman falou em volz alta para Stuart:
-Stuart, você sabe como foi importante sua honestidade comigo? Isto muda completamente a maneira como vou me sentir daqui para a frente em relação à missão, em relação a você...
-Eu sei, eu sei...
Guzman já havia também participado de missões espaciais em naves da União Europeia, da Confederação Asiática e da Liga Independente. Nenhuma delas tinha inteligência artificial tão sintonizada com a personalidade como o Stuart da Confederação das Américas. Isso era bom...
Stuart interrompeu seus pensamentos:
-Guzman, por falar em sentimentos, acho que você deveria dar uma olhada na grande  escotilha do nosso lado direito. Há cinco estrelas super-gigantes, com luz e cores de arrepiar...
Guzman sabia que Stuart estava tentando alegrá-lo, mas foi assim mesmo. De qualquer forma ele gostava mesmo dessas paisagens cósmicas. Esse Stuart era mesmo uma coisa...
Na vastidão do espaço, a nave especial SS6574, ou a  “Splendid”, indiferente a sentimentos humanos ou de máquinas, continuava sua longa jornada em direção ao planeta Stallion. Suave, brilhante, esplêndida...



Tuesday, March 5, 2013

Uma colcha branca


Uma colcha branca (suspiros de uma viúva...)

O Júlio  se foi. Não me abandonou não, ele me amava muito. Ele foi para o outro lado. Dá até um nó na garganta quando falo isso. A casa ainda tem seu cheiro, seus traços, acho que a alma dele ainda está por aqui.
Leio, arrumo as coisas cá e lá, tento dar um novo jeito naquilo que não tem jeito. Às vezes dou um soluço, daqueles bem fundos, assim do nada, sem avisar.
Já faz algum tempo e ainda coloco a mesma colcha na cama. A mesma que estava lá, naquele dia fatídico, quando, sem aviso prévio, seu coração resolveu parar. É linda, branca, toda trabalhada. Ele olhava para ela e falava assim: “Gosto da sua colcha de retalhos...” Eu ficava zangada e replicava: “Seu tonto,  esta colcha não é de retalhos, não...”
-Mas é tão bom de falar...toda colcha devia ser de retalhos...
E ria. Aquele sorriso gostoso, debochado,  que eu não tenho mais.
É por isso que não troco mais a colcha. Qualquer dia destes, quem sabe, Deus faz um milagre, e ele vem me agarrando por trás, beijando meu pescoço, falando da minha colcha...Talvez eu consiga juntar, de novo,  os retalhos de minha vida...


(crônica participante de concurso no blog www. http://letrasdobviw.blogspot.com/)

Wednesday, February 27, 2013

Órfã de filho


Órfã de filho



No décimo andar do prédio, o coração de um  bebê bate suave, seguro. A mãe embala seu sono. A criança parece sorrir. A mãe, cansada, sorri também. E daí adormece. Um anjo, agora, cuida dos dois, deles e de seus sonhos.
Na mesma rua, num ponto escuro, um grito, uma discussão, um palavrão. Depois, um tiro. Som seco, surdo. Um gemido pungente ecoa contra o concreto duro das paredes das construções. Um coração para, o outro bate agitado. A cocaína troca de mão. No bairro distante, uma mãe chora, nem sabe por quê. Outro anjo, distraído, de repente percebe que não há mais o que fazer. Agora só restam as lágrimas da mãe. É preciso enxugá-las.
No fim da noite, os seres angelicais contabilizam perdas e danos. Preparam-se então, para a batalha do novo dia. Desta vez, sem distração.

