Monday, September 19, 2016

Breve história da mentira




Breve história da mentira

No começo, bem no começo, ninguém falava mentiras. Com o tempo, talvez por necessidade, alguns poucos começaram a falar meias verdades. Houve revolta, mas depois o povo se acostumou. Alguns até gostavam. Mas as pessoas mais responsáveis ainda ficavam furiosas com isso. Passou mais um tempo e alguns, mais ousados, passaram a falar mentiras inteiras. Tinham, porém, uma desculpa pronta para o caso de serem contestadas. Uma desculpa qualquer: foram enganadas, mentiram para elas também, etc. Eram ainda poucos. Passou mais um tempo e o número daqueles que falavam mentiras inteiras aumentou bastante. E então, não precisavam mais de desculpas. Mantinham a mentira como se ela fosse verdade. O Maluf é dessa época. Alguns até juravam, outros até choravam para garantir a legitimidade da mentira. Mais tempo se passou e alguns passaram a invocar Deus para legitimar a mentira.
Agora, a maior parte dos que mentem acha que, definitivamente, estão falando a verdade. Até se sentem mal quando, por descuido, falam alguma verdade.
Existem agora os magos das mentiras. Eles nunca falam a verdade. Quase todos acreditam neles e os que não acreditam, são chamados de mentirosos. Os jornais, a televisão, quase todos, discutem a mentira normalmente, como se ela fosse verdade. É o caso do Trump.

Quando a verdade voltar, não sei o que será de nós. Acho que não vamos mais reconhecê-la.

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Saturday, September 17, 2016

A Lucy caiu da árvore



A Lucy caiu da árvore

A Lucy caiu da árvore e não me pergunte o que ela estava fazendo lá em cima. Coitada, quebrou vários ossos, sofreu feridas internas e acabou morrendo. Esta é a palavra dos especialistas.
Para quem não conhece a distinta senhora, ela é uma Australopithecus afarensis e viveu há mais de 3,18 milhões de anos. A querida Lucy não é nada mais, nada menos, do que uma de nossas antepassadas, e bota “ante” nisso aí. A respeito do que ela estava fazendo por ocasião do terrível acidente, minha primeira hipótese é de que ela estava verificando a extensa paisagem para ter certeza de que nenhum predador estava chegando. Muito nobre, cuidando de seus filhos. Talvez, também bastante nobre, estivesse colhendo frutos para poder propiciar uma dieta saudável para a família.
Alguns duvidam desta teoria - de que ela caiu da árvore - e dizem ser impossível fazer esta afirmação. Eu, porém, acredito nos cientistas. Sempre gostei deles e acho que, quando falam alguma coisa, baseiam-se em bastante pesquisa. É claro que, por outro lado, pode-se dizer que é uma afirmação audaciosa. Não queria fazer trocadilhos, mas “macacos me mordam”, esses especialistas vão mesmo a fundo nas pesquisas. Por outro lado, aqui também se aplica a expressão “cada macaco no seu galho”. Os cientistas fazem ciência e nós, pobres cronistas, apenas escrevemos histórias.
No fundo mesmo, o que me preocupa é que existem pobres coitados que acabaram de morrer e ninguém sabe qual foi o motivo. Na verdade, ninguém ficou sequer sabendo que eles morreram. Dependendo do local, mesmo sem ser cientista, eu diria que foi por causa de uma bala perdida ou de uma briga.
A Lucy não tinha celular, nem Facebook, nada disso. A danadinha, no entanto, conseguiu, mais de 3 milhões de anos depois, ter mais cliques na Internet que muita “Kardashian” por aí...


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Friday, September 16, 2016

Uma efêmera eternidade

Uma efêmera eternidade


Lembro-me muito bem. Éramos crianças, eu e meus primos ficávamos correndo pelos cômodos do velho casarão, fazendo bagunça. Lembro-me da minha avó e meus tios nos xingando familiarmente com aqueles doces “palavrões” italianos: “porca la pipa, “bruta bestia” e outros tantos. Lembro-me também de meu pai visitando meus tios e meu avô. Eram caras amigas, que inspiravam confiança. Agora sei que, por parte da minha mãe, veio toda aquela gente da Itália, atravessando o mar como “colombos” e “cabrais”. Sei que muitas coisas - algumas inacreditáveis - precisaram acontecer para eles se encontrarem, e finalmente podermos nascer.
Fico, por outro lado,  imaginando os netos dos netos de nossos netos e o incrível mundo em que vão viver daqui a 200, 300 anos. Juntando tudo isso, eu me sinto, de certa forma, eterno, apesar da vida curta que temos
Uma estonteante, paradoxal, efêmera eternidade.


