Friday, November 28, 2014

Um lugar chamado "Muitoalém"



Um lugar chamado "Muitoalém"
Batendo o pé, emburrado, o moleque saiu de casa como se fosse embora. Parou, porém, e sentou-se na calçada. Era um mundo muito injusto. Só levava bronca. Nem tinha lição de casa, mas mesmo assim levou uns gritos porque estava brincando. As lágrimas, grossas, rolavam pelo rosto. Levou um susto quando alguém puxou conversa:
-Vida dura, hein, campeão?
Ele não respondeu para o interlocutor, um homem de cerca de 30 anos, magro, alto e que estava ali, bem na sua frente, com uma mochila nas costas. Não parecia um doutor mas também não levava jeito de mendigo. Ele insistiu:
-Ei, campeão, posso tomar um pouco de água ali na sua torneira?
Ainda soluçando, o menino fez que sim com a cabeça.
Após tomar uns goles, o estranho aproximou-se e agachou-se a seu lado:
-E aí, me conta, o que aconteceu? Por que você está chorando?
Aos soluços, ele explicou que sua mãe tinha tirado seu brinquedo e disse que ele tinha de fazer a lição, mas ele não tinha lição para fazer. Ele explicou, mas mesmo assim, levou um tapa no bumbum.
-É assim mesmo, gente adulta não consegue entender o que as crianças explicam. Existem coisas que eles não conseguem entender mesmo. Mas existe um lugar onde tudo é diferente, onde não há bronca, nem lição de casa não existe.
Diante do olhar interessado do garoto, que agora já soluçava bem menos, o rapaz continuou:
-Imagine só, nesse lugar que te falei, é tudo diferente. Diferente mesmo. Lá os adultos nunca dão bronca. Para dizer a verdade, as crianças e os adultos são uma coisa só. Todos são crianças e todos são adultos. Como eles vão ralhar um com o outro? Não dá...E tem mais...
Fez uma pausa para ver se o pequeno ouvinte ainda estava interessado e continuou:
-Sabe quantos dias tem a semana lá? São dez dias ao invés de sete. E você vai à escola só em três. Os outros sete são só para brincar e conhecer novos amigos. Claro, não tem lição de casa. Os nomes dos dias são todos diferentes. Um deles se chama “Felicidade”, o outro, “Alegria”, e assim por diante...Nada de segunda ou terça.
O menino estava com os olhos bem abertos e parecia acreditar na história.
-Mas o mais bonito de tudo é à noite. Você não vai acreditar. Tem duas luas no céu. Uma é igual à nossa e a outra...está pronto para o que vou contar?
O menino abriu uns olhos enormes, cheios de luz, e balançou a cabeça.
-A outra lua é três vezes maior e é azul. Um azul bonito, forte. E essa luz azul ilumina todas as coisas e tudo fica mais bonito. E é por isso que as crianças podem dormir mais tarde. Para poder ver as duas lá no céu. Às vezes elas ficam bem perto uma da outra. E aí é mais bonito ainda. Sabe por quê? Porque, daí, a luz azul da grande ilumina a outra lua e as duas ficam azuis. Você precisa ver...
- Eu sei que você quer saber o nome desse lugar. Ele se chama “Muitoalém”. E toda vez que você estiver triste ou tiver um problema, você de tem que fechar os olhos e pensar no “Muitoalém”. Pense na grande  “Lua Azul”, espere um pouco e, quando você abrir os olhos, o problema se foi. Promete que vai fazer isso?
O garoto fez que sim. O rapaz passou a mão pela sua cabeça e partiu fazendo um gesto de “adeus”.
Ele nunca mais se esqueceu da história.

Agora ele já tem cinquenta anos, é casado e tem filhos. Mesmo assim, quando existe algo atrapalhado em sua vida, para, senta-se em algum lugar, fecha os olhos e pensa em “Muitoalém”. Daí ele vê aquela imensa Lua Azul... Acaba sempre ficando bem calmo e achando uma solução. Uma solução muito além do convencional, do comum, do ordinário...

ooooOOO0OOOoooo


Essa vida da gente

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