Tuesday, February 26, 2013

O Maestro Pedro Salgado (Perus)


O Maestro Pedro Salgado

O  seu Pedro vinha da casa dos fundos, por entre duas cercas, até chegar ao portão. Depois, segurando uma pasta debaixo do braço, abria a tramela. E lá ia ele, rua abaixo, ligeiramente corcunda, cumprir suas tarefas do dia. Eu, muito criança, acompanhava sua cabecinha branca até ela desaparecer na curva. Diziam que dava aulas de música. Isso era bom, era bonito. Depois fiquei sabendo que ele era maestro e até compositor. Fazia parte da paisagem da minha rua, da minha meninice.
Não sei  se é conversa fiada, mas corria uma história interessante sobre ele. Diziam que tinha sido ele o compositor da música do quarto centenário de São Paulo. Dizem que deixou a partitura lá, para ser avaliada, e depois ela apareceu com outra autoria. Vai saber...São histórias.
Com partitura ou não, o seu Pedro Salgado era uma figura agradável, doce, sem malícia, sem arrogância. Cumpria todos os dias o seu ritual. Poderia ter sido uma pessoa importante, conhecida. Importante eu sei que ele era, mas ninguém contou para o resto da cidade. Se fosse hoje em dia, eu botava o maestro no Youtube e você ia ver o que é sucesso!
Para nós, lá da Rua Dona Rosina, em Perus, ele era o homem mais sabido, mais imprescindível, e olha que nós nem sabíamos direito tudo que ele fazia.
A minha amiga Irene, que morava do outro lado da rua, me contou que ele ensaiava a bandinha ali mesmo, na frente da casinha que alugava de seu pai. E eles usavam umas vestes coloridas, bonitas, que a encantavam.
Morreu pobre e quase ninguém foi a seu enterro, em 1973, no Cemitério Dom Bosco, em Perus.
Mas eu tenho certeza de que agora ele está lá em cima, regendo uma bandinha de anjos, com sua batuta e seu cabelinho branco, brilhando, brilhando. Que saudades da minha rua, que saudades do maestro Pedro Salgado!

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Pesquisa sobre Pedro Salgado feita por Irene Duarte Fernandes:

Pedro Salgado nasceu em Arrozal do Piraí no estado do Rio de Janeiro em 1890.
Com um ano e meio ficou orfão de pai.
Em 1892 a mãe com dificuldades financeiras foi morar em Taubaté.
Em 1896,mudou para Aparecida do Norte onde a mãe D. Augusta lavava roupa para fora e os paramentos da igreija.
Em Aparecida com 6 anos encontrou um rico ambiente musical e passou a frequentar as bandas da cidade pedindo para carregar os instrumentos musicais.
Em 1900 liderou um grupo de meninos formando um banda de música, soprano instrumentos feitos de talos de mamoeiro e batendo tampas de caçarolas e panelas.
Com 15 anos passou a integrar a Corporação Musical de Aparecida seu instrumento era o trombone.
Com 3 meses de aprendisado apresentou o dobrado de sua autoria ESTRELA DO NORTE.
Do trombone passou ao pistom, bombadino e outros instrumentos de sopro.
Em 1915 formou com outros musicos a  Corporação   Musical de São Benedito, tinha muitas musicas de encomenda.
Trabalhava com gráfico em Aparecida e varava a noite estudando e compondo.
Segundo relatos compunha uma valsa em 4 minutos e um dobrado em 3 horas, era considerado REI DOS DOBRADOS.
Tem 1126 musicas catalogadas.
Chega S.Paulo em 1944, foi morar numa modesta casa onde ganhava a vida tocando trombone em um circo.
Em 1946 torna-se funcionário publico na Secretária de Segurança Publica do Estado de São Paulo.
Na ordem dos Musicos do Brasil ingressou em 1961,recebendo a carteira numero 1280.
Foi morar na casinha em Perus mais ou menos a partir de 1954.
Em 22 de dezembro de 1965, recebe a terceira batuta de prata da musica brasileira. As anteriores foram presenteadas a Carlos Gomes e Heitor de Villa Lobos.
Em 15 de novembro  de1971, recebeu o diploma de Honra ao Mérito do Conselho Estadual da Cultura.
Faleceu em 1973 e está enterrado no Cemitério Dom Bosco no bairro de Perus.



