Tuesday, June 13, 2017

Um minúsculo grão




Um minúsculo grão

O fulano estava com uma raiva incontida, ódio mesmo, do beltrano. O sicrano tinha lhe contado  como o beltrano o considerava - em suas próprias palavras - um ser insignificante, besta, simplório. O fulano queria matar o beltrano por expressar tais ofensas, e até mesmo o sicrano, só de lhe contar.

Como era tarde da noite, deixou para o dia seguinte a confrontação. Eles iriam ver só o que era bom para a tosse. Antes de dormir, deu uma olhada para o céu. E viu aquela imensidão de estrelas, galáxias e sei lá mais o quê. E ele já tinha lido que o nosso mundo é apenas um grãozinho de areia, pairando, perdido na vastidão do cosmos. Pensou consigo: ele mesmo era um outro grãozinho dentro do grãozinho. E o beltrano e o sicrano eram grãozinhos menores que ele ainda. Deu um suspiro e decidiu deixar tudo como estava. Não seria algo ridículo três minúsculos grãos se debatendo, dentro de um outro grão, num ponto perdido da vasta paisagem do Universo?

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Sunday, June 11, 2017

O oposto do oposto


O oposto do oposto

Estamos sempre reclamando que nós, brasileiros, não gostamos de regras, da ordem, da lei. Que quase todo mundo “dá um jeito” de passar por cima dela, coitada. Reclamamos também das consequências disso. Percebemos que nós mesmos somos os mais prejudicados. E, por não haver outro jeito, pelo fato de isso ser quase o normal, mesmo quem não gosta de ser assim, precisa fazê-lo. É a estrutura.
Os americanos gostam de seguir as normas. Quem não gosta, geralmente já vai com tudo para o outro lado, para o extremo. E novas regras estão sempre surgindo. E, às vezes, elas produzem estranhos eventos.
Aconteceu na cidade de Fort Lauderdale, na Flórida. Aliás, muita coisa acontece na Flórida, que não é feita só de Mickey Mouse e lindas fadas e princesas. Os legisladores estabeleceram uma regra que visava manter a cidade limpa, bonita. Proibiram os cidadãos de alimentar pessoas sem-teto na cidade. Talvez fosse uma cena deprimente, não sei.
Dwayne Black, Mark Sims, pastores, e mais Arnold Abbott, de 90 anos, resolveram “burlar” as normas. Abbot, que, apesar da idade, sempre vai ao socorro dos necessitados, estendeu um prato de comida para um mendigo. O policial imediatamente ordenou que ele soltasse o prato, como se fosse uma arma. A penalidade para a infração é de 500 dólares mais 60 dias de prisão. Abbot vai tentar ganhar esse direito- o de alimentar os famintos- no tribunal.
E assim temos, excesso de norma, perfeita aplicação da lei, por mais cruel que seja. Nós, por outro lado...
Difícil de entender. É o oposto do oposto.



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Essa vida da gente

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Friday, June 9, 2017

Lágrimas Roubadas

Lágrimas Roubadas

O brasileiro não é conhecido pelo patriotismo ou coisas afins. Muitas vezes olha os fatos que estão acontecendo na própria terra como se fosse uma coisa distante, alheia, estrangeira. Talvez  os historiadores ou os psicólogos de massas tenham uma boa explicação para isso. No entanto, não deixa de ser triste. Por isso é que chamou muita atenção o que aconteceu em 16 de abril de 1984 na Cidade de São Paulo. Um milhão e meio de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú para exigir a volta da democracia - coitada, tão sofrida- e das Diretas Já. Eu estava lá. O que aconteceu naquele dia, tenho certeza, foi coisa única na história do Brasil. Foi a nossa maior manifestação política em todos os tempos. Entretanto, não foi isso que chamou mais a atenção, não foi isso o mais importante. O que fez desse momento um evento único foram as lágrimas. As pessoas choraram. Todos choravam: os velhos, os adultos, as crianças, os jovens. Ninguém procurava esconder. Lágrimas sinceras, puras, limpas. Nunca o povo amou tanto a sua pátria como naquelas horas. O hino nacional era cantado com uma força que eu jamais havia visto antes. Patriotismo como aquele nunca houve antes nem depois. Naquele momento faríamos qualquer coisa pela pátria.
Conseguimos algumas coisas. As eleições diretas foram indiretas, mas mesmo assim conseguimos eleger o nosso Tancredo, que por uma manobra inexplicável de Deus – ele sabe o que faz – acabou morrendo antes de governar. Mais triste que a morte prematura de nosso herói foi o que fizeram com nossas lágrimas. Alguns aventureiros, políticos maliciosos e traidores, as roubaram . Com elas construíram uma democracia falsa, cheia de malabarismos, onde os espertos se aproveitam do esforço de todos. Insensíveis, usaram nossas lágrimas sinceras e sua força para fazerem as mudanças que não eram as nossas. Era o que precisavam para tomar o poder. Usaram a força de nosso choro para criar um reino de corrupção, malícia, favoritismo e tudo aquilo que se pode ver nos jornais. Coitado do nosso povo. Nossas lágrimas foram em vão. Roubaram nossas lágrimas.