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Thursday, September 15, 2016

O último raio de sol

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O último raio de sol

Estava fazendo um ano desde que as intempéries finalmente haviam cessado e a face da Terra se estabilizado. Era uma estranha era de sombras e cinzas. Vinha um calor do espaço, mas muito raramente se via a luz do sol. Três quartos das espécies vegetais e animais haviam sumido completamente. Havia o perigo de que alguns animais, depois de terem sobrevivido, tentassem atacar os humanos em busca de aliemento. Das espécies vegetais que tinham sobrado, muitas estavam imprestáveis e haviam se tornado tóxicas. Apenas um oitavo da espécie humana tinha resistido à brutal experiência e vagava em partes dispersas do mundo, tentando sobreviver. O perigo estava em toda a parte.
Doze grandes meteoros haviam atingido a Terra, causando um total desequilíbrio por toda a parte. Tsunamis de proporções inconcebíveis, chuvas tóxicas e poeira contaminada haviam devastado tudo. Incêndios bárbaros tinham consumido a maior parte das matas. Uma densa camada cinza, formando uma imensa nuvem escura, cobria toda a paisagem. Humanos, agora quase animais, moravam nos restos das poucas  moradias que haviam sobrado. Migravam o tempo todo em busca de alimentos e de um meio ambiente melhor.
O nascimento de Tales, quase 8 meses após o “apocalipse” foi praticamente um milagre. Os casos de mulheres grávidas que conseguiram manter seus filhos no ventre durante os primeiros meses após o “evento” eram raríssimos. Evandro e Raíssa, os pais, nem acreditavam quando ele nasceu praticamente perfeito, apenas desnutrido e mirrado. O leite da mãe foi fundamental para sua sobrevivência.
Tinham finalmente conseguido um bom lugar para ficar. Uma espécie de condomínio, não muito longe do mar. Na verdade, moravam no pouco que tinha restado. Era um lugar alto, não tinha sido atingido pela massiva invasão das águas do mar. As praias, que antes estavam a cerca de quarenta quilômetros, agora tinham desaparecido. A água estava ali perto, a menos de 700 metros, interrrompida apenas pelas colinas. Havia pouca gente que tinha descoberto aquela região para morar e a situação estava tranquila agora. Tinham conseguido  separar algumas mudas de planta para cultivar. Cada três ou quatro dias, um sol fraco e tímido ousava se espalhar sobre a paisagem. E, muito importante, havia água potável.
Os três, os pais e a criança, passavam muito tempo juntos. Havia muita conversa. Embora Tales fosse muito pequeno para entender, os pais contavam muitas histórias de antes do evento. Lá no fundo, repetiam as coisas mais para si mesmos, para não se esquecerem do tempo maravilhoso que tinha havido antes e para o qual, na época, não davam valor nenhum. Na verdade, quem mais falava era o Evandro. E do que mais falava era do pôr de sol  e das lindas alvoradas. Ele sempre gostara de olhar para o horizonte no nascer e no final do dia. Tinha saudades.  Agora quase só havia o cinza do dia e o escuro da noite.
Às vezes parecia até que ele estava sonhando ou delirando. Falava do tom laranja, rosa, cor de ouro, das nuvens banhadas pelo sol que se punha. Falava dos raios solares, rebeldes, escapando por entre as nuvens, rasgando o céu, reverberando no espaço. Era como se Deus pintasse um novo e maravilhoso quadro todos os dias. As manhãs eram parecidas, mas tinham cores mais fortes, mais brilhantes. Falava dos filamentos de ouro no céu, desenhados pelos aviões por causa da diferença de temperatura e do banho que tomavam da luz solar. Aquilo era um sonho, um brinde da natureza. Agora não havia mais nada, nem mesmo os aviões. Tudo estava, porém, em suas lembranças e dentro de suas almas.
Por algum motivo, Raíssa não gostava de quando ele se empolgava com a descrição. Talvez achasse que aquilo era dar falsa esperança para o pequeno Tales, de que um dia, aqueles lindos quadros, pintados por Deus, pudessem voltar. Talvez achasse que era mais sadio se conformar com a nova situação. Talvez achasse que aquilo fosse doentio, uma maneira insana de enfrentar este novo e triste mundo, esta nova realidade.
Evandro, entretanto, conhecia bem sua mulher. Sabia que ela nunca fora de perder tempo em olhar essas cores maravilhosas da natureza. Com certeza, ela nunca tinha notado essas mudanças no céu, que ficava salpicado de dourado e de tons róseos. Ela tinha passado a vida de antes do “evento” sempre ocupada com outras coisas, sem ligar para a natureza. Agora tinha raiva do que o marido sentia, das lembranças que ele podia ter.
Dentro de seu coração, Evandro sabia, ela tinha inveja das suas recordações. O seu cérebro era o único lugar onde agora havia o dourado e inesquecível equilíbrio de tons e brilhos do poente e do nascente. E Evandro estava determinado a jamais deixar um só raio, sequer, desaparecer de sua memória. Por isso contava e recontava cada espasmo de luz que tinha visto, através dos dias, das horas e dos minutos...