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Para comprar no Brasil 
( impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Para comprar nos EUA:




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Sunday, February 24, 2013

O desejo do Rogério


O desejo do Rogério


Naquela manhã o Rogério foi um pouco mais tarde para o trabalho. Tinha ficado acordado até tarde na noite passada, preparando uma apresentação que tinha de fazer no curso noturno que estava fazendo. Depois de um dia inteiro de trabalho, não ia ser fácil. Não sei quem inventou essas história de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Deve ser coisa e brasileiro, de “dar um jeitinho”. Não dá. O outro problema que ele tinha era explicar para o chefe por que estava chegando atrasado. Bem no dia de fazer a folha de pagamento, o que era sua responsabilidade. Era evidente que iam falar que foi de propósito. Eles nunca acreditam nas desculpas. Nem nas esfarrapadas nem nas bem arrumadas.Nunca. Além disso, que trabalho chato, o que fazia. Monótono, repetitivo, que não levava a nada. Sem perspectiva.
Definitivamente precisava mudar alguma coisa na vida. Daquele jeito não dava, iria acabar louco. Pelo menos naquele dia o metrô não estava cheio. Pelo contrário, havia muitos lugares vazios, nada daquela multidão louca de todos os dias. Outra vantagem de não ir tão cedo para o emprego. E ainda mais: naquele vagão, pelo menos, só gente bonita, bem vestida. Pessoas conversando, rindo.
Tinha reparado na loirinha que estava sentada alguns metros a frente. Estava lendo um livro, de vez em quando levantava a cabeça e...Não tinha certeza, mas aparentemente dava um sorrisinho tímido na sua direção. Que manhã diferente. Que contraste entre o dia sem vergonha que ia enfrentar e aquele momento delicioso que estava tendo ali. Contou na cabeça quantas estações ainda tinha antes de  descer. Sete. Essa era a cota de felicidade do dia. Passar pelas sete estações, sentado, calmo, olhando para aquela garota. Depois, o inferno.
Fechou os olhos por um instante. Não mais do que o suficiente para arriscar perder o próximo sorriso da loirinha. Pensou como seria bom se aquele momento fosse eterno. Chegaria na sétima estação e, ao invés de descer, começaria de novo, da primeira, curtindo cada segundo. O momento seria o mesmo, não evoluiria. Não sentiria fome, cansaço ou aborrecimento. Ficaria infinitamente ali, indefinidamente curtindo a paz, o olhar da garota, o passar das estações, depois começando tudo de novo. Nunca chegaria ao trabalho, nunca chegaria à escola. É bom sonhar. Na verdade, Rogério estava mais do que sonhando. Estava desejando que aquilo acontecesse, estava pedindo para que acontecesse.
Ninguém sabe ao certo como funcionam as leis da vida, as leis do destino, mas não é que o desejo de Rogério foi atendido? Chegou a sétima estação, ele não precisou descer, começou tudo de novo. Paz, tranquilidade e  os sorrisos da garota. Isso já faz muito,muito tempo. Ele continua repetindo a deliciosa viagem através dos dias, dos meses, dos anos.... E as pessoas que estão hoje no vagão, não o vêem, não sabem,  mas ele está lá, a loirinha também. O sonho se realizou. Ele vai ficar para sempre viajando naquele vagão.
Quem disse que os sonhos não se realizam? Claro que sim...

Wednesday, February 20, 2013

Previsão para o ano 2013


Previsão para o ano 2013

Uma das melhores videntes do mundo me confidenciou. Têm a lista completa dos acontecimentos para o ano que acabou de começar. Disse ela que, num grande país,  vai haver um sangrento tiroteio. Dezenas de pessoas vão morrer. Dois furacões vão destruir vidas e propriedades. Em outro lugar, distante, um terremoto e um tsunami, porém não muito grandes. Também numa nação importante, um tremendo de um escândalo político. Vários casos de corrupção em países menores. Ah, sim, uma grande ator vai morrer. Vão prender os componentes de uma rede internacional de pornografia infantil. Casos bem sérios de doping em competições internacionais, uns três ou quatro. Uma surpresa política. Até em igrejas vão acontecer coisas dignas de reprovação. Cá e lá, casos bem estranhos. Uma grande companhia vai quebrar.  Parece até que vai haver um acidente aéreo, dos grandes,  em algum lugar, mas disso ela não tem certeza. E mais, muito mais...