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Tuesday, June 6, 2017

Os sonhos do meu sono


Os sonhos do meu sono

Pela manhã, acordo,
junto todos meus sonhos,
e começo o dia.
Com o passar das horas,
as lidas da dura vida,
para meu desespero,
vão destruindo um a um.
À noite, tão cansado,
meu corpo então morre
para a realidade,
Mas minha alma, ativa,
fiel, laboriosa,
durante todo sono,
novos sonhos constrói.
São frescos novos sonhos,
para então, eu poder,
na seguinte manhã,
com eles, tão feliz,
novos sonhos sonhar...

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Sunday, June 4, 2017

As criaturas


As criaturas

Estão matando os monstros que aparecem. Eles são muitos, porém, e continuam a aparecer. Não se sabe de onde vêm. São heróis reversos, de causas sem sentido, de razões sem razão. O homem, perplexo, agora já tem medo de seu próprio reflexo. Reflete, busca causas e motivos. Sua lógica, entretanto, não é a mesma. São referências diversas que se desencontram e se afastam. Para cada demônio morto, outros, multiplicados, vão surgindo, mais ferozes. Às vezes fingem brigar entre si para nos distrair. Outras vezes se juntam em trágica aliança, para nosso desespero.
Às vezes, acho que sei quem criou estas nefastas criaturas, outras vezes, acho que não. Penso que sempre existiram, escondidas, e que só agora estão se mostrando. Depois penso que são novos demônios, vindos do futuro para nos assustar. Outras criaturas monstruosas já existiram, mas foram embora. Penso que estas também irão um dia. Talvez elas nunca se foram e essas são as filhas, ferozes, bastardas, daquelas que já morreram. 
Tudo isso não importa. Precisamos encontrar os anjos guerreiros. Fortes, valentes. Nós, sozinhos, não podemos vencer.
Mas onde estão os anjos? Meu Deus, eles estavam aqui agora há pouco e já não sei mais onde eles estão.


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Paralelo 38 e outras histórias
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Tuesday, May 23, 2017

Paralelos de mim

Paralelos de mim



Físicos teóricos já se pronunciaram há algum tempo sobre a possibilidade da existência de mundos paralelos. Não como fantasia literária, não. Tudo baseado em fórmulas matemáticas, coisa de louco. Versões de nós mesmos, semelhantes, com destinos parecidos, milhares delas.
Fico imaginando um “eu” melhor em algum desses universos. Mais inteligente, mais humano, mais dedicado, mais herói. Mais tudo que é de bom. Com um pouco mais de sorte também. Um “eu” com menos erros cometidos, pois sem erro nenhum, não há em em nenhuma versão. Um “eu” com mais amigos e menos inimigos, pois sem inimigo nenhum, não creio que haja, não. Um outro “eu” que consiga fazer muito mais coisas boas que esse “eu” daqui.
Apesar de estar em um mundo paralelo, um “eu”  sem paralelo, de tanto ser bom. Se isso for possível, entretanto, eu imponho uma condição. Todas as pessoas que eu amo, têm que ter uma versão lá também, porque esse “eu”daqui não é de deixar amigo na mão.

Talvez isso crie um “paradoxo quântico”. Que seja!  Tudo que vemos por aqui já não é um paradoxo infernal?

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Sunday, May 21, 2017

Eu vejo as folhas caírem das árvores


Eu vejo as folhas caírem das árvores

Eu vejo as folhas caírem das árvores. Eu vejo o vento levá-las embora. Algumas caem rapidamente, outras rodopiam no ar. Há aquelas que balançam suavemente, para cá e para lá, antes de tocarem o chão. As estações vão e vêm, e chega a hora de novas folhas nascerem. Verdes, bonitas, graciosas.

Nossa vida também é assim. Uns vão, outros vêm. Alguns vão embora cheios de dor. Outros vão leves, como plumas que descem pelo ar. Desconfio, porém, que por onde as folhas da vida passam, elas deixam um rastro. Uma espécie de sinal. Talvez algumas deixem ódio e ressentimento. Talvez remorso. Mas o que fica mesmo, são os traços de amor. Traços suaves que, ao desfalecerem, as folhas deixam no ar. 



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