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Wednesday, September 14, 2016

As estações do amor



As estações do amor

(um poeminha de amor para quem tem cabelos brancos)

Passado o verão, o
outono vai chegar.
As folhas vão cair,
e o que era verde
outros tons vai assumir.
E nossas tristes almas,
juntas, vão se consolar.
Vamos nos aconchegar,
e com muito mais força,
tuas mãos vou segurar, 
E no duro inverno,
mais juntos ainda,
nós queremos ficar.
Como a vida passa,
também passam as estações.
Finalmente, a primavera,
sua beleza reitera,
e, feliz,  graciosa,
também quer voltar.
Então, nós dois, felizes,
velhinhos e sorridentes, 
em meio a muita flor,
com ímpeto e força,
uma vez mais, com ardor,
vamos nos apaixonar.


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Tuesday, September 13, 2016

A delação




A delação

Depois de “azular” por mais de oito horas, a Azul me levou até o desejado destino: Viracopos. Essa parte foi fácil. Difícil foi conseguir as malas de volta. Acho que elas são como nossas coisas na Internet. Depois de um voo desses, elas ficam na “cloud” e daí não querem mais voltar. A primeira chegou depois de uma hora e vinte minutos. A segunda levou ainda mais 37 minutos. Tudo bem. Tudo é festa quando você está visitando sua terra natal.
Coloquei as duas no carrinho e me coloquei na fila da alfândega. Antes disso, precisei me desviar de inúmeros garotos que corriam como doidos em volta das esteiras. Era como se ainda estivessem no Reino Mágico.
Estava chegando a minha vez. À minha frente estava um simpático casal de provavelmente 35 – 40 anos com seus filhos. Uma garota de uns quinze e um garoto de cerca de 9 anos. O respeitável senhor fiscal, com aquele poderoso distintivo da Polícia Federal, fazia perguntas e depois indicava para onde o indefeso viajante deveria ir.
Quando chegou a vez do casal, ele perguntou:
-Eletrônicos? Mais de 500 dólares?
Apesar da enorme quantidade de malas e pacotes – malas enormes – a dona da casa assumiu o controle da situação e falou:
-Não senhor. Apenas algumas roupas e uns presentinhos.
Ela ia continuar, mas o garoto, que depois fiquei sabendo que se chamava Rodolfo, interveio:
-Mamãe, a senhora se esqueceu do computador de 550 dólares que o papai comprou! E também do celular desbloqueado de 480 dólares.
A progenitora tentou desesperadamente conter a delação do filho amado, puxando-o para trás de si, mas o estrago já estava feito. O fiscal já apontava a sala de torturas. Aquele lugar onde eles esquartejam nossas malas, devassam nossas compras, entram na intimidade de nossas vidas.
Eu realmente não tinha nada para declarar, mas ele nem sequer perguntou. Mandou-me embora, livre de qualquer exame. Enquanto saía, a mãe, contrariada, arrastava o Rodolfo para a temida sala, mas ele continuava olhando para trás e gritando para o oficial o resto da lista:
-...o perfume de 85 dólares para o chefe do papai, o relógio Casio do tio Alfredo, o tablet da Marisa, etc. etc. Uma lista interminável que estava pela metade, quando finalmente eles desapareceram na sala do terror.

Como diz meu amigo Nino Belvicino, “criança é fogo!”...

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Friday, September 9, 2016

A alegria de um barco voltando



A alegria de um barco voltando

Do que você se lembra quando ouve Dolores Duran cantando “A Noite Do Meu Bem”? Provavelmente, nada. Não é de sua época, não é mesmo? Mas algumas pessoas, como eu, lembram-se  de muitas coisas e cada um se lembra das suas.
Eu me lembro, primeiramente, da velha casa no Morro do Cartório e minha mãe limpando os cômodos. Uma panela, no fogão, cozinhando o feijão. Eu me lembro do velho rádio de caixa de madeira, ligado, e alegrando, paradoxalmente, aquela manhã triste e perdida no passado. Eu me lembro da minha rua, dos meus amigos, garotos, e dos vizinhos. Sei que havia casas se espalhando, raras, pelo morro acima. Das árvores com frutas, da mata onde brincávamos – insuspeita e sem perigos – que se estendia até Caieiras. Da igreja São Jorge, com suas quermesses. Da Dona Josefina, do “seu” Nélson, do maestro Pedro Salgado, da Dona Celeste: a casa na curva da nossa rua...
Eu não conhecia, entretanto, o amor e poesia que havia na canção. Não entendia, ainda, a tristeza de um amor que “demorou a voltar”. Muito menos sabia, ainda, que, mais tarde, ali perto, um pouco mais acima, muita história iria ser contada. A história dos mortos do Cemitério Dom Bosco. Dos corpos, indefinidos e desconhecidos, assassinados pelo ódio de carrascos. Lá jogados como se nada fossem. Não sabia, que se andasse mais um pouco e atravessasse a fronteira da cidade, poderia conhecer, com antecedência, a mulher que um dia eu iria amar.
Existiam coisas que seria bom ter sabido, outras não. Por isso é que, ouvindo na música, o verso “a alegria de um barco voltando”, fico pensando... Às vezes é bom voltar, outras vezes é melhor só olhar para trás e suspirar...



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