Às vezes fico pensando, como é que essas videntes conseguem prever todas essas coisas? 

Há alguma coisa errada com o céu do Raymond




Há alguma coisa errada com o céu do Raymond

Ele sabia que alguma coisa havia acontecido. Estava fazendo um esforço enorme para se lembrar. Andava numa estrada que ele parecia conhecer, mas não sabia exatamente para onde ia. Tinha aquela sensação interior de que, em alguns instantes, tudo voltaria à sua mente. E mais: sabia que algo semelhante havia acontecido  antes. Continuou a caminhar, devagar, tentando se recompor, tentando entender o momento. Não sentia dor nenhuma, ao contrário, um bem-estar quase irresponsável, levando-se em conta a situação em que se encontrava. Olhou a paisagem dos dois lados e imediatamente reconheceu que estava numa região árida. Deveria se preocupar? Talvez sim. Entretanto sua mente estava tranquila.
Agora Raymond estava olhando para o céu. Não havia nuvens e o ar estava parado. Pelas imagens que via, deveria estar muito quente, mas ao contrário, ele poderia jurar que aquela era a melhor temperatura que um ser humano poderia sentir. Tanta perfeição para quem nem sabia onde estava, chegava a preocupar. Esse pensamento acabava de vir à sua mente, quando finalmente notou algo que o preocupou.
O céu. Algo não estava certo. Raymond tinha certeza de ter arquivado em sua mente qualquer matiz de céu possível, em qualquer condição climática, sob qualquer combinação imaginável de condições atmosféricas. Havia algo naquela cor que não ia bem. Ao mesmo tempo que pensava isso, começava a recuperar a memória. Nada recente, mas sua história, sua meninice, sua juventude, sua formação, já apareciam vivas e com detalhes. E isso explicava, de certa forma, porque estava tranquilo. Sabia que era extremamente inteligente e certamente iria entender o que havia de errado com o firmamento.
E assim fez. Pensou bastante e chegou a uma conclusão óbvia, porém assustadora. Aquele céu não era real. Não podia ser. Esta verdade, incrivelmente óbvia, ao invés de assustá-lo, deixou-o excitado. Tinha ali, à sua frente, um enigma para resolver.
Partindo do princípio básico de que uma parte da paisagem não era real, não havia dúvida de que o resto também não era. Difícil de imaginar, uma vez que podia sentir seu corpo, seu coração batendo... Podia agora sentir uma brisa que trazia consigo o perfume de alguma planta, de uma flor. Abaixou-se, pegou uma pequena pedra pontuda e riscou o seu braço. Imediatamente viu uma pequena linha vermelha se formar sobre a pele. Era seu sangue, sem dúvida. Deu um beliscão em sua bochecha e sentiu também. Ele existia, estava vivo. Será? Lembrou-se vividamente de ter visto filmes, lido livros sobre realidade virtual. Ele poderia estar sendo “vítima” de um experimento. O céu, um pequeno erro no sistema? Talvez  a cor do céu estivesse certa e a sua lembrança dela é que estava errada. A cor estava certa, o que ele lembrava dela é que era diferente?
De qualquer forma, estava impressionado com a própria inteligência. Ou, conforme ele mesmo pensou, com a inteligência que o criou. Enquanto analisava o resto da paisagem, considerou que talvez fosse impossível se chegar a uma conclusão. Se ele fosse parte de algum projeto, ele nunca poderia sair daquela “prisão”, para poder ver de fora, fazer uma análise da própria realidade. Como você mesmo pode dizer se você é real?
Enquanto continuava a caminhar, deu um pequeno descanso à mente.  Podia ser que alguma ideia, ou uma intuição, surgisse para esclarecer o impasse. Quando começou novamente a pensar quase se irritou com o óbvio. Havia outras possibilidades a considerar. Cono não pensara nisso antes? Claro que ainda não havia abandonado a ideia de ser apenas um elemento de uma realidade criada por alguém. Talvez por um cientista maluco.
Ele podia ser um clone. Talvez mantido em estado de hibernação por um longo tempo, até chegar a hora de precisar substituir sua “matriz” que talvez tenha morrido ou se acidentado de tal forma que não podia ser recuperada. Fizeram então a transferência de memória, sensações, tudo que sua “matriz” tinha. Na própria memória que havia sido transferida para seu corpo havia aquela ideia sobre clones, como funcionavam, como a sociedade científica estava usando essa “tecnologia”. Sim, era bem possível. E o “defeito” no céu? Algum problema na hora da transferência dos dados para o novo corpo. A realidade tinha de estar certa, o que estava errado era a percepção que ele tinha dela. Além disto, isto explicaria aquele tipo de “intuição” que ele às vezes tinha. Um clone certamente poderia ter intuição. Faz parte do que é um cérebro. Já na realidade virtual... Bom, depende, eles podem simular tudo, por que não uma “realidade virtual intuitiva”?
Definitivamente, as duas possibilidades, clonagem e realidade virtual, tinham chances iguais de serem corretas. Qualquer uma das ideias era viável.
Talvez fosse um personagem criado para participar desses moderníssimos jogos que haviam desenvolvido há algum tempo atrás. Os fabricantes  eram extremamente competitivos e havia boatos que estavam usando cérebros humanos, de corpos irrecuperáveis, para criar essas peças do jogo, numa interação dos neurônios humanos com os avançadíssimos equipamentos já desenvolvidos. Tudo para que os participantes virtuais dos jogos agissem como humanos, pensassem como tal, e, assim fossem realmente um páreo para os clientes cada vez mais exigentes.
Sim, poderia ser isso. Sua intuição, embora não totalmente, estava flertando com essa hipótese. Ficou até imaginando uma luta dele com algum participante. Talvez uma caça no deserto onde ele fosse a caça. Explicaria porque ele apareceu, ali, de repente, naquela região sequíssima. Olhou para o horizonte na expectativa de aparecer algum caçador com alguma arma. Tentou vislumbrar as chances  de escapar e vencer seu algoz. Depois pensou, para quê?  Se fosse verdade essa possibilidade de ser apenas uma peça num jogo, era melhor se entregar e acabar  de vez com a história. Mas talvez os seus “donos” o pusessem de volta no jogo, repetidamente... Não, não era uma boa ideia.
Ainda bem que essa possibilidade era remota. Tinha quase certeza de que havia outra explicação.
Raymond não entendia por que aquela ideia não havia lhe ocorrido antes. Certamente era a mais óbvia, a mais verossímel. Talvez seu subconsciente não lhe estivesse sequer permitindo considerar essa possibilidade: estaria ele dormindo? Por alguma razão estaria tendo um sonho induzido. Não poderia ser um sonho natural, ele podia sentir isso. Era extremamente vivo, e certamente teria sido criado artificialmente. Por que teriam feito isso? Talvez para curar uma doença mental? Ou curar um trauma terrível?  Teriam transferido uma memória “inventada” para substituir alguma outra experiência desastrosa da vida real? Se fosse isso, eles tinham realmente criado um software extraordinário. A sensação de realidade era quase perfeita. Talvez ele fosse um criminoso, um monstro, que precisasse de conserto. Estava ali, no nível mental, reaprendendo as regras sociais, uma maneira aceitável de viver. Isso explicaria aquela paz, aquela serenidade que ele sentia. Tudo estava sendo “plantado” em seu cérebro, durante o sono, para criar um novo homem, um novo ser social. Era bem possível, o homem sempre sonhara com uma sociedade perfeita, sem crimes, sem problemas. Talvez aquela fosse a solução. Ao invés de ser executado ou ir para a prisão para sempre, ele estava ali sendo consertado através do sonho, da implementação de uma nova  “história”, de uma nova “memória”. Quando voltasse, seria outro homem. Sem perigo para a sociedade.
Foi então que Raymond sentiu que alguém estava “mexendo” com ele. Até então, por mais estranha que fosse a situação, era só ele, o que era quase um consolo. Estava vivendo bem naquele mundo, sem se preocupar. E agora? Que tipo de interferência haveria? De qualquer forma, teria de enfrentar a situação. Resolveria a questão, acabaria a dúvida. Ele podia sentir as pessoas, mas não as via nem as ouvia. Estranho, porém compreensível. Mais uma prova, definitiva, de que ele não era simplemente uma pessoa, um ser humano normal. Sim, a essa altura isto já estava claro. Sob este novo ponto de vista, o que é normal? Talvez a realidade virtual pudesse ser mais “normal” do que as outras...
Estavam para fazer alguma coisa, podia sentir. As vibrações que vinham do cérebro daqueles dois mostrava uma certa excitação, como se estivessem para experimentar algo novo, algo que nem eles mesmo conheciam. É, ele tinha registro disso, essa “excitação” por criar coisas novas, por inventar. Certamente ele era objeto de um experimento. Isso estava claro. Já não estava mais no deserto. Estava em lugar nenhum agora. Era uma paisagem vazia, abstrata.
Na verdade havia dois especialistas conversando. Eles estiveram ali o tempo inteiro. Antes ele não os ouvia. Agora não só estava escutando a conversa, como também podia vê-los, mas não como se estivesse com eles, podia vê-los em sua mente. Ambos usavam um uniforme. Sim, lá estava no crachá:  ULTRALIFE.
Inteligente que era, Raymond imediatamente entendeu que era algum projeto com mentes humanas. Ele era um cérebro humano, ou o que havia dentro dele. Para dizer a verdade, esse cérebro, agora estava sem corpo. Isso ele podia garantir. Talvez isso explicasse por que ele via, sentia e ouvia as pessoas em sua cabeça, mas não diretamente.
-O que você acha, Dr. Stelth?
-Obviamente as coisas não funcionaram do jeito que queríamos. Está claro que há alguns problemas de transferência. A “realidade” do Raymond está com falhas.
-É, eu sei. Se pudéssemos fazer um novo upload, tudo ficaria bem. Mas o corpo deteriorou muito, agora não dá mais.
-Resumindo, temos só duas opções. Ou completamos o processo do jeito que está, com essas pequenas falhas de realidade virtual ou abandonamos o caso.
-Para ser bem honesto com você, acho melhor abandonarmos o caso.  Não é nossa falha o que aconteceu com o original. Por outro lado, se permitimos que Raymond saia por aí com um defeito desses, não vai ser bom para a a ULTRALIFE.
-Concordo totalmente!
-Ok, vamos fazer o processo de terminação para o corpo do Raymond. Quanto ao dados...
-Você quer guardar por um tempo ou simplemesmente deletamos tudo?
-É melhor deletar. Alguém da comissão pode querer examinar os dados e ter uma opinião diferente, só por motivos políticos, e nós vamos ficar o tempo todo com esse problema das falhas por aí... Você sabe, algum idiota é capaz de falar que foi culpa nossa e... enfim, é melhor garantir. Delete tudo e devolva o aparelho para o setor de equipamentos usados.
Foi aí que Raymond finalmente entendeu tudo. As coisas se encaixavam completamente. Não estava apavorado, mas não concordava com os doutores. Achava melhor guardar seus dados. Nunca se sabe. Claro, essa tal de ULTRALIFE deve ter seus protocolos. A realidade que ele sentia estava boa assim, nem precisava de corpo. Era só um probleminha com o firmamento. Ele nem ligava para isso. Quem precisa da cor exata do céu?
De repente Raymond sentiu que alguma coisa muito importante estava acontecendo. As coisas não estavam mais claras como antes, não conseguia raciocinar. Já não se lembrava mais da infância. Agora nem mais de seu nome se lembrava.
No monitor do Dr. Stelth, havia uma linha horizontal, igual essa dos hospitais, quando uma pessoa morre. No canto da tela, do lado direito, dizia: processo completo.
Foi assim que terminou a história do Raymond. Tudo por causa de um defeito no